Agenda

Procura sem fim

Há duas tragédias na vida; uma a de não satisfazermos nossos desejos, a outra de os satisfazermos.

Oscar Wilde

correndo

 “Um homem procurava a noite algo no chão debaixo de um poste de luz. Alguns  amigos vinham passando e perguntaram: – O que estás procurando?

 O homem respondeu: – minha carteira de identidade.

Então os amigos se puseram a ajudá-lo. Passado algum tempo sem nada encontrar perguntaram: – Tem certeza de que perdeu sua carteira aqui?

O homem responde: – Perdi lá atrás.

Indignados os amigos disseram: – Então porque você está procurando aqui se a perdeu em outro lugar?

O homem respondeu: – Porque aqui tem mais luz.”

Há quem afirme que sem desejos não vivemos. Isso também é verdade, na medida em que são eles que nos fazem correr atrás de conquistá-los, nos mantendo em movimento que é a essência da vida. Mas afinal, o que é um desejo e até onde isso pode me fazer mais mal do que bem?

Precisamos partir do pressuposto que se desejo algo é porque não tenho. Isso vale para tudo, afinal ninguém deseja o que já tem. Também foram os desejos de viver melhor e com mais conforto e segurança que impulsionaram não só a tecnologia como também as guerras e todos os conflitos por posse do que quer que seja.

Outro ângulo a ser explorado é que se desejo alguma coisa material ou mesmo uma pessoa (relacionamento), filosofia, religião etc., esse sentimento traz em si a certeza de se o desejo for alcançado, me fará mais feliz e meu ego será preenchido de forma a me sentir com mais poder e valorizado. Isso se dá, justamente, por ter agregado a minha identidade pessoal esse objeto, pessoa ou o quer que seja. Por isso preste atenção nesse ponto, pois para lidar melhor com os desejos é preciso entendê-los.

Todo o desejo atinge seu clímax no momento da sua obtenção e, a partir desse instante já começa a experimentar um declínio que logo se tornará um vazio, de onde surgirá o próximo e assim sucessivamente.

Dessa forma, desejar alguma coisa está intimamente ligado a nossa eterna busca por felicidade e realização. Em nossos tempos, a mídia trabalha isso com maestria criando diariamente necessidade em uma série de objetos que, segundo a propaganda, trarão mais realização e admiração das demais pessoas. Então a estorinha (comercial) é repetida muitas vezes, martelando essa ideia em nosso subconsciente e, daqui a pouco, foi criado mais um desejo, que me fará acreditar, consciente ou inconscientemente, que dessa vez, quando tiver esse objeto, finalmente serei quem quero ser e até agora não consegui. Esse processo da mídia é ainda mais maldoso, afinal ela separa as pessoas em grupos; os que têm o objeto e, portanto são inteligentes, bem sucedidos e felizes e os que não têm, que estão fora desse “seleto” grupo de pessoas especiais. Assim, como ninguém que ficar de fora, a pessoa se mata de trabalhar, abrindo mão do seu lazer e da convivência com pessoas importantes atrás de uma marca que o incluirá no grupo dos “bons”.

Justamente por isso as mídias são normalmente estreladas por pessoas famosas, passando a ideia subliminar que ter aquele produto ou serviço me tornará igual a ela.

Assim, hipnotizados (essa é a palavra correta) diante da televisão, rádio, internet e até mesmo andando pela rua em uma poluição de outdoors dos modelos dos mais antigos aos mais modernos, com muito som, movimento e cor, vamos sendo sugados pela moda, pelos carros, eletrônicos e roupas atrás de realizar nossos mais recentes desejos que também chamamos de “sonho”.

Qual é o problema real dessa situação? Com o tempo, até mesmo porque quem nos educou também sofreu com isso, vamos transferindo para um objeto atrás do outro, relações de todos os tipos, filosofias e religiões a solução em busca de valorização e admiração dos demais. Obviamente isso nunca terá fim, porque o sistema, cada vez mais veloz e necessitando do dinheiro dos desavisados, faz com que tudo saia de moda e perca valor cada vez mais rápido. Andei até observando, que até mesmo as casas, que sempre eram feitas “para sempre” já são objetos da moda, com desenhos arquitetônicos que mudam de poucos em poucos anos.

Tem saída?

A saída é buscar uma consciência lúcida que permita fazer uma simples pergunta que muda tudo: Até que ponto realmente preciso disso? E isso vale caro leitor para tudo.

Sem essa percepção pró ativa essa máquina de moer que é nossa sociedade vai vitimá-lo sem esforço. De onde você acha que vem a crise de ansiedade que assola o mundo? Vem principalmente do medo de não conseguir realizar os desejos e, portanto, de não ser feliz. Pense bem e é bem possível que concordes comigo.

