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ANSIEDADE

Há um tempo em que precisamos abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, a margem de nós mesmos.

Fernando Pessoa

A ansiedade é considerada o grande mal da humanidade nos dias atuais, e penso ser importante refletirmos sobre ela.

Para começar, é importante ressaltar que a ansiedade é necessária para vivermos bem, mas como tudo, precisa estar na medida certa. Ansiedade significa MEDO e ela pode ser simplificadamente definida como todo e qualquer medo relacionado ao futuro, estando diretamente ligada ao nosso sistema de sobrevivência. Ninguém que se tenha notícia ficou ansioso em relação ao passado.

Quando, por exemplo, alguém lhe oferece algo para comer que não faz parte dos seus registros anteriores, a ansiedade é que faz com que você olhe com cara de desconfiado, cheire, apalpe antes de tomar a decisão de por isso na boca. Na hora de atravessar a rua é a ansiedade ou, nesse caso, o medo de ser atropelado que indica que olhar para os lados pode salvar sua vida. E assim poderia dar uma infinidade de exemplos. A ansiedade em grau elevado e descontrolado provoca o que conhecemos como síndrome do pânico*, que nada mais é do que o medo em altíssimo grau, com sintomas físicos que trazem a clara sensação para a pessoa que passa por isso de que ela irá morrer. Isso faz com que se tenha medo de tudo, de sair de casa, de ir a lugares com muitas pessoas, ambientes fechados, etc.

Nunca é demais lembrar que a ansiedade (sempre ligada ao futuro) e a culpa (ligada ao passado) fazem parte  de um processo de defesa que não tem nenhuma preocupação com a qualidade da vida que levamos. Buscam, pura e simplesmente, nos manter vivos, mesmo que seja fechado dentro de casa. Todo o medo de fazer mudanças, seja do que for, é um processo ansioso, já que esse medo estará sempre presente quando alguma situação nova, que me trará experiências e modo de ser e viver inéditos até então estiver por ocorrer. E é justamente a ansiedade a culpada por criarmos uma série de rotinas em nossa vida, desde sentarmos sempre no mesmo lugar na mesa, repetirmos trajetos, e tudo que fazemos de forma mecânica, já que isso traz uma sensação de segurança, de conhecido, o que diminui o risco de que algo fora do controle me aconteça. Aquele “frio” na barriga durante a espera por uma resposta, a um encontro, uma entrevista ou a como será determinada situação é simplesmente o medo de que tudo dê errado. Daí para se “preparar” e não ser pego de surpresa, você já começa a viver a situação de forma negativa, ou seja, já sofro pelo que ainda não aconteceu como se já tivesse acontecido. É ou não uma loucura?

Fica fácil de entender então que a resistência às mudanças nada mais é do que um simples aviso de que algo que não tenho como saber como será está por acontecer e meu sistema de segurança entra em alerta. Nessa hora nossa mente começa com uma série de argumentos nos justificando que devemos permanecer no conhecido, que tudo pode dar errado, piorar, etc. Portanto é importante entender a ansiedade como um simples processo do corpo, que está com medo de algo que não conhece, só isso!

Por outro lado, como já escrevemos muitas vezes em artigos anteriores, o processo da vida caracteriza-se por constantes mudanças que são sempre novidade. Dessa forma, poderemos entender a ansiedade da seguinte forma: meu corpo não quer mudanças, meu espírito precisa delas, e você (consciência) precisa decidir quem manda.

Assim como a culpa está ligada ao já vivido, e a ansiedade ao que está por vir, ambos não existem e poderemos até dizer metaforicamente que são alucinações que nos acompanham a cada momento. Use sua racionalidade para lidar com a ansiedade, perceba que precisamos tomar decisões, escolher caminhos e aceitar as mudanças. Deixe esse medo sem sentido de lado lembrando que ele apenas faz parte da nossa parte “bicho”, mas não combina muito com a outra parte, humana!

