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Verdadeiramente órfãos

“Ser agnóstico é como enfim tirar a venda, mas descobrir-se cego.”

                                                                                 Rodrigo Quito

Ograndepensador

Essa foi uma daquelas notícias que ninguém dá importância:

“O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, alertou que até 2030 quase metade da população global terá problema de abastecimento. Isso vai acontecer porque, daqui a 17 anos, a demanda por água vai superar a oferta em mais de 40%.”*

Poderia citar tantas outras sobre outros tipos de esgotamento do planeta, mas vou deixar apenas essa, já serve para nossa reflexão.

Em outros artigos desse blog já  falei que a ideia que temos de Deus, como sendo um “pai” ou uma figura quase humana nos mantêm infantis por toda uma vida, já que no nosso inconsciente (estou sendo otimista), temos a ideia de um Deus que está cuidando de nós; aquela história de crianças que não sabem o que fazem. Como tudo que é dito mil vezes…

Assim, vivemos achando que se algo bom acontece é “graças a Deus”, e se for sofrimento “Deus sabe o que faz”, ou a ótima: “cada um carrega uma cruz que suporta o peso”.

Interessante observar que isso nos coloca sempre na condição de uma vítima, sem autonomia, ou seja, sempre terá quem me cuide, seja Deus ou um Anjo da Guarda qualquer designado para esse fim. De forma coletiva pensamos da mesma forma, e isso pode estar por trás do nosso descaso ou falta de consciência ecológica.

Esse alerta da ONU é baseado em dados científicos e existem outros estudos que mostram que até 2040, mais da metade da população mundial poderá morrer por problemas ligados a exaustão do planeta. Esses dados não são ficção científica, estamos falando daqui a 25 anos e, se não fosse pela destruição, provavelmente todos nós poderíamos estar vivos nessa data.

Cabe lembrar que o ser humano não faz parte da cadeia alimentar. Alguns dizem que estamos no topo, mas na verdade somos a única espécie que, se deixasse de existir, garantiria que esse pequeno planeta azul duraria  muito mais. Somos desnecessários aqui e deve ser por isso que só fazemos mal.

Existe um equilíbrio na natureza que o Homem insiste por ignorância e ganância, que no fim é a mesma coisa, afetar com sua conduta destrutiva. Nenhuma espécie destrói seu habitat, só mesmo o humano.

O sonho do mundo é viver uma vida de consumo, como os EUA,  por exemplo. Só que  se isso ocorrer fará com que precisemos de outros planetas iguais ao nosso só para dar conta da demanda dos recursos necessários para gerar energia e matéria prima para produzir tudo que queremos comprar.

Fico pensando se tudo isso não está acontecendo por termos a ideia de que nenhuma tragédia acontecerá, que nada se esgotará porque “Papai do Céu” está cuidando e certamente intervirá de alguma forma para que seus filhos não morram pelas suas burradas. Vai que Deus é um daqueles pais que não colocou o filho no mundo para sofrer.

Penso que não seja.

A história da humanidade está repleta de erros que custaram milhões de vidas e não percebi nenhuma intervenção divina. E se o conceito que temos de Deