Agenda

A Ceia

Todos ainda estavam sentados em torno da mesa.

Como sempre, comida de sobra, com a velha desculpa que será consumida nos dias seguintes. Ao lado da mesa, papeis de presente rasgados depois da revelação do “amigo secreto” estavam amontados em um pequeno monte. Sentia-se um desconforto no ar.

Quando se come mais que o necessário, o corpo precisa se ajustar ao fastio. Uma sensação desagradável e um arrependimento obrigatório, como uma ressaca moral. O preço que o metabolismo cobra é uma certa tristeza, um ânimo rebaixado pelo prazer em excesso. Tudo tende ao equilíbrio, como um elástico, quando solto depois de esticado, fica menor por ter estado grande demais.

O rito já tinha sido cumprido. Oração, brincadeiras que se repetiam e, por fim, antes do jantar, a lembrança dos que já morreram. Alguém havia sugerido inverter a ordem, começando pela tristeza e depois rumar para a alegria. Voto vencido pela tradição que diz que a tristeza é mais importante, precisando, portanto, ficar para o final em respeito aos mortos. Fala-se como se estivessem ali, mas a reação é como se tivessem desaparecido para sempre. Primeiro a morte, depois a vida. Quanto encantamento por uma expectativa!

A matriarca passava os olhos em torno da mesa. Filhos já mais do que maduros, netos adolescentes contando os minutos para poderem ir para outro lugar. Percebia pelos olhares que trocavam. Como isso deve ser maçante para eles, pensava. Ela sabia que, quando morresse, tudo iria acabar. Nenhum dos seus filhos tinha sua determinação para manter a família unida, ou porque não gostavam desse tipo de encontro familiar. Na verdade, ela nunca havia permitido que escolhessem.

 O que a mantinha com força de continuar apesar do corpo cansado e dolorido era o próximo natal. Ver todos juntos, resultado de um encontro fortuito transformado em família ocorrido a sessenta anos atrás. Ninguém estaria ali, se ela não tivesse que se abrigar em uma loja durante um forte temporal. O rapaz simpático do balcão virou pai de seus filhos. Estaria tudo “escrito” ou um mero acaso causado por uma tempestade de verão? Pensou muito sobre isso, depois descobriu que era perda de tempo.

Chegou a pensar em perguntar se todos gostavam dessa reunião na noite do dia 24, mas desistiu. Sabia que diriam que sim, mas não estava com vontade de ver rostos com outras respostas. Melhor esperar estar enganada. Nunca conseguimos nos iludir completamente, mas existe a velha e imortal esperança de que o que está diante dos olhos e da razão seja mentira.

Faltavam crianças. Noite de natal sem elas não é a mesma coisa. O brilho nos olhos pelo esperado presente é um sinal de espanto com a vida que vamos perdendo com tempo. Crianças e velhos curtem mais esses momentos. Os pequenos estão descobrindo um mundo que vai ficando maior a cada dia. Poucas decepções, só as que os pais zelosos não conseguem evitar. Já os mais velhos, curtem tudo com ar de despedida, chegando cada vez mais perto da grande pergunta. Querendo evitar descobrir a resposta, esticando a vida, mesmo com limitações.

O filho mais velho cochilava. A esposa, ao lado, fazia bolinhas de papel com pedaços de guardanapos. Estavam todos esperando que ela levantasse para irem dormir enquanto os netos teclavam nos celulares.

Amanhã estaria sozinha de novo. Desde a morte do marido, percebeu, que a cada ano um dos filhos ficava com ela para o almoço do dia 25. Um revezamento, que a fazia sentir-se um estorvo. Como de costume, as sobras da noite ganhariam vida no almoço do dia seguinte, já em pratos do dia a dia.

No ano novo, um dos outros filhos viria buscá-la para a virada. Depois, uns dias na praia com o encarregado da vez.  Lembrou-se da Santa que passa três  dias em cada casa durante o mês, levando proteção e bênçãos, ficando, a cada visita, mais pesada na gaveta debaixo da minicapela, com mais moedas e menos notas. Sinal dos tempos.