Em relação ao movimento orgânico, todo nosso metabolismo está ligado somente ao que estivermos imaginando, assim sempre que você estiver “alucinando” com a sua ansiedade, imaginando que nada dará certo, que o futuro é de fome e miséria, que a doença na velhice é certa e que todas as pessoas que você ama morrerão, para seu corpo tudo está acontecendo verdadeiramente. Nessa hora o coração acelera, o estômago e intestinos trancam e sua respiração fica totalmente alterada, ou seja, o sofrimento do que imagino torna-se físico!

E como é a cultura em que vivemos?

Toda baseada no medo! Estudamos e buscamos trabalho, relacionamentos, escolhemos quase tudo baseado nesse sentimento. É cada vez mais perceptível, por exemplo, a busca por profissões ligadas a produção e capital, já que assim é bem provável que não passaremos necessidades, já que o salário desse ramo é “certo” e nunca faltará comida em nossa mesa… Se você estará feliz ou não isso é secundário! Muitas vezes precisamos sofrer muito para percebermos que isso não basta, que precisamos buscar fazer algo que tenha a ver com o que realmente somos. Nada como um bom sofrimento para enfrentarmos nossos medos. Pessoas que não tem muito medo, que são despreocupadas demais são consideradas irresponsáveis e pouco “sérias”. Isso quer significar, que se você não demonstrar medo, algo estará errado.

A vida, do jeito que aprendemos a viver, vai elevando nosso nível de ansiedade por todos os lados. A mídia nos “ensina” que se não tivermos determinadas coisas seremos considerados derrotados, incompetentes e fracos. Assim, temos medo de perder o respeito dos outros e estamos cada vez mais ansiosos para cumprir as normas de sucesso impostas, assim trabalhamos demais, corremos demais. A doença é uma questão de tempo. Lembre que seu espírito ou alma não adoece, mas o corpo sim!

A ansiedade na medida certa tem sua importância, já que também pode ser vista como um combustível para atingirmos nossos objetivos e nos sentirmos adequados, mas deve ser entendida e mantida sob controle. Ansiedade de menos é irresponsabilidade, descuido e riscos desnecessários, em demasia é paralisia, involução e sofrimento. É como um copo que deve ser mantido pela metade de sua capacidade, sempre. Quando cheio, uma simples gota o faz transbordar e chega a crise ansiosa.

O medo é um bom empregado, só isso! Ouça o que ele tem a dizer, mas nunca perca a consciência da sua limitação e que ele quer apenas que você se mantenha vivo, se mal ou bem não faz parte de suas atribuições. Isso cabe a você, que, como o grande diretor de sua vida deve decidir escolhendo conscientemente seu caminho. É seu conselheiro pessimista, então, não esqueça de ouvir o que o otimista tem a lhe dizer.

*A síndrome do pânico será tema de artigo específico, tendo o presente texto como pré-requisito para o entendimento.

Zen Budismo

Um discípulo procurou  Bodhidharma e disse:

– Eu não tenho paz de espírito. Poderia lhe pedir, Senhor, que pacificasse minha mente?

– Ponha sua mente aqui na minha frente – replicou Bodhidharma – Eu a pacificarei!

– Mas é impossível que eu faça isso!

– Então já pacifiquei sua mente!

                                                                                                                                                              

O Zen é completamente diferente de qualquer outra forma de budismo e mesmo de qualquer religião. Isso tem provocado muita curiosidade nas pessoas e despertado um interesse cada vez maior. Ele é indicado para todos aqueles que estão cansados de religiões e filosofias convencionais, basicamente porque dispensa todas as teorias, instruções doutrinárias e qualquer formalidade. Nessa hora, para nós acidentais, fica difícil pensar que algo assim possa ser uma religião, afinal, o que aprendemos é exatamente o oposto. Enquanto as religiões em geral fazem uma descrição emocional ou intelectual de seus ensinamentos, o Zen é fundamentalmente prático, estritamente ligado à realidade, sendo considerado complexo, justamente pela sua simplicidade.

Como diz Allan Watts “Antes de tudo, os credos, dogmas e sistemas filosóficos não passam de ideias a cerca da verdade, da mesma maneira que as palavras não são fatos, mas descrevem algo sobre os fatos. Já o Zen é uma vigorosa tentativa para entrar em contato direto com a verdade sem permitir que teorias e símbolos se interponham entre o conhecedor e conhecido”.

