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O império do Medo

“A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo”.

                                                                         Voltaire

                                                                                                                                                                                                  medo

Como em uma pequena cidade do interior, onde todas as ruas desembocam na praça, por onde pretendermos entender nossa sociedade encontraremos o medo no final da busca.

No aspecto religioso, que ainda tem grande influência na formação da cultura e da moral, já nascemos pecadores e o medo da punição divina ou de não ter o “visto” de acesso ao paraíso faz com que muitas pessoas vivam baseadas nessa dúvida; se conseguirão terminar suas vidas aptas a passar para próxima com os méritos exigidos? A condição é sofrer quase sempre e com pouca alegria, receita que dizem, fez santos ao longo da história. Nunca tenha raiva, negue seu corpo e jamais repita o bolo. Tem Alguém que sabe o que você pensa, nunca esqueça! Pensar, então, também dá medo, nos torna impuros. Assim como castramos animais por ser mais confortável para o dono, muito de nossa essência humana precisa ser negada. E o pior, é que quem deveria nos mostrar que isso é possível, derrapa todos os dias, pois esquece que é humano. É muito difícil conduzir ovelhas sendo uma delas.

Na escola, ou mesmo antes dela, ficamos sabendo da escassez e competitividade do mundo e o medo de não conseguirmos nosso lugar ao sol, de não termos poder, de não sermos admirados e respeitados pelos demais faz dessa angústia uma companheira que termina se tornando tão íntima, que acabamos nem percebendo que ela está sempre conosco e fazendo parte da nossa vida. Pensamos baseados nela e fizemos escolhas a todo momento, vendo tudo em tons de cinza, só que esse sem nenhum prazer. Também tememos que nossos pais se decepcionem conosco por não atendermos sua expectativa de como deveremos ser e fazer. É incrível como os pais “sabem” o que é melhor para seus filhos sem que nem mesmo eles tenham essa resposta para si.

Olhamos em volta e a mídia nos mostra que o sucesso e o respeito, que no fim é só conseguirmos ser “alguém” no meio da multidão, virá inevitavelmente se tivermos aquele carro, um corpo desejável (nem sempre saudável), usarmos aquela marca e nosso celular for dessa ou daquela fruta. Claro, sempre com uma casa própria com muitos metros quadrados, suficientes para nos sentirmos sós junto dos demais.  Estarmos bem não basta, tudo virá quando tivermos tudo isso e quando isso acontecer, se acontecer, diremos aquela surrada frase; “Era feliz e não sabia”.

Quando finalmente percebermos que tudo isso só é bom porque é desejo, e se é desejo é só por não termos.  Mas aí, virão outros desejos sem fim, só que agora de uma filosofia ou religião que possa finalmente encerrar essa angústia e tornará tudo supérfluo e sem graça. Quem sabe alguém que toque aqui e ali, diga umas palavras ou desvende algum mistério de sua vida milenar ou que descubra o que você pensou quando era um feto traga a grande e esperada Resposta! O problema, é que quando todas as mágicas já tiverem sido experimentadas,  a vida desse mundo já nos decepcionou. Mas o desejo nunca acaba, disfarçado de desânimo, nos dirá que no “outro” mundo, aí sim!

Depois, tememos não sermos amados por alguém de quem possamos gostar, dessa pessoa especial não nos querer seja hoje, seja um dia. Mais tarde, quem sabe, essa pessoa tão especial não será mais especial e virá o medo de não amarmos de novo. Alguns temem não ter filhos, outros temem tê-los em um mundo do jeito que está.

Pensamos que poderemos não ter sucesso profissional, não conseguirmos o dinheiro que compre a liberdade de, finalmente, podermos fazer o que quisermos da vida, sem prestar contas a ninguém. Pensamos que uma boa poupança nos protegerá da morte, podendo oferecer os melhores médicos, remédios e hospitais. Tememos as doenças que pensamos inevitáveis e receamos não mantermos o plano de saúde (ou será plano de doença?) em dia. Já imaginamos que as doenças chegarão para nós e nossos filhos desde cedo. Será?

Todos os dias, o medo leva gente às emergências dos hospitais sentindo que estão morrendo, enfartando. Síndrome do Pânico, o medo que sai do controle e lembra que ele só existe por estarmos morrendo de medo, quando a vida pensada desse jeito nos retorna a uma metáfora do útero materno. Só queremos ficar em casa. Lá, com um mundo pequeno, limitado pelas paredes, sentiremos que estaremos seguros, enquanto o mundo continuará lá fora, perfeitamente bem sem nós.

