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O terceiro fator

           “Viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe”

Oscar Wilde

 

  “ Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma.

     Vivo em uma dualidade dilacerante.

     Eu tenho   uma aparente liberdade,  mas  estou presa dentro de mim.

      Clarice Lispector

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Muito se fala desse mundo de dualidade, do bem e do mal, da saúde e da doença, alegria e tristeza, etc. Todos já cansamos de ouvir que o caminho do meio é a solução para o sofrimento desse paradoxo. Sempre que estamos fixos em um dos polos estamos sofrendo, justamente por excluir o outro. Assim, por exemplo, sofremos se estamos doentes, mas também sofremos quando estamos saudáveis pelo medo da doença chegar. Isso vale para tudo.

A sabedoria do caminho do meio é inclusiva, nada despreza e atende o equilíbrio pela interação dos opostos. Ainda alguns pensam que estar “bem” é estar livre de problemas, pura ilusão! Estar “bem” é lidar com os problemas de forma evolutiva e pouco sofrida. Ansiamos por um dia em que nada nos preocupe. Se esse dia chegar (peça para o Papai Noel), estaremos preocupados pensando que preocupação teremos em seguida e qual será.

Mas existe ainda a, talvez, mais profunda e enigmática dualidade: entre a mente e o espírito (Self, ou qualquer outro nome que designe o imaterial ou eterno em nós). Qual seria então o caminho do “meio” entre esses antagônicos?

Em numerologia dizemos que o Três é o número perfeito, já que traz em si a completude ou a expressão da ideia. Assim os cristãos dizem “Pai, Filho e Espírito Santo”, os egípcios “Isis, Osíris e Hórus”, os Indus “Shiva, Brahma e Vishnu”. Fora da religião, temos o dia que se manifesta no amanhecer, entardecer e anoitecer. Da mesma forma temos o alto e médio e o baixo, o quente o morno e o frio e assim por diante.

Falta então para o entendimento da dualidade seu terceiro elemento, que  abrange e elimina o contraditório pela síntese.

Como sabemos, a mente se caracteriza pelo medo com objetivo da manutenção da vida. Isso explica sua função de nos manter constantemente negativos e apreensivos, mesmo nos melhores momentos. De outro lado, temos aquela “voz” interior que nos pede o novo, o arriscado, ou em outras palavras, a evolução. Para a mente o conhecido, para o espírito o desconhecido, afinal como crescer sem avançar? Avançar é ir além e buscar mais, vencer desafios e correr riscos, como consequência óbvia.

Nossa vida sempre é resultado dessa fricção entre os opostos e o destino é o outro nome que damos as nossas decisões. Poderia então haver algo mais do que a mente e o espiritual? Haveria esse meio termo que abarcasse ambos e nos aliviasse do sofrimento?

Se formos  pelos conselhos da nossa mente, ficaremos sempre na mesma. Ela precisa do conhecido e quer nos manter vivos, independente da qualidade dessa vida ou se estamos crescendo ou não. Mudança, só na necessidade quando não tem mais jeito.

Já o espírito, eterno e  “imagem e semelhança” da criação, não está muito aí para os cálculos e receios e quer mais que vivamos intensamente, pedindo novidades, que o leve para novos caminhos e descobertas, seja qual for.

Assim, imagine-se como um empresário que tem dois assessores, um extremamente conservador e cuidadoso e outro completamente “louco” que só pensa em arriscar e inovar. Todas as decisões desse empresário passam por ouvir seus dois assessores e ele sempre busca a melhor escolha.

Se os dois assessores são a mente e o espírito, quem será o empresário, aquele que dá a palavra final?

Precisa ser alguém que não seja nem um nem o outro, ou os dois ao mesmo tempo, buscando o acordo.

Esse grande chefe chama-se, para mim, nossa Consciência, o terceiro elemento que completa o Humano.

Tenho certeza que já foram muitos momentos em que todos  internamente já ouvimos nossos “assessores” discutindo sobre nossa vida, se deveríamos ou não fazer isso ou aquilo. Quanto mais a discussão fica acirrada, mais vamos achando que vamos enlouquecer ou que entramos em um beco sem saída. Cabe lembrar que eles nunca chegarão a um acordo. Isso não é possível pela total oposição, deixando o entendimento entre ambos, impossível.

