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A SOLIDÃO

 

 

“Se a demanda do autoconhecimento for desejada pelo destino e recusada, essa atitude negativa pode acabar em morte verdadeira. A demanda não teria chegado à pessoa se ela ainda fosse capaz de guiar para algum atalho promissor. Mas ela está presa a um beco sem saída, do qual somente o autoconhecimento pode arrancá-la.”

                                                            C.G. Jung

 

Há quem diga que a solidão é uma arte esquecida.

O temor de se estar só pode ser visto de algumas formas; uma delas poderia ser o medo de estar ou sentir-se abandonado, o que poderia significar que as pessoas não gostam da nossa companhia, que somos inadequados ou esquisitos. Outra opção pode ter a ver com a ideia de que não nascemos para vivermos em solidão, por sermos animais “sociais”. Quantas pessoas, em momentos de raiva, lançam maldições como essa: “seu destino é ser solitário, ninguém consegue conviver com você!”.

Uma terceira alternativa pode representar o fato de não sermos compreendidos pelos demais, o que nos afastaria do convívio pelo simples fato de falarmos um “outro idioma”, ininteligível pelos outros. Existem tantas outras, mas a chance de se chegar ao autoconhecimento sem passar pela boa convivência consigo mesmo é quase nula.

É interessante observar como em nossos dias tem aumentado o número de pessoas que procuram atividades como retiros, por exemplo, onde faz parte dessa prática muitas horas de solidão e silêncio. Mesmo nos momentos mais angustiados e difíceis de nossas vidas, clamamos para fugirmos ou nos transportarmos para algum lugar, longe de tudo ou de todos, onde possamos encontrar paz. Chega-se ao ponto de, nos momentos de grande tensão, dizermos que precisamos ficar sós, para podermos chegar a alguma espécie de acordo interno sobre a situação que nos aflige. Ficar só, portanto, é bom e saudável, mas sem exageros como manda a receita do “caminho do meio”.

Somos cobrados de alguma forma se queremos ficar sozinhos. Estar só pode significar que nossas companhias não estejam nos fazendo bem, nos trazendo sofrimento, ou até mesmo nos atrapalhando de alguma forma. Nos relacionamentos afetivos, por exemplo, na época da paixão, fundimos nosso “eu” na outra pessoa e só pensamos no “nós”. Passado algum tempo, nosso “eu” volta a clamar por atenção, o que é mais do que normal. Nessa hora, por ignorância, alguns chegam a pensar que não estão gostando mais tanto do seu companheiro(a). O que ocorre, é que estamos voltando ao normal, e a relação saudável passa a se estabelecer em cima de dois “eus” saudáveis e não mais em cima de um “nós” patológico que sufoca a expressão da individualidade.

Nada é mais pessoal e individual que a solidão. Pode até parecer redundante, mas se pensarmos bem, se chega à conclusão que muitas vezes já nos sentimos sozinhos mesmo com pessoas a nossa volta, muitas delas muito chegadas. A solidão que sentimos quando estamos com os outros é completamente diferente da experiência individual. Posso até afirmar que a solidão “acompanhada” é mais dolorosa, justamente por sentirmos isso próximo a pessoas onde esse sentimento não poderia estar acontecendo. Em um artigo intitulado “ego e arquétipo”, Edward Edinger mostra que o significado da palavra “solitário”, no grego original significa “solteiro” ou “unificado”. Como curiosidade ele cita trecho do Evangelho Gnóstico de Tomás: “..Eu (Jesus) digo isto: quando (uma pessoa) se encontra solitária, estará cheia de luz; mas enquanto se encontra dividida estará cheia de trevas.

 Evidente que essa unificação, que nada mais é do que o autoconhecimento, tem como preço o sofrimento, solidão e culpa. Essa culpa vem justamente do paradigma que diz que só estamos completos ou certos, em meio a outras pessoas. A base desse pensamento errôneo é que não estamos inteiros ou completos por nós mesmos, só com alguém ao nosso lado poderemos nos sentir bem e aceitos por todos. Não tem como esquecer o clamor de Sallie Nichols que, ao falar do arquétipo do Eremita (solitário) diz: “Teremos, acaso, aberrado tanto nosso âmago interior de ser, que só existimos em relação aos outros”?

Sem o tempo para si, nossas projeções em relação às outras pessoas e delas sobre nós, vão aos poucos nos afastando de nossa identidade essencial, nos levando a uma infinidade de concessões para estarmos no grupo, querido e respeitado pelos demais.

