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A importância do mal

“A única maneira de conservar a saúde é comer o que não se quer, beber o que não se gosta e fazer aquilo que se preferiria não fazer.”

                                                                       Mark Twain

“Se restar em vós a mais leve ideia de certo e errado, então vosso espírito se perderá na confusão”.

Shinjinmei – versículo 22 (Zen)

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Diz a lenda, descrita no antigo testamento como a “segunda criação”, que o primeiro ser humano era chamado Adão. Mas esse Adão era um andrógino, ou seja, não era nem homem nem mulher, ou os dois, como queira. Adão vivia no “paraíso”. Esse paraíso não era um lugar de temperatura amena, com todas as facilidades dadas gratuitamente, como um resort, essa é normalmente a definição de “inferno”. “Paraíso” quer significar que esse Ser estava em perfeita unidade com o Todo, ou seja, tinha o que hoje chamamos de “consciência cósmica” ou “iluminação”.

Um belo dia, Adão resolveu tirar parte de si e essa parte criou vida. Quando Lutero fez a tradução dessa passagem, chamou essa parte de Adão de “costela”. Daí essa parte tornou-se um outro ser, que foi chamado de Eva. Durante esse período enquanto a costela criou vida, o que é dito no texto é de que Adão “adormeceu”.

Adão e Eva continuaram a viver no paraíso e não havia a dualidade, ou seja, não havia qualquer tipo de discriminação, de bem ou mal, ou de certo e errado. A única coisa que representava essa dualidade eram as duas árvores que existiam lá que se chamavam: árvore da vida e a árvore do bem e do mal.

Um belo dia a cobra veio e conversando com Eva (que significava a parte vulnerável nessa metáfora) disse que ela poderia encontrar o discernimento entre o bem e o mal e para isso era só comer o fruto da respectiva árvore. Querendo isso, Adão e Eva, ao provarem desse fruto, passaram a separar as coisas em dois, ou seja, entre certo e errado e bem e mal. Assim, se tornaram duais e por isso não podiam mais viver no “paraíso” e foram expulsos. Na hora da saída, foi-lhes dito que precisariam ganhar seu “sustento” ou sua evolução, que haviam perdido, com o “suor do rosto”. Assim, de lá para cá, estamos buscando encontrar de novo essa unidade perdida e voltarmos ao paraíso e pararmos com todo esse sofrimento que temos, justamente por estarmos sempre divididos entre, por exemplo, o bem e o mal, ou o certo e o errado.

Do lado de cá do planeta esse conceitos nos foram dados pelo Cristianismo e, mesmo quem não é um cristão praticante, foi programado por esses princípios. Então estamos sempre “pecando”, já que o que é dito como “errado” são normas de condutas dadas para as massas, que não funcionam muito bem no individual. Com esse jeito de pensar, ninguém escapa de estar em pecado vez por outra, já que o proibido muitas vezes nem é fazer algo, mas pensar já configura o “crime”. Haja inferno para colocar tanta gente…

Tudo que queremos fazer e que gostamos, normalmente é errado. Quantas vezes o que é certo para nós é errado para os outros? E como não há um meio termo, ou andamos na “linha” dos mandamentos difíceis de cumprir ou a punição será fatal. Com esse jeito de pensar, tudo que é certo ou bem ficou com Deus e tudo que é errado ou mal passou a ser propriedade do Diabo. Se pensarmos bem, veremos que até Deus ficou dividido. Antes Ele era tudo, agora ficou pela metade.

O hinduísmo foi mais feliz e, entre o que se cria (Brahma) e o que se destrói (Shiva), tem um outro que “mantém” (Vishnu). Assim a eterna lei da impermanência, essa sim mais lógica e evolutiva, é mais bem entendida. Tudo está em movimento constante e não há nada que seja “certo” ou “errado”. Para tanto vou dar um simples exemplo: Todos concordam que matar é errado, mas é certo se estivermos em guerra ou se nossa fé estiver sendo atacada por quem não tem a religião que eu tenho (vide os conflitos religiosos que, absurdamente, ainda matam no século XXI).

Todos os nossos desejos, que os temos porque que queremos a felicidade, são amorais na sua essência. Se certo ou errado, vai depender da cultura, da época ou dos interesses vigentes. Como saberemos se algo é realmente o “bem”, sem que tenhamos tido, para nós, a experiência do “mal”?