Atualmente com um alto nível de decepção com as religiões e seus resultados, e aqui cabe afirmar que elas não têm culpa, o problema é a expectativa ou essa transferência que fazemos para “alguém” resolver nossas questões, experimentamos um mundo cada vez mais ansioso. Essa ansiedade e suas consequências, como aumento das compulsões alimentares, álcool e drogas e tudo mais se dá para os que só ouvem a mente, procurando estancar o sofrimento, está adoecendo a humanidade. O medo advindo dos pensamentos negativos sem fim bloqueia o processo criativo e evolutivo, já que ficamos acuados por medo de que as mudanças que ansiamos não deem certo e viemos a passar necessidades ou privações. Quem tem na mente sua única maneira de viver, trata os pedidos do espírito com desdém, chamando-os de “viagem”, bobagens e outros nomes pejorativos.

Para os que só ouvem o espírito, muitas vezes as decisões são pouco trabalhadas, baixa persistência e mudanças constantes que também têm suas consequências, como por exemplo, a perda da capacidade de se ir até o final dos processos e correr riscos desnecessários. Tudo atrás das constantes mudanças imaginando cada uma como o que falta para atingirmos essa felicidade. Para eles, as precauções que a mente solicita são consideradas como covardia ou receios, a quem  não se deve dar ouvidos.

Assim, cabe ao grande gestor interno, a Consciência, saber avaliar e escolher o melhor caminho, dando razão ora a um, ora a outro e às vezes contemplando ambos.

Porém isso só é possível se entendermos ou soubermos qual assessor está falando e qual é a sua natureza. Lembre que um nunca trará pensamentos do outro. Esse exercício de observação não é difícil de ser feito, mas exige atenção a si mesmo e, principalmente, tomar essa posição de neutralidade e observação.

Nossa ligação com o corpo que habitamos nos empurra de forma natural e instintiva para a mente, afinal ela nos mantém vivos e isso é muito importante. Pode-se começar prestando mais atenção aos pedidos de novidade do espírito, permitindo que se manifestem livremente. Não os julgue, apenas observe a mensagem até o final. Nunca exclua pensamentos ou intuições que fazem seu coração vibrar de emoção e imaginar a sensação de realização. Aliás, sentir-se realizado é outro nome para a coragem de ter vencido as precauções da mente.

Depois, procure conciliar levando em consideração a natureza dos conselhos e encontre esse caminho do meio que nos recomenda Lao Tse.  Busque seu crescimento sem desprezar ou analisar as circunstâncias e tome a decisão como um juiz ou o empresário. Como essa sentença (escolha) afetará a sua vida, responsabilize-se por ela e não se lamente pelo que não fez.

 Mudança sempre dá medo, mas é sempre necessário avançar. Tudo que chega ao seu limite inicia o processo de estagnação e é questão de tempo para começar o protesto da nossa parte que precisa avançar se mostrando em angústia e um vazio interior que nenhuma recompensa material consegue suprir. Nos alimentamos espiritualmente de sonhos e conquistas que nos façam melhores que somos. O que não quer dizer não refletir, ponderar e saber, vez por outra, esperar.

Lembre que tudo que está em processo de mudança cresce e está vivo, mas esse mundo material que vivemos exige ponderação misturada com coragem. Pratique e quando isso for uma experiência verá que na verdade não existem opostos, mas uma coisa só que se manifesta de duas formas.

Essa percepção da unidade só se dará pelo olhar do terceiro e decisivo elemento, a consciência.

Ao findar esse texto, é lícito pensar que tínhamos um problema quando começamos a leitura que era dar fim a essa divisão e agora o problema pode parecer maior, já que um novo integrante precisa ser ouvido. Não é isso.

A consciência não precisa ser ouvida, é ela que ouve!

 

 

 

 

Terapia, para quê?

“O principal objetivo da terapia psicológica, não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece num equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade.”

                                                                       Carl G. Jung

Nós, seres humanos, parecemos ser criaturas em busca de significados que tiveram o infortúnio de serem lançadas num mundo destituído de significado intrínseco”

                                                                      Irvin D. Yalom

                                                                                                                                                            terapia

Afinal, para que serve a terapia?

É natural que a motivação de alguém a procurar a psicoterapia seja um problema, novo ou antigo, que de alguma forma esteja importunando sua vida e dificultando seu processo de crescimento.