Sempre digo a meus clientes que a condição básica de bom relacionamento com outras pessoas é um ótimo relacionamento intrapessoal, ou seja, conviver bem consigo e em solidão. É justamente nos momentos que estamos sós que conseguimos avaliar com mais clareza e calma nossos relacionamentos, o que realmente gostamos e queremos para nossa vida, juntando com entendimento nossos “cacos”.

Porém isso precisa ser equilibrado, já que o extremo de não se conseguir estar com os demais, tendo na solidão uma fuga ou solução para relacionamentos frustrados e mal-resolvidos, está longe de ser saudável. A base de tudo é o ponto central entre estar-se bem só e com os demais.

Quando esse ponto é atingido, não se precisa estar longe das pessoas e de todo o caos reinante, já que no silêncio encontramos nosso cosmos, nossa ordem. Ensina-nos a filosofia Zen que no momento que se atinge a auto-percepção, aceitamos a própria vida, por mais simples que seja, cumprindo nossas tarefas, fazendo o que gostamos e administrando muito bem o que fazemos sem gostar tanto assim.

Difícil? Nem tanto, basta querer, fazendo o necessário para chegar lá!

É evidente que quando uma pessoa consegue esse autoconhecimento ela será mesmo uma solitária, já que toda a multidão que a rodeia continua vagando às cegas pelo mundo, comandada por princípios e normas que não só não escolheu, mas que nem pensa sobre eles. Será um solitário blindado por uma identidade completa, em harmonia interior e exterior.

Tirar momentos para si para se “curtir”, fazendo o que gosta no seu ritmo de tempo, saindo da “massa”, se permitindo ser quem se É em total descompromisso. Essa é uma receita para se por em prática e o resultado será um equilíbrio maior, mais tranquilidade e paz interior; precisa mais do que isso?

Curiosamente, nas etapas da evolução, o Eremita, ou aquele que busca a solidão para encontrar a verdade interior, aparece depois do domínio das forças antagônicas interiores (O Carro) e da justiça em relação a si mesmo e aos demais (Justiça). Logo depois desse retiro voluntário vem a mudança inevitável representada pelo arcano da Roda da Fortuna, mostrando a mudança do caminho na existência de quem se arriscou a buscar-se.

Carl Jung dizia que se fugirmos ao chamado dessa introversão, essencial ao nosso desenvolvimento, poderemos encontrar o isolamento forçado de uma moléstia física ou mental. Precisamos partir e voltar, aprendendo a transitar bem entre esse dois mundos: o interno e o externo.

De alguma forma, penso que esse encontro com nossa verdadeira identidade pode representar, porque não, a “jornada do herói” de Campbell. Sairmos sozinhos, vencermos as dificuldades, o medo da solidão, enfrentando nossos “monstros interiores” para voltarmos mais fortes, como heróis de nós mesmos.

Alguns poucos dias por ano, algumas horas por semana, um tempinho todo dia para estar em harmonia, consciente e verdadeiramente lúcido… Lembre que isso não deve ser algo a ser conquistado, mas é o primeiro passo para qualquer verdadeira conquista!

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Como podem observar, nesse artigo não tem uma imagem ilustrativa, já que encontrei enorme dificuldade de achar uma onde alguém estivesse solitário e feliz. Isso mostra o paradigma citado acima. Fica então essa bela frase de Fernando Pessoa, que vale por mil imagens.

Manifesto e Imanifesto

ceu azul

 

 

 “É verdadeiro, sem falsidade, certo e muito verdadeiro

           que àquilo que está em cima é igual àquilo que está embaixo

           e que àquilo que está embaixo é igual àquilo que está em cima,

 para realizar os milagres de uma única coisa.

  E da mesma forma que todas as coisas foram e vieram do Um,

 assim todas as coisas nasceram desta coisa única por simples ato de adaptação…”

Tábua de esmeraldas (trecho) de Hermes Trimesgistro

 

 

                                                                                                                                                             

Tudo que é manifesto no mundo provém de outro mundo: o imanifesto.

Dizem os cabalistas que a parte grosseira, entenda-se o corpo físico com seus cinco sentidos, foi a última coisa criada por D-us. Não se assuste, não escrevi errado, é assim que muitos escrevem seu nome, afinal se ele não é conhecido, não pode ser expresso.