Todos esses medos nos tiram o sono, elevam o peso ou então nos encaminham para atalhos como as drogas em geral, vendidas em bares, becos ou farmácias. Substâncias mágicas que tiram o medo por encanto, trazendo momentos de felicidade em uma vida cheia de esperanças que tememos nunca se concretizem. É mesmo um milagre, não acham?

Tememos a velhice, as doenças inevitáveis e, é claro, o abandono.

Toda a “máquina” da sociedade moderna é movida pelos nossos medos. Manter as pessoas angustiadas e receosas em suas imaginações mantém todo um sistema que vive da doença, indústrias que produzem os objetos de reconhecimento e, logicamente, a estrutura que vende tudo, entregando em casa e a crédito. O negócio é sossegar agora, e depois pagamos o cartão. Mas ele nos avisa que não devemos nos preocupar, se não tiver o dinheiro, use o crédito rotativo, outra mágica que transforma tudo em três vezes mais em um ano. Milagres de multiplicação.  Incrível, não acham?

No fim, vamos acreditando que tudo isso é assim e não tem jeito. Com certeza tem Alguém que sabe e está cuidando de tudo, só pode! Melhor que tenha, pois se não tiver, aí poderá advir o pior dos medos; de ser responsável por tudo que sou e também pelo que não consigo ser.

Quem sabe Sartre tenha razão quando diz que nosso desejo fundamental e, portanto, o grande medo, é não conseguirmos “ser” para toda a existência, uma eternidade que venceria a morte. Deus, nada mais seria que a projeção desse desejo para fora de nós, como sempre fazemos com tudo que nos incomoda ou não damos conta de resolver sozinhos.

O cavalo e a carroça

“A felicidade é inacreditável. Parece que o homem não pode ser feliz. Se você fala da sua depressão, tristeza, amargura, todo mundo acredita, parece natural. Se você fala da sua felicidade ninguém acredita, parece antinatural”.

                                                                      Osho – O Homem que amava as gaivotas

A religião é comparável a uma neurose da infância”.

                                                                     Freud

“ Conhecimento sempre nos expulsa de algum paraíso”.

                                                                     Melaine Klein

                                                                                                                                                                                         carroça e bois

Freud é considerado o pai da psicologia moderna, note que falei “moderna”. A psicologia existe desde que alguém teve um pensamento. Evoluiu quando esse pensamento foi compartilhado. Portando, a psicologia existe a milhões de anos. Você pode argumentar que a ciência fala de 30 ou 40 mil anos do Homo sapiens, mas alguns estudos de paleoantropologia (sim, isso existe) datam artefatos descobertos que exigiram inteligência para serem feitos há, pelo menos, dois milhões de anos.

Antes de Freud a filosofia acumulou a função de psicologia nas reflexões dos gregos de 600 anos AC ou dos textos védicos, muito mais antigos ainda. Essa pequena introdução serve para dizer que o homem pensa sobre si e a vida faz tempo, e pelo visto ainda sem um resultado concreto.

O que está faltando ou estamos fazendo de forma errada?

Vivemos em um mundo tecnológico, praticamente sem fronteiras físicas e o que vemos é a humanidade cada vez mais angustiada e doente.

 Depois de mais de quarenta anos de pesquisa, Freud chegou à conclusão de que o homem não consegue ou não seria da sua natureza a felicidade. Chegou a dizer que: “A nossa civilização é em grande parte responsável pelas nossas desgraças. Seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas”.

Nosso medo da morte pela sua falta de sentido e de uma explicação que nos conforte, criou as religiões. Desde daí, passamos a aceitar o sofrimento como algo inerente a vida e que a felicidade é uma utopia, ou feita de raros momentos, que “duram pouco” como diz a cultura popular. Já o sofrimento pode ser diário e é encarado como fazendo parte da vida.

Incrivelmente, muitas pessoas tem até vergonha de dizer que estão bem ou felizes. Parece que é um “peixe fora d’água”, e traz até constrangimento diante de tanta infelicidade e sofrimento por todos os lados.

Ninguém que está feliz precisa de uma religião, ou sente a necessidade de buscar algum deus, apesar de sempre dizer que seu estado positivo é “graças a Deus”. Pensando assim, a única coisa que podemos conseguir por nosso próprio esforço é estar mal, o bem vem de uma graça ou dádiva divina.

As religiões que conhecemos vivem dos nossos medos e angústias, principalmente no ocidente. Uma criança, que vive plenamente não precisa acreditar em deus ou em algum anjo da guarda de plantão e vê-las correndo e brincando nas igrejas nos deveria fazer pensar. Pedimos para que elas se calem, falem baixo ou se comportem diante da introspecção e melancolia que se respira dentro de um templo. Igrejas são feitas para ritos de pecados, culpas, dores e muita tristeza.