A frase de Mark Twain que abre esse texto é emblemática e muito verdadeira. Para ser “certo” precisamos negar o tempo todo o que gostamos, o bom ou que nos dá prazer. O negócio mesmo é sofrer e nos “purificarmos”, vivendo a vida mais chata e sem graça possível. Isso pode até manter as pessoas na “linha”, mas muito de seu desenvolvimento precisará vir da rebeldia.

É óbvio que ninguém nega a ética e o respeito ao direito do outro, mas penso que você  entenda o que estou dizendo. Os “vigilantes” do certo/errado certamente terão motivos para distorcer o que digo, alegando que estou pregando a busca desenfreada do prazer. Esse tipo de interpretação é a mesma que condenou, por exemplo, o sexo à “sombra”,o que se tornou o embrião de todos os desvios, perversões e violências que testemunhamos hoje.

Já escrevi em vários artigos que a medida correta é o “caminho do meio”, ou seja, o equilíbrio. Leis só existem para quem não tem essa medida e está dividido entre o certo e o errado, ou entre Deus e o Diabo. Assim, para ser “certo” preciso reprimir o “errado” e o que reprimo, via de regra, pede passagem na consciência. Justamente por isso, quando alguém perde a cabeça e faz uma insanidade é comum dizer que estava “possuído” pelo mal. Na verdade, toda a repressão tem um limite. Se reconheço o mal em mim, posso dominá-lo mais facilmente. É bom nunca esquecer que tudo que reprimimos passa a habitar o inconsciente e isso quer dizer que não temos mais muito controle.

Tudo que estamos testemunhando ultimamente, como os eternos conflitos na Faixa de Gaza, ou a derrubada de um avião com 298 inocentes na Ucrânia nada mais é do que: Estou certo(bem) e quem não pensa assim está errado(mal). Nada melhor para erradicar o “mal” do que cortando pela raiz, no caso matando aqueles que não pensam como eu, ou justificando a morte das pessoas como “fazendo parte” da luta pela erradicação do mal.

Enquanto essa dualidade persistir, a idade das trevas não terá acabado. Diferente da Idade Média, onde a imbecilidade era apenas religiosa, todo nosso desenvolvimento levou à escuridão para a política e a economia.

Precisamos de “leveza” e compreensão. Aceitar o diferente precisa ser algo que não seja imposto por lei, mas por simples entendimento de que cada um pode ter suas escolhas que são “certas” para si.

Essa bobagem de ter um “certo” e “errado” para todos dá nisso. Quando vi as fotos de dezenas de crianças mortas por uma bomba jogada por Israel, ou quando vejo foguetes serem atirados de hora em hora sobre Jerusalém, fico pensando que a infância da humanidade ainda está longe de terminar.

Enquanto dividirmos tudo entre “Bem” e “Mal”, a ignorância, a bestialidade e o fanatismo serão a marca de um ser humano que vive na escuridão. A luz e a escuridão dependem uma da outra para serem entendidas. Enquanto todos os conceitos binários persistirem o mal precisará ser cada vez mais propalado para que se busque o bem.

A escuridão (inconsciência) não existe por si mesma, se não pela ausência de luz (consciência). É como uma gangorra que um dia precisará estar no equilíbrio. Já que se uma parte está no alto, o que está embaixo estará sempre ganhando impulso para subir e a oscilação, que significa sofrimento e ignorância, nunca terminarão.

Verdade e Mentira

“Quando um homem pisa no pé de um estranho

 desculpa-se educadamente.

 Se um irmão mais velho

 pisa no pé do mais moço

 Diz: “desculpe” e fica por isso mesmo.

 Quando um pai pisa no pé do filho,

 não lhe diz nada.

 A mais perfeita polidez

 está livre de qualquer formalidade.

 A perfeita conduta

 está livre de preocupação.

 A perfeita sabedoria não é premeditada.

 O perfeito amor

 dispensa demonstrações.

A perfeita sinceridade não oferece

 nenhuma garantia.”

                                              Chuang Tsu

                                                                                                                                                         mentira

O Taoísmo e o Zen têm ganhado cada vez mais adeptos no ocidente.  Dispensam escrituras sagradas e se dedicam mais a meditação deixando outras práticas como secundárias. Não se preocupam em falar de nenhum deus e buscam suplantar a mente, praticamente desprezando-a. Mas isso só é mesmo possível pela observação e entendimento de seu funcionamento. A mente é astuta, trabalha com medo, planejamento e busca tirar sempre o melhor proveito de tudo. Aspira à segurança, respeito e por isso é ardilosa.