Isso quer dizer, que fomos criados de “dentro para fora”, ou seja, daquilo que não se pode ver nem sentir (divindade), para o que pode ser visto e sentido (materialidade). Assim nos dividimos na dualidade que nos faz oscilar tanto. Isso justifica a frase atribuída a Cristo de que o “reino dos céus” está dentro de cada um. Justamente por isso que a Cabala nos mostra que não há nada a ser procurado externamente. É como se nosso corpo físico fosse um véu que oculta nossa natureza divina (essa é minha interpretação), justamente por ser limitado no espaço e no tempo. Atrás de nossa consciência ordinária está o ilimitado e a eternidade. É por isso que se diz impunemente, já que é um absurdo, que em algum dia começará a vida eterna. Já estamos nela, só que nossa percepção não consegue atingi-la. É o que Helena Blavastsky chamava dos “véus de Ísis”. Esse é o estado de consciência aspirado pelos místicos (misturar-se a Deus) e meditadores. Isso é realmente fascinante: encoberta pelo que nasce e morre, está a criação que sempre É.

Essa “tese” baseia-se no seguinte: tudo que existe no mundo material, antes habitou o imanifesto, ou seja, o mundo das ideias. Desde uma simples cadeira, até o mais sofisticado aparelho antes de ser fabricado foi imaginado por alguém. Assim, tudo que nos acontece, a vida que vivemos está sendo materializada pelo que antes imaginamos que fosse. Da mesma forma, imagine uma rosa, por exemplo, ela não nasce, simplesmente está imanifesta até surgir. Justamente por isso ela não morre, simplesmente o que ela era, se transforma em outras substâncias que se dissolvem na terra, se manifestando de outras formas em ciclos de vida intermináveis. Somos assim também, com nosso corpo que se dissolve e nossa consciência que se transforma.

Nosso corpo nasceu e um dia morrerá e isso faz parte, mas nosso imanifesto existe desde antes do universo, ou seja, é emanação divina. Todo nosso sofrimento está baseado na nossa percepção que está somente atrelada ao corpo que, por nascer, precisa morrer. Isso torna a vida realmente angustiante e, se pensarmos bem, até sem sentido. Já diante do eterno, as cores mudam, a evolução é constante até voltarmos, por mérito (nada é gratuito, tudo é causa e efeito) à nossa origem divina que hoje se encontra imanifesta em nós.

Toda a doença da civilização é baseada nessa pressa de atingir a felicidade, já que a morte é certa, não há tempo a perder. Quando somos levados a ter plena e total consciência de nossa verdadeira natureza, nos igualamos ao que os místicos chamam de “estado” crístico ou a consciência de Buda. Nesse estágio, o homem e a natureza são uma só coisa, inseparáveis (divinus), e assim fica fácil de entender porque as pessoas que experimentam esse estágio conseguem inferir na natureza como um todo, provocando os “milagres”, impossíveis para aqueles que habitam o limitado, o que perece, estado de percepção baseado exclusivamente no medo de morrer.

Nesse momento, você que me lê, pode querer perguntar o que fazer, qual a “técnica” ou dica para, definitivamente, nos encontrarmos com o que realmente somos?

Dependendo da linha filosófica, mística ou religiosa cada uma terá seu método, mas o que posso sugerir, de imediato, é a simples e dificílima prática da mente alerta. Isso mesmo, simplesmente mantenha-se atento, inteiro em tudo que faz. Comece por respirar conscientemente. Sempre que lembrar, observe sua respiração, isso já é um exercício poderoso! Essa prática nos leva a, pouco a pouco, a uma diminuição do nível de sofrimento, já que no instante presente estou livre do medo que sempre está ligado ao futuro, onde a morte nos espera. Perceba que a angústia e sofrimento nunca estão acontecendo no presente, mas nas culpas do passado e na incerteza (somos pessimistas por natureza) do porvir.

Uma das importantes atitudes a tomar, lembrando que somos nossos pensamentos, é buscar uma percepção clara do que entra pela nossa boca, olhos e ouvidos. Nossas ações muito se baseiam no que entram pelos nossos sentidos todos os dias, precisamos higienizar, comendo corretamente, e sendo muito criteriosos com o que vemos e ouvimos todos os dias, seja de pessoas e meios de comunicação. Observe como a humanidade pensa e age e veja se isso não está condizente com o que pregam as mais diversas mídias, por exemplo.

Aliás essa natureza negativa do nosso pensamento, faz parte da formação do nosso corpo físico, afinal quanto mais medo tiver, por exemplo, mas tenho tendência de manter a vida.