Levantou-se da mesa com dificuldade. Todos “voltaram a vida” e fizeram os pequenos comentários habituais; “já é tarde”, “estava tudo ótimo mãe!” e o mais comum de todos: “Mais um natal se passou…”. Dias de preparativos e combinações para um jantar que misturava alegria, melancolia e constrangimento cada vez em doses mais desproporcionais. Teatro familiar obrigatório, determinado por uma data. Preferia cada vez mais comemorar seu aniversário, nesse dia ela tem certeza que estão felizes por ela ainda estar viva.

Enquanto todos se levantavam, a velha senhora desejou a todos um “Feliz natal” e saiu sem que percebessem seu nó na garganta.

Sentiu um alívio ao deitar e percebeu que estava cada vez mais cansada sem motivo, já que tudo que fazia era viver preocupada com todos e da saudade dos tempos que as crianças corriam pela casa.

As imagens dos seus cinco netos lhe vieram à cabeça e percebeu que chegará uma hora em que eles também estariam contando os dias para o próximo natal.

No ano seguinte, como a velha senhora imaginou, cada filho fez seu natal particular e a noite do dia 24 foi trocada por um almoço dias antes onde nem todos puderam participar.

 Final de ano é sempre tão corrido…

E se for só isso?

“Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas. Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!”

                                                                Nietzsche –   Gaia, a ciência § 276

“É impossível enfrentar a realidade o tempo todo sem um mecanismo de fuga.”

                                                                 Freud

                                                                                                                                                 realidade virtual

Não existe crença sem dúvida.

Se, por um lado, temos a esperança de que o que acreditamos seja mesmo verdade, por outro, como toda esperança, existe um temor de que não seja. Crenças são necessárias até certo ponto. Precisamos delas como uma forma de entendermos o mundo e suas contradições. Aliás, as contradições do mundo sempre são um problema só nosso, já que o mundo é como é, e não somos tão relevantes assim para que ele mude por nós.

Independente se acreditamos em duendes, gnomos, fadas, anjos, querubins, alienígenas (de todos o de mais provável e até probabilística certeza de existência) ou qualquer divindade, é através deles que se atribui o saber que usamos para lidarmos com os acontecimentos incontroláveis da vida. Como já citei em artigos anteriores, quando nos deparamos com nossa falibilidade e de tudo que acontece a nossa volta, a sensação de desamparo é inevitável e uma “mão” amiga, mesmo que invisível e muito improvável, já nos dá alguma segurança para tocarmos em frente.

O interessante é que, quanto mais essa crença for cega e leve a pessoa ao radicalismo, mais ela tenta arregimentar seguidores e olha com certo dó quem não segue sua linha. Sempre penso que, quanto mais se precisa de novos seguidores, fora a questão financeira da manutenção da estrutura, está embutida a necessidade de que mais gente também acredite. Isso traz a ideia de que, realmente, as coisas são como creio, afinal, tanta gente acredita junto! Pode parecer impossível, mas se todo mundo também pensa assim…

A questão que coloco é simples: Por quê a vida não pode ser só o que vemos? Qual a necessidade de um grande significado por trás de tudo, seja do desabrochar da flor ou da maldade no mundo? Como disse acima, toda crença carrega o medo de ser falsa. E as mais importantes questões, como o significado da vida, o que virá depois, se teve algum antes e tantas outras só servem para aumentar a ansiedade. Perguntas demais e respostas impossíveis, já que fazem parte do âmbito do “acreditar”.

Quer queiramos ou não, uns mais outros menos, todos deixamos nossa marca no mundo. Estar vivo é fazer parte e nunca sabemos o quanto afetamos o que chamamos realidade. Alguns grandes pensadores nos convidam a aceitar o mundo tal como ele é e alguns outros revolucionários querem mudá-lo. Uns usando violência e poder para ter mais poder. Outros para impor suas ideias baseadas na crença (essa uma das mais absurdas) de que tem a receita correta para termos um mundo melhor que vale para todas as culturas e pessoas. Caso clássico do sistema educacional que ensina a mesma coisa para pessoas diferentes. Como se fôssemos todos iguais, revogando a biologia. Bom para manipular e matar as diferenças, bom para as farmácias, Capital e governos. Ruim para as pessoas. Mas quem mesmo se preocupa com aquilo que não rende poder ou dinheiro?