A tristeza precisa de um templo, a felicidade faz da vida como um todo seu templo. Você já viu alguém feliz entrar em uma igreja e ficar orando, pedindo um milagre ou intervenção divina?

Enquanto continuarmos ignorantes em relação a nós mesmos e nossas possibilidades, viveremos como crianças, pedindo proteção aqui e ali nesse grande supermercado que virou a fé hoje em dia. Aliás, a fé possível é a que cada um carrega em si, acreditando e confiando nas suas capacidades de realizar seus sonhos apesar das dificuldades. Pedimos o que já temos, afinal somos humanos e deveríamos ser mais conscientes de como somos, funcionamos e, portanto, entendendo de onde vem nossas limitações e dos potenciais criativos que dispomos, naturalmente.

Se pararmos para refletir, veremos que os momentos de felicidade que experimentamos, ou de uma gostosa gargalhada que relaxa todo corpo tem em si apenas uma coisa em comum: o não pensamento!

Pensar é angustiar-se com as perspectivas de um futuro sombrio ou de lembranças de um passado de sofrimento. Não conseguimos lembrar de bons momentos e trazer de volta a alegria, mas das tristezas que passamos, choramos novamente e a dor é como se estivesse acontecendo agora. Isso é a mente funcionando e a falta de autoconhecimento faz pensar que só somos nossa mente. Qualquer libertação parte do pressuposto da percepção que se está preso.

O homem é o único animal que pensa e isso deveria nos fazer o único ser desse planeta a ser plenamente feliz, pois temos a possibilidade de termos consciência do fenômeno da vida e de apreciá-la. Mas ficamos somente com a parte do pensamento que é automática, negativa. Ser automático não tem a ver com inteligência, mas o contrário.

 Estar consciente é um esforço que nos afasta do lado sombrio e pode nos fazer sentir a felicidade, que só é possível se dissociando ou se afastando da nossa parte animal, que busca apenas sobreviver. Nos preocupamos em saber de onde viemos, o que acontecerá depois da morte, se temos algum “carma” de vidas passadas a cumprir, se quando fomos concebidos nossos pais se amavam ou estavam brigando e algumas outras bobagens que nos mantêm em constante tensão.

Quem está consciente no “aqui e agora” não tem nenhum carma para pagar e sai dessa roda de inconsciência, onde um sofrimento leva a outro como a sombra segue o corpo. Não há futuro, afinal nada sabemos sobre o que virá, já que a vida é constante movimento e imprevisibilidade. Passado também não existe, já que mudamos e nunca realmente passamos pelo  que a pessoa que já fomos  fez.  Até nossa memória, já está comprovado pela ciência, é composta de coisas que imaginamos, muito mais do que realmente aconteceu. Só pode mesmo ser assim, afinal, como disse anteriormente, não fomos nós.

Portanto, me permitam a ousadia, quero dizer que não existe “carma”, já que não é a mesma pessoa que cometeu algum ato no passado. São conceitos que sustentam religiões, muitas que se acobertam com o nome de filosofia, que nos mantêm eternamente culpados e com medo da punição divina de algum deus que nem se sabe se existe. Isso sem falar que pode alguma entidade estar perseguindo-o por algo que, uma pessoa que você hipoteticamente foi e nem lembra, ter cometido algum ato bárbaro na idade média. Por favor!

Todas essas crenças são possibilidades e existem tantas que deveríamos, pelo menos, usando a razão, duvidar de todas. Enquanto isso deixamos a vida real se esvair enquanto “viajamos” o tempo todo nas nossas preocupações.

Temos um potencial de felicidade inesgotável, mas nosso subconsciente foi programado por pessoas que também foram vítimas dessas bobagens e não há tecnologia que nos salve desse desconforto existencial. Isso sem falar na cultura, que inclui o senso comum e as religiões que só faz nos sentirmos em dívida. Ouço pessoas que me perguntam se o mal que lhes está acometendo tem a ver com alguma punição divina ou cármica por eventuais erros do passado. Isso não existe! Se existisse, seríamos marionetes e o livre arbítrio não teria nenhuma razão.

As melhores crenças que conheço (e respeito todas), são aquelas que conseguem resistir a, pelo menos, cinco minutos de análise racional.

Quem está consciente de si e se compreende de forma ampla já pagou os seus “pecados”. O maior sofrimento é a inconsciência e estar vivendo sob condicionamentos e medos que foram passados por pessoas também inconscientes. Devemos avaliar se quem nos educou ou ensinou é alguém que atingiu um bom patamar de desenvolvimento. Se não foi, desconsidere e esqueça tudo!