Mesmo que pareça simples, esse movimento inicial de buscar ajuda ainda é obstaculizado por um preconceito antigo que liga a terapia a doenças mentais ou a loucura, como incrivelmente ainda hoje se escuta.  Salvo que alguma pessoa importante incentive, com o exemplo pessoal de ter tido uma experiência verdadeira e gratificante com a terapia, existe uma demora motivada pelo preconceito que faz com que essa procura seja adiada até o ponto limite de sustentar ou suportar a situação aflitiva.

O passo seguinte ainda depende de um golpe de sorte; que o terapeuta procurado tenha uma linha de atuação que se encaixe com a pessoa e, de alguma forma, atenda sua expectativa sobre o “como funciona” o processo terapêutico  ou a surpreenda de tal forma a mudar positivamente seu conceito anterior. Infelizmente, muitas pessoas não têm a sorte desse primeiro encontro ser agradável ou atender seus anseios e faz com que, por desconhecimento, coloque a terapia em um novo preconceito; onde todos os terapeutas são iguais e só existe um tipo de terapia, aquela que experimentou e não gostou.

Costumo dizer que existem tantas terapias quantos terapeutas no mundo e isso é fácil de explicar; mesmo os modelos mais ortodoxos, que impõe aos profissionais rigorosas formas de se conduzir e de interpretar os conteúdos trazidos pelo cliente, não deixam de serem pessoas com sua própria individualidade, em que esse modelo que aprenderam sofreu alguma mudança ao ser assimilado. Dessa forma, cada um dá o seu toque pessoal e interpretação individual ao que aprendeu e isso se mostra na sua conduta profissional.

Portanto, se você que me lê está pensando em fazer terapia, saiba que faz parte do processo a procura pelo profissional que se encaixará com seu jeito de ser. Quando essa procura termina? Quando se sentir entendido, profundamente entendido pelo profissional e que a abordagem, ou seja, o jeito de conduzir a terapia faça com que se sinta confortável e seguro. Isso passa também e principalmente, pela  visão que ele tenha do seu problema e da maneira de encarar as circunstâncias que envolvem o cliente, fazendo com que rapidamente uma nova visão da situação venha  e com ela saídas e soluções ainda não vislumbradas surjam no horizonte.

A partir desse momento, o caminho da mudança começa a se definir e, esse relacionamento entre o terapeuta e o cliente, vai sendo a base desse processo, onde os pensamentos, inquietações e dificuldades de se chegar ao objetivo vão sendo avaliadas em todos seus aspectos,  até que o novo quadro se cristalize.

Assim, não existe um tempo definido para terapia. Quando esse processo é bem entendido e vivenciado o resultado obtido teve como ingrediente principal um aumento do autoconhecimento, que tornou o cliente uma nova pessoa e essa nova pessoa foi que conseguiu o sucesso. Quanto mais nos conhecemos, mais diferentes vamos ficando e os problemas que levaram a pessoa a procurar a terapia, no final, foram um aviso de que uma mudança precisaria ocorrer, para que, só assim, o obstáculo fosse transposto.

Em uma terapia bem sucedida nenhum dos dois que começa no processo permanece o mesmo. Essa troca entre terapeuta e cliente sempre traz mudanças dos dois lados, inevitavelmente. Assim, é normal que um vínculo forte de confiança se estabeleça, o que permitirá que o cliente vá cada vez mais profundamente em si mesmo. Como não existe limite para o autoconhecimento, não há para a terapia.

Sei que existe ainda outro preconceito muito forte, vindo da linha mais famosa e antiga da psicoterapia, de que esse processo precisa ser obrigatoriamente demorado, que leva anos. Pode ser verdade, para essa linha especificamente, mas está longe de valer para todos. Nunca esqueça que existem muitas maneiras diferentes de se ver e entender o ser humano, seu comportamento e o funcionamento de sua mente.  Nada impede, absolutamente, que em pouco tempo, as condições de mudança se cristalizem o os resultados venham. Cada pessoa é um universo particular, logo não existe um padrão.

Algumas linhas, mais voltadas à questão do que o ser humano pode tornar-se (e isso sempre é diferente do que ele é hoje), são baseadas em autoconhecimento podendo mesmo nunca ter um fim, já que se estamos sempre mudando. Então,  conhecer-se é um trabalho a ser feito sempre. Claro, que o começo é motivado para resolver um problema, e essa solução pode representar o fim da terapia e não há nada de errado nisso. Porém, esse tipo de abordagem pode continuar pelo tempo que o cliente se dispuser, e posso garantir que os problemas serão percebidos com antecedência e até deixam de ser problemas em si, já que essa ampliação do senso de Eu, onde a pessoa se percebe mais completa, também amplia e, em muito, seus recursos para enfrentar todas as questões que a vida lhe impõe.