Com esse sistema de crenças vamos vivendo sem pensar, já que temos as respostas que as crenças nos dão. E a mais comum é a esperança que existe uma “inteligência” ou ‘Alguém”por trás de tudo, que comanda a vida para o bem de todos e aqueles que estão sofrendo é por merecimento ou aprendizagem, só pode! Se alguma coisa está errada, é por não entendermos um desígnio maior, falta de percepção ou burrice nossa. Figuras ilustres da religião nos remetem diretamente à ideia do sofrimento como forma de purificação para o que virá, ou de que, se não cumprirmos as regras seremos duramente punidos pela justiça divina. Aliás, pensando nisso, se houver mesmo outra vida, quando nossos ministros do Supremo morrerem, toda a bandidagem que habita os nove níveis do Inferno de Dante será solta com Habeas Corpus e tornozeleira e, com certeza, virão nos assombrar. Merecemos tudo isso, por termos nascido pecadores e impuros.

Mas aqui vai mais uma crença: tudo por ser só isso que vemos, simples assim!

Talvez a grande receita seja uma “dúvida razoável” e quem vê filmes ou série de advogados americanos sabem do que falo. Pode ser que a sua crença seja verdadeira ou uma grande bobagem. A do seu amigo também. Algumas, principalmente as mais famosas, precisam de um grande esforço imaginativo para serem levadas à sério. Como disse Kant, precisamos afastar a razão para arrumarmos um lugar para nossas crenças.

O que sugiro é duvidar, lembrar que pode não ser como pensamos/acreditamos/esperamos. Como a alternativa “E” das provas; nenhuma das respostas anteriores. Lembra?

O dia que ficarmos só com o que vemos, sem grandes leituras metafísicas, poderá nos bastar. Nesse mundo vivem e morrem pessoas boas e más, diferentes e indiferentes, inteligentes e nem tanto, preocupadas e desligadas, medrosas e os medrosos que enfrentam o medo porque tem medo de sentir medo. Às vezes dá tudo errado, em outras tudo certo, a justiça impera e em outras falha. Talvez atrás da flor tenha só um pássaro que polinizou assim como na enxurrada que mata não há nenhuma fúria, apenas o infeliz encontro de nuvens carregadas que não conseguiram desviar uma da outra.

Eu sei, seria simples demais!

Mas isso pode ser mais provável que muitas dessas histórias que ouvimos desde criança que nos metem medo; seja da bruxa que “pega” as crianças desobedientes, seja a ira de um deus qualquer por você ter repetido o bolo ou ter desejado o namorado da amiga.

Temos uma enorme necessidade de tornar a vida complexa, cheia de mensagens e significados, assim como de entidades a quem entregamos em forma de desejo a obtenção daquilo que não nos sentimos merecedores. Milagres, dádivas, bênçãos, linhas certeiras e outras um pouco tortas com o objetivo de dar um começo e fim lógico para a vida. Mas quem disse que a vida precisa mesmo de alguma lógica?

Qual o problema de ser somente sorte, azar ou a deusa Fortuna com suas manias? Queremos coisas, nos esforçamos para consegui-las e isso poderá vir ou não vir, quem sabe? Só virá se fizermos, mas tem gente que fica rico sem nem ter pensado nisso e as grandes biografias mostram que existem tantas coisas, ventos tão incertos. Angustia por um lado por estarmos de certa forma à deriva, mas por outro, traz um charme inigualável para a vida!

Precisamos e devemos ter sonhos e objetivos e é isso que nos move. Só convém lembrar que todos querem alguma coisa e às vezes precisamos saber esperar e entender que desejos colidem uns com os outros o tempo todo e são tantas variáveis em jogo que não podemos controlar.

A grande verdade, talvez a única que nos une é sermos seres movidos por interesse. Não fizemos nada gratuitamente, nem que seja sentirmo-nos bem por ter feito alguma coisa. Rezamos para um mundo melhor porque isso é bom para nós. Não fizemos o mal porque não queremos que façam conosco e por aí vai. Não há nisso nenhum problema! O problema é nos idealizarmos e ficarmos esperando que a perfeição que nos falta esteja em outro lugar, em um ser que nunca nasce e nem morre. Talvez seja por isso que Ele é tão perfeito, não morre nunca e nem precisa de nada, não tem corpo e nem desejos; enfim, não precisa lutar contra si mesmo como nós, reles mortais.