Concordo, afinal a busca do Religare, quando acompanhada de toda essa parafernália ritualística, simbólica e comportamental, leva a darmos voltas sem fim, quase sem sair do lugar. Vejo a busca como pessoal, fundamentada na prática e, é claro, sem intermediários e uma infinidade de pré condições.

O objetivo da escola Zen é ir além das palavras e ideias afim de que a busca interior de Buda possa ser acessível aos demais “mortais”. Não existe nada de excepcional, pois o Zen consiste apenas em uma atitude mental que é aplicada de igual forma a, por exemplo, varrer uma casa ou como a prática rígida de qualquer ritual religioso. Esse tipo de atitude também foi tratada em artigo anterior com o título de “O Sofrimento”.

 Cabe lembrar que sofrimento existe pelo anseio que temos de possuir e manter para sempre coisas que em essência são impermanentes. Essa busca é uma maneira errônea de viver, afinal ela está contra o princípio da vida que é baseado justamente nas mudanças constantes.

De outra parte, o lado criativo de nossa mente é a nossa imaginação e é justamente ela que nos cria essa alucinação da separatividade, nossa ignorância mais essencial. Jung já defendeu a ideia de uma “mente universal” quando definiu o inconsciente  coletivo. O que acontece é que nós projetamos nossa própria ignorância no mundo exterior e o definimos e julgamos baseados nisso. Uma escritura Mahayana mostra isso com clareza quando diz: “As atividades da mente não tem limite e formam o ambiente da vida. Uma mente impura se envolve com coisas impuras e vice versa. Portanto o ambiente que criamos tem os mesmos limites das atividades da mente…Assim, o munda da vida e da morte é criado pela mente, está escravizado pela mente, é regido pela mente. A mente é a mestra de cada situação.”

Explica-se assim com facilidade que as Escolas orientais busquem esse estado que ultrapassa as barreiras da mente para encontrar a dita “iluminação” que nada mais é do que um estado de unidade com o todo, isento de todo e qualquer sofrimento, onde não existe mais o caos do aspecto mental ligado ao que “passa”, mas ao eterno, ligado ao que “é”. O homem comum que sofre o tempo todo olha para o mundo exterior para buscar sua felicidade (salvação), já que aprendeu que está nas formas materiais sua saída para a ansiedade e angústia. Tomara que chegue a hora em que ele perceba que não pode encontrar no exterior aquilo que está no seu interior, e que para chegar lá precisa suplantar a visão separada e desconexa da mente.

O Zen deixa de lado todas as definições e conceitos intelectuais e especulações de toda ordem, buscando sacudir seus adeptos de seus hábitos e crenças arraigados por gerações e de forma simples sair desse estado comprovadamente entorpecido e doentio. Tudo isso baseado na simples forma de sentar-se em meditação sem nenhum objetivo a não ser estar ali, e tomando uma consciência cada vez mais ampliada de cada movimento. Já sabemos que todo o sofrimento é alucinatório porque sempre se fundamenta em pensamentos ligados ao inexistente passado e inexistente futuro, numa roda de preocupações e lamentações sem fim. Estar aqui e agora inteiro de corpo e percepção é o fim da agonia. Uma de suas técnicas mais poderosas é o Koan que nada mais é do que do que um “problema” que é dado ao discípulo para resolver enquanto medita, só que sua solução não é intelectual, a resposta não tem conexão lógica com a pergunta e a pergunta é de tal natureza que embaralha o intelecto. Sua finalidade é de tanto se buscar essa resposta fora do âmbito ordinário da mente, suplantá-la! Quer experimentar?

Aqui está um homem numa árvore, segurando-se a um dos seu ramos com a boca, não se agarrando a nada com as mãos e nem tocando o tronco com os pés. Alguém ao pé da árvore pergunta: O que é o Zen?

Caso não responda essa pergunta não deixará satisfeito quem perguntou; mas, se falar, mesmo se disser uma só palavra cairá para a morte. Que respostas darias se fosses ele?” Um discípulo pode levar anos para chegar a essa resposta, mas se chegar venceu esse estágio mental ordinário de onde vem todos nossos problemas.

