Agenda

Eterna Evolução

“O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.”

                                                                                                         Mario Quintana

“O mal do mundo é que Deus envelheceu e o Diabo evoluiu”.

                                                                                                        Millôr Fernandes

                                                                                                                                                  evolução

Em uma de suas palestras transcritas no livro “Sufis: o povo do caminho”, Osho afirma que tudo no universo está em constante evolução e isso também incluiria Deus. Pensei sobre isso e concordo com ele, há lógica nisso, se não vejamos:

 Apesar de todas as definições sobre Ele sejam em forma de negação, como “impermanente”, “incriado”, “não nascido” entre outras, é lícito pensarmos que até mesmo Deus precisa evoluir.

Se tomarmos por base a própria natureza, aceita por todos como uma de suas faces, podemos observar que sua essência é movimento, com ciclos de nascimento e morte. Essa eterna capacidade de adaptação que também pode ser chamada de mudança ou evolução, mostra que “criar” também é mudar. Essa teoria se baseia na própria lei da física que diz que nada se perde, tudo se transforma.

Essa seria a única maneira de encontrarmos um ponto de encontro entre o eterno conflito da ciência com a religião, simbolizado por Darwin e Deus. Deus criaria com a imperfeição, que daria sentido à busca por desenvolvimento e Darwin diria que as espécies nesse processo se perpetuam pela adaptação (evolução) ou desaparecem. No caso do Homem, teríamos uma pitada de livre arbítrio, que daria o sabor para demonstrar que evolução ou desenvolvimento é resultado de ação e que nada caminha por si só em direção à plenitude. Se isso fosse verdade, nenhuma espécie desapareceria.

Todos têm maus momentos e porque não poderia acontecer isso com o Criador? Vendo só pelo lado criacionista, poderíamos pensar que as espécies que desapareceram, mesmo antes do registro da existência do homem, ou poderíamos dizer, no tempo em que já estávamos aqui, mas em um estado tão involuído que não tínhamos como registrar as memórias e saberes, foram erros corrigidos por não terem dado muito certo.

Em algum momento dessa evolução, seja por interferência divina ou, segundo Darwin, como algo necessário a manutenção da espécie, recebemos um sopro divino, hoje conhecido como neo córtex (novo cérebro) que nos dá capacidade de abstração, imaginação, criatividade e consciência elevada. Isso nos torna “quase” deus ou “semelhante” como diz o Gênesis. Mas, como sabemos, nem mesmo esse toque divino nos exime das barbaridades que ainda cometemos contra nós e os demais habitantes do planeta.

Não perdemos com o novo cérebro nosso passado de “quase bichos” simbolizados pelos nossos instintos de sobrevivência muito mal utilizados devido a essa mentalidade competitiva e de escassez que vivemos. Essa fina ironia de oscilarmos entre quase deuses e pouco melhores (às vezes nem tanto) que os animais, faz nossa fricção em busca de nos aproximarmos de novos patamares.

Se Deus está em todos os lugares, também está nas mentes doentias, na barbárie contra o próprio planeta e os animais que empreendemos, enquanto passeamos pelo espaço e já se fala na possibilidade de habitarmos outros planetas no futuro depois de destruirmos o nosso.

Madre Tereza, Hitler, Chico Xavier e Stalin são Deus, assim como nós em nossos bons e maus momentos. A diferença é que talvez eles não ficaram no “morno” advertido por Jesus e foram “quentes” ou “frios”, movidos pela coragem de serem o que foram e certamente estão em franca evolução.

Toda essa reflexão serve para não nos preocuparmos muito com nossos erros e os entendermos como parte desse aprendizado. Quando ganhamos mais percepção,  começamos a notar que sempre o que acontece foi previsto por nós mesmos no passado por não estarmos prestando muita atenção ao que fazíamos. Ou até por acharmos na época, que era isso mesmo que verdadeiramente merecíamos sendo nosso futuro um justo pagamento.