Dificilmente é possível ser espontâneo em uma sociedade que vive pelos ditames da mente. Tudo precisa ser “pensado” e isso significa a busca de  uma estratégia para atingir o objetivo, seja qual for. A mente e a sociedade não gostam de surpresas. Tudo precisa ser conforme se espera, segundo as normas. Assim, as pessoas mais sinceras são as crianças e por isso não são levadas muito a serio. Sua sinceridade é tratada como se fossem ofensas ditas por quem não sabe o que diz. Deve ser mesmo por isso que em alguns lugares não devemos levar crianças. Elas são perigosas porque dizem o que pensam – a verdade – e isso é mesmo constrangedor.

Passados alguns anos, depois que sua inocência e sinceridade são esmagadas pela educação (domesticação) elas já estão prontas para conviver em sociedade, ou seja, já prenderam a mentir e a fingir como os demais.

Como já escrevi em artigo anterior, é praticamente impossível conviver sem mentir. Deve ser por isso que em determinados momentos da vida, quando depois de termos cumprido tudo que nos pediram e ensinaram e o sofrimento continua, alguns rompem com tudo e querem abrir mão de toda sua história em busca de uma mudança. Uma mudança que proporcione uma vida mais simples ou sincera.

As pessoas precisam se embriagar ou se deixarem ser levadas ao extremo para se permitirem dizer o que pensam e isso as sufoca, e as verdades saem aos gritos. Depois, a mente e o social voltam, pelo medo das consequências, a retomar o controle e os pedidos de desculpas vem na busca de, em primeiro lugar, dizer que as “verdades” eram mentiras ditas em momentos de destempero.

Para grandes Mestres como Chuang Tsu ser sincero e espontâneo é um pontos mais altos que se pode chegar em termos de evolução espiritual. E isso é muito interessante; ser espiritual é ser verdadeiro.

Osho diz em seu livro “O barco Vazio”:  até hoje, mais de dois mil anos depois, as “técnicas” cristãs não conseguiram que nenhum outro Jesus aparecesse. Permito-me completar, lembrando que ninguém que tenha seguidos preceitos de Sidarta Gautama tenha se tornado um novo Buda, passados dois mil e seiscentos anos de sua morte.

E, se formos ver bem, no cristianismo, por exemplo, todos ou a grande maioria dos mandamentos ou do que se considera “pecados” graves ou capitais, são coisas que não podemos fazer. Toda essa cultura baseada no “não” é limitante, tirando, portanto, a espontaneidade das pessoas.

Cabe colocar, que entendo a necessidade de limitar as ações das pessoas, já que isso tem o objetivo de criar condições de vivermos em grupo e evitar que a própria raça corra perigo. Infelizmente, devido ao precário ou quase inexistente desenvolvimento da consciência, precisamos de leis e punições, sejam dos homens ou de algum deus para nos mantermos minimamente na linha. O problema é que isso se torna necessário porque estamos sempre reprimidos, ou seja, existe uma energia que precisa ser controlada.

E aí encontramos toda contradição, já que, para ser espontâneo não posso planejar. Não temos a experiência de deixar que nossos pensamentos se tornem ações. Tudo que nos seja natural são barrados pelos conceitos proibitivos a que fomos submetidos desde a infância.

Já em seu livro* reflexivo, praticamente indispensável para o entendimento do desenvolvimento, Ernest Becker lembra: dissemos que o estilo de vida de uma pessoa é uma mentira vital…é uma desonestidade necessária e básica a cerca da sua própria pessoa e de toda sua situação. Não queremos admitir que somos fundamentalmente desonestos no que se refere a realidade, que não controlamos realmente nossas vidas. Não queremos admitir que não ficamos sozinhos, que sempre nos apoiamos em algo que nos transcende, um certo sistemas de ideias e poderes no qual estamos mergulhados e que nos sustenta.

Todas as relações que estabelecemos tem o objetivo de obtermos resultados, que nosso plano dê certo, e tenhamos sucesso no que quer que seja. Começamos isso na infância e essa é a descoberta, junto com o inconsciente, que torna Freud um marco, apesar de outros conceitos que já se mostraram insuficientes e pouco úteis em nosso tempo.

Dessa forma, vamos à medida que crescemos  nos anulando cada vez mais. Não é  atoa que os números de suicídios, alcoolismo e drogas estejam se multiplicando ano a ano no mundo. Isso pode ser interpretado pela perda da originalidade ou da sinceridade, como diz Chuang Tsu. Por isso, para entendermos seu sutra, precisamos sair da superfície e buscar sua enorme profundidade.