É óbvio que precisamos de coisas para sobreviver e isso é bem diferente de desejo em certo sentido. Maslow em sua famosa pirâmide de necessidades mostra que não almejamos autoestima se, por exemplo, estivermos com fome. Que só pensaremos em realização pessoal se nossas necessidades básicas estiverem supridas, bem como etapas anteriores como pertencer a grupos e nos sentirmos seguros.

Então, o grande problema é que estamos vivendo um tempo que devido a essa manipulação do desejo, vemos pessoas correndo atrás de coisas que não poderiam ter, já que itens anteriores e fundamentais não fazem parte ainda de suas vidas. Toda a grande farsa consiste em oferecer atalhos ilusórios em busca de felicidade pela adoção do paradigma do que se deve ter e de como nossa vida será maravilhosa se seguirmos a cartilha imposta pelo sistema. Isso leva inevitavelmente a angústia e o medo de não atingirmos o que se espera e nossa vida seria um fracasso. Assim se escraviza e manipula toda uma sociedade, pelo medo!

A sabedoria nos mostra que podemos ter tudo, mas que precisamos de uma relação de qualidade com a materialidade e que não adianta buscar fora o que só pode ser encontrado dentro de nós através de novos pensamentos e percepções. Se não fizermos paradas e refletirmos sinceramente sobre como estamos levando nossa vida seremos inevitavelmente engolidos pela doença do consumo e nos tornaremos verdadeiros zumbis, vagando pela vida, sem perceber sua passagem por estarmos sempre olhando lá na frente, na próxima aquisição, no próximo relacionamento, em busca do descanso (segurança) que, para a grande maioria das pessoas, já poderia estar sendo curtido nesse exato momento.

O mais engraçado disso tudo é que tudo que estou dizendo todos dizem já saber, mas porque então essa situação não muda? Pelo simples fato de não praticamos o que sabemos que devemos fazer por puro medo de ser diferente e sermos excluídos. Não queremos ser chamados de “loucos” por nossos amigos e familiares, perdermos o respeito e a admiração das pessoas. Assim, preferimos a doença em conjunto ao invés da loucura de estarmos enxergando, em uma terra de cegos que estão sendo guiados por interesses nada humanísticos.

 Não é errado pensar no futuro, fazer planos e tomar providências, mas viver o tempo todo com a consciência no que virá (?) é o grande erro. O nome disso é ansiedade que é o alicerce por onde se erguem as doenças psicossomáticas e autoimunes.

Mas talvez o grande problema do desejo em si é apenas um: nenhum tem o poder de solução, mas todos, eu disse TODOS, são apenas paliativos de efeito cada vez mais rápido e, logo em seguida, volta a dor e lá vamos nós atrás do próximo remédio…

 Sei que é muito difícil e é quase impossível suportar a pressão, afinal todos ao nosso lado acreditam nesse mantra. Fugir para as montanhas meditar não traz nenhuma vantagem só mesmo o descanso de uma fuga. A vida é aqui e agora e se estamos vivendo nessa grande fábrica de desejos é justamente nela que precisamos lidar com o problema e avançarmos sobre ele, a não ser que você ache que nasceu “por acaso”.

Tenha tudo que quiser, vença no mundo material e isso é mérito! Mas não torne nada fundamental em sua vida que esteja fora de seu alcance. É lícito pensar em sua velhice, afinal, pode acontecer de você viver até lá, mas não deixe para viver só quando o horizonte mais próximo pela sua idade seja a morte. Como diz um amigo: “vou viajar agora, enquanto posso carregar minha mala”.

Buscar esse ponto de equilíbrio entre o medo do futuro e viver os bons momentos que são possíveis agora é a espiritualidade. De nada adianta rezar e rezar e continuar buscando uma coisa atrás da outra em uma corrida sem fim e sem descanso.

Crescer material e espiritualmente é isso que se espera do ser em evolução nesse mundo que vivemos. Mas para isso, entender e dominar os desejos, sempre transitórios, é o primeiro passo em busca do fim do sofrimento.

O personagem de nossa estória preferiu procurar no lugar mais fácil (onde tinha luz) do que no lugar onde realmente estava o seu objeto perdido. E o que eu mais gosto nessa metáfora, que a torna sutil e profunda, é que ele perdeu a sua identidade…

O funcionamento da Máquina (2a parte)

“Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória”.