Saber realmente o que estamos fazendo agora é resultado de termos entendido como as coisas funcionam e com o tempo paramos de nos lamentar justamente por sermos mais responsáveis por nosso presente e futuro.

Dizem alguns cientistas que existem provas que o continente africano há milhões de anos atrás era grudado na América do Sul e que mudanças geológicas  afastaram os continentes. Mas bem pode ter sido Deus que, lá de cima, viu que a arrumação não ficou boa e separou os continentes para deixar tudo mais harmonioso entre tanta água que temos por aqui. Arrependeu-se do arranjo inicial e mudou.  Com isso temos duas culturas diferentes e o que vivemos hoje aqui e lá é resultado desse arrependimento geográfico.

Os ateus, penso, fundamentam sua crença em que Deus não existe, justamente por que os que acreditam Nele dizerem-no perfeito e infalível. Não tem como alguém com essas qualidades ter produzido “filhos” tão desastrados que criaram coisas como a bomba atômica e o chester, por exemplo. Se os crentes na existência de Deus assumirem que Ele está evoluindo e melhorando como nós, acabará o ateísmo. Chegaremos a um bom acordo!

Mas isso será mesmo difícil de acontecer. Precisamos, por sermos ainda evolutivamente primários, acreditarmos que tem alguém melhor que nós que nos cuide. Essa ideia de que Deus pode errar nos deixaria apavorados, à deriva.

Por isso, devemos nos tratar com mais tolerância e condescendência, afinal, como crianças, não sabemos direito o que fazemos. Mas como quem quer ir para frente, precisamos aprender com nossos erros anteriores e tratarmos de somente cometermos erros inéditos, demonstração clara de evolução.

Quem sabe um dia, junto com Deus, chegaremos à perfeição. Precisaríamos, a partir desse momento, pensarmos em um tipo diferente de vida, mudarmos tudo radicalmente.

Afinal, um mundo de gente perfeita deve ser mesmo muito chato!

Por isso tudo, me atrevo a mudar o ditado popular e dizer que: Errar é divino e perdoar também!

O Caminho para a Luz

“A mente é a grande assassina do Real.

 Que o discípulo mate o assassino.”

Helena Blavatsky

“Porque, a não ser que um homem se entregue perseverantemente ao culto do conhecimento de si próprio, nunca poderá de bom grado dar ouvidos aos conselhos da natureza.”

Fernando Pessoa

                                                                                                                                                   luz e escuridão

Disse certa vez a escritora Nélida Piñon que “sou filha dos livros que li”. Apropriando-me dessa fala, imagino que aconteça com todos aqueles que têm na leitura um hábito. Assim, posso dizer que um dos livros que mais teve influência sobre minha maneira de pensar e perceber o que penso ser a essência do ensinamento, é “A voz do Silêncio”. Esse pequeno livro, no seu tamanho (96 páginas), traz fragmentos do mais primitivo esoterismo oriental, chamado Livro dos Preceitos Áureos,  descritos por Helena Blavatsky, com um prefácio e tradução tão importante quanto de Fernando Pessoa.

A jornada iniciática é ali descrita em linguagem poética, onde o discípulo segue os passos em busca do fim da sua ignorância existencial, marcada pelo sofrimento de estar sempre fora da realidade, ou seja, nos domínios da mente. Para aqueles que acompanham o blog, notam que esse é um assunto que permeia vários textos, já que, em essência, o conhecimento do funcionamento da mente é o primeiro passo para o conhecimento da Verdade, sempre escondida sob os véus da ilusão que ela coloca diante de nós. Esses véus nada mais são que as preocupações e divagações intermináveis entre o passado e o futuro, além é claro, de nos manter aprisionados aos condicionamentos que recebemos e que nos dão essa visão tão sofrida da vida e do mundo.