Escolhemos com cuidado as pessoas que pagam o preço de nossa anulação. São os filhos, empregados, pais ou aquele cônjuge ou amigo que sabemos não nos penalizarão com seu abandono. Sobre eles projetamos nossa ira e frustração pela perda de nossa naturalidade, culpando-os pelo nosso próprio desconhecimento, pelo fato de sermos obrigados mentir desde que nascemos, praticamente.

A mente medrosa e insegura tem medo de morrer e nos reduz a algo que apodrecerá. Do outro lado está o homem religioso de Jung, capaz de estabelecer um entendimento superior sobre essa triste realidade, a que parte de nós está sujeita; a de morrer e virar comida de vermes (cadáver). O problema é justamente esse, para vencer essa morte da carne precisamos transcender e os “pacotes prontos” das religiões já se mostram insuficientes. Aqui, encontramos a beleza dos ensinamentos de Sidarta, de aceitarmos as mudanças, de nos desapegarmos (não é afastamento) e pararmos de achar que algo que possamos ter nos salvará do nosso triste destino enquanto habitantes de um corpo perecível.

 Obviamente somos mais, muito mais, mas isso só é possível com a “sinceridade” de Chang Tsu, que, por ser honesta não pode oferecer nenhuma garantia. Garantir significa dizer que não ocorrerão mudanças. Impossível para a sinceridade!

A mente precisa dessa garantia, dos contratos e das promessas. Isso é ou não, outra definição para a palavra MEDO?

*”A negação da morte” – Ernest Becker ed. Record

“ O barco Vazio” – Osho ed. Cultrix

A vitória do mais fraco

“A fim de superar um sentimento de vazio interior e impotência o homem escolhe o objeto no qual projeta todas as suas qualidades humanas: seu amor, sua inteligência, sua coragem, etc. Ao submeter-se a esse objeto, ele se sente em contato com suas próprias qualidades; sente-se forte, inteligente, corajoso e seguro. Perder o objeto significa o perigo de perder a si mesmo.”

                                              Erich Fromm

                                                                                                                                                    Davi e Golias

Uma das coisas que chama a atenção nos esportes é a torcida a favor do mais fraco, mais pobre, menos favorecido em detrimento do mais qualificado, poderoso ou mais rico dos competidores.

Esportes que não ofereçam essa possibilidade não caem muito no gosto popular, já que torna a possibilidade da vitória heroica menos possível. Talvez possa ser interessante refletirmos sobre essa tendência e porque quando acontece nos emocionamos tanto.

Costumo sempre pensar que o encantamento da vitória do mais fraco seja a de nos mostrar que nossos sonhos também são possíveis. Projetamos no esporte, por exemplo, essa realização que nós mesmos achamos impossível em nossas vidas e é por isso que traz tanta emoção quando o mais fraco vence como nos mostra a metáfora da luta entre Davi e Golias. Transferimos nosso poder a um ídolo daquilo que não conseguimos concretizar em nossa vida.

Temos medo das mudanças que queremos, justamente por não termos a certeza que teremos sucesso. Nunca pensamos que nosso desejo se realizará, pelo contrário, esperamos sempre o pior e isso é que impede que muitos sequer façam uma tentativa.

Acostumamo-nos com esse jeito que queremos mudar e depois não conseguimos nos desapegar de parte de nós mesmos que sabemos que não está indo bem e está atrapalhando nossa vida. Isso nem é tão difícil de entender; somos como somos por muito tempo e mudar significa nos tornarmos algo desconhecido para nós mesmos. Pode parecer estranho, mas pare para pensar um pouco e verá que posso ter  razão.

Sonhamos com mudanças que, para acontecerem, necessitam que sejamos diferentes do que somos hoje e aí é que mora o perigo ou o medo. Essa mudança tão necessária para criar as condições para a transformação significa, em outras palavras, perdermos parte de nossa identidade (normalmente a que não está dando certo), e isso gera muita insegurança.

Como aprendemos que não devemos trocar o certo pelo duvidoso, tendemos a preferir ficar como somos a irmos em direção ao desconhecido, mesmo que essa pessoa esteja infeliz ou frustrada com sua vida hoje. Mesmo que seja claro que não haja quase nenhuma possibilidade das coisas melhorarem por si mesmas – quase nunca há, apesar de sonharmos com mudanças em que não precisemos nos esforçar – continuamos com a tendência de ficarmos onde já conhecemos.