Quando for entendido na totalidade, não apenas intelectualmente, mas em cada atitude que o universo é agora, pois tudo está sendo criado nesse momento e o fim do universo também é agora, já que tudo está desaparecendo agora, poderemos almejar sair dessa alucinação que projetamos em tudo e todos.

Além disso o Zen é extremamente bem humorado, na medida quem seus principais mestres sempre responderam perguntas sobre a iluminação, de como chegar até ela de forma desconexa e sem sentido. Isso se dá justamente porque querer saber já é perder o que se busca saber. Certa vez perguntaram ao mestre Tung-shan “o que é o buda?” E ele respondeu: “Um quilo e meio de linho”. Nesse momento em que você e  quem perguntou ficam sem ação, tentando encontrar um sentido na resposta, não houve pensamentos negativos, medos e culpa na sua mente, ou seja, ela foi superada!

Importante entender que essa atitude desapegada diante da vida está longe de significar ir viver em uma montanha meditando o dia inteiro, já que nem lá escaparemos de nossas ilusões a respeito do que seja a vida. Vivemos em um mundo material e precisamos vencer nele também, sabendo que isso é parte, nunca o todo. Esconder-se atrás de uma ideia de espiritualidade ligada a pobreza e necessidades materiais pode muito bem ser uma ótima desculpa para a incompetência.

Mestre Pai-chang disse que o Zen é simplesmente “comer quando se tem fome, dormir quando se está cansado. Quando deseja caminhar, caminha; quando quer sentar, senta-se.”

Muito simples e muito difícil já que caminhamos quando podemos, paramos quando dá. Comemos na hora que nos disseram para comer e dormimos na hora que nos disseram que era certo dormir. Ficamos de pé quando queremos sentar e vice versa… Nada natural, nada escolhido! Apenas fazendo tudo isso contra a vontade esperando uma recompensa que nunca vai chegar.

 É como ter feito uma plantação de batatas esperando encontrar nela abacates.

Portanto, para quem está cansado de esperar milagres, salvação, bençãos e outras improbabilidades, a prática do Zen pode ser um jeito novo e bem mais real de fazer a verdadeira religião: estar bem consigo e com a vida por si mesmo, por entende-la em movimento, por aceitar que nunca poderemos controlar tudo e saber que a felicidade é estar em paz e relaxado…

Isso é ser Zen….

Para saber mais: “ O espírito do Zen” Allan Watts

Paradigmas

 

O Homem não é feliz sem algum delírio. Delírios são tão necessários quanto a realidade.

Christian Nestell Bovene

Como você aprendeu a ser quem é?

Aprendemos a ser quem somos de acordo com a cultura em que estamos inseridos. Copiamos um modelo de viver daquelas pessoas que são nossas referências, principalmente na nossa primeira infância. Nessa fase, não temos como separar o “joio do trigo” e assimilamos integralmente nossos pais, professores, valores religiosos, etc. Evidente que esse processo segue pela vida afora, mas a assimilação de novos paradigmas* tem um processo um pouco diferente, onde já existe uma consciência crítica, uma espécie de filtro.

Como qualquer animal (também somos), aprendemos tudo por um simples sistema de punição e recompensa. Assim quando fazíamos “certo” vinham os elogios, o acolhimento e nos sentíamos bem. Já quando fazíamos “errado” vinha a punição, o medo de perdermos os elogios e o afeto de nossos heróis. Evidentemente, pelo medo das perdas que os comportamentos “errados” traziam e, sequiosos pelos elogios, buscamos agradar e esconder qualquer atitude, pensamento ou comportamento que gerasse punição.

Nessa hora, é importante entender que não escolhemos em que acreditar, e todos os significados que atribuímos às situações vem de segunda mão. Isso se deposita em nós de tal forma que criamos nosso programa de pensar, ver e entender cada situação que a vida nos oferece. Assim, conforme o artigo sobre a culpa, agora complementado pelo presente texto, surge nosso “juiz” interior.