Em determinada passagem é dito: “Antes que a alma possa ver, deve ser conseguida a harmonia interior, e os olhos tornados cegos a toda a ilusão”. Assim, esse estado de equilíbrio não pode ser atingido antes de nos organizarmos internamente e isso se faz com a diminuição dos “ruídos” internos. Como toda a organização provém da desordem, e ela se torna necessária, pois isso a atualiza cabendo-nos a busca dessa serenidade interior que pode ser conseguida com uma prática de meditação, relaxamento ou mesmo em alguma atividade criativa.

Não podemos nunca esquecer-nos que a tudo que está em ordem tende a desordem e vice versa. Essa é a maneira de nos renovarmos, evoluirmos. Sempre que atingimos um novo patamar, temos a tendência de nos acomodarmos e isso fere o mais óbvio preceitos da vida que é a evolução constante. Quando esse estado nada mais traz que nos empurre para  frente, sempre “acontece” alguma coisa que nos tira dessa zona de conforto, provocando a desordem. Ao buscar um novo patamar para sair desse momento confuso uma nova ordem é estabelecida em um novo estágio e assim por diante.

Nos momentos em que estamos nessa evolução, inseguros pela ação da mente que tende a ser contra evolutiva, vivenciamos o atrito que nos faz vencer o medo e galgamos novos patamares. Dessa forma, mantermos o “foco” no presente, fugindo das tentações em tentarmos prever o futuro ou mesmo de reviver o passado e mudá-lo, nos mantêm relaxados. O corpo sem tensão favorece toda uma nova interpretação de tudo que nos rodeia. Sem a contaminação do sofrimento que começa no pensamento e, em segundos, é sentida no corpo, poderemos ver tudo com novos olhos e muito mais tolerantes com aquilo que não podemos mudar.

Mais adiante é dito: “… Se, passando pela sala da sabedoria, queres chegar ao vale da felicidade, fecha, discípulo, os teus sentidos à grande e cruel heresia da separação, que te afasta dos outros.”

 Essa separação pode ser entendida como essa constante oscilação proveniente estarmos fora da realidade quase o tempo todo. Nossos processos mentais nos fazem sofrer na grande maioria das vezes por coisas que achamos ou prevemos que irão acontecer e isso é uma das maiores bobagens que fizemos. De outro lado, quando experimentamos ótimos momentos logo chega o medo e o condicionamento nos lembra que “felicidade dura pouco” e já iniciamos a preparação para a tristeza que virá. Assim, ficamos o tempo todo em uma constante tensão, em 99% das vezes totalmente ilusória. E o maior problema é esse; independente de estarmos sofrendo por algum motivo, seja real ou imaginário, nos sentimos como se esse estado de tristeza jamais fosse acabar, daí, para vermos, pensarmos e tomarmos decisões erradas é muito fácil.

Desta forma, o discípulo é orientado: “Luta com teus pensamentos desonestos (irreais) antes que eles te dominem. Trata-os como eles querem te tratar, porque se os poupas, criarão raízes e crescerão, e repara, esses pensamentos dominar-te-ão até que te matem.”

Para a filosofia oriental, existe uma clara separação entre a mente (matéria) e a consciência (espírito), que poderemos dizer, em outras palavras, que é por onde sempre estamos em constante conflito. Nunca esqueça que a mente, ligada a matéria (corpo) sempre buscará a sobrevivência, enquanto a consciência é atemporal e por buscar a evolução constante precisa rumar para o novo, que, sendo, portanto, desconhecido pela mente, provocará em nós o medo. Justamente por isso a orientação é clara: “A pessoa  da matéria e a Pessoa do Espírito nunca podem se encontrar. Uma delas tem de desaparecer; não há lugar para ambas.” As letras maiúsculas não são por acaso.

No final, a mudança é o nosso destino, já que nada que esteja parado tem a vida em si, ou seja, consciência! Em um mundo onde a quase totalidade das pessoas vive presa aos pensamentos sem fundamento e sofre por eles, o caminho daquele que busca libertar-se é solitário. Sempre com a agenda cheia de compromissos para que o futuro que imaginamos não ocorra, não temos mais tempo para o contato interno, na busca de si mesmo.