Daí, adoramos ver as histórias de vida das pessoas que venceram dificuldades grandiosas, dos desprezados que se indignam com sua situação e transformam suas vidas, ou dos pequenos times que vencem os “grandes” e fazem história. Tendemos a não lembrar das vitórias comuns, onde o previsto acontece, mas tornamos verdadeiras lendas as vitórias consideradas impossíveis.

O leitor poderá argumentar que essas grandes vitórias contra o “destino” são em pequeno número se compararmos com as vitórias dos considerados “melhores” e é justamente aí que quero chegar. Porque sempre, ou na esmagadora maioria das vezes vence o melhor e mais preparado? Justamente por ser melhor e mais bem preparado!

Muito dos grandes de hoje, quase a maioria, foi pequeno antes de se tornar vitorioso e isso tem a ver com enfrentar o medo e acreditar que o impossível é possível. Até penso que muitos desses pararam para observar que, como isso acontece com certa frequência, nem deve ser tão difícil assim.

E aí eu faço uma pergunta: será que me sentir inferior,  achar que não consigo,  que o sucesso não é mesmo para mim ou que não nasci com a bunda virada para a lua, seja uma maneira com que me identifico e sobre a qual estruturei toda a minha vida e visão de mundo? Se for assim que me vejo ou me disseram que devo pensar, nunca mesmo vou conseguir. O mais perto que se chega, nesses casos, é chorar no cinema, no último capítulo do livro ou nos estádios pela vitória dos outros.

O grande sucesso que essas histórias fazem é justamente fazer-nos vibrar com a vitória dos outros, que venceram por “nós”. Tornamos esses vencedores nossos ídolos, compramos os produtos que eles anunciam, usamos suas camisas com orgulho, mas infelizmente, para a esmagadora maioria, não muda nada em suas vidas.

Esses vencedores parecem ser de outro mundo, onde o impossível acontece, não do nosso, das dificuldades e da esperança de uma recompensa no céu por todas as dificuldades que passamos.

Parece que a vitória dos “heróis” nos basta, ficamos preenchidos por elas e isso nos acomoda nas derrotas cotidianas. Vingar-nos-emos quando assistirmos outra superação ou quando algum Golias cair de cara no chão.

Palestras motivacionais estão sempre cheias porque nos dão uma dose de algumas horas de que é possível entrarmos para o Olimpo dos bem sucedidos, mas isso dura pouco e, em poucos dias, a rotina nos recoloca de novo na poltrona a espera do nosso milagre.

De outra forma, isso também pode ter a ver como as pessoas gostam de acompanhar escândalos com pessoas famosas, onde a queda é grande. Inconscientemente, isso pode mostrar como é bom ser um anônimo, desconhecido e desfavorecido. Quanto mais perto do chão estiver, a queda nem machuca. Preferimos acreditar que o “reino dos céus” será o pagamento por ser uma ovelha obediente, e com certeza, passaremos sem dificuldade pelo “buraco da agulha” que separa os que merecem daqueles que vivem bem e confortavelmente no pecado de serem bem sucedidos.

Estamos sempre transferindo nossos sonhos e frustrações em outros lugares, pessoas e situações com o objetivo de tirar o foco e a responsabilidade sobre nós mesmos. Como disse Willian Silverberg * em uma clássica definição psicanalítica da transferência:

 “A transferência indica uma necessidade de exercer um controle total sobre as circunstâncias externas com toda a sua variedade e multiplicidade  de manifestações. A transferência pode ser considerada como o duradouro monumento à profunda rebelião do homem contra a realidade e a sua teimosa persistência nos caminhos da imaturidade.”

Portanto, penso que ser Golias é melhor e dá mais resultado. Vez por outra ele encontra um Davi pela frente, mas isso chega a ser tão raro que vira história e a vida bem vivida é sempre feita de mais vitórias que derrotas. Perder faz parte e é do jogo, nos ensina os caminhos a serem corrigidos, para podermos continuar vencendo na maioria das vezes.

Como bem diz uma propaganda em voga durante a copa do mundo, o negócio é menos discurso (desculpas) e mais atitude. Nunca esqueça que o pior dos arrependimentos é o de não ter buscado sua realização, seja no campo que for.

Só assim teremos histórias para contar onde seremos os protagonistas. É muito melhor falarmos de nossas conquistas do que contar as vitórias emocionantes dos outros.

*Citado por Ernest Becker em “A negação da morte”.