Durante algum tempo procurei encontrar um nome para esse momento, porque o termo “terapia” está vinculado à resolução de conflitos e dificuldades. Passei a ver esse processo com o nome de “Psicoterapia evolutiva”*, onde o passado tão valorizado por outras linhas passa a ter uma importância relativa, mas onde a base é o conhecimento de si, as novas atitudes que, com certeza, trarão novos resultados.

Entender os motivos e os processos que nos levam a agir de determinada forma e o vislumbre de novas possibilidades de, com um novo olhar, reinterpretar e dar um novo sentido ao que nos ocorre é a busca que se empreende. Essa visão não é nova nem inédita, mas sempre contemplará uma transformação. Deixar que o antigo se vá para que o novo possa surgir, essa é a questão.

Todos padecem da falta de autoconhecimento, muito pouco incentivado desde sempre, já que pessoas que não se conhecem ou recebem “de fora” suas definições são sempre mais fáceis de serem controladas.

Independente da linha, do jeito e dos conceitos, a terapia é um espaço onde a pessoa pode ser sincera consigo mesma, onde não será julgada nem avaliada e só por isso já vale muito a pena. Ter um tempo para si, para ser verdadeiro, inevitavelmente ampliará os horizontes pessoais e compreensão de si e do mundo que o cerca.

Com certeza, existe uma terapia que se encaixará com você. Portanto, procurar e experimentar não são tempo perdido, mas um grande investimento.

 Quanto custa viver melhor? Existe mesmo um preço para isso?

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  • A visão não é “evolucionista” no sentido dos nossos ancestrais e dos costumes, mas como desenvolvimento de uma consciência ampliada.

O sacrifício final

“ O homem precisa aprender a sacrificar seu sofrimento…abdicamos do que nos faz bem em prol do sofrimento…o homem faz isso por pensar que o sofrimento é enviado por Deus.

P.D. Ouspensky

 

sofrendo

 

Esse é 100º artigo postado, e, justamente por isso, quero enfatizar um assunto que tem de alguma forma permeado grande parte dos textos que é o sofrimento.

Um dos motivos mais comuns que o ser humano tem para valorizar o sofrimento e fazer dele algo útil (se é que isso possa ser lógico ou possível) vem da cultura cristã. Foi-nos “ensinado” que o sofrimento, ou uma palavra similar “sacrifício” tem o poder de nos purificar, nos aproximando de Deus.

Isso traz consigo uma atitude inconsciente que nos fala o seguinte; se não estou sofrendo ou fazendo algum sacrifício, não estou me “purificando” ou me aproximando o suficiente de Deus e ser recompensado depois de minha morte. Assim, estar de bem com a vida e sem preocupações passa ser uma coisa que faz com que as pessoas se sintam inadequadas, estranhas, como se algo estivesse errado. Nesse momento, não podendo perder tempo, torno algum acontecimento rotineiro ou insignificante fonte de grandes preocupações. Dessa forma, volto a me preocupar ou estar me sacrificando por algo e meu processo de “limpeza” prossegue.

Se você se perguntar ou for fundo nessa história, verá que sua raiz está na crucificação de Jesus, do qual eu e você somos culpados (já nascemos assim) precisando sofrer bastante para expiar nossas culpas.

Mas na verdade, isso é uma forma de dominação muito bem pensada. Assim, ser explorado, por exemplo, é algo com que tenho que me conformar, até mesmo agradecer inconscientemente, já que ajuda no processo de purificação de todas as coisas ruins que nasceram comigo.

De sofrimento velho ou novo, vou vivendo (será?) a vida, pensando que as coisas desagradáveis que me sucedem sejam obra divina, que sabe o que faz, com a finalidade de me encaminhar ao paraíso.

Como se já não bastasse tudo isso, temos um problema ou um “efeito colateral” desse modo de pensar que está incrustrado profundamente em nós. Como já escrevi anteriormente, as emoções se manifestam em nosso corpo pela liberação de hormônios, o que as torna algo que, pela repetição, nos faz dependentes químicos. Lembre que nos viciamos em emoções e por isso as mantemos por uma vida toda, justamente por criarmos uma dependência desse respectivo hormônio que, por uso constante, passa a ser necessário. Em outras palavras: ser “eu” mesmo, ou a minha identidade passa a incluir essa emoção ou sofrimento. Depois de algum tempo passo a “precisar” dela e consciente ou inconscientemente crio as condições para que ela aconteça.