Somo cheios de defeitos (é isso que nos dizem desde o primeiro dia) e projetamos nossa melhor potencialidade em divindades como muitíssimo bem nos ensinou Feuerbach, livro* que deveria ser obrigatório em qualquer sistema de ensino que promete formar cidadãos críticos e nunca consegue, justamente por evitar que questionem, empurrando crenças da mesma forma que se produz Foie gras.

Uma dúvida consciente sobre todas essas grandes perguntas nos traria uma vida mais voltada ao bem-estar e a tranquilidade. Talvez um dia saibamos as respostas depois de morrer se estivermos percebendo alguma coisa, talvez nunca. Portanto, porque perder tempo com elas? Viver como se as crenças fossem uma verdade absoluta é como construir casas com areia da praia. Tudo baseado no medo de sermos punidos aqui ou em outro mundo, buscando controlar a vida ou simplesmente por não aceitarmos como verdade o que vemos a cada momento e, principalmente,  que somos mais livres e responsáveis do que gostaríamos.

Para aqueles que acompanham os textos do blog, sei que poderão estar pensando que, de certa forma, já falei um pouco sobre isso em reflexões anteriores (O último dia e Perguntas desnecessárias). Verdade, mais pode ser que hoje eu pegue você mais atendo e com disposição para deixar tudo mais simples e real.

realidade

Pode ser que só tenhamos essa vida e sei que isso é muito desanimador. Temos planos para as próximas existências, onde tudo dará certo no final. Mas por outro lado, se ficarmos só com o que temos de verdade nos dará um pouco mais de pressa e fundamentará escolhas e decisões conscientes de que precisamos para viver bem e sair dessa existência, sobre a qual ninguém pode duvidar, pela porta da frente.

Temos que dizer “sim” e “não” e isso nunca é fácil já que seria o que parte de nós gostaria, mas nem sempre é possível no mundo de verdade. Fazer escolhas e conviver com elas é outra maneira de sermos nosso próprio Deus.

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*Ludwig Feuerbach –  A essência do cristianismo

Tela vazia

Estava lendo Foucault e deu vontade de escrever.

Parado diante da tela, lembrei de um filme sobre Pelé que vi quando tinha 12 ou 13 anos.  Uma hora e meia de gols e jogadas geniais. Sai do cinema com muita vontade de jogar bola. Não lembro se joguei, mas mesmo que isso tenha acontecido, o resultado não foi tão bom que valesse a pena lembrar. Era jogador e plateia ao mesmo tempo e o esquecimento foi o veredito.

Mais tarde, já na fase adulta, vi um show de João Bosco. Ele levou apenas seu violão, parecia que aquele instrumento era uma extensão natural do corpo. Plateia hipnotizada pelo talento. Acontece sempre que vemos alguém viver sua vocação. Deu uma vontade louca de aprender a tocar. Depois de muitas aulas, sofrimento dos dedos que não foram feitos para acariciar cordas, ficou um violão para lá e para cá dentro de casa, sem cumprir sua função. Começou encostado na parede, esperando que a força de vontade vencesse a realidade. Tempos depois, foi parar em cima de um armário. Ficou anos dentro de uma capa como os gênios nas lamparinas nas histórias das mil e uma noites. Pelé e João Bosco mostraram que a natureza, como diziam os antigos gregos, não distribui dons com justiça.

Quando uma criança compra a chuteira do Neymar, sonha em jogar como ele e isso vale para o corte de cabelo da atriz ou da marca de roupa que a modelo mostra no outdoor. Aristóteles e seus seguidores diziam que a vida só vale a pena ser vivida se buscarmos melhorar os dons que trouxemos ao nascer. Mesmo com dons menos favorecidos deveríamos melhorá-los o máximo possível. Fazer o que viemos fazer, daria sentido a nossa vida e tornaria o mundo melhor, afinal, seríamos felizes e realizados dentro do possível. Enquanto não descobrimos o nosso, vamos vivendo vocações dos mais afortunados, buscando sem perceber no que somos realmente bons.