A Educação essencial – 2a Parte

“O homem sábio não busca o prazer, mas a libertação das preocupações e sofrimentos. Ser feliz é ser autossuficiente”.

                                                   Aristóteles

                                                                                                                                                   samsara-roda-bhavachakra

Você se lembra do que estava te preocupando no começo de junho do ano passado? Ou mesmo com o que problema sua mente se atormentava em março desse ano?
Para a grande maioria a resposta será “não”.

Já reparou também, que sempre que sua vida está tranquila, você mesmo acha muitas vezes ridículo o “problema” que passa a incomodá-lo? Chega até a dizer ao seu interlocutor: “você vai achar graça do meu problema”.

Por isso é importante entendermos que nossa mente vive de criar problemas, e como a maioria acredita ser sua mente, passa a vida se preocupando o tempo todo, esperando que, se o problema do momento for resolvido encontrará finalmente um pouco de paz. Nunca vai acontecer!

Justamente por isso, a maioria das terapias tende a ser de longo prazo, visto que, quem procura ajuda, faz isso com o objetivo de resolver seus problemas e eles jamais acabarão, pelo menos enquanto estivermos habitando esse corpo dotado de uma mente.

Lembre que a mente cumpre função de sobrevivência e isso fará com que ela sempre deixe você preocupado com alguma coisa, visto que se essa “coisa” acontecer poderá trazer sofrimento. A finalidade então é tomarmos as providências para que tal coisa não aconteça. Só que isso, por ser função fundamental da mente, nunca terá fim.

Já mencionei uns cem números de vezes que nossas mais antigas preocupações, justamente por serem antigas, nunca aconteceram. Pense no tempo e energia que se desperdiça, uma vida esperando que alguma coisa aconteça. Tudo isso é uma grande bobagem, mas continuamos o tempo todo assim, criando um vício de estarmos preocupados, seja com o que for.

Qual o seu medo de hoje, por exemplo? Ele é inédito ou por falta de coisa mais criativa é dos seus modelos vintage de preocupações?

Todo meu esforço em falar desse assunto muitas vezes e de forma diferente é justamente buscar entender a natureza da mente e diminuirmos, e por que não, extinguirmos todo o sofrimento desnecessário. Como já sabemos, nosso corpo sofre com isso, pois a pressão dos pensamentos negativos nos mantêm tensos e isso sempre termina em alguma doença.

Nosso principal vício é de ficarmos pensando em coisas irreais, projetadas para um futuro imprevisível, ou vindas de um passado tão ficcional quanto.

Quando acontece de estarmos em um momento de certa tranquilidade esse vício fica criando preocupações novas para atender esse jeito doente de viver. O fato de estarmos sempre preocupados é, em última instância, um comportamento que faz parte da cultura que vivemos e, no fim, é muito pouco inteligente.

Quem garante que a pessoa tal vai morrer?

Qual a real certeza de que uma doença virá?

É mesmo “certo” que ficaremos sozinhos e abandonados?

A pobreza ou uma vida miserável no futuro é mesmo uma certeza?

O sofrimento do passado nunca vai mesmo acabar ou se repetir? Tem certeza?

O futuro é uma possibilidade e termos algumas atitudes previdentes em relação a ele não é errado, mas agirmos como se elas fossem uma certeza, beira mesmo a psicose.

Enquanto nossas alucinações não se confirmam, continuamos bobamente esperando por elas, com cada vez mais certeza, afinal se ainda não aconteceu, é porque vai a qualquer momento. Reflita sobre se isso é ou não um absurdo.
Tudo que acontece sempre nos pega de surpresa mesmo quando estamos esperando e isso é uma grande ironia. Mas mesmo sabendo, isso não muda essa doença de preocupações com as quais se faz fortunas, girando bilhões de dólares em remédios, planos de toda ordem e bens de consumo que imaginamos ao tê-los, pararemos de nos preocupar.

Seria tão complicado ensinarmos as pessoas sobre o funcionamento da mente? Teria alguém, como disse na primeira parte desse artigo, dificuldade de entender isso aos doze ou quinze anos?

Nunca conseguiremos terminar com isso, já que essas preocupações tem a finalidade de nos manter mais tempo vivos, agindo previdentemente, mas podemos nos dar ao direito de não ficarmos o tempo todo acreditando nessas bobagens e nos acostumando a estarmos sempre com alguma “minhoca” na cabeça.