O medo de sermos rejeitados, de perdermos o carinho e acolhimento, de não sermos “bons”, nos faz buscar uma perfeição, criando recalques e escondendo parte de nós mesmos em um lado escuro, que se não bem entendido e trabalhado, nos perseguirá pela vida, surgindo nos momentos em que não consigo mantê-lo escondido e controlado. É o que acontece quando “perdemos a cabeça”, ali vem o egoísmo, a ira, a inveja e todos os pecados capitais que nada mais são do que esse nosso lado escuro, comum aos seres humanos e que os paradigmas religiosos, principalmente, transformam em pecado.

Pelo programa que recebemos de “certo e errado,” goela abaixo, vivemos sempre pela metade, fazendo muita força para sermos bonzinhos e adoráveis. E é justamente por isso que a maioria das religiões prega o não-julgamento, afinal fico julgando pessoas que estão expondo aquilo que consigo manter escondido. É evidente que se conseguirmos nos manter longe dos pecados será bom, já que tendo a não expor a mim e aos outros a alguns sofrimentos, o que não impede de serem revistos, se servem ou não.

Parece que todos nós precisamos dos paradigmas, e até aí nada de errado, ter uma linha a seguir não é ruim, mas o que penso ser importante é pensarmos sobre esses paradigmas, se eu concordo com eles, se não concordo, se posso me libertar de algum caso não esteja me fazendo bem ou impedindo meu crescimento pessoal. Essa avaliação é que me  faz dono de minha vida. Caso contrário, passarei pela vida como uma pálida cópia de gerações anteriores.

Nessa hora recorremos a nossa imaginação, criando situações utópicas para termos uma vivência mais completa dessa nossa dualidade, onde, muitas vezes, nos permitirmos ser inteiros. Nesses delírios tudo nos é permitido, até viver livremente essa parte reprimida. Mas isso é tão errado pelo programa, que muitas vezes nem compartilhamos com pessoas íntimas sobre eles, já que temos medo do que elas pensarão sobre nós. Em muitas ocasiões, esse conteúdo vem nos sonhos, quando o que vivenciamos é tão impossível ou errado que nem nos permitimos divagar de olhos abertos.

Como em nossa cultura a liberdade está diretamente relacionada ao poder financeiro, a busca da riqueza, muitas vezes está inconscientemente ligada a atingir um patamar de liberdade que me permita ser mais “eu” mesmo. Assim encontramos os ditadores que se tornam cruéis quando atingem o poder, empresários que se permitem tratar seus empregados com desrespeito e ofensas, pais violentos e as pessoas que, depois de atingirem certo grau de poder, se transformam completamente.

Evidente que é normal querermos ser aceitos, mas é importante estarmos de comum acordo com nós mesmos. Posso escolher ser educado, ético e respeitoso com os limites de cada pessoa, mas isso dá muito mais certo quando parte de uma escolha interna, de uma decisão e não de imposição. Penso que devemos educar nossos filhos por valores que acreditamos corretos, mas também respeitarmos suas escolhas com o objetivo de valorizar a individualidade e não de suprimi-la. Fazê-los escolher é mais difícil do que, simplesmente, não darmos escolhas, que é o que ocorre normalmente. Usamos a nós mesmos como parâmetro para educarmos, como se eles fossem uma continuação. Não são! Talvez seja por isso que os domesticamos da mesma forma que fomos para garantir que serão parecidos conosco. Osho disse certa vez que educar é fazer transbordar a essência e que crianças não precisam de nossa ajuda, mas só de serem amadas. Sua idéia é que o que chamamos de educação (isso também inclui a escola) nada mais é do que impor os paradigmas, assim como fizeram conosco. Talvez ele seja entendido nesse ponto daqui a duzentos anos…

Tomara que estejamos felizes, de bem conosco e com a vida, se não estaremos impondo a eles um programa que não deu certo nem para nós.

Os significados que recebemos também nos dizem do que somos e não somos capazes (nada mais limitante), do que devemos almejar, como deve ser nossa vida, e o que é a felicidade. Mas como uma das características do paradigma é não discuti-lo, simplesmente executá-lo, ficamos dizendo que todos que não cumprem meu paradigma estão errados.