Espero que agora seja possível entender o motivo de sempre estarmos preocupados por alguma coisa. Não é à toa que muitas vezes você deve ter notado e até expressado para algum amigo ou familiar que o que o está preocupando é algo realmente pouco importante, mas não entende o motivo de esse assunto “pequeno” estar se tornando grande.

É vício mesmo, como o de qualquer droga, álcool ou uma compulsão qualquer.

Mas, como quem pensou tudo isso de bobo não tem nada, além desse paradigma ridículo de que o sofrimento faz bem, para nos deixar sem saída, incluiu um outro pensamento que qualquer criança de cinco anos já relata ter ouvido de seus pais, o que garante a continuidade do “sistema”: Felicidade dura pouco!

Assim, de geração em geração, vamos sofrendo, sendo feitos de trouxas, achando que estamos fazendo grande coisa. Pense nas penitências, promessas que incluem as mais várias formas de privações e tudo mais.

A grande desilusão com as religiões mais ortodoxas vem justamente disso; preocupo-me por tudo, me sacrifico e como pode acontecer algo ruim comigo? Eu não mereço!

Daí, você se sente abandonado por Deus e vira um descrente ou faz o mais fácil; troca de religião, que essa nova sim, garantirá que todo o sofrimento terá um resultado e valerá a pena!

Quer saber? Tudo isso termina virando uma negociata divina. Faço e cumpro tudo e Deus me garante que nada de ruim me acontecerá.

Não vai dar certo!

Portanto caro leitor, se você não consegue parar de sofrer, de estar sempre preocupado por algo, temendo uma desgraça que pode se abater a qualquer momento por ser um pecador contumaz, mas quer se libertar de tudo isso, assuma seu vício de qual foste vítima e toma a única decisão possível:

SE ABSTENHA!

Não se cura nenhum vício sem a abstenção da “droga” não é mesmo?

Sei como será difícil, um “sacrifício” mesmo. Procure não se sentir culpado ou responsável por nada que não seja seu, se divirta mais e viva mais sua vida. Vai que tudo isso que  acreditou a vida inteira não passa de uma grande besteira, uma forma de condicioná-lo. Se determine, pelo menos, a só se preocupar com situações realmente importantes e que tenha uma condição: só dependa de você mesmo o resultado. Se não for, faça sua parte e esqueça.

Vai que, a única coisa que garanta seu futuro depois da morte seja um passaporte: a vida que foi vivida!

Afinal, se o carma existe mesmo ele funciona assim: você sofreu muito então é porque gosta e merece continuar. Se viveu bem, trabalhou, se divertiu e curtiu tudo de bom que a vida oferece, também merece continuar. Pensando de outro jeito: o que você espera (vida futura) se plantou (na vida presente) um pé de pitanga?

Mas essa mudança passa pelo corpo que precisa se acostumar a ter cada vez menos hormônios de sofrimento na sua corrente sanguínea. É com o tempo e novas atitudes que se chega lá!

Por falar em tempo, quando eu tiver mais, seguindo o exemplo dos AA (alcoólicos anônimos) vou crias o SA (sofredores anônimos).

As reuniões acontecerão nos estádios da copa e serão transmitidas em tempo real via televisão e internet para que todos os inscritos no “clube” possam participar. Tenho certeza que você se orgulhará de usar o botom que ganhará depois de algum tempo de abstinência do vício por ter ficado uma semana sem sofrer, um mês…imagine!!!

 

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Que seu último sacrifício (sacro ofício ou trabalho sagrado) seja o de sacrificar seu sofrimento.

 

O peso da Solidão

“ Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é um Deus.”

Aristóteles

“ A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais.”

Arthur Schopenhauer

“ A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.”

Fernando Pessoa

 

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Um estudo recente promovido pela Universidade de Virgínia*, nos Estados Unidos, publicado na revista Science, traz interessantes conclusões sobre a solidão.

Os voluntários eram colocados em uma sala, sozinhos, por 15 minutos, sem fazer nada, sem seus celulares ou qualquer outra distração. Não havia televisão, som ou qualquer estímulo que pudesse dividir a atenção. A pessoa ficava acompanhada apenas dos seus pensamentos.