Esse jeito de viver termina se tornando parte de nós e noto como as pessoas se sentem estranhas e inadequadas quando não estão sofrendo por alguma coisa. Elas dizem se sentirem “frias”, como se estar preocupado, sofrendo situações que não são suas ou que não existem, mostrem nossa solidariedade e medem o quando gostamos ou não de alguém.

Guarde isso para quando for mesmo REAL, e aí se justificará. Fora disso, busque uma libertação, que será lenta e gradual. Não há como alguém, de uma hora para outra, parar de sofrer desnecessariamente, sem achar que enlouqueceu.

Nosso maior obsessor é nossa mente e esse vício idiota de estarmos sempre sofrendo por qualquer coisa, até mesmo pelo que viu na televisão ou leu no jornal, que nem parte da sua vida faz. Note como acontecimentos que nada tem a ver com você podem “estragar” seu dia. E o pior; saímos contando isso para todo mundo para mostrar como somos bons de coração.

Já ouvi referências que a palavra “psicologia” tem a sua raiz ou significado como ciência da alma, mas do jeito que está virou a ciência da “mente”, ou seja, trocou de finalidade e nunca chegará a lugar nenhum.

Afinal se entendermos como tudo isso funciona e pararmos de sofrer desnecessariamente, aí sobrará mesmo tempo para uma verdadeira psicologia, aquela que se preocupe em ajudar a evoluir, ampliar a compreensão, descobrir a liberdade de atribuir novos significados e não em resolver problemas, na sua maioria imaginados ou porque não resolvemos direito nossos traumas de nascimento ou da infância.

Se isso fosse verdade, como se explica pessoas que passaram por inúmeras dificuldades, sofrimentos e abusos tocarem sua vida normalmente? Talvez elas não tenham muito tempo para desculpas. Querem viver bem agora!

Não acredito em algo que dependa do passado como uma forma de entendermos completamente a pessoa que somos hoje, essa sim, que demarcará até onde poderemos chegar amanhã.

Estive pensando: perdemos um tempão tentando entender nossos problemas. Seria útil se eles acabassem depois de entendidos. Mas logo vem outro, seja novo ou dos ainda não entendidos e tudo começa de novo. Ou entendemos a mente e começamos a tratar as bobagens como bobagens ou então seremos consumidos por isso até a morte e, se houver mesmo reencarnação, na próxima vida também.

Não é mesmo à toa que os budistas dizem que precisamos nos livrar da ignorância, se não ficamos nesse “samsara*” sem fim.

*Samsara – que em sânscrito significa perambulação (devanagari), é o fluxo de incessantes renascimentos. É a perpétua repetição do nascimento e morte, desde o passado até o presente e o futuro, através dos seis ilusórios reinos: Inferno, dos Fantasmas Famintos, dos Animais, Asura ou Demônios Belicosos, Ser humano, dos Deuses e da Bem-Aventurança. A menos que se adquira a perfeita sabedoria ou seja iluminado, não se poderá escapar desta roda da transmigração, ou Roda da Samsara. Aqueles que estão livres desta roda de transmigração são considerados lamas, iluminados (ou budas, em sânscrito). Fonte: Wikipedia

Eterna Evolução

“O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.”

                                                                                                         Mario Quintana

“O mal do mundo é que Deus envelheceu e o Diabo evoluiu”.

                                                                                                        Millôr Fernandes

                                                                                                                                                  evolução

Em uma de suas palestras transcritas no livro “Sufis: o povo do caminho”, Osho afirma que tudo no universo está em constante evolução e isso também incluiria Deus. Pensei sobre isso e concordo com ele, há lógica nisso, se não vejamos:

 Apesar de todas as definições sobre Ele sejam em forma de negação, como “impermanente”, “incriado”, “não nascido” entre outras, é lícito pensarmos que até mesmo Deus precisa evoluir.

Se tomarmos por base a própria natureza, aceita por todos como uma de suas faces, podemos observar que sua essência é movimento, com ciclos de nascimento e morte. Essa eterna capacidade de adaptação que também pode ser chamada de mudança ou evolução, mostra que “criar” também é mudar. Essa teoria se baseia na própria lei da física que diz que nada se perde, tudo se transforma.

Essa seria a única maneira de encontrarmos um ponto de encontro entre o eterno conflito da ciência com a religião, simbolizado por Darwin e Deus. Deus criaria com a imperfeição, que daria sentido à busca por desenvolvimento e Darwin diria que as espécies nesse processo se perpetuam pela adaptação (evolução) ou desaparecem. No caso do Homem, teríamos uma pitada de livre arbítrio, que daria o sabor para demonstrar que evolução ou desenvolvimento é resultado de ação e que nada caminha por si só em direção à plenitude. Se isso fosse verdade, nenhuma espécie desapareceria.