Para que o discípulo esteja preparado para essa jornada, o Mestre avisa: “Quanto mais avançares, mais e mais serão os perigos que cercarão teus passos. O caminho que segue para adiante é iluminado por uma chama – a luz da audácia ardendo no coração. Quanto mais ousares mais conseguirás. Quanto mais temeres, mais a luz esmorecerá e só ela pode te guiar..”.

É mais que normal que o primeiro medo seja o da perda do que imaginamos que temos. De novo, a mente que só busca um porto seguro onde a morte não possa encontrá-la, nos empurrará para o porão onde habita a dúvida sobre o que nos acontecerá, se tudo der errado.

E sempre é nesse lugar onde morremos primeiro.

 __________________________________________________________________________________________________

A Voz do Silêncio – Helena Blavastky, tradução de Fernando Pessoa. ed. Ground

Quando o mal faz bem

O que mantém um comportamento são os resultados.

pessoas espertas

“Ganho secundário” é o nome que se dá quando alguém se beneficia de algum problema, ou seja, o mal que está acometendo a pessoa está sendo útil de alguma forma.

Certa vez conheci uma cliente que chegou ao consultório com um histórico antigo de depressão. Passadas algumas sessões percebi que ela estava claramente sabotando o trabalho da terapia, encontrando uma série de desculpas para não tomar as novas atitudes. Perguntei a ela qual era a diferença na vida dela antes e depois da doença e ela respondeu sem pensar:

-Naquela época ninguém se preocupava muito comigo…

Obviamente não era do interesse dela melhorar, afinal, se isso ocorresse o nível de atenção que ela estava recebendo iria diminuir, até porque curada, não precisaria de tantos cuidados.

Muitas vezes os ganhos secundários são mais explícitos; quando, por exemplo, uma determinada doença ou incapacidade temporária afasta a pessoas de atividades que claramente não gosta ou a mantém com remuneração em casa. Pode ocorrer de um determinado sintoma ou mesmo doença ser o motivo para se adiar compromissos desagradáveis. Quantos de nós, na infância, já não apresentamos uma febre ou dor de barriga para não irmos à escola quando nos esperava alguma prova ou por ser a data de entrega de algum trabalho que não fizemos? Além é claro, de imaginarmos como uma doença nos ajudaria em determinadas situações, sendo a solução fácil de um problema.

Isso é muito mais comum do que se pode imaginar e ocorre em vários níveis. Nem sempre é um processo consciente, mas mesmo quando ocorre abaixo do nível de percepção, quando confrontada com o problema, a grande maioria das pessoas reconhece que isso está ocorrendo, apesar de negar no começo, já que isso não é uma atitude que faz bem à autoimagem.

A doença ou o problema se torna um aliado e quando isso ocorre sempre a pessoa tem um aumento de seu poder e influência sobre os demais. Quem já não ouviu alguém encerrar uma discussão alegando que se o assunto continuasse poderia fazer “mal” ou causar algum problema grave?

Por mais duro que possa parecer, toda a relação em si é uma troca de interesses, seja de que nível for. Negar isso é esconder a cabeça no buraco, como bem faz o avestruz.

Só nos relacionamos baseados em algum tipo interesse, que pode ser de transformarmos o outro no que achamos correto (pais e filhos), ou de termos vantagens e seguranças sejam afetivas, comerciais ou mesmo de poder, simplesmente. Mesmo quando estamos apaixonados ou dizemos que amamos alguém, temos o interesse (necessidade) dessa pessoa ao nosso lado para sermos mais felizes; em outras palavras, “precisamos” desse relacionamento e isso também é um tipo de interesse. Dai a usarmos as armas disponíveis para isso nem precisa se pensar muito. No final, é a luta pela felicidade que impulsiona o ganho secundário.