Assim, precisamos trabalhar constantemente nosso pensamento (imanifesto) para que possa ter um melhor resultado no plano concreto da existência. Mas esse trabalho só terá resultado se buscarmos uma parte de nossa consciência que está escondida dentro de nós, onde só uma prática direcionada como a meditação, além do estudo correto, pode nos levar.

Aprofunde cada vez mais sua auto-observação, avalie seus pensamentos e sentimentos constantemente. O budismo nos oferece o método da análise profunda das emoções como uma maneira de nos compreendermos melhor e aos outros também. Mas tudo isso necessita de determinação de querer mudar, e sair dessa maneira de pensar que só aumenta a ansiedade. Será sempre questão de tempo para que esse pensamento constantemente negativo se materialize em nossa vida.

Conforme os artigos que recomendo a (re)leitura no final, ande conscientemente, coma com atenção, esteja atento e pare de ficar “viajando” na agonia, que o sofrimento diminui e muito.

Quanto mais tempo no presente, menos sofrimento, mais saúde e alegria. Acredite ou não, é simples assim!

Se os cabalistas estiverem certos, busque entender como as coisas funcionam e positive seu imanifesto, projetando seu dia e futuro com confiança. Só não esqueça, é claro, de agir e tomar as atitudes necessárias para que se realize o que seu pensamento está criando.

Estou escrevendo esse artigo em meio à natureza e, diante de mim, estão montanhas de milhares e milhares de anos, cobertas de vida que mudam constantemente, com uma serenidade que só mesmo Deus possa experimentar. Isso também sou eu e é você também, afinal, somos em essência unos com o Todo.

Nossa tarefa então é “lembrar” do que realmente somos e de onde viemos, essa é a resposta que falta. Viva hoje sua eternidade, ficando conectado a cada momento e desfrute de uma vida sem agonia. Respeite e cuide do seu corpo para que ele viva bem, já você, que nunca nasceu e nunca morrerá, pense como seria sua vida se sua consciência habitasse o eterno?

*Caso não tenha lido, recomento a leitura dos artigos: “A prisão que nunca existiu”, “Zen Budismo” e a “A prática do Relaxamento” como aprofundamento do presente texto.

Existe “destino”?

encruzilhada1

“Vem por aqui”- dizem-me alguns com olhos doces

Estendendo-me os braços seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui”!

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há nos meus olhos ironia e cansaço)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

…Não, não vou por aí

Só vou por onde me levam meus próprios passos…

Se, ao que busco saber, nenhum de vós responde,

Por que repetis: “Vem por aqui”?

Prefiro escorregar por becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí…

Se vim ao mundo,

Foi só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada.

O que mais faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem,

Para eu derrubar meus obstáculos?

Corre, nas vossas veias, sangue velhos dos avós

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o longe e a miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tende canteiros,

Tendes pátrias, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos e sábios.

Eu tenho a minha loucura!

Levanto-a como um facho a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cântico nos lábios…

Deus e o diabo é que me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre deus e o diabo.

Ah, que ninguém me de piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “Vem por aqui!”

A minha vida é um vendaval que se soltou

É uma onda que se levantou

É um átomo a mais que se animou…

Não sei para onde vou

Não sei para aonde vou

Só sei que não vou por aí!

 

José Regis –poeta português

A questão do “destino” sempre foi tema de reflexão, seja para os filósofos, místicos e pensadores de todas as vertentes. Seria nosso “destino” algo traçado ou escrevemos de próprio punho nossos passos pela vida?

A corrente conhecida como “fatalista” afirma que tudo que nos acontece foi programado com o objetivo de nos fazer evoluir e que nossa trajetória, do dia do nascimento até a morte está previamente definida. Esse tipo de pensamento tira de nós o que conhecemos por livre arbítrio, a não ser que, para aceitarmos essa corrente, concordemos que também nossas escolhas de como agir diante do que nos ocorre também está previamente estabelecida. Dessa forma, o processo evolutivo, em termos de avançarmos e termos uma consciência mais clara depende do ritmo que esse destino determinou. Não há nada que possa fazer para alavancar o processo, é assim e pronto!

Se você concorda com isso, não há nada a ser feito e tudo que lhe acontece de bom ou ruim tem por fim leva-lo à evolução, aceite de bom grado, não reclame e, ainda por cima, fique grato, já que a “existência”, Deus, ou seja, lá quem for, está cuidando de tudo que você precisa passar para atingir o aprendizado necessário para sentar-se ao lado do Criador na eternidade.