Todos têm maus momentos e porque não poderia acontecer isso com o Criador? Vendo só pelo lado criacionista, poderíamos pensar que as espécies que desapareceram, mesmo antes do registro da existência do homem, ou poderíamos dizer, no tempo em que já estávamos aqui, mas em um estado tão involuído que não tínhamos como registrar as memórias e saberes, foram erros corrigidos por não terem dado muito certo.

Em algum momento dessa evolução, seja por interferência divina ou, segundo Darwin, como algo necessário a manutenção da espécie, recebemos um sopro divino, hoje conhecido como neo córtex (novo cérebro) que nos dá capacidade de abstração, imaginação, criatividade e consciência elevada. Isso nos torna “quase” deus ou “semelhante” como diz o Gênesis. Mas, como sabemos, nem mesmo esse toque divino nos exime das barbaridades que ainda cometemos contra nós e os demais habitantes do planeta.

Não perdemos com o novo cérebro nosso passado de “quase bichos” simbolizados pelos nossos instintos de sobrevivência muito mal utilizados devido a essa mentalidade competitiva e de escassez que vivemos. Essa fina ironia de oscilarmos entre quase deuses e pouco melhores (às vezes nem tanto) que os animais, faz nossa fricção em busca de nos aproximarmos de novos patamares.

Se Deus está em todos os lugares, também está nas mentes doentias, na barbárie contra o próprio planeta e os animais que empreendemos, enquanto passeamos pelo espaço e já se fala na possibilidade de habitarmos outros planetas no futuro depois de destruirmos o nosso.

Madre Tereza, Hitler, Chico Xavier e Stalin são Deus, assim como nós em nossos bons e maus momentos. A diferença é que talvez eles não ficaram no “morno” advertido por Jesus e foram “quentes” ou “frios”, movidos pela coragem de serem o que foram e certamente estão em franca evolução.

Toda essa reflexão serve para não nos preocuparmos muito com nossos erros e os entendermos como parte desse aprendizado. Quando ganhamos mais percepção,  começamos a notar que sempre o que acontece foi previsto por nós mesmos no passado por não estarmos prestando muita atenção ao que fazíamos. Ou até por acharmos na época, que era isso mesmo que verdadeiramente merecíamos sendo nosso futuro um justo pagamento.

Saber realmente o que estamos fazendo agora é resultado de termos entendido como as coisas funcionam e com o tempo paramos de nos lamentar justamente por sermos mais responsáveis por nosso presente e futuro.

Dizem alguns cientistas que existem provas que o continente africano há milhões de anos atrás era grudado na América do Sul e que mudanças geológicas  afastaram os continentes. Mas bem pode ter sido Deus que, lá de cima, viu que a arrumação não ficou boa e separou os continentes para deixar tudo mais harmonioso entre tanta água que temos por aqui. Arrependeu-se do arranjo inicial e mudou.  Com isso temos duas culturas diferentes e o que vivemos hoje aqui e lá é resultado desse arrependimento geográfico.

Os ateus, penso, fundamentam sua crença em que Deus não existe, justamente por que os que acreditam Nele dizerem-no perfeito e infalível. Não tem como alguém com essas qualidades ter produzido “filhos” tão desastrados que criaram coisas como a bomba atômica e o chester, por exemplo. Se os crentes na existência de Deus assumirem que Ele está evoluindo e melhorando como nós, acabará o ateísmo. Chegaremos a um bom acordo!

Mas isso será mesmo difícil de acontecer. Precisamos, por sermos ainda evolutivamente primários, acreditarmos que tem alguém melhor que nós que nos cuide. Essa ideia de que Deus pode errar nos deixaria apavorados, à deriva.

Por isso, devemos nos tratar com mais tolerância e condescendência, afinal, como crianças, não sabemos direito o que fazemos. Mas como quem quer ir para frente, precisamos aprender com nossos erros anteriores e tratarmos de somente cometermos erros inéditos, demonstração clara de evolução.

Quem sabe um dia, junto com Deus, chegaremos à perfeição. Precisaríamos, a partir desse momento, pensarmos em um tipo diferente de vida, mudarmos tudo radicalmente.

Afinal, um mundo de gente perfeita deve ser mesmo muito chato!

Por isso tudo, me atrevo a mudar o ditado popular e dizer que: Errar é divino e perdoar também!