Mas havia uma saída, caso apertassem um botão poderiam usar o que quisessem como pegar seu celular, por exemplo. O detalhe era que esse botão, que possibilitaria voltar a ficar conectado dava um choque elétrico. Em outras palavras, para sair da solidão o preço era levar um choque, que, segundo a pesquisa, era dolorido o suficiente para, em princípio, desestimular essa iniciativa.

Os resultados foram surpreendentes: 67% dos homens e 25% das mulheres preferiram a dor do choque a ficarem os 15 minutos completamente sós. Alguns, inclusive, preferiram tomar mais de um choque nesse curto período.

O resultado não deixa dúvidas;  o ser humano (na sua média, afinal toda a regra tem exceção) vê a solidão como algo negativo. O simples fato de estar conectado a internet, já abranda essa angústia. Isso explica muito bem como os celulares modernos ocupam muito do espaço que antes era da televisão, ou seja, de nos entreter e evitar que a pessoa se perceba só.

Alguns estudiosos como John Cacioppo que é diretor do centro de neurociência da Universidade de Chicago, defendem a ideia que a solidão trabalha em nosso cérebro da mesma maneira que percebemos a dor, fome ou sede. Isso quer dizer, que, quando sozinhos nosso cérebro entende que corremos risco de vida, afinal os estímulos citados acima têm a ver com sobrevivência.

Todos os estudos mostram que as pessoas sozinhas, ou que assim se sentem, têm, em média,  um aumento da pressão arterial e o processo de envelhecimento acelerado, se comparado com pessoas não afetadas. Já as pesquisas sobre suicídio dão conta de que as pessoas consideradas “cronicamente sós” atentam mais contra sua vida do que as que não pertencem a esse grupo.

A explicação para o resultado dessa pesquisa tem suas raízes em nosso processo evolutivo. Nos primórdios, mesmo antes da podermos dizer que havia algum rudimento de civilização, a sobrevivência do “bicho” homem só era possível em bandos, ou seja, estar com mais pessoas ajudava a manter a vida. O grupo proporcionava essa segurança de uns defenderem os outros, a conseguir alimento e dividir tarefas.

Mas, pelo visto, nem todas as mudanças nesses muitos milhares de anos trouxeram grandes acréscimos em relação ao nosso modelo original. Talvez porque a própria teoria evolucionista mostra que temos em nossos genes contato com esse homem das cavernas, de quem somos descendentes.

O fato de sermos animais sociais, não tem a ver com não podermos estar sós. A solidão é um problema que a pessoa tem consigo, é interior. É de alguma forma sentir-se a parte, desconectada da vida. Quantos se dizem sós, mesmo rodeado de pessoas?

Hoje, com toda a tecnologia disponível a maioria das pessoas teme a solidão como uma doença letal. A mente sempre agitada e negativa deixa a pessoa atordoada com suas maquinações de medo em relação ao futuro ou culpa pelo passado e, na verdade, o outro ou algo que prenda minha atenção cumpre a tarefa de  salvar desse inferno de ficar ouvindo esses pensamentos ruins o tempo todo.

Não vejo como possamos estar realmente bem com alguém sem que tenhamos a experiência agradável da solidão. Parece que as pessoas não entendem que não “são” sua mente e  não há nada que faça essa negatividade acabar, afinal essa é a sua natureza. Ter medo ajuda o bicho homem a sobreviver, como já enfatizei em artigos anteriores.

Mas isso não impede que minha companhia me seja agradável, que possa curtir a solidão como algo prazeroso e profundamente evolutivo. Quem fica bem sozinho transcendeu ao bicho que também faz parte de si, e, provavelmente, entendeu sua mente e convive bem com ela, apesar de tudo.

A solidão será um problema na medida em que pensamos que esse “vazio” só pode ser preenchido por outra pessoa ou por estar em contato com outras. Aí, já entramos no perigoso terreno do apego e da dependência emocional que sempre é facilmente confundido com amor. Se dependo da presença de outra pessoa para me sentir bem, é porque me falta algo, que espero que seja preenchido pelo outro. Nunca será, e é por isso que muitas pessoas pulam de relacionamento em relacionamento atrás de si mesmas e  nunca sossegam. Procuram  no outro o que falta em si e isso nunca será possível.