Enquanto o cursor pisca na minha frente não sei sobre o que escrever. Fico pensando se o próprio Foucault, Saramago, Érico Veríssimo e outros como eles também travavam diante da folha em branco. Se uns ganham mais facilidades que outros, com os sonhos isso não acontece. Sonhamos sem parar sobre tudo e um mundo diferente, que nos faria felizes por ser de outro jeito, é o mais comum a todos. Mas, se tem gente feliz sendo o mundo como é, o problema talvez não seja o mundo, mas não se sentir parte dele, fazendo alguma diferença.

O mundo no qual crescemos nos diz o que devemos fazer para ajudar a funcionar pelo bem de todos e é aí que nos perdemos dos gregos, para quem é a vida de cada um que conta. Do jeito que é não tem muito a ver com o fato de gostarmos disso ou não. Precisamos fazer dinheiro para financiar sonhos alternativos que substituem a alegria verdadeira. Deve ser por isso que altos salários e fortunas não são garantia de alegria por uma realização.

Por outro lado, nem todo talento que a natureza deu exageradamente para alguém é uma garantia de felicidade, Van Gogh que o diga. Quantos talentos se perdem em situações de famílias desestruturadas, de falta de condições mínimas? Temos “Neymares” que ficarão a vida no anonimato, por terem que ajudar em casa ao invés de terem a oportunidade de melhorar seus dons. Jogadores de fim de semana, que viverão sua alegria sem reconhecimento ou remuneração. Tudo para ser famoso no bairro e contar os feitos no bar, aos domingos à tarde.

Sonhamos o passado para tentar reescrever nossa história, buscando entender erros de forma que nos inocente um pouco e imaginamos o futuro para poder esperar que tudo dê certo no final. Sonhos que só existem por estarmos um tanto desconfortáveis com a falta de sentido, diria o velho Aristóteles.

Talvez se insistisse com o futebol e o violão?

O mundo valoriza os esforçados, maneira de tentar compensar a falta de dons exuberantes e de não nos deixar perder a esperança. Cafu e Dunga ergueram copas do mundo, assim como Pelé, Zidane e Maradona. Quem sabe ser coadjuvante não consegue atenuar a incapacidade para o protagonismo? Lembro sempre disso quando vejo um coral, a soma torna todos melhores do que individualmente, roupas iguais para ser um só; o todo é maior que a soma das partes, e assim a força de vontade vence a matemática.

Agora percebo porque falo disso, era o que Foucault estava dizendo; somos aprisionados de certa forma nesse jeito de pensar. Ao comparar escolas com presídios ele não deixa dúvidas e escancara sua ideia de forma inquestionável.

 Já não sei se a vontade era escrever sobre isso ou se foi como ele escreveu que me fez lembrar a emoção que Pelé e João Bosco produziram; que havia encontrado o que a natureza esperava de mim.

Como o cursor ainda pisca na tela branca, o melhor é continuar procurando.

Perguntas desnecessárias

…Ser moderado é a maior virtude. A sabedoria consiste em falar e agir na verdade,

    dando atenção a natureza das coisas. É sábio reconhecer que todas as coisas são

   uma só. A sabedoria é uma só – conhecer a inteligência pela qual todas as coisas

   são guiadas por todas as coisas.

   A sabedoria é uma e única; ela não está inclinada e, ainda assim, está inclinada a

  ser chamada pelo nome de Zeus”.

                                    Heráclito – Fragmentos

  “Nullas ex omnibus rebus, quae in protestade mea non sunt, pluris, quan cum Viris

   veritatem sincere amantibus foedus inire amicitiae”.*

                        Espinosa – citação de abertura da Éthica

perguntas

   Temos uma dificuldade em aceitar o mundo e a vida como um todo simplesmente como são. Nos sentimos inseguros diante da realidade e nos escondemos atrás de uma série de ideias pouco prováveis. É como se tivesse luz em demasia e só colocando uma lente escura pudéssemos viver confortavelmente. Ou, se preferir, já que a palavra “luz” pode ser interpretada de várias formas, fosse necessária uma lente com algum grau para distorcer minha visão para que pense que enxergo.