De outra parte, temos a corrente que defende a tese de que nossa evolução é responsabilidade exclusivamente  pessoal e intransferível. Dessa forma, se ficarmos na “esperança” de que tudo anda por si, não sairemos do jardim da infância evolutivo, repetindo infinitamente os mesmos erros e sofrimentos, seja em uma só vida, como prega o Cristianismo, ou em várias, pela corrente reencarnacionista. Por esse enfoque, precisamos estar atentos a nós mesmos e com uma insatisfação constante, não que nos impeça de sentirmo-nos bem em qualquer estágio da vida, mas que essa inquietude nos leve a sempre estarmos buscando patamares mais elevados. Assim, entra o conhecimento que se adquire em livros, cursos, etc. Isso tudo, evidentemente, somados a mudanças constantes em nosso dia a dia, colocando em prática esses ensinamentos.

Se você prefere essa segunda opção, aceitar a impermanência em todos os aspectos é fundamental, já que suas mudanças também estarão trazendo alterações constantes e todas as suas relações e a instabilidade será constante. Evolução é sinônimo de mudança e, incrivelmente, estamos eternamente buscando que nossas principais ações na vida (trabalho, afetivo e social), estejam em segurança (certeza), o que quer dizer que elas não evoluem, justamente por não mudarem. Como já escrevemos em vários artigos anteriores essa tendência à busca por estabilidade é inerente ao nosso sistema de sobrevivência e não em relação ao desenvolvimento, já que essa palavra, também por si só, esta ligada a transformação constante.

Essa corrente que nos traz a responsabilidade, é muito melhor, já que por nos tornar autores, nos afasta do fatalismo e da resignação sem enfrentamento. Não penso a vida como um teatro em que todos façam papel de coadjuvante!

Ação, reação. Ação consciente, resultado esperado!

Tudo volta então a desembocar na consciência, de estar e buscar um estado permanente de atenção que me permita encaminhar minhas ações de forma lúcida e isso inclui sair dos condicionamentos que recebi, para ter resultados diferentes, escolhidos pelas ações que tomei conscientemente.

Aliás, sabemos que todos fomos e somos condicionados constantemente e só saindo disso, através da plena atenção é que conseguiremos assumir a direção do filme que contará nossa história. Também é importante lembrar que se tiver “continuação” seguiremos de onde paramos, por isso, de qualquer forma, ser responsável é fundamental.

Sempre é bom falarmos em condicionamentos. Às vezes penso que as crianças deveriam perguntar para as pessoas que as educam se elas são e foram felizes. Se a resposta for um “não”, “mais ou menos”, “a vida nunca é fácil”, etc, caberá sempre perguntar se não deu certo para ela, é porque essa fórmula já demonstrou não ser muito boa…

Leia com muita atenção esse poema que ilustra nosso artigo!

Saia dos caminhos conhecidos e que não levaram nem quem os indicam à plenitude! Arrisque-se! Ter medo é normal, mas se ficar onde está certamente esse filme pode não ter um final feliz, e será só responsabilidade sua!

A Alegria

diversão

“Deveríamos estar sempre embriagados.

Tudo depende disso é a única questão.

Para não sentirdes o terrível fardo do tempo, que vos abate e empurra para o chão, embriagai-vos incessantemente.

Mas com que?

Com vinho, com poesia, com virtude, como quiserdes. Mas embriagai-vos!”

                                                                                            Charles Baudelaire

Esse trecho que ilustra a abertura desse artigo foi escrito em 1857 e fazia parte do livro “As flores do mal” e causou um escândalo na época. Poetas são assim mesmo; eles conseguem ver além da realidade, e, normalmente, só são mesmo entendidos muito tempo depois. Portanto, se você achou que nosso poeta estava pregando a embriaguez pura e simples é um engano. Na verdade ele nos clama a trazermos alegria a nossa vida, já que sem ela, tudo fica realmente muito chato!

Hoje a ciência pode comprovar isso desde que passou a estudar o funcionamento do cérebro. Cada vez que sentimos prazer, e isso vai desde uma boa comida, um banho relaxante, sexo, etc, esses estímulos obedecem aos mesmos mecanismos de funcionamento, e são os mesmo circuitos cerebrais que estão em funcionamento, independente de onde eles vem, seja de um prazer gustativo, táctil, uma leitura, troca de afeto ou qualquer outro. O que realmente importa, é que ao chegarem ao cérebro esses estímulos produzem uma sensação de bem estar.