Assim, vamos imaginando nas outras pessoas ou esperando em um futuro relacionamento “perfeito” a peça que falta no quebra cabeça do meu autoconhecimento.

A grande vantagem de encontrar essa paz em si mesmo é nunca cobrar do outro essa responsabilidade, além de facilitar e nivelar sempre “por cima” as escolhas que fazemos, não só afetivamente, mas em todos os campos de relacionamento. Se não preciso, escolho melhor e sempre me relaciono de forma mais saudável. Parece óbvio, mas,  infelizmente, não é.

Os choques que as pessoas preferiram levar nesses apenas 15 minutos, mostram que preferem sofrer a ficar sós com seus pensamentos. Daí é bem fácil entender porque também sofrem em suas relações. O outro é alguém que me salva dessa sensação de inadaptação que nos faz sofrer e ativa nosso sistema como um perigo letal.

É claro que se estou morrendo qualquer um que me salve resolve meu problema, mas ninguém está doente ou morrendo por estar só. Hoje, com a internet, temos milhares de contatos na palma da mão e ter a possibilidade de conversar com pessoas on line e saber o que ocorre um tempo real virou também um substituto para a convivência.

É tão mais seguro se relacionar atrás da tela, já que nos isenta das frustrações possíveis de ocorrer em relacionamentos reais. Sempre será importante lembrar que dificilmente um relacionamento entre pessoas emocionalmente saudáveis dará errado. Vamos de um extremo a outro, sempre fugindo da dor e buscando a felicidade.

Como nosso lado instintivo é  forte!  Somos ainda mais bichos que humanos.

Pelo visto, evolutivamente, a pré-história ainda não terminou.

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*Os resultados dessa pesquisa foram publicado no Jornal de Santa Catarina na edição de 21/07/2014

O ERRO

“Muitos de nós levam a vida presumindo que estão basicamente certos o tempo todo, sobre basicamente tudo…”

                                                     Kathryn Schulz

                                                                                                                                                        crenças

Lidamos mal com o erro, e penso que isso ocorra por não sabermos avaliar sua importância. Só o erro nos ensina e deveríamos ser mais gratos a ele. São justamente eles que nos mostram a melhor maneira de acertarmos e de entendermos o que está a nossa volta.

Mas é interessante o fato de pensarmos que, ao levarmos nossa vida cotidiana de forma natural, isso nos leva a pensar que estamos certos sobre quase todas as coisas. Partimos de pressupostos sobre quase todos os aspectos da vida, e são esses pressupostas que também chamamos de preconceitos, ou seja, temos conceitos que entendemos corretos e, a partir deles, tomamos nossas decisões.

Imagine, por exemplo, que você esteja fazendo uma viagem e não conheça o lugar onde esteja. Precisará pedir uma informação para chegar onde quer. Se muitas pessoas estiverem passando a sua volta, sua escolha sobre a quem pedirá a informação será totalmente baseada em preconceitos. Seja pelo tipo físico, roupa ou algum outro fator que será analisado em fração de segundo, sua escolha recairá sobre aquela pessoa que você pré conceba que poderá lhe dar a orientação correta.

O preconceito, portanto, é extremamente útil, mas ele é baseado em ideias que, na maioria das vezes, nem questionamos se são corretas para nós. Assim, nos dizemos contra os preconceitos raciais, por exemplo, mas vez por outra um ato ou outro pode deixar claro que isso ainda não está bem resolvido em nós. Isso porque os preconceitos agem inconscientemente em nós, o que quer dizer que são quase um movimento automático no nosso cérebro.

Mas, quando nos descobrimos errados, nos sentimos muito mal, e só nos “entregamos” quando não temos mais mesmo nenhuma saída. Até o último momento, lutamos pelo que acreditamos certo, dando justificativas que nos isentem de nos sentirmos mal por estarmos errados. Ao fim, antes de capitular, podemos dizer: tudo bem, estou errado, mas….

Para Kathryn Schulz, “em nossa imaginação coletiva, o erro não está associado apenas à vergonha e estupidez, mas também a ignorância, indolência, psicopatologia e degeneração moral. Longe de ser um sinal de inferioridade intelectual, a capacidade de errar é crucial para a cognição humana. Longe de ser um defeito moral, ele é indissociável de algumas de nossas qualidades mais humanas e honradas: empatia, otimismo, imaginação, convicção e coragem”.