Só que isso vai muito além e abrange também os comportamentos. Pessoas, depois de construírem determinada imagem passam a usufruir de benefícios. Poderemos usar como exemplo aquela pessoa que criou fama de agressiva. Ela passa a ser poupada de uma série de assuntos, justamente por ser assim. Ninguém conversa com ela para tentar demovê-la de seu ponto de vista, já que ninguém quer se incomodar. O que normalmente ocorre é tudo se encaixar no jeito dela, justamente por ter esse tipo de atitude que tanto desagrada às pessoas. Isso só reforça esse tipo de comportamento, afinal, porque ela mudaria se tem vantagem e controla situações sendo assim?

Também não podemos esquecer que muitas doenças, sejam emocionais ou físicas, mudam a vida da pessoa, no começo para pior e depois para “melhor”. Imaginem, por exemplo, o caso de alguém que se afasta do trabalho por motivos emocionais que o estejam incapacitando, independente da origem do problema. No começo a pessoa se sente mal pela situação, mas não tem mesmo forças para retomar suas atividades e precisa mesmo do repouso. O problema é que passado algum tempo, a própria família se adequa a situação e tudo vai se encaixando com a ideia de que essa pessoa não poderá contribuir com o orçamento por algum tempo. Se a situação perdura por alguns meses (o que no caso da depressão, problemas graves de ansiedade e acidentes é comum), essa pessoa tem sua vida readaptada dentro dessa nova perspectiva e se percebe com suas necessidades atendidas e sem a necessidade de trabalhar.

Quero deixar bem claro que isso acontece, na maioria das vezes, inconscientemente, ou seja, não existe uma premeditação. Ninguém gosta dessa situação de dependência, já que a autoestima também acaba, mas por ser um processo de acomodação, termina se consolidando pela repetição dos dias. É aquela história; acostumamo-nos com tudo até mesmo com o que não concordamos ou gostamos, basta repetir.

Imagino que a essa altura da leitura, você deve estar se perguntando o que fazer para lidar com isso?

A resposta é simples e tem seu fundamento em um princípio: todo comportamento só é mantido enquanto dá resultado.

Assim, se a pessoa não conseguir mais ter controle das situações, seja pelos seu sintomas, seja pela sua doença, ela, obrigatoriamente irá mudar. Isso porque ela tentará manter seus resultados, só que terá de agir de outra forma e isso abre a possibilidade de uma mudança positiva, que poderá ser negociada. É como fazer um novo acordo de convivência.

Assim, a questão “ganho secundário” é muito ampla e pode ocorrer de diversas formas pelos exemplos que dei, não envolvendo apenas doenças como se pensa normalmente. Imagino que lendo esse artigo você tenha pensado em várias pessoas que conhece que se encaixam nesse tipo de comportamento e elas não são mesmo difíceis de serem encontradas.

Porém, a finalidade desse texto, muito mais do que ajudar a entender o “ganho secundário” e identificar pessoas da sua relação que se utilizam dele de alguma forma é também, e, principalmente, trazer a reflexão de se cada um de nós também não se aproveita de alguma forma.

A melhor maneira de conhecer qualquer pessoa é aumentando cada vez mais o autoconhecimento. Inicie, portanto, sempre por você mesmo!

 

Do homem e do animal

            “A verdade sempre será aquilo que realmente você ver sem pensar. O que foi ouvido nunca será verdadeiro”.

                                          Sabedoria Sufi

homem e animal

Quanto dos nossos pensamentos e preocupações é realmente nosso?

Talvez o caro leitor, já assíduo no blog, possa estar pensando que estou me referindo aos nossos condicionamentos, ou seja, formas de pensar vindas por introjeção desde a infância, oriundas da família, religião e sociedade,  que ficam rodando em nossa cabeça como um disco arranhado (os mais antigos sabem do que falo). E, de tanto rodarem, terminamos assumindo como verdades absolutas e pautamos nossa vida por eles, e, por mais infelizes que por ventura estejamos, temos imensa dificuldade de desafiá-los.