José Saramago

memórias

Vamos continuar analisando algumas das experiências narradas por Leonard Mlodinow em seu livro “Subliminar”, dando sequência ao artigo anterior. Desta vez, vamos saber como que a ciência entende a “memória”, tendo como base os estudos do psicólogo alemão Hugo Münsterberg que datam do início do século XX.

“Em um dos casos estudados por Münsterberg, depois de uma palestra sobre criminologia em Berlin, um estudante lançou um desafio ao distinto palestrante, o professor Franz von Liszt (primo do compositor Franz Liszt). Outro estudante levantou-se para defender o professor e começou uma discussão. O primeiro estudante puxou uma arma. O outro engalfinhou-se com ele. Depois Von Liszt entrou na contenda. Em meio ao caos a arma disparou. A sala inteira virou um tumulto. Afinal Von Liszt gritou pedindo ordem no recinto, dizendo que era uma encenação e que os estudantes eram atores seguindo um roteiro.” Tudo era parte de um experimento que tinha o objetivo de verificar os poderes de observação e memória da plateia presente ao evento.

Depois a plateia foi dividida em quatro grupos; para um foi pedido que escrevessem de imediato o que tinham visto, para outros dois foi feita uma acareação e o outro grupo escreveu o que presenciou, só que mais tarde. O resultado foi que os testemunhos variavam de 26 a 80%, diferentes do que realmente ocorreu, sendo que foi atribuído aos atores atitudes que não tiveram, palavras nunca ditas e outras coisas que realmente aconteceram nem foram notadas.

A partir desse experimento que ganhou grande notoriedade na época, além de outros que foram feitos a partir desse, Münsterberg desenvolveu uma teoria que vem sendo comprovada pelos experimentos atuais. Ele acreditava que não conseguimos reter na memória todos os estímulos recebidos pelos nossos órgãos sensoriais (já citamos isso no artigo anterior), e que nossos erros de memória tem uma justificativa: nossa mente grava uma pequena parte (o ponto principal do evento) e todo o restante preenche com expectativas, nosso sistema de valores e em nossos conhecimentos prévios. Esse é o jeito de lidarmos com nossa capacidade limitada de armazenar dados.

Assim, hoje os pesquisadores que estudam a memória, dizem que ela  funciona da seguinte maneira: nos lembramos dos aspectos principais descartando os detalhes, depois criamos esses detalhes para voltar a ter a cena completa novamente. Estudos mostram que nossa capacidade de lembrar palavras ditas com precisão é de oito a dez segundos. Então, quando somos pressionados ou queremos lembrar, mesmo que tenhamos certeza(?) terminamos inventando esses detalhes e o pior de tudo: temos convicção que essa parte inventada é real! E, com o passar do tempo, conseguimos reter o significado principal, mas só lembramos com precisão da parte que “inventamos”.

Por isso já lhe dou uma sugestão: não jogue fora suas fotos e, se puder, invista na filmagem de eventos importantes e mesmo assim posso garantir de que depois de alguns dias, duas pessoas que estavam no mesmo lugar terão relatos diferentes desse acontecimento.

Mais adiante, outro estudioso chamado Frederic Bartlett se dedicou a estudar como o passar do tempo e as interações sociais entre as pessoas com diferentes recordações de eventos mudam a memória desses eventos. “Em uma de suas experiências leu uma história e pediu que os participantes lembrassem dela quinze minutos depois, e mais outras vezes em intervalos regulares, até após um período de semanas ou meses. Baseado na maneira como os sujeitos recontavam a história com o passar do tempo, pode constatar uma importante tendência na evolução da memória: não havia só memórias perdidas, havia também memórias acrescentadas. Ou seja, à medida que a leitura original da história esmaecia no passado (dias, semana ou meses), novos dados de memória eram produzidos, e essa produção seguia certos princípios gerais”. Assim como na experiência de Münsterberg, os sujeitos mantinham a ideia central, mas descartavam detalhes e acresciam outros, deixando a história mais curta e mais simples, dando um toque bem pessoal. Depois de anos de pesquisa Bartlett escreveu: “O processo de encaixar memórias é um processo ativo, depende do conhecimento prévio do sujeito e suas convicções a respeito do mundo…”. Quero só lembrar que as memórias que criamos, portanto falsas, não diferem em nada das baseadas na realidade.