Só podemos ensinar o que sabemos e vivenciamos. Quem leva uma vida de tristeza e sofrimento só pode ensinar isso, mais nada. Não posso ensinar raiz quadrada se nem somar direito sei. Isso vale para tudo. Fico pensando no valor de algum conselho sobre relacionamentos, por exemplo, de quem nunca teve um ou conviveu com alguém tempo suficiente para saber, pelo menos um pouco do que está falando.

Estar consciente é a única forma de atingirmos essa felicidade, afinal só assim temos escolha, que até pode ser de sentir-me mal. Na inconsciência só a infelicidade é possível, já que a mente nunca nos presenteará com algum bom pensamento e existem muitos textos nesse blog falando e explicando isso.

Muitas pessoas procuram a meditação, por exemplo. Isso só acontece por estarem infelizes e procurando um remédio não farmacológico para seu problema. Osho diz que meditação e medicina tem a mesma raiz e isso é muito interessante. A meditação é, de certa forma, um remédio que se busca para uma mente agitada que já está trazendo doenças para o corpo.

Não é necessário meditar quando estamos bem, pois estar bem requer consciência e é isso que a meditação busca trazer. Estar em paz com você e com a vida, com toda sua loucura, já o torna alguém meditativo, não precisa fazer mais nada, apenas viver e isso inclui tudo: trabalho, aprendizados novos e das experiências que tivemos e até pensar no futuro como uma possibilidade, afinal, quem sabe? Mas ficar tenso ou sofrendo quando nada realmente está acontecendo nos coloca abaixo de onde deveríamos estar na hierarquia desse planeta pouco importante e até mesmo no nosso discreto sistema solar.

Muitos comentam que não sabem o que querem fazer nas suas vidas, que nunca se encontraram. O motivo é simples: estão vivendo a vida e fazendo as escolhas que lhe mandaram fazer, nunca as suas. Fazer as próprias escolhas é ser desobediente às vezes, é fazer o que se quer, sendo o que se é. Se somos cópias, como descobriremos quem somos? E o pior; na maioria das vezes, cópia de pessoas infelizes.

Não existe nenhum paraíso ou inferno para ir, afinal a vida é aqui e não em algum outro lugar. Estamos querendo garantir uma próxima vida ou um lugar em algum paraíso e abrimos mão de viver o que temos hoje. Isso supera qualquer tipo de insanidade.

Pode ser que não haja outra vida. E se não houver ou for de outro jeito que ninguém descobriu ainda? Essas respostas nada mais são que crenças que visam trazer algum sentido o nos dar alguma perspectiva, mas isso ninguém pode afirmar.

Quem está apostando no futuro para viver melhor,  em outra encarnação ou viver em alguma nuvem tocando harpa está esperando, evolutivamente, que uma carroça colocada na frente de um cavalo vá sair do lugar.

Se for, é só para ir para trás.

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Para saber mais:

O Homem que amava as gaivotas – Osho ed. Versus

A história secreta da raça humana – Thompson, Richard L, Cremo Michael – ed. Aleph

O Futuro de uma Ilusão – Freud S. –  ed. L&PM pocket

Bom tempero

Crônica publicada na FolhaSC em 26 de Janeiro de 2016

O grande dramaturgo e cronista brasileiro Nelson Rodrigues foi quem mais escancarou nossas mazelas nos seus personagens. Em um deles, falando um vizinho da infância, dizia que o homem era um santo. Nunca soubera de alguma má ação do rapaz e descrevia que “ele caminhava com passarinhos nos ombros”. Quando casou, depois de algum tempo, sua esposa teria dito: “Eu queria um marido, não um santo. Se você não arrumar algum defeito vou me separar”.

Buscamos nos tornarmos pessoas cada vez melhores e isso, na nossa concepção, só chegará quando extinguirmos ou minimizarmos nossos defeitos. A esposa, desiludida com a perfeição do marido, nos mostra que alguém perfeito deve ser muito chato.

Nossos defeitos são na verdade nosso melhor tempero e os mais acentuados são os que nos aproximam e afastam das pessoas. Uma passada pela história mostra que muitos dos grandes vitoriosos só se tornaram conhecidos e admirados por estarem longe da perfeição. Ser totalmente bom traz uma sensação de assepsia humana, assim como uma sopa de hospital. Nutre, dizem que faz bem, mas, convenhamos, não tem graça nenhuma!

Na mesa, onde o que faz mal nos enche de prazer e culpa por nos fazer gulosos, mostra  que o bom e gostoso está muito ligado ao erro ou pecado.