Desta vez, porém, me refiro a outro tipo de pensamentos que não são “nossos” e que, independente do quanto já tenhamos nos livrado dos condicionamentos, esses não nos abandonam jamais; refiro-me aos pensamentos atinentes ao nosso corpo, que, por fazer parte da natureza não difere em muito na sua estrutura dos animais. No que tange ao cérebro, por exemplo, temos um neo córtex (cérebro novo), que desenvolvemos mais recentemente, já que o mais antigo chamado de reptiliano e o desenvolvido posteriormente chamado de emocional ou límbico é compartilhado por grande número de mamíferos e até algumas aves.*

Quando digo que esses pensamentos não são “nossos”, estou falando em relação a nossa Consciência que deveria pautar todas as nossas ações, já que de posse dela, temos sempre uma clara noção de tudo que nos envolve e isso também inclui os pensamentos automáticos (condicionamentos). Na verdade, o que nos difere dos animais é justamente essa Consciência que temos e eles não. Porém, é sempre importante lembrar que essa Consciência é de uso facultativo e só está disponível eventualmente quando algo nos tira do “piloto automático” ou por uma busca pessoal de manter-se a ela conectado. Essa segunda opção é fartamente estudada e faz parte da psicologia oriental que desenvolve muitas práticas para isso, algumas de domínio público e outras restritas às Escolas iniciáticas. Por isso, não surpreende que os laboratórios de psicologia utilizem animais em seus experimentos buscando testar e entender o comportamento humano. Sem a utilização da Consciência, não há mesmo muita diferença!

Esta talvez seja a maior luta que temos a travar em busca do nosso autoconhecimento: entender o funcionamento da nossa mente e passar a dominá-la, sabendo de sua finalidade e que ela não é nosso último recurso, já que sempre estará (ou deveria) estar submetida à Consciência. Todos os pensamentos ligados ao nosso corpo tem por finalidade mantermo-nos vivos, saciar nossas necessidades imediatas e evitar ou diminuir nosso sofrimento que para a mente, pode nos levar à morte.

Então se imagine com fome ou qualquer outra necessidade básica que lhe traga sofrimento. Não é difícil perceber que os pensamentos que teremos estarão totalmente focados em suprir esse sofrimento e imagino que, por exemplo, você não estaria disposto a conversar sobre religião, política, economia diante dessa situação. Da mesma forma, se estivesse em uma sala de aula ou ouvindo uma palestra seu aproveitamento seria quase nulo, justamente porque esse tipo de pensamento ligado às necessidades do corpo, praticamente impediriam que você conseguisse a concentração necessária. Só que quero enfatizar é que isso não tem a ver somente com essas necessidades básicas do corpo, mas também com necessidades emocionais e sentimentos como raiva, vergonha, etc.

Podemos ir ainda um pouco mais fundo; como nosso metabolismo está sempre funcionando de acordo com o que estamos imaginando, mesmo nossas “alucinações” sobre o passado e futuro com a qual a esmagadora maioria das pessoas estão viciadas, as tiram completamente a percepção da realidade fazendo com que tomem suas decisões e escolham seus caminhos baseados em um “estado de espírito” sem nenhuma conexão com o que realmente é a verdade naquele momento. Quando estamos à mercê do corpo e suas necessidades, não somos o que somos. É como se essas necessidades nos tornasse uma pessoa diferente que estará no comando até que o assunto se resolva de alguma forma. Se você um dia já disse “perdi a cabeça”, pode compreender agora que sua “cabeça” teve por alguns momentos um outro dono que não era essa pessoa que você pensa que é. Concorda?

Os pensamentos ligados ao corpo sempre estarão presentes, independente da Consciência, mas a presença dela faz com que esses pensamentos não nos comandem ou exerçam influência decisiva em nossas escolhas. É uma tremenda bobagem achar que um dia eles cessarão, já que enquanto o corpo viver haverá uma mente e, portanto, emoções, dores e necessidades fisiológicas ou egóicas pedindo atendimento e fazendo que qualquer sofrimento pareça eterno. É justamente por isso que os países orientais tem uma cultura de sempre demorarem a decidir e só pode ser mesmo por terem essa percepção há muito tempo. Até mesmo os trâmites lentos da justiça se tornam necessários para que a decisão sempre seja tomada com o maior distanciamento possível, o que sempre torna a “verdade” mais fácil de ser encontrada.