Qual, afinal, o problema de tudo ser simplesmente como é?

 Não conseguimos simplesmente viver a vida que temos; ansiosos, precisamos pensar na próxima, garantir-se nela com privilégios. Agimos baseados em condutas ditas corretas, não por uma iniciativa do bem pelo bem, mas como condição da obtenção de vantagens, seja para nossa vida aqui (proteção e saúde), como para estarmos de bem com quem cuida da nossa contabilidade divina. Mesmo religiões que não falam de nenhum deus, têm sempre seu julgador com quem acertamos as contas depois da morte e que nos encaminha para a próxima existência baseado em nosso saldo de boas ou más ações. Não valem as ações sinceras, só as pré determinadas como corretas, nunca esqueça!

Heráclito diz que a verdade está oculta pelas aparências. Não foi fácil para ele viver na mesma época que Aristóteles, que defendia que a verdade está aparente. O pai da lógica ocidental dizia que A e B são coisas diferentes, justamente por serem A e B. Já Heráclito dizia que A e B são apenas duas formas em que uma mesma coisa se manifesta. Osho afirma que se Heráclito tivesse nascido na Índia seria um dos Budas. E seria mesmo!

Nossas sofridas definições de “bem e mal”, “certo e errado” ou de “justo e injusto” entre outras, são oriundas de Aristóteles que não via, como Heráclito, que a impermanência, como regra básica da vida, deveria merecer nosso silêncio e simples observação. Quando fazemos julgamentos imediatos, significa que só conseguimos entender baseados nessa separação entre positivo e negativo, bom ou mal. Como já comentei em artigos anteriores, basta cada um observar sua própria vida para notar que acontecimentos foram sentidos de uma maneira no momento e de outra completamente diferente depois de algum tempo.

O problema é que Heráclito nos exige um esforço. Para não fazer o julgamento, que leva ao sofrimento, precisamos em primeiro lugar entender seu pensamento e depois estar muito consciente para que Aristóteles, que está impregnado em nosso subconsciente, não se manifeste de forma automática e mecânica.

Já Espinosa, afirma que a Alegria é o que aumenta nossa potência, ou força para viver. Só que, para ele, a Alegria é a condição para a liberdade, para podemos viver em potência. E o que é, afinal, essa Alegria?

 É o conhecimento das causas!

 Nas palavras do próprio Espinosa: “A potência de um efeito é definida pela potência de sua causa, na medida em que a essência dele é explicada ou definida pela essência de sua causa”. (Ética V – Axioma II). Podemos também optar pela Proposição III; “Uma afecção, que é paixão (aquilo que nos domina sem entendermos a causa – grifo meu), deixa de ser paixão no momento em que dela formamos uma ideia clara e distinta”. Ou seja, quando entendemos as causas, somos livres.

O problema é que buscamos essa liberdade, ou seja, conhecer as causas em crenças que trazem explicações quase que “sobrenaturais” para as questões que mais nos deixam inseguros.

A resposta mais óbvia e mais aceita pela nossa mente Aristotélica é que deve haver uma explicação para tudo ser do jeito que é. Pode ser que a explicação é que não tem explicação. Heráclito diria que estamos querendo revogar a lei da impermanência, congelando um acontecimento, evitando que ele se reverbere na pessoa que seremos logo ali à frente.  Para os amantes do futebol é como congelarmos a imagem antes do pênalti ser cobrado. Não sabemos se o gol será ou não feito e muito menos se o jogo não pode ser virado, logo ali à frente.

Já Espinosa nos diria que a causa primeira é que por não sabermos o motivo de Deus** para que aquilo ocorra, sofremos por ignorância.

No final, esses dois pensadores nos pediriam simplesmente para que vivamos a nossa vida por ela mesma. Como nunca saberemos as respostas sobre de onde e como viemos e para onde vamos (se vamos), sejamos mais livres e mais alegres, o que é quase a mesma coisa. Nos bons momentos não necessitamos de nenhuma ajuda externa ou divina, não temos pedidos a fazer e muito menos medo do que virá. A ideia de Deus que recebemos o torna indispensável no sofrimento, por não entendermos sua causa. Daí vem as explicações: devo merecer isso por algum motivo ou as famosas e fáceis “linhas tortas” e outras mais ou menos criativas quanto essas.