Se pensarmos no orgulho, que, segundo alguns,  é o primeiro dos pecados capitais, fica um pouco misturado com autoconfiança e a certeza que os sonhos serão possíveis. Grandes vencedores sempre relatam que apostaram tudo em suas ideias e nem pensaram nas consequências. Quem pensa demais, normalmente é vencido pela dúvida e questiono se a prudência é mesmo uma virtude. Um mundo de pessoas cuidadosas e que pensam demais seria sem novidades. Olha quanto tempo demorou para a geladeira deixar de ser branca!

Flertamos com o mal ou errado todo tempo, nas diversas formas de arte. Ouvimos rock fazendo aquele sinal com a mão e as estampas de caveiras, demônios e bruxas não saem de moda. Somos uma agradável mistura de anjo e demônio, e expressamos ora um, ora outro, no espaço de poucas horas.

Ah, se nossos pensamentos pudessem ser ouvidos…

Temos a mania de comentar nossos defeitos e minimizar nossas qualidades como se elas fossem nossa obrigação. O limite entre a qualidade se tornar sem graça e um defeito trazer o que nos torna únicos é muito tênue. Pessoas que se mostram muito corretas mantêm o ambiente a seu redor sempre tenso. Todos se esforçam em não cometer erros diante de quem detém o ideal de como devemos ser. Dá um alívio quando o baluarte  da virtude  sai da sala ou vai dormir.

Parece que ser bom, de acordo com o padrão, exige um esforço doído e isso vem do medo de nos mostrarmos imperfeitos. Imagine o que seriam das festas se o álcool não desligasse o medo do nosso cérebro? Provavelmente desistiríamos delas, já que só sobraria solidão para podermos relaxar.

O sofá de casa ou mesmo a cama onde desabamos no final de um dia, pode ser o momento de nos aceitarmos inteiramente como somos, sem representações. É o que explica o profundo suspiro que nos acompanha quando nos permitimos relaxar.

Cumprir todas as regras de como devemos ser, vindas normalmente dos deuses, segundo dizem, deveria tornar a vida em sociedade perfeita.  Mas não é o que acontece e quando a noite cai, como uma metáfora, podemos, acobertados pela escuridão, buscar a inteireza de pecar sem ser visto. Nos desenhos animados a tentação fica de um lado e o anjo bom no outro ouvido. Como o olho brilha quando o diabinho fala!

Prazer e culpa se misturam, pois um leva ao outro. Isso pode ser a receita dos exageros que cometemos por todos os lados. Dizem os sábios que um exagero é um extremo, e nele o sofrimento está presente.

Justamente por isso os deuses gregos não saem de moda. Ao estudar sobre eles descobrimos desde o início que eles são imperfeitos e com os piores defeitos humanos. Por isso são lembrados com carinho, até para nos mostrar que a imperfeição nos acompanhará para todo sempre. Que alívio!

Talvez isso seja tão difícil de conseguir porque o caminho a ser percorrido está bloqueado pela ideia de certo e errado que ouvimos desde o nascimento. Tem uma frase de Mark Twain que diz: ”A única maneira de conservar a saúde é comer o que não se quer, beber o que não se gosta e fazer aquilo que se preferiria não fazer”.

O casamento do personagem de Nelson Rodrigues terminou logo depois e conta a lenda que ele nunca mais encontrou outra esposa. Parece que a perfeição está até hoje procurando entender o motivo de não ser feliz.

Lá e cá

Praticar Yoga na fifth Avenue ou em outro lugar qualquer ao alcance do telefone é uma mentira espiritual.”

                                        Carl G. Jung – Psicologia e Religião Oriental  – 1963

                                                                                                                                                                         yoga executivo

O que fez Jung ir além de Freud, em minha opinião, foi sua busca pela cultura e religião oriental. Lá ele formulou toda sua teoria que, a cada dia que passa se mantém atual e estabelece os pontos de divergência e convergência entre o homem que habita os dois lados do planeta.

Ele defende a ideia de que o homem oriental é tipicamente um introvertido, já o ocidental extrovertido e, por aí, começa toda uma diferença cultural que, hoje em dia, por modismo tentamos equiparar. Essa diferença também torna-se importante quando falamos da religião onde diz: “ O ocidente cristão considera o homem inteiramente dependente da graça de Deus ou da Igreja, na sua qualidade de instrumento terreno exclusivo da obra da redenção sancionada por Deus. O Oriente, pelo contrário, sublinha o fato de que o homem é a única causa eficiente de sua evolução superior; o Oriente, com efeito, acredita na auto-redenção”.