Infelizmente nos deixamos inebriar pelas coisas que imaginamos e, consequentemente, “drogados” pelas emoções correspondentes e vamos perdendo o contato com a realidade. Desde que a criança aprende essa doença chamada preocupação (pré-ocupação da mente) com seus pais, passa a viver esse estado ilusório, estruturado em cima do medo do futuro. Por isso que acho que mais ninguém nos últimos tempos chegou ao “reino dos céus” justamente pela perda da conexão com o presente, características das crianças e ausente totalmente dos adultos preocupados, ou seja, estressados, ansiosos, tensos e, consequentemente, doentes.

Na verdade, o que é real só pode ser constatado quando apenas estamos vendo e não pensando. Pensar significa julgar, atribuir significado e isso tem a ver com nosso “programa”, com o nosso dia, com o quanto bem ou mal estejamos nos sentindo, se estamos com alguma dor ou qualquer preocupação. Todos esses fatores que não tem a ver diretamente com a Consciência é que nos dão a interpretação do que estamos vendo e isso está muito longe de ser chamado de realidade.

Torna-se necessário, portanto, percebermos os nossos pensamentos, buscando suas origens. Temos os pensamentos do corpo, os que herdamos de quem nos educou, e do medo do futuro que é da natureza da mente. Nenhum deles tem a ver com essa essência imortal que habita esse corpo onde moramos. Saber diferenciá-los, relativizá-los e entende-los é o exercício de cada minuto de quem busca seu autoconhecimento.

Enquanto isso não acontecer será esse verdadeiro caos, que é não vermos a realidade, mas imaginá-la o tempo todo sob as lentes distorcidas de tudo que nos atormenta a cada momento.

 _________________________________________________________________________________________________________________

*Para saber mais, ver teoria do cérebro trino.

Espiritualidade: difícil definição

“Hasan procurou Rabia, num dia em que ela estava sentada entre diversos contempladores, e disse: – Eu tenho a capacidade de andar sobre a água. Venha, vamos ali para aquela água e, sentados sobre ela, poderemos ter uma discussão espiritual.

Rabia disse: – Se você deseja se separar dessa augusta companhia, por que não vem comigo para voarmos e conversarmos sentados no ar?

Hasan respondeu: – Não posso fazer isso, pois o poder que você menciona eu não possuo.

Rabia disse: – Seu poder de permanecer imóvel sobre a água é o mesmo que o peixe possui. Minha capacidade de voar pode ser realizada por uma mosca. Essas habilidades não fazem parte da verdade real – elas podem se tornar o alicerce da egolatria e da competição, não da espiritualidade.”

          Bhagwan Shree Rajneesh – Sufis o povo do caminho

Gravura de Rabia

Gravura de Rabia

Em uma cultura centrada no Ego, como a que vivemos, essa velha estória Sufi permanece mais atual que nunca. De um lado, continuamos com essa velha ideia de que a pessoa dita “espiritualizada” é medida pelas dificuldades que passa, ou aparenta passar, em sua relação com o aspecto material.  Precisará mesmo ser alguém pobre para ter desenvolvido sua consciência pela via do sofrimento ou da privação? Será que as coisas materiais tem mesmo essa capacidade de iludir o verdadeiro “buscador” a ponto de, necessariamente, serem rejeitadas como uma prova ou tentação?

É claro que todos já conhecemos pessoas humildes que conseguiram altos níveis de consciência, mas isso não me parece uma obrigatoriedade, você, caro leitor, o que acha?