No fim, estamos sempre buscando a nós mesmos em meio a essa luta interna entre o que sou, e o que esperam de mim, como diria Fernando Pessoa. Por isso os delírios são, muitas vezes, necessários. Não se culpe por eles e também não se sinta mal, se esse mundo criado pela sua imaginação não estiver de acordo com o que você vive pelos paradigmas que recebeu. Afinal, já que  não escolhemos quase nada, porque não delirar?  Não lembro onde li ou quem disse que nossa imaginação é apenas uma realidade que se esqueceu de acontecer…

 

*Paradigma: Paradigma pode ser entendido por um exemplo, um modelo, uma referência, uma diretriz, um parâmetro, um rumo, uma estrutura, ou até mesmo ideal. Algo digno de ser seguido. Podemos dizer que um paradigma é a percepção geral e comum – não necessariamente a melhor – de se ver determinada coisa, seja um objeto, seja um fenômeno, seja um conjunto de idéias. Ao mesmo tempo, ao ser aceito, um paradigma serve como critério de verdade e de validação e reconhecimento nos meios onde é adotado. Foi o físico Thomas Khun que o utilizou como um termo científico em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, publicado em 1962.  (http://www.artigonal.com/ciencia-artigos/o-que-e-paradigma-705722.html)

Leitura Complementar: O quinto compromisso – Don Miguel Ruiz

A anatomia da CULPA

O que é mais terrível na culpa é que ela atribui ao medo, o maior mal que existe, um enorme direito.

Hugo Hofmannsthal

                                                                                                                                                               

Falar sobre a culpa é falar sobre um dos sentimentos mais dolorosos, algumas vezes eternos, que trazem dor e sofrimento ao ser humano. Apesar de, como uma metástase, espalhar-se por todos os âmbitos da vida, sua origem é simples e precisa ser entendida para que possamos colocá-la no lugar adequado.

A culpa, essencialmente, faz parte do nosso processo de defesa e sobrevivência. Sua natureza está ligada ao passado (não existe culpa quando se pensa no futuro, mas de sentirmos culpa hoje, ao estarmos escolhendo um caminho que pode dar errado, sim!) e sua finalidade é não cometermos atitudes que venham a nos trazer risco à manutenção de nossa vida. O grande problema é que o processo da culpa, assim como o do medo (que falaremos oportunamente) não tem uma análise qualitativa, ou seja, trata tudo de forma igual. Não importa se me sinto culpado por ter causado, ou quase, algum grave acidente ou não ter aceito um convite de emprego; o processo é o mesmo!

Freud, em sua topografia da mente, chamou de Super ego esse “juiz interior” que nos acusa de estarmos fazendo alguma coisa fora da norma e nos punindo com várias formas de sofrimento, por estarmos ou termos agido de forma “errada”. Quando muitas vezes, estamos discutindo interiormente se determinadas atitudes que queremos tomar, ou analisando algo que já fizemos se está, ou foi certo ou errado, se é justo ou injusto, etc, estamos negociando com nosso “juiz” sobre nossa culpa.

Mas afinal, quando sentimos culpa? Normalmente em duas situações:

Quando analisamos alguma atitude no passado que entendemos errada, tendo, portanto, nos trazido prejuízo ou arrependimento de alguma forma. Ora, me permito dizer que, apesar de entender que isso acontece, já que a culpa faz parte dos nossos instintos, punir-se por atos do passado é um grande absurdo! Esse absurdo reside em apenas uma única verdade: não sou mais a pessoa que cometeu aquele ato. Mesmo que, naquela época, eu tivesse a noção de que não era correto o que foi feito, por algum motivo realmente importante a atitude foi tomada.