Além do relaxamento, tão importante para o descanso dos músculos e sistema nervoso as sensações prazerosas trazem o grande benefício de nos conectarem ao “agora” nos tirando das preocupações que não param de nos afligir, principalmente em relação ao futuro e que mantém nosso sistema orgânico em constante tensão. Estamos formando novas conexões cerebrais a todo o momento e criando novas. Tudo que repetimos reforçam as já existentes e, quando estamos tensos demais, vamos fazendo disso nosso jeito de ser, já que nossas percepções são sentidas pelas nossas conexões mais fortes.

Momentos de alegria e diversão podem ser encarados como verdadeiros remédios naturais que nos mantém saudáveis, então não fica difícil nós estabelecermos uma relação muito curiosa: nos desgastamos, trabalhando muito, nos preocupamos demasiadamente para chegarmos ao ponto de nos permitirmos esses momentos com mais frequência, de termos essa alegria, só que para isso, muitas vezes não nos damos o direito desse relaxamento, de simplesmente fazermos aquilo que nos dá prazer até que cheguemos a esse ponto. Estabelecemos que para podermos “relaxar” precisamos alguns números expressivos em nossa conta. A pergunta que fica é se mesmo quando esse valor estiver lá, finalmente descansaremos um pouco, nos permitindo “viver”, ou continuaremos com medo?

Hoje já sabemos que essas substâncias produzidas pelo cérebro durante os momentos de alegria (endorfinas e encefalinas) são as que nos permitem ver as “cores” da existência. Sem elas tudo seria cinza, exatamente como as pessoas com depressão definem como sentem a vida. Não existem remédios para isso, já que os antidepressivos apenas atenuam os sintomas mais graves desse processo e só mesmo uma mudança de atitude e novas maneiras de se encarar o dia-a-dia podem trazer uma cura, se assim podemos chamar.

Infelizmente buscamos essa alegria em atalhos que nos levam para lugares piores, como álcool, drogas e excesso de comida. O cérebro tem a plena capacidade de produzir essas substâncias agradáveis de forma natural, para isso basta apenas que nos permitamos, e para começar, respeitar nossos tempos internos também ajuda. Nossa cultura diz que todos temos que acordar cedo e trabalhar até o entardecer, mas já sabemos há tempos que cada pessoa tem um horário do dia em que é mais produtiva, também nos dizem quando devemos comer, dormir e qual o dia certo para descansar. Assim realmente fica difícil e não é a toa que a Organização Mundial de Saúde afirma que até 2020 a depressão será a doença que mais incapacitará as pessoas para o trabalho.

Sei que as coisas são como são e não estou dizendo que devemos abandonar tudo e viver de prazeres sem fim. O que estou dizendo, baseado nos estudos da neurociência, é que temos a obrigação, de em prol de nossa saúde, nos proporcionarmos bons momentos. Se você estiver esperando que alguém faça isso por você, esqueça!

O prazer indica que estamos bem! Tudo na sua hora, sem stress. No calor, uma sombra, na fome se permita comer o que realmente tiver vontade, mesmo que de vez em quando. Transgredir normas, pequenas, médias ou grandes, de vez em quando, não antecipará sua morte muito menos assegurará uma passagem sem volta para o inferno. Essa ideia de que devemos sofrer para nos purificar faz parte do conjunto de bobagens ainda não discutidas que vigoram por séculos.

Sempre que puder, aproveite de suas portas (cinco sentidos) e se beneficie de alegria e prazer. Faça das coisas inevitáveis que nos cansam, mas das quais não podemos nos livrar, aquilo que aumentará ainda mais sua sensação de alegria depois. Pesquisas mostram que a quinta-feira é o dia que as pessoas mais se sentem bem, afinal, o final de semana está chegando, já as segundas-feiras são recordistas em acidentes cardiovasculares, já que começa mais uma semana de tensão e problemas… Certa vez ouvi uma propaganda no rádio que dizia que, para o otimista, para cada cinco dias de trabalho tem dois de férias! Esse é um exemplo de reinterpretarmos as coisas, tornando-as mais leves. Como já escrevi anteriormente, só as pessoas realmente livres tem a capacidade de dar novos significados às situações.

Ninguém nasceu para sofrer, ou só para trabalhar de sol a sol. Nos fizeram acreditar nisso e olha como estamos. Veja uma criança e lembre que uma época você não precisava de quase nada para rir e estar bem! Nesse aspecto, é interessante observar que as pessoas dizem que a infância é uma ótima fase não porque se brinca, mas porque “não nos preocupávamos”!

 Nascemos para Ser, e isso inclui muita alegria, divertimento, trabalho, compromissos e prazer. Aliás, já reparou que tudo que é bom é pecado ou engorda?