Todos esses estudos podem nos ser muito úteis, afinal nossa memória é fator fundamental em muitas de nossas decisões, avaliações, relacionamentos, etc. Poderíamos buscar aprofundar esse estudo pensando da seguinte maneira; uma parte tem a ver de como nosso cérebro trabalha e isso esses estudos e tantos outros comprovam, mas, além disso, nós estamos sempre mudando, nos tornando pessoas novas por tudo que vamos vivendo e aprendendo. O que quero dizer é: as nossas memórias também mudam por que quem está lembrando-se de determinado evento já é uma “outra” pessoa, que pensa de forma diversa daquela que testemunhou determinada situação. Então, os detalhes que vamos acrescentando com o tempo tem a ver com nossas mudanças. Depois de algum tempo, quando lembramos de alguma coisa, o que é mesmo verdadeiro é uma pequena parte, e olhe lá!

Cada vez mais a ciência vai se encontrando com a sabedoria antiga, dos grandes Mestres que defendiam a ideia de que fora do “agora” tudo é a mais pura ilusão. Normalmente pensávamos que só o futuro poderia ser imaginado, afinal ainda não chegou, mas agora sabemos que também imaginamos o passado por duas vias distintas, a do mecanismo do cérebro e da mudança pessoal. É lícito pensarmos que mantermos conceitos e ideias antigas é quase uma sabotagem, afinal porque será mesmo que pensamos assim? Formamos uma série de conceitos sobre a vida, o que seja certo e errado baseados em experiências passadas (inventadas em grande parte) ou até pior; de outros! Completo absurdo!

Esses estudos mostram que nossa memória começa a distorcer o acontecido minutos depois. É como nossas expectativas e o que entendemos ou julgamos transforma o evento em uma mera interpretação. Quando, certa vez, Dalai Lama definiu o estado nirvânico como sendo “ver o que é real”, ou quando os místicos da consciência defendem que a realidade está acima da dualidade,  só podendo  ser percebida por um 3º olho, que está acima dos olhos físicos, podemos entender o que querem nos dizer.

Como diz o próprio autor, Leonard Mlodinow, “a disparidade entre o que vemos e o que registramos, e, portanto de que nos lembramos – mesmo num período de tempo muito curto -, pode ser drástica”.

No final, somos todos grandes escritores e poetas e nem nos percebemos disso. Toda a nossa história pessoal, como prova a ciência, nada mais é do que um quadro, onde uma pequena parte realmente aconteceu e todo o resto que está em torno, o que dá muitas vezes o sentido do acontecimento, vai sendo construído pela nossa imaginação ao longo do tempo.

 Em muitas técnicas terapêuticas, solicita-se que o cliente faça uma “ressignificação”, dar outro significado a seus eventos traumáticos e muitos dizem que isso é enganar-se. Será? O próprio evento traumático também é uma invenção de certa forma, qual o problema de inventar um novo roteiro, novos ângulos? Fazemos isso de qualquer jeito, só que tendemos a escolher detalhes mais sofridos, afinal como é bom ser vítima do passado! Minhas tragédias, que muitas vezes nem aconteceram do jeito que lembro hoje podem estar servindo como um belo e macio colchão onde acomodo minhas mudanças.

Estive pensando em uma frase para encerrar esse artigo e nenhuma fica tão bem quanto a que encerrou o anterior. Por isso vou usá-la novamente.

 Lembra qual foi?

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As partes em itálico são transcrições do livro. Para quem se interessa por estudos referentes ao comportamento e suas causas recomendo a leitura.

Como formar um “rebanho”

Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou  a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava.

Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo que pensei não fui eu.

 

Fernando Pessoa- Navegar é preciso

 

Manipulação 1

Deus, sempre ele, desde tempos imemoriais tem sido usado como o maior e melhor modo de controlar as pessoas e manipulá-las. Cabe lembrar que sua existência ainda é controversa, sendo  uma questão de crença, afinal, nunca ninguém o viu ou falou com ele. Até hoje em dia, caso isso aconteça com você, de vê-lo ou ouvi-lo, procure manter um absoluto sigilo, pois se ficarem sabendo seu futuro será um psiquiatra e uma extensa lista de medicamentos.

Assim, aqueles que manipulam as pessoas precisam, para que elas se sujeitem aos padrões de comportamentos desejados, que estejam vivendo duas emoções; o medo de uma eventual punição e a culpa, por terem descumprido alguma “regra”. Some-se a isso, que, para que as regras sejam seguidas tenham, em quem as determine, uma forte autoridade. Dessa forma, quanto mais absurda, maior autoridade precisa ser a do seu autor. Assim, nosso deus, de costas muito largas, coitado, tem visto seu nome ser usado em vão há séculos, para que as pessoas (no caso ovelhas), sigam determinadas normas de conduta, conceitos de certo e errado, que não se discuta ou questione.