Também é importante ressaltar que o ponto de vista religioso, via de regra, sempre representará a atitude psicológica do sujeito, mesmo para quem não pratica a religião, já que essa influência se dá na cultura e costumes. Assim, no ocidente somos cristãos, queiramos ou não.

Dessa forma, nosso jeito de viver nos tempos atuais está nos adoecendo cada vez mais, e como é normal oscilarmos de um extremo a outro, buscamos cada vez mais no outro lado (oriente) a solução para a nossa angústia. Buscamos na Yoga, medicina ou alimentação a calma que imaginamos no homem oriental. Também é verdade o fato de que, antes do processo de globalização, algumas doenças tipicamente ocidentais, principalmente psicológicas, eram desconhecidas no oriente. Por pensar a vida diferente, o resultado só pode ser outro.

Quando Jung percebeu essa busca, já na década de 60 avisou: “Se nos apropriarmos diretamente dessas coisas do Oriente, teremos de ceder nossa capacidade ocidental de conquista…teremos aprendido alguma coisa com o Oriente no dia em que entendermos que nossa alma possui em si riquezas suficientes que nos dispensam fecunda-la com elementos tomados de fora, e quando nos sentirmos capazes de desenvolver-nos por nossos próprios meios, com ou sem a graça de Deus.”

Assim, ele mostra essa diferença com a qual precisamos nos entender e chegar a um acordo; ou somos ocidentais, vivendo como tal e esperando a “graça divina” ou nos assumimos com uma autonomia evolutiva que nos foi negada desde a primeira missa.

Nosso modo de viver, social e competitivo não se adequam em nada à cultura oriental. Como ressalta Jung, para a medicina de cá, a introversão oriental é considerada até uma patologia.

Assim, não há nada de errado em introduzir toda uma prática oriental em nossa vida, desde que entendamos que o resultado nunca será o mesmo, pela diferença cultural. Como bem ressalta Kierkegaard, estamos sempre em dívida com Deus aqui no ocidente. Isso se dá pela impossibilidade de conseguirmos cumprir os mandamentos e os pecados capitais por sermos, simplesmente, humanos. Esse débito (culpa) nos impossibilita da vivência da experiência religiosa, e assim ficamos parados no mesmo lugar. Como temos algo em nós que nos pede essa evolução interior, estamos vendo no oriente nossa saída. Viajamos para a Índia e achamos tudo lindo, a cultura, a religiosidade, a sujeira das ruas e o caos do trânsito.

Junto com as fotos diante dos templos em postura de lótus, também está a preocupação com as contas a pagar quando voltarmos da viagem. Por aqui, convivemos com um tipo de religião que, como diz Jung: “A fé implica, potencialmente, um sacrificium intellectus, desde que o intelecto exista para ser sacrificado”. Assim, esse modo de viver traz um paradoxo que, se não for resolvido, impede que o que se busca na cultura oriental possa ser encontrado.

Tudo que importamos de lá está dentro de um contexto de milhares de anos. Aqui, somos educados, desde a infância, para sermos agressivos e competidores, enquanto a Índia, por exemplo, foi dominada por um povo que tinha tamanho e população infinitamente menor. Não estou julgando quem está certo ou errado, apenas mostrando que são diametralmente opostos e que o mais possível é uma aproximação, um meio termo, que inclua práticas sem a utopia de nos transformarmos em quem não temos como ser.

Quando buscamos a paz em um retiro de meditação, por exemplo, nos são oferecidas todas as condições como um lugar bonito em contato com a natureza, silêncio e uma alimentação saudável. Três dias depois, caímos na correria, na música alta do vizinho, no cheiro de fumaça e um fast food no almoço, pois estamos atrasados para um compromisso profissional.

Portanto, não há nada de errado em experimentarmos tudo isso, mas precisamos ter a consciência de saber o que podemos esperar como resultado. Somos bombardeados covardemente pela mídia para comprarmos coisas o tempo todo e a lutarmos pela sobrevivência nessa sociedade capitalista e extremamente competitiva. Dá para amar o concorrente à promoção na empresa?

Do lado de cá, jogamos tudo para fora, seja em Deus, no destino ou na boa ou má sorte. No oriente tudo está dentro de nós, nas ilusões das quais precisamos nos desvencilhar para enxergarmos a verdade. Diferenças como essas são irreconciliáveis e não será passando um mês se banhando no Ganges ou ficando de cabeça para baixo em um ásana que encontraremos esse equilíbrio.

Precisamos mudar o jeito não só como vivemos, mas como pensamos e colocando alguns pontos, como quem tempera uma comida, em nossas ações para podermos trazer um pouco do Oriente para nossa vida por aqui. Tudo dentro do que é possível, só isso, sem grandes expectativas.