Como penso que todos concordam que estamos em constante evolução, não posso me culpar por não ser no passado como sou hoje! Esse raciocínio seria involutivo. É claro que podemos alegar que conhecemos pessoas que, com o tempo, estão piores do que estavam há tempos atrás, mas isso é tirar uma conclusão pessoal e projetiva sobre o processo de crescimento. Sabemos que esse processo não se dá em linha reta para todos, que cada um tem seu caminho, portanto, podemos, com certeza, analisar um eventual retrocesso (isso sempre é uma opinião, um conceito) como uma etapa evolutiva. Assim, como costumo sempre dizer, é me culpar por ter tomado uma atitude qualquer no passado quando só sabia somar e diminuir, vendo com os olhos de hoje, quando a multiplicação, divisão, potenciação etc, já fazem parte do meu “saber”. É óbvio que faríamos hoje de outro jeito, mas só pensamos assim porque nos distanciamos do que já fomos, vivemos e aprendemos mais. O que nos pode ser útil é buscarmos as razões de nossa ação, independente de ter sido há  muito tempo, meses atrás ou ontem. O que vale a pena é buscar esse “porque” naquele momento a minha ação foi a melhor que pude executar.  Para isso, portanto, a culpa é muito útil, já que ajuda no auto conhecimento. Assim, culpar-se por ações passadas é na grande maioria das vezes sem fundamento e utilidade, já que estamos tratando de “pessoas diferentes”. O passado é caminho, aprendizado e inexistente (assim como o futuro), a não ser na minha memória. Dessa forma estou punindo com a culpa um inocente: quem sou hoje!

A segunda forma de me sentir culpado é quando ofendo um princípio que está arraigado em meu subconsciente. Desde que nascemos e enquanto estamos vivos, mas principalmente na primeira infância, recebemos uma série de conceitos que advém da família, religião, sociedade, etc. Esses conceitos, que viram decretos lei dentro de nós, chamamos de paradigmas. Não discutimos, apenas cumprimos, já que como disse anteriormente, temos um juiz de plantão que nunca dorme nem tira férias, pronto a nos julgar e sentenciar. Isso é muito interessante já que, na maioria das vezes, nós mesmos nos damos a sentença e iniciamos a pena.

Por exemplo, não estamos satisfeitos no trabalho que executamos, mas nosso paradigma tem seus decretos: “a vida não é fácil”, “Não se troca o certo pelo duvidoso”, “Apesar de não estar bom, seu salário está garantido” e outros tantos. Mas como o processo evolutivo é inevitável, e quero mudar de emprego, demoro muitos meses ou fico me sabotando inconscientemente até que sofra o suficiente para pagar pelo ato de desafiar o paradigma e só depois me permito mudar. É a famosa desculpa:  “sofri o que pude, chega, não aguento mais!”  Esse tempo todo de sofrimento para fazer o que já sabemos que deveríamos ter feito chama-se culpa, e toda a culpa precisa de punição. Há quem diga que a culpa é um belo tempero que sempre poderemos adicionar para tornar tudo pior, mais doloroso, principalmente a auto punição.

Porém, lembre que esses conceitos de certo e errado são relativos, mudam com o tempo e com a cultura vigente. Ao ler qualquer livro de história, nota-se que os seres humanos que fizeram a diferença e que idolatramos através dos séculos, tem um aspecto em comum: desafiaram os paradigmas em busca do que acreditavam! Independente se o status quo concordava ou não. Muitos foram julgados, condenados etc., mas são exemplos que admiramos, pela sua sabedoria e, principalmente, coragem.

Portanto, muitas vezes a culpa está apenas cumprindo sua função e é importante que tenhamos a capacidade de usá-la a nosso favor. Pessoas que não sentem culpa de absolutamente nada, muitas vezes causam danos a si e aos outros. Precisamos, como em tudo, usar a culpa na medida certa, onde ela pode ser importante, mas o excesso ou a falta é sempre um erro. Evite que ela seja um obstáculo a seu crescimento pelo julgamento do “juiz” interior, e que passos em busca de realização e felicidade sejam adiados. A questão é: Você está feliz?

Atribui-se a Cristo a seguinte frase: “Seja quente, ou seja frio, o morno eu vomito!”

A culpa pode até eventualmente ajudá-lo a buscar esse “Ser” como ferramenta de auto conhecimento, mas não mais do que isso.

Cuidado como você lida com a culpa… Ela é morna!