E o que é uma norma absurda? É aquela que não seja possível de ser atingida, por estar fora do âmbito humano. Se pensarmos bem, veremos que tudo que é considerado pecado é alguma emoção ou comportamento extremamente natural, ficando, portanto, necessitando de um tamanho esforço pra ser cumprido que o torna irrealizável.  Alguns desses pecados ou mandamentos chegam ao ponto de que é proibido pensar, ou seja, não tem como ser conseguido, afinal não podemos fazer com que nosso cérebro simplesmente não pense. Assim, a pobre ovelha já está em sofrimento, afinal deus está muito irritado com ela por ter esse tipo de pensamento. Então, ela, para se redimir, precisa de uma penitência (punição). Esse tipo de bobagem, como tudo que é cultural e repetido desde a infância vira uma norma de vida e a própria pessoa se pune sozinha pelo seu grave erro (?).

Somente pessoas tristes e quase mortas são manipuláveis, portanto, essas normas visam tirar a alegria, o prazer e a felicidade. Sobra só o sofrimento que nos purifica e nos limpa de nossos pecados que já trazemos, pasmem, desde que nascemos. Isso porque há dois mil e poucos anos crucificaram Jesus que veio para nos libertar e eu, que não estive lá e não participei disso, preciso ter uma vida sem graça e muito chata para pagar esse erro que certamente não cometi, mas que me garantirá um lugar no paraíso dos justos. Inacreditável!

Então, os pastores vão conduzindo seus rebanhos dizendo que comidas gostosas (prazer) é pecado, que sexo é errado, que sentir ira (é instinto) é um pecado capital, que divertimento precisa vir bem depois do trabalho (precisa suar o rosto, lembram?) e que viver é mesmo sofrer, porque um dia, se você fizer tudo certinho ( tiver tido uma vida de sofrimento) será recompensado. Se isso for verdade imagine só a chatice que será viver no paraíso! Que vida eterna mais sem graça, afinal a música permitida provavelmente será a barroca ou sacra, dançar nem pensar, chocolate, riso, romance e divertimento então somente naquele “lugar” para onde vão os que erraram, pecaram e não foram tementes (ter medo) de deus. Imagine só que as pessoas que conseguiram essa façanha precisam ser moralistas, chatas e sem graça. Basta observarmos os exemplos dos futuros candidatos a um lugar no paraíso que ainda estão entre nós. Que tal passar a eternidade com eles?

É claro que todas essas regras não são religiosas no seu sentido último, que seria nos ligar a divindade, mas são normas de conduta e higiene pública. Só acho que os tempos mudaram e passado tanto tempo poderíamos melhorar isso, diminuindo o sofrimento dos incautos que ficam tentando atingir essas metas de comportamento que só serão conseguidas à custa de sua qualidade de vida. Parece que o pessoal do marketing dessas pseudo religiões não estão entendendo que o único público que ainda os aceita são aquelas pessoas que realmente precisam de um cabresto, pois não conseguem viver em liberdade. Os demais, já se afastaram há muito tempo, visto o crescimento de religiões bem mais antigas, vindas do oriente, que parecem respeitar bem mais a inteligência das pessoas.

Essas ideias que nos foram dadas lá trás na nossa infância continuam vigorando, mas já não somos mais crianças! Os pecados que punem os exageros de toda a espécie tem por finalidade nos por em uma certa linha pelo medo. Essa é a maneira de se domesticar as crianças, ameaçando com o “homem da capa preta”, o “lobo mau” e outras chantagens. As pessoas não percebem que cresceram e esses conceitos continuam vigendo em sua mente mesmo depois de adultos e estão norteando suas escolhas.

Assim, nossas religiões ocidentais nada fazem se não reprimir a humanidade das pessoas, as condenando a tristeza e a angústia, onde tudo que é prazeroso é proibido, errado e amoral. Se não podemos ser naturais, somos aleijados! Toda a escolha é correta se for realmente consciente, mas se é feita pelo senso moral é uma obrigação, o que é bem diferente.

Dessa forma, as pessoas mortas-vivas que andam por aí são facilmente condicionáveis e não é difícil lhes vender a ideia que se deve almejar a segurança em tudo como forma de se conseguir a felicidade. Isso é absolutamente impossível já que nada permanece, estando em constante movimento. Assim, é fácil entender as pessoas lutarem para buscar empregos e relacionamentos seguros e estáveis, ou seja, sempre tendo o medo por trás. Diga para uma pessoa realmente livre, se ela aceita em troca de dinheiro passar os próximos trinta anos dentro de um escritório, com uma vida previsível e sem novidades e veja se ela aceitaria.