Assim, Jung encerra o pensamento com uma sentença, atualíssima, mais de meio século depois; “Mas é impossível ser um bom cristão na fé, na moral e no desempenho intelectual e, ao mesmo tempo, praticar honestamente a Yoga…ou seja: o homem ocidental não é capaz de se desligar tão facilmente de sua história, com sua memória de pernas curtas. Ele possui a história como que no sangue. Não aconselharia ninguém a ocupar-se com a Yoga sem uma cuidadosa análise de suas reações inconscientes. Que sentido tem imitar um yogue, se o lado obscuro do homem continua tão cristão e medieval quanto antes?”

Um Buda, não é possível no Ocidente, mas um filósofo sim.

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As partes em itálico são transcrições do livro.

A Yoga aqui é usada como uma metáfora da cultura oriental no ocidente e no sentido da sua prática mais profunda, como uma filosofia. Sou particularmente favorável a sua prática e a incentivo, enquanto essa busca de equilíbrio.

C.G. Jung Psicologia e Religião Oriental . ed. Círculo do Livro 1989.

O Ponto Certo

“Um homem foi procurar um Mestre Zen e perguntou:

– Como você fez para chegar a esse ponto?

O Mestre Zen respondeu:

– Como quando tenho fome. Não como quando não tenho fome. Falo quando tenho algo a dizer e nada falo quando não tenho algo a dizer. Assim para tudo.

O Homem disse:

– Mas isso todos fazem, é o caminho comum.

Ao que o Mestre responde:

– Você não faz isso. Se fizesse, não tinha vindo a mim.”

Caminho do meio

O equilíbrio e bem estar tem uma receita simples. Precisamos pensar porque ela é tão difícil de ser conseguida, afinal todos poderíamos fazer isso. Pessoas que frequentam o “caminho do meio” encontraram o que se pode chamar de felicidade, palavra tão falada e muito pouco definível.

Mas como tudo em nosso mundo é dual, poderemos dizer sem esforço que não sofrer é estar feliz, concorda?

Todo problema é que a mente funciona baseada em extremos, trabalha sempre com a pior e mais sofrida possibilidade. Imediatamente esse pensamento se manifesta em reações físicas de tensão que precisam ser amenizadas e esse é o caminho dos excessos; a busca de rápido fim para o sofrimento.

O que vejo é as pessoas indo de um extremo a outro e nunca conseguem sucesso porque a oscilação do pêndulo é constante. Se estiverem, por exemplo, acima do peso, entram em uma dieta agressiva abrindo totalmente mão das coisas que gostam e isso gera sofrimento. Depois de atingirem seu objetivo na balança, voltam a seus prazeres (isso é normal) e o peso volta. Sempre os extremos.

Se a pessoa gosta de fumar, por exemplo. Não fuma uma ou mais carteiras em um dia porque gosta, mas porque precisa da nicotina para abrandar sua ansiedade. Para de fumar, e aumenta de peso, já que o problema continua e só foi trocado de escape. Sofre anos de saudade do “cigarrinho”. Extremo.

A pessoa é um apreciador de cerveja. Quando bebe todos os dias “um pouco” e muito aos finais de semana ou em alguma festa não está presente o apreciador, o degustador, mas o alcoólatra. Ele precisa de algo que o relaxe da tensão física advinda dos seus pensamentos angustiantes e de lembra-lo dos problemas que não consegue resolver.

Poderia citar ainda os usuários de drogar ilegais (a maioria é usuário das drogas patrocinadas pelo Estado), as compulsões por compras e jogos. Mas penso ter sido compreendido na essência do problema.

Assim as pessoas vão sempre de um extremo a outro o tempo todo e isso sempre é sofrimento, seja pelo excesso ou pela ausência do que gosta.

Não conheço nenhum apreciador de bebidas, seja qual for, que tenha  se tornado alcoólatra. O alcoolismo é excesso ou necessidade. Dá na mesma. Nunca vi ninguém se tornar dependente químico tomando algumas doses por semana. A questão é sempre de CONSCIÊNCIA. Se a pessoa aprecia, percebe as nuances, ela nunca consegue ficar bêbada, simplesmente porque o estado de embriaguez é resultado de inconsciência, ou seja, bebo os meus pensamentos e angústias e não a bebida em si. O tratamento mais popular do alcoolismo (quero deixar claro que não sou contra) é baseado no medo. Assim, a pessoa que está há, por exemplo, dez anos sem beber se diz um alcoólatra. Isso é no mínimo uma mentira, afinal como que alguém que não bebe é alcoólatra. A pessoa se mantém longe pelo medo de voltar a beber do jeito que bebia e pelo sofrimento que isso trazia a ela e sua família, mas de novo foi de um extremo a outro, e se está em um extremos, sofre!