Todos os julgamentos são na verdade uma espécie de automatismo, onde usamos uma interpretação de segunda mão, vindo do meio onde estamos ou fomos criados. Ver sem julgar exige o conhecimento das causas ou assumir-se ignorante delas. “Não saber” também é um bom e leve jeito de entender que muitas vezes as causas estão além da minha capacidade, que existe uma aleatoriedade, ou seja, pode não ter a ver comigo, necessariamente. Lembrar que, minha percepção sobre o que for, mudará na medida em que mudo pela experiência de viver ajudará muito.

“Não saber” o que é a morte, se existe outra vida, se Deus é “alguém” ou alguma inteligência, se o Carma é mesmo uma lei ou outra grande Pergunta qualquer é entender, finalmente, que a única verdade realmente é aquela que vejo e que esteja acessível a minha razão. Nunca saberei essas respostas, já que elas estão no âmbito do “crer”.

Justamente por isso que o “buscador” é eterno. Ele nunca encontrará nada e sua diversão é a busca, simplesmente.

Para outros, viver é a única religião e a Alegria de Espinosa é a liberdade que pode ser alcançada. Mas tudo isso só funciona se estivermos alimentados, seguros e abrigados.

Porque nesse mundo de verdade, estar vivo e “viver” plenamente sempre vem em primeiro lugar e também é o que esquecemos primeiro quando as necessidades diminuem.

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O presente texto é um complemento não necessário (independente) do anterior “Para que(m) serve a verdade”

 *Nada estimo mais, entre todas as coisas que não estão em meu poder, do que contrair uma aliança de amizade com homens que amem, sinceramente, a verdade.

**Resumidamente, o Deus de Espinosa é imanente, ou seja, a Natureza como uma inteligência infinita.

Para saber mais:

Harmonia oculta  – Discursos sobre os fragmentos de Heráclito.  Osho, ed Cultrix.

Espinosa – Coleção “Os pensadores” ed Abril

O império do Medo

“A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo”.

                                                                         Voltaire

                                                                                                                                                                                                  medo

Como em uma pequena cidade do interior, onde todas as ruas desembocam na praça, por onde pretendermos entender nossa sociedade encontraremos o medo no final da busca.

No aspecto religioso, que ainda tem grande influência na formação da cultura e da moral, já nascemos pecadores e o medo da punição divina ou de não ter o “visto” de acesso ao paraíso faz com que muitas pessoas vivam baseadas nessa dúvida; se conseguirão terminar suas vidas aptas a passar para próxima com os méritos exigidos? A condição é sofrer quase sempre e com pouca alegria, receita que dizem, fez santos ao longo da história. Nunca tenha raiva, negue seu corpo e jamais repita o bolo. Tem Alguém que sabe o que você pensa, nunca esqueça! Pensar, então, também dá medo, nos torna impuros. Assim como castramos animais por ser mais confortável para o dono, muito de nossa essência humana precisa ser negada. E o pior, é que quem deveria nos mostrar que isso é possível, derrapa todos os dias, pois esquece que é humano. É muito difícil conduzir ovelhas sendo uma delas.

Na escola, ou mesmo antes dela, ficamos sabendo da escassez e competitividade do mundo e o medo de não conseguirmos nosso lugar ao sol, de não termos poder, de não sermos admirados e respeitados pelos demais faz dessa angústia uma companheira que termina se tornando tão íntima, que acabamos nem percebendo que ela está sempre conosco e fazendo parte da nossa vida. Pensamos baseados nela e fizemos escolhas a todo momento, vendo tudo em tons de cinza, só que esse sem nenhum prazer. Também tememos que nossos pais se decepcionem conosco por não atendermos sua expectativa de como deveremos ser e fazer. É incrível como os pais “sabem” o que é melhor para seus filhos sem que nem mesmo eles tenham essa resposta para si.