É justamente por isso que a obsessão pelo dinheiro e o poder tem sido a tônica nesses últimos milhares de anos, porque se pensa que ele vai nos trazer essa liberdade, de se poder realmente viver com alegria e satisfação. Também não vai dar certo, já que se essa plenitude depender dele, faremos o que for possível para tê-lo e isso também é outro nome para a palavra prisão.

Nunca defendo a insanidade, a irresponsabilidade e a falta de ética, mas ser consciente de si e do que realmente se quer. Precisamos de alguma forma nos libertar desse “policial” que colocaram ao nosso lado desde que nascemos e que só nos diz “não” para nossos sonhos de, simplesmente, vivermos com alegria e sem medo.

Sinceramente, se for como parece, estou abrindo mão do paraíso e vou arriscar um local mais animado e quente, afinal a eternidade é longa…

A utopia chamada PERDÃO

“E, quando estiverem orando, se tiverem alguma coisa contra alguém, perdoem-no, para que também o Pai celestial perdoe os seus pecados. Mas, se vocês não perdoarem, também o seu Pai que está nos céus não perdoará os seus pecados”.

Marcos 11:25-26

                                                                                                                                                                    perdao3

Uma das coisas mais difíceis é perdoar, justamente por que o tipo de perdão que as religiões exigem é tão complicado que se torna quase impossível de ser conseguido, já que nossa mente não foi projetada para isso. E, nesses casos, torna-se algo muito irônico, já que a pessoa que foi machucada ou ofendida por outrem, sente-se culpada por não conseguir o tipo de perdão que se exige e que se pede para ter validade. Assim, o prejuízo é dobrado; além da ofensa recebida ainda mais a culpa de não perdoar. Haja sofrimento!!

Para entendermos como é difícil, precisamos entender o funcionamento do cérebro, para, por fim, procurarmos o perdão “possível” de ser conseguido. Toda a vez que vemos ou sentimos algum objeto, o processamento dessa informação é realizado no córtex que fica na área externa do cérebro e se parece com uma grande lesma, toda enrolada. Ao receber o estímulo, o córtex faz o trabalho de detalhar o objeto usando seus registros de memória para saber se ele já é conhecido, tendo, portanto um nome. Se não for, sua atenção é despertada e, por medo (preservação) você verificará cuidadosamente se oferece ou não algum perigo.

Agora, imagine que uma vez você foi atacado e mordido por um cachorro e, além do susto, esse incidente tenha trazido muita dor. Esse momento ficará então gravado nas amígdalas* (não são as da garganta), que por não terem um programa muito sofisticado, não analisam se o perigo é algum animal pequeno ou que realmente possa feri-lo novamente. Assustaremos-nos em qualquer lugar, seja no cinema, parque de diversões, casa de amigos, etc, sempre que ouvirmos ou percebermos qualquer sinal da presença de um cachorro, mesmo sabendo que nossa saúde não corre risco algum. As amígdalas dão o alarme ainda que o córtex insista em afirmar que está tudo bem.

 Assim, toda a vez que seu córtex detectar algum estímulo que se chame “cachorro” seu sistema de defesa entra em ação provocando medo, já que isso fez sofrer no passado e pode fazer de novo, e sofrer, para nosso sistema, pode causar nossa morte. É claro que, passado alguns segundos, o córtex, mais sofisticado que as amígdalas, avisará que, eventualmente, o cachorro não oferece risco, por exemplo, por estar preso. Mas do susto você não escapa! Isso explica porque muito dos medos serem irracionais e até motivo de graça por quem não entende o processo.

Toda essa explicação, bem simples, foi dada para dizer que não precisa ser mordida de cachorro, afogamento, acidente de carro ou qualquer outra coisa desse tipo. Pode ser também uma ofensa, uma traição, uma agressão verbal ou física, etc. Todo e qualquer evento que traga susto ou sofrimento ficará gravado no nosso computador chamado cérebro, sem análise de qualidade ou conteúdo. É um sistema igual ao dos irmãos animais que fazem parte da natureza, assim como nós.

E acontece de alguém nos fazer sofrer, seja pelo que for, e depois vem o pessoal do “deixa disso”, dando aquele conselho: Perdoe! Esqueça! Não vale a pena ficar assim! E tantas outras bobagens desse tipo. E você, um ser humano que tem o cérebro funcionando, fica fazendo uma tremenda força para conseguir algo muito difícil, que é apagar do seu sistema o ocorrido para que você possa “amar” aquela pessoa, desejar-lhe toda a felicidade do mundo e, como se já não bastasse, você deveria fazer de tudo para ajudá-la para mostrar que tudo foi “esquecido”.  Por favor!!!! E o pior, como já foi colocado, é que nos sentimos culpados por não conseguirmos perdoar, afinal, se, por exemplo, Jesus nos perdoou, como que não conseguiríamos fazer isso com essa pessoa?