Particularmente, penso que uma pessoa que se realiza financeiramente tem muito mais facilidade de perceber que não é o material que explica e dá sentido a vida, justamente por possuir isso e não sentir-se “completa” e em sintonia com o mundo que a cerca. O que vemos, justamente por ser incentivado pela cultura dominante, é que os bens materiais nos trarão a total realização e completude. Justamente por se acreditar nisso, é que vemos as pessoas destruindo sua saúde para poder adquirir essas expressões de poder que dão status e reconhecimento.

Só existe mesmo o desapego quando ele é real e não uma divagação que fica bonito de se dizer, buscando uma imagem perante os demais de que traga essa aura espiritual, como um guru. Para poder se dizer desapegado a condição inicial é poder ter o objeto em questão. Os próprio sufis dizem que por ser esse mundo material, devemos mostrar nossa competência também nesse aspecto, mas que, se por ventura tudo for perdido, seja pelo motivo que for, tudo poderá ser reconquistado, não sendo, portanto, motivo para grandes tristezas. Essa relativização da materialidade é uma concepção que se adéqua muito bem aos nossos tempos, apesar de muito antiga.

Nessa bela estória, Rabia coloca o ego de Hasan no seu lugar, mostrando como ele havia perdido a direção, achando que se pudesse andar sobre a água isso representaria uma grande evolução se diferenciando dos demais. Puro ego! Para ele, conseguir esse feito representava uma grande conquista e a Mestre mostrou que ele havia, na realidade, involuído, já que um simples peixe era capaz de tal “façanha”.

Conheço pessoas muito evoluídas espiritualmente que vivem com conforto, frequentam restaurantes e viajam pelo mundo. Para mim, sem tirar o mérito das demais, isso é a espiritualidade do século XXI. E é muito importante ressaltar que não há nada de errado, que de vez em quando, elas não possam ter seus momentos de raiva, medo e angústia. A diferença é que essas pessoas sabem muito bem a diferença entre o que elas realmente são e o corpo que elas habitam, muito ligado a esses sentimentos. Justamente por isso, logo conseguem trazer-se de volta ao equilíbrio.

Ser Humano compreende saber-se habitando um corpo que faz parte dessa natureza e que, como o de qualquer animal, busca sobreviver e tem o medo como norma. Afinal, é justamente lidando diretamente com esses sentimentos nada nobres que, ao observá-los, vamos conseguindo lidar melhor com eles.

Ser “espiritual”, em minha opinião, é tocar a vida sem medo, focado no presente, relativizando o futuro já que não sabemos o que virá, nem apegado a um passado que não existe mais e muito menos voltará um dia. É estar relaxado muito mais tempo do que tenso. É saber a hora de trabalhar, de se divertir e ter em si mesmo uma ótima companhia. O que torna uma pessoa assim ótima de se ter por perto, não acha?

Ser “espiritual” é não sofrer por pensamentos ilusórios e estar sempre longe dos extremos, aceitando os outros como são sem tentar salvá-los ou mudá-los, já que reconhece que não existe apenas uma verdade ou caminho, aliás, eles são tantos quantos os habitantes desse mundo.

Portanto, para ser “espiritual” não é obrigatório pertencer a nada, fazer parte de nada. Até pode acontecer, mas essa pessoa é totalmente LIVRE, não condicionável, simplesmente porque não tem medo de ser punido nem se sente culpada caso não atenda alguma ordem “superior”. Sua ética é ampla, justamente por valorizar a casa (planeta) que vive e todos os seres vivos, respeitando o direito a vida e a liberdade.

Ser “espiritual” é reconhecer suas qualidades e ter sempre bem presente o mal que pode causar, afinal isso é conhecer-se verdadeiramente, não se iludindo consigo mesmo, o que mantém todo seu Ser em harmonia que justamente significa paz e guerra em equilíbrio.

Penso que tudo isso esteja ao nosso alcance, se realmente quisermos e me parece bem mais difícil que andar em cima da água, afinal a sociedade sempre cobrou um preço caro por quem fugiu do rebanho.

                                                          maria-vai-com-as-outras