Olhamos em volta e a mídia nos mostra que o sucesso e o respeito, que no fim é só conseguirmos ser “alguém” no meio da multidão, virá inevitavelmente se tivermos aquele carro, um corpo desejável (nem sempre saudável), usarmos aquela marca e nosso celular for dessa ou daquela fruta. Claro, sempre com uma casa própria com muitos metros quadrados, suficientes para nos sentirmos sós junto dos demais.  Estarmos bem não basta, tudo virá quando tivermos tudo isso e quando isso acontecer, se acontecer, diremos aquela surrada frase; “Era feliz e não sabia”.

Quando finalmente percebermos que tudo isso só é bom porque é desejo, e se é desejo é só por não termos.  Mas aí, virão outros desejos sem fim, só que agora de uma filosofia ou religião que possa finalmente encerrar essa angústia e tornará tudo supérfluo e sem graça. Quem sabe alguém que toque aqui e ali, diga umas palavras ou desvende algum mistério de sua vida milenar ou que descubra o que você pensou quando era um feto traga a grande e esperada Resposta! O problema, é que quando todas as mágicas já tiverem sido experimentadas,  a vida desse mundo já nos decepcionou. Mas o desejo nunca acaba, disfarçado de desânimo, nos dirá que no “outro” mundo, aí sim!

Depois, tememos não sermos amados por alguém de quem possamos gostar, dessa pessoa especial não nos querer seja hoje, seja um dia. Mais tarde, quem sabe, essa pessoa tão especial não será mais especial e virá o medo de não amarmos de novo. Alguns temem não ter filhos, outros temem tê-los em um mundo do jeito que está.

Pensamos que poderemos não ter sucesso profissional, não conseguirmos o dinheiro que compre a liberdade de, finalmente, podermos fazer o que quisermos da vida, sem prestar contas a ninguém. Pensamos que uma boa poupança nos protegerá da morte, podendo oferecer os melhores médicos, remédios e hospitais. Tememos as doenças que pensamos inevitáveis e receamos não mantermos o plano de saúde (ou será plano de doença?) em dia. Já imaginamos que as doenças chegarão para nós e nossos filhos desde cedo. Será?

Todos os dias, o medo leva gente às emergências dos hospitais sentindo que estão morrendo, enfartando. Síndrome do Pânico, o medo que sai do controle e lembra que ele só existe por estarmos morrendo de medo, quando a vida pensada desse jeito nos retorna a uma metáfora do útero materno. Só queremos ficar em casa. Lá, com um mundo pequeno, limitado pelas paredes, sentiremos que estaremos seguros, enquanto o mundo continuará lá fora, perfeitamente bem sem nós.

Todos esses medos nos tiram o sono, elevam o peso ou então nos encaminham para atalhos como as drogas em geral, vendidas em bares, becos ou farmácias. Substâncias mágicas que tiram o medo por encanto, trazendo momentos de felicidade em uma vida cheia de esperanças que tememos nunca se concretizem. É mesmo um milagre, não acham?

Tememos a velhice, as doenças inevitáveis e, é claro, o abandono.

Toda a “máquina” da sociedade moderna é movida pelos nossos medos. Manter as pessoas angustiadas e receosas em suas imaginações mantém todo um sistema que vive da doença, indústrias que produzem os objetos de reconhecimento e, logicamente, a estrutura que vende tudo, entregando em casa e a crédito. O negócio é sossegar agora, e depois pagamos o cartão. Mas ele nos avisa que não devemos nos preocupar, se não tiver o dinheiro, use o crédito rotativo, outra mágica que transforma tudo em três vezes mais em um ano. Milagres de multiplicação.  Incrível, não acham?

No fim, vamos acreditando que tudo isso é assim e não tem jeito. Com certeza tem Alguém que sabe e está cuidando de tudo, só pode! Melhor que tenha, pois se não tiver, aí poderá advir o pior dos medos; de ser responsável por tudo que sou e também pelo que não consigo ser.

Quem sabe Sartre tenha razão quando diz que nosso desejo fundamental e, portanto, o grande medo, é não conseguirmos “ser” para toda a existência, uma eternidade que venceria a morte. Deus, nada mais seria que a projeção desse desejo para fora de nós, como sempre fazemos com tudo que nos incomoda ou não damos conta de resolver sozinhos.