Então, para não parecer tão perverso, você engana a si mesmo, fingindo que esqueceu tudo, que está tudo bem, afinal é isso que Deus, ou seja lá quem for, quer de nós. Depois de um tempo, essa repressão pode muito bem se transformar em alguma doença autoimune (provocadas pelo próprio organismo), por fazermos de conta que nada houve, isso ainda temperado pela culpa (consciência pesada) de não conseguirmos esquecer.

Assim como o latido ativa o sistema, qualquer situação semelhante ou mesmo ver somente a foto do agressor fará com que o ocorrido volte a nossa percepção para que possamos nos defender. Isso é automático, faz parte do corpo e nem quinhentas ou mil preces resolverão, muito menos confessar esse “pecado” para outra pessoa, que também tem um sistema igual ao nosso, possa nos perdoar.

Então qual é o perdão possível?

O que dá para fazer é o que chamamos de ressignificação, que nada mais é do que darmos uma outra versão do acontecimento, entendendo por outro ângulo, encontrando razões e até mesmo, por que não, vantagens no que aconteceu. Podemos entender o mau momento da pessoa, buscarmos entender que ela projetou sobre nós seus problemas e frustrações ou que isso nos ajudará no futuro como um aprendizado que nos tornará mais fortes, etc.

 Isso, com o tempo vai minimizando o efeito, simplesmente, porque nós colocamos isso de outro jeito dentro da nossa consciência. Agora, voltar a ser como antes, esqueça! Se já viu, estamos diante de uma rara exceção ou de um grande ator ou atriz. É a metáfora do copo rachado. Dá para ficar com ele por vários motivos, mas ele não será mais como era antes do evento. Esqueça e nem faça força para isso, que só vai colocar fora energia e ainda se sentir mal por não conseguir o impossível.

Existe uma infinidade de maneiras de dar esse outro sentido, e qualquer uma é totalmente verdadeira, você é livre para isso! Depois de encontrar essa nova “versão”, basta ter atitudes que demonstrem isso e seu perdão possível poderá ser atingido. Mas lembre de que só conseguirá o possível, nada mais!

Conta-nos a história que minutos antes de morrer, Jesus teria olhado para os céus e teria dito: “Pai, perdoe porque eles não sabem o que estão fazendo!”.

Me permito pensar: se Jesus, ao ressignificar o que estava ocorrendo com ele, dando uma desculpa para aplacar uma eventual ira de seu Pai ou mesmo na citação que abre esse artigo, onde Deus não nos perdoará se não perdoarmos, não estaria demonstrando que até Deus tem córtex e amígdalas?

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*Amígdalas – A amígdala, uma pequena mas importante porção do cérebro, está envolvida na produção de uma resposta ao medo e outras emoções negativas. A amígdala é fundamental para a auto-preservação da espécie por ser o centro identificador do perigo, gerando medo e ansiedade e colocando o animal em situação de alerta, aprontando-se para se evadir ou lutar.

Disponível:

http://www.psiqweb.med.br/site/DefaultLimpo.aspx?area=ES/VerDicionario&idZDicionario=72

ALGUÉM ZELA POR NÓS?

“Cada haste de relva tem seu Anjo,

que se inclina sobre ela e sussurra:

cresce, cresce.”

Talmude

Várias religiões e filosofias defendem a ideia de que existe algo ou alguém, destituído de um corpo físico que desde o nosso nascimento zela por nós. Esse acompanhante, segundo essa crença, possui um nível evolutivo superior ao nosso e tem por função nos ajudar em nosso desenvolvimento e, há quem diga, que também cuida de nos tirar de algumas enrascadas que nos metemos pela nossa infantil percepção. Para uns são os Anjos da Guarda, para outros são chamados de Mestres e assim por diante.

A questão que se coloca é se realmente somos tão infantis assim, que, pela vida toda,  temos a necessidade desse guardião estar atento durante 24 horas por dia nos sete dias da semana. As crianças, segundo a crença popular, precisam desse amigo ainda mais atento para evitar que se machuquem, já que não tem ainda o medo de morrer e são repletas de curiosidade. Qualidades essas que, depois de algum tempo, a maioria perde e cai no sono da “normose” levando seu protetor a um tédio, imagino, só mesmo suportável por quem tem uma missão divina.