Você pode estar dizendo que já sabe tudo isso, que já refletiu sobre o assunto ou leu em algum outro lugar. Só que se isso ainda não se transformou em atitude, significa que você não sabe nada!

Somos nossas atitudes, o resto é informação que se consegue até de graça, como nesse artigo, por exemplo…

Para saber mais: “A fórmula da Felicidade” Stefan Klein ed. Sextante

TIMIDEZ

“Toda vez que te olho

Crio um romance.

Te persigo, mudo

todos instantes.

Falo pouco pois não

sou de dar indiretas.

Me arrependo do que digo

em frases incertas.

Se eu tento ser direto, o medo me ataca

sem poder nada fazer.

Sei que tento me vencer e acabar com a mudez

Quando eu chego perto, tudo esqueço

e não tenho vez.

Me consolo, foi errado o momento, talvez

Mas na verdade, nada esconde essa minha timidez…”

Timidez – Biquini Cavadão

                                                                                                                                                                 

Para falarmos sobre a timidez, precisamos, em primeiro lugar, definir o que em conceito psicológico é a personalidade. É, pela personalidade, que nós incorporamos todas as nossas experiências (tudo que vivemos) com os significados que nos deram e como aprendemos a reagir a cada situação. Entende-se a personalidade como sendo uma parte biológica e outra vivenciada com as respectivas emoções. Para dar um exemplo, é como uma forma de bolo (parte biológica) com a massa do bolo que, dependendo da maneira que será feito, terá texturas e sabores diferentes (experiências de vida).

Evidente que podemos falar de uma série de tipos de personalidade que, dependendo do enfoque se divide de várias formas, mas aqui, quando falamos de timidez vamos simplificar em apenas duas: os introvertidos e os extrovertidos, entendendo-se desde já, os tímidos como fazendo parte do time dos introvertidos.

Buscando simplificar o entendimento, poderemos conceituar o introvertido como aquela pessoa que orienta seu foco de atuação na vida para dentro de si, vendo tudo por um ângulo sempre subjetivo, ou seja, interpreta tudo além da percepção ordinária dos cinco sentidos, característica essa das pessoas extrovertidas. Não é a toa que, a maioria dos artistas tem personalidade introvertida. Dando mais um exemplo, o introvertido com sua subjetividade cria uma obra de arte, como um poema, e o extrovertido tem mais facilidade para declamá-lo em público.

Um dos motivos de grande parte dos introvertidos serem mais “fechados (as)” é o fato de possuírem uma subjetividade que procura por uma realidade ideal, diferente da vivenciada pela experiência cotidiana, e isso pode trazer aquela percepção de afastamento e profunda interiorização. Assim, para o tímido não é fácil captar novos amigos, por outro lado os mantêm com mais facilidade, já que sua maneira de ser o torna um bom ouvinte e uma pessoa com capacidade de entender os sentimentos do outro, que sempre são subjetivos.

A timidez torna a pessoa sempre temerosa da opinião dos outros sobre ela e, para não correr o risco de não gostarem dela ou acharem isso ou aquilo ela busca o afastamento. Dependendo do caso, essa é a causa mais profunda da ansiedade que elas sentem em lugares com mais pessoas. O tímido fica sofrendo, imaginando (sempre negativamente) o que todas aquelas pessoas estão pensando dele (a). Alguns preferem nem comemorar aniversário ou outras datas, já que se sentem constrangidas em estarem no centro das atenções e dos olhares e o que é ainda pior; todas as pessoas teriam a possibilidade de interagir e essa perspectiva para a pessoa introvertida é assustadora!

Basicamente, poderemos definir três grupos distintos, mas inter-relacionados de pessoas tímidas: medo da exposição e serem motivo de chacota e rebaixamento, com medo de passar vergonha em público e com medo de falar algo errado.

Pesquisas* mostram que para as pessoas tímidas algumas situações em presença de outras pessoas podem ser dificílimas e as principais são: falar em público (73%), conversar com alguém que deseja afetivamente (64%), conversar com pessoas que ela entende superior por algum motivo (55%), falar com qualquer pessoa estranha por menor que seja o motivo ou situação (50%) e diante de alguma situação nova (48%). Assim, para os leitores que tiveram oportunidade de ler os artigos sobre ansiedade, fica mais fácil entender que o medo projetado diante de qualquer das situações acima é, para a pessoa introvertida, um obstáculo realmente intransponível. Muitas vezes sou procurado para ajudar pessoas a enfrentarem situações como as descritas acima, que vão desde apresentar trabalho em grupo ou diante dos colegas, um trabalho de final de curso universitário, ou mesmo se aproximar de alguém que interessa afetivamente. Na maioria dos casos, a pessoa tímida tem certeza de que não conseguirá se fazer entender, ou que cometerá erros que farão os demais terem uma opinião negativa sobre ela.