Vamos para o caso da alimentação que é o mais comum. A pessoa não ganha peso pelo que come, mas pela quantidade que come. Quem come o que precisa nunca engorda, afinal o corpo tem uma inteligência e não quer morrer. Agora, quando a caloria e o doce viram anestésico emocional, a quantidade precisa ser grande e o aumento de peso é questão de matemática e tempo. Nunca vi quem come uma “fileira” de pequenos quadradinhos de chocolate virar chocólatra ou engordar mesmo que faça isso com frequência. Quem gosta, aprecia, conscientemente sente o gosto e a qualidade e recebe o sinal de satisfação no mesmo tempo de quem está angustiado. A diferença é a seguinte: um apreciou um pedaço conscientemente (lentamente), o outro comeu a barra toda, inconsciente e rapidamente e nem importa que marca seja. Estava sofrendo e queria algum prazer. Isso também vale para as comidas calóricas.

Já em relação ao fumo eu pergunto: O leitor (a) já conheceu alguém que teve problemas de tabagismo por ser fumante exclusivo de cachimbo?

Imagino que a resposta seja “não” e é simples de entender. O cachimbo exige um certo ritual e dá algum trabalho fazer aquele artefato funcionar. Os bons fumos custam caro, o que faz o fumante apreciar seu investimento e isso é estar consciente. Seja pelo trabalho de fazer tudo de novo, mas tenho certeza que pela consciência de ter apreciado, depois de utilizá-lo uma vez o cachimbo é limpo e guardado. Ninguém terá enfisema pulmonar assim ou problemas cardíacos advindos do fumo. Agora, quem está ansioso, tenso e sofrendo precisará de inúmeros cigarros para ter os vinte minutos de paz que a nicotina fornece por peça. O fumante inveterado nem percebe que acendeu o cigarro de tão inconsciente que está mergulhado em seu sofrimento mental.

Assim, toda  a série de doenças advindas dos excessos alimentares, álcool e tabagismo que estão matando cada vez mais e serão responsáveis pelo aumento geométrico nos casos de câncer nos próximos anos, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) advém da falta de equilíbrio. O uso desses recursos para suprir problemas emocionais e não por cada uma das  substâncias em si.

Não sou usuário nem defendo o uso de entorpecentes, mas faça uma pesquisa e veja se a maconha não mata muito, mas muito menos que o álcool e o cigarro, por exemplo, no mundo. Muitos países já descriminalizaram seu uso por saberem que, como os demais entorpecentes legais, o que faz mal é a quantidade.

O Mestre Zen de nossa história, mostrou que tudo que é feito conscientemente não leva ao desequilíbrio, pelo contrário. A questão toda sempre termina no mesmo lugar: se estamos conscientes ou não do que fazemos. Nos extremos sempre está a ausência do outro polo e o pêndulo está ganhando força para voltar. Assim a oscilação nunca termina e o sofrimento é certo.

Como já escrevi anteriormente o caminho do meio contempla os dois e porque não termos o que se gosta? Seja um bom fumo, uma bebida de qualidade ou apreciar uma iguaria calórica nada vai lhe fazer mal desde que você saiba (esteja consciente) do que faz.

Já tive o privilégio de profissionalmente conhecer pessoas que encontraram seu “ponto certo” a partir de um vício ou compulsão. No começo, precisaram se afastar do excesso para encontrar o equilíbrio. Hoje, porém, voltaram a poder usufruir do que gostam, mas não precisam mais disso para se acalmarem. Isso é mais do que se chama de cura pelo afastamento, é evolução!

A natureza vive dando os seus sinais e só vê quem tem olhos, como diria Jesus a seus cegos seguidores. Assim, observe ou pesquise no Google quais os animais que tem a vida mais longa. Dê uma olhada na lista e veja se lá tem algum rápido ou que faça tudo velozmente. A receita é a lentidão ou seja consciência. Não estou dizendo que uma tartaruga marinha seja um sábio ou um molusco* que vive quatrocentos anos tenha a receita da iluminação.

Apenas digo que se você estiver consciente poderá ter tudo, mas sem excesso e isso contempla os dois extremos  do sofrimento que é ter e não ter.

Certa vez, Sidarta Gautama resumiu isso como só um Iluminado poderia:

“Tudo existe, é um dos extremos.

Nada existe é o outro extremo.

Afasta-te dos extremos.”

Só isso.

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* O molusco Arctica islandica vive em média 400 anos. Há registro de um com 410 anos.