Fico sempre pensando quando ouço alguém dizer que seu “santo é forte” como andamos mesmo à deriva pela vida. Como necessitamos acreditar na sorte ou azar para justificar nossas ações totalmente inconscientes e termos essa “carta na manga” que é o nosso anjo ou nosso santo predileto a quem recorremos quando nossas possibilidades se extinguem. E, dentro dessa multidão de necessidades, temos os responsáveis por nos arranjarem um cônjuge, a achar coisas perdidas e até mesmo, nos proteger durante as tempestades, onde a natureza mostra sua força e as crianças de todas as idades temem o castigo do papai. Além é claro do anjo que vem nos buscar quando termina nossa passagem, vestido solenemente de preto, como não poderia deixar de ser! Já que vivemos uma época de especialistas por todos os lados, porque não no céu também?

Nosso anjo é essa parte de nós que nos empurra para a evolução, que se deposita nas profundezas de nossa psique e que chamamos de Self, Eu superior, Atman (e tantos outros nomes), que sempre nos diz o que realmente queremos e onde precisamos chegar para nos sentirmos realmente plenos e libertos desses medos que aprendemos e que formam uma parede, atrás da qual se esconde nossa natureza essencial.

O nome não importa tanto quanto tomarmos essa consciência. Os meditadores mais experientes dizem ter encontrado esse ponto de silêncio que os preenche completamente ao suplantar a mente agitada e medrosa que não para de falar que poderemos passar por dificuldades e que tudo dará errado. Dizem eles que essa paz atrás da mente é o paraíso (nirvana), onde tudo fica claro e se enxerga a verdade, sempre escondida pelas nossas interpretações provindas da nossa domesticação.

Carl Jung dizia que os anjos eram “amorais” em certo sentido e, refletindo sobre isso, concluo que isso é mesmo verdadeiro, já que tem horas que o nosso “anjo” ou “eu superior” nos recomenda o que não está dentro da cartilha de certo e errado que cumprimos. Nem sempre o que precisamos e para onde devemos ir é certo para a maioria e sempre que isso acontece, mesmo antes de fazer seja o que for, vem a culpa de desafiar o que está estabelecido.

Meister Eckhart dizia que os anjos representavam as ideias de Deus e para Jung os anjos personificavam a tomada de consciência de algo novo que vem do inconsciente mais profundo, ou seja, quando tomamos ciência de nós mesmos e da nossa trajetória. Assim, consciente e inconsciente ou o lado externo e interno são reconciliados pelo “anjo” que evita que nossa vida se desorganize e se torne um desastre. Temos em nós essa parte ou anjo que mantém um mínimo de equilíbrio e passamos a vida sem tomar ciência da sua existência, apenas usufruindo de seu trabalho.

Já tive oportunidade de escrever em artigos anteriores que sempre observo que as pessoas sempre, sempre sabem o que realmente querem e o que precisam fazer. O que ocorre, é que muitas vezes isso está encoberto da consciência pelo medo. Nosso “eu” saudável está sempre clamando por atenção, mas sua voz ainda é baixa se comparada a que ouvimos desde sempre.

Dizem que Deus se manifesta pela boca dos homens e isso é a mais pura verdade. Nós, de alguma forma, já cumprimos essa tarefa quando prestamos alguma ajuda ou uma palavra desinteressada a alguém que podemos até nem conhecer. Esses são os “anjos” genéricos, que somos em alguns momentos, e outros o tempo todo por vocação.

Cabe-nos, evolutivamente, buscarmos incessantemente nos ouvirmos mais ou nosso anjo, como queiram. Não importa sua crença, o que realmente importa é estarmos disponíveis e de ouvidos bem atentos ao que vem de dentro de nós, a essa voz amorosa que quer nos levar a frente para enfrentar com naturalidade as dificuldades que a vida pode ou não nos trazer, mas que fazem parte do caminho. Só com algum silêncio interior será possível essa “conversa”.

Tenho certeza que de alguma forma todos já passamos pela experiência de perceber que o enfrentamento foi muito mais fácil do que se imaginava e nos lamentamos por não termos tido coragem antes. Nosso problema é que sempre esperamos o último momento, já quando não se aguenta mais. Até então esperávamos o milagre, mas nosso bom anjo sabe que precisamos mesmo é enfrentar para aprendermos a não confiar no medo.

É isso que o Talmude quer dizer com esse “anjo”, ou pelo menos é assim que interpreto, já que sei que temos essa liberdade de sermos o que nossos atos mostram, queiramos ou não. Isso é livre arbítrio, onde a inteligência indescritível que permeia tudo que nos cerca, confia que buscaremos sempre o melhor caminho em busca de evolução.

Tem “alguém” dizendo em seu ouvido: cresce, cresce!