Esses mesmos estudos demonstram que as pessoas do tipo introvertido ficam em média mais horas nas internet, principalmente nas redes sociais e sites de relacionamento. Não é difícil entender o porquê disso, afinal estar atrás da tela do computador traz uma proteção e diminui em muito a ansiedade sobre o outro, além é claro do anonimato que, por proteger a identidade social, facilita uma manifestação mais verdadeira, sem o medo do julgamento alheio.

Também é importante lembrar que a timidez, de certa forma, serve como um mecanismo de defesa que permite a pessoa avaliar toda e qualquer nova situação com muita cautela, só que essa resposta ao novo sempre pode vir em forma de fuga ou de negação, afinal é comum nesse tipo de maneira de ser estar decepcionado porque o mundo externo não atinge sua expectativa interior.

Quando os exames de imagens ficaram disponíveis, as pesquisas mostraram que as pessoas tímidas tem uma função maior do lado direito do cérebro enquanto as mais extrovertidas tem o lado esquerdo mais ativo. Como sabemos, o lado direito do cérebro é mais voltado ao pensamento subjetivo, intuitivo e artístico, enquanto o esquerdo é mais lógico e racional.

Alguns introvertidos, movidos pelo medo da exposição, apresentam manchas vermelhas no rosto e pescoço ou simplesmente ficam “vermelhos”, que nada mais é do que a manifestação física do sofrimento interior que eles estão passando. Nessa hora é sempre bom lembrar que, de alguma forma, todos já passamos por situações que nos deixaram corados de vergonha. Pense o motivo dessa reação. Não seria porque essa situação o deixou mais exposto, sem a máscara que todos criamos para sermos bem aceitos e termos certo controle sobre o que as pessoas pensam de nós? Mesmo uma simples queda na rua, um elogio inesperado, uma palavra dita errada diante de um grupo, etc. nos deixam “nus” e a timidez aparece.

 Nos casos mais extremos temos a chamada “fobia social” que impede a pessoa de, mesmo sendo introvertido, ter uma vida minimamente saudável nesse aspecto, necessitando, portanto, de tratamento adequado. A pergunta que se pode fazer então é: quando a pessoa precisa de alguma ajuda terapêutica ou médica? A resposta é simples; quando sua introversão trouxer um sofrimento e perda de qualidade de vida.

Todos nós temos facilidades em alguns aspectos e dificuldade em outros. Ser introvertido não quer dizer uma timidez generalizada, mas forte demais em alguns pontos, principalmente no contato com tudo que gere expectativa e falta de controle da situação. A pessoa tímida trabalha com uma “certeza” negativa dessas situações que sempre geram stress de alguma forma. Porém é nessa interiorização que encontramos a maioria das formas de arte e expressão. A introversão, quando na medida certa (se é que podemos assim dizer), pode dar uma compreensão do mundo mais profunda, indo além do que simplesmente se percebe pelos meios mecânicos dos sentidos.

O importante é lembrar que a introversão não é uma condenação a que estão expostos os tímidos, mas algo que pode ser melhorado e muito com disposição e, quem sabe, uma ajuda terapêutica. Caso sua introversão ser em apenas algum aspecto da vida, é sinal de que pode ser melhorada, afinal em outros pontos isso não acontece. No caso de ser generalizada, avalie os prejuízos e lembre que o ser humano se caracteriza por ser sempre uma possibilidade em aberto e não há nada que não possa ser modificado.

O introvertido ou tímido “sente” a vida de forma mais intensa, elabora significados para tudo e leva a emoção muitas vezes onde o extrovertido nada vê. Como no exemplo que demos acima, enquanto o introvertido se emociona com a música e busca interpretar a letra fazendo paralelos com sua vida e outras situações enquanto no mesmo momento o extrovertido aproveita a melodia para dançar… Não existe certo e errado, afinal o que seria da arte se não houvesse quem dela se aproveitasse da beleza e do significado? Leonardo da Vinci disse certa vez que a arte existe apenas porque temos dois tipos de pessoas; os que criam e os que a apreciam e a julgam bela.

*Ballone GJ – Personalidade introvertida e timidez.