Associamos nossa auto imagem a conceitos que acreditamos corretos e mudá-los não é mesmo fácil. Mas se o erro tem uma vantagem que devemos valorizar sempre é justamente permitir que nos atualizemos e possamos corrigir nossas ideias a respeito de tudo. Seria algum absurdo pensarmos que será sempre o erro que nos definirá mais verdadeiramente? Melhor que Descartes com seu “penso logo existo”, Santo Agostinho se saiu bem melhor com “fallor ergo sum”, ou seja: erro, logo existo!

O erro é sempre uma experiência própria, enquanto o preconceito será sempre uma experiência não adquirida por vivência, mas, normalmente, aprendida pela cultura ou educação que recebemos.

Poderemos passar pela ciência que é a que mais erra, sendo, portanto, a que mais busca o acerto. Seja em que ramo for, desde a terra ser o centro do universo às inúmeras vezes que o café fez mal e depois fez bem, quase todas as “verdades” científicas caíram por terra ao longo do tempo. Mas isso não tira o mérito da ciência, mas a eleva, na medida em que busca o acerto vendo que errou. Claro que isso não é tão simples, afinal, cientistas são pessoas e demoram a aceitar seus erros, que eram verdades para eles quando chegaram a suas descobertas.

Tendemos a associar todas as nossas crenças ao que entendemos moralmente certo, e por isso sempre será um ótimo exercício revermos nossos conceitos do que é certo. Isso é melhor do que somente reagirmos a situações e termos que nos desculpar depois, principalmente quando percebemos que erramos de forma nítida.  Mas pelo conceito estar arraigado em nosso inconsciente só percebemos depois.

Justamente por isso, o fato de errarmos é de grande importância; justamente por ser uma experiência. Como nos ensinou Sidarta Gautama, um dos Budas, a verdade só pode ser comprovada por termos vivido a experiência. De mais a mais, como seres tidos como imperfeitos podem acertar sempre?

Deveríamos aceitar melhor os nossos e os erros dos outros. Como psicoterapeuta, costumo dizer a meus clientes que o erro só é mesmo um problema quando não aprendemos nada com ele, e o pior, ainda repetiu e continuou a sofrer.

Podemos poeticamente dizer que quando estamos errados é como se tivéssemos uma verdade momentânea, que perdeu validade. Da mesma forma, como a evolução do homem tem mostrado em todos os campos, as verdades também são efêmeras.

De certa forma, todos estamos certos, pelo menos enquanto não somos “desmascarados” pela vida ou situações, e isso é uma boa maneira de pensar em como lidar com as pessoas que pensam diferente de nós. Tanto nós como o outro poderão a qualquer momento se perceber como errado, então por que se preocupar e pior; tentar impor aos outros nossas verdades transitórias?

Podemos ter a consciência socrática de que nada sabemos, e isso torna muito mais fácil  lidar com nossas crenças e com as dos demais. Para que discutir? Sendo o erro uma experiência individual, vai ser mesmo difícil convencer os demais do que achamos certo, não concorda? Lembre sempre que, para alguém tomar sua ideia como certa, ele terá que aceitar que a dele é errada e isso não é um exercício fácil, como já citei anteriormente.

A dúvida sobre tudo ou a certeza de nada saber, é um tipo de exercício extremamente evolutivo, afinal, para estar em dúvida e aberto a rever meus conceitos, preciso estar bem consciente e não estar muito preocupado em defender meu ego.

Nossos sentidos, que são nossa leitura de grande parte da realidade, nos enganam a todo o momento e isso é fácil de perceber. Mesmo nossa memória (ver artigo anterior sobre o assunto), já está mais do que provado que nos engana sempre, criando nossas lembranças, nos coloca diante do fato de errarmos como algo inerente a estarmos vivos.

Dizemos que gostamos e depois desgostamos, prometemos que nunca faremos algo e logo depois estamos com vontade de experimentar. Prometemos coisas que não conseguimos cumprir mesmo que na hora da promessa estejamos certos do que dizemos e assim por diante.

Aliás, penso que promessas e juramentos nada mais são que tentativas de permanecermos achando certo o que já descobriremos errado um dia, tornando o transitório definitivo.

Assim, sempre que ficamos surpresos ou espantados com algo é porque nossas expectativas e preconceitos estavam errados. Não é?

 

O presente texto teve como inspiração a leitura do livro:

Por que erramos? – Kathryn Schulz  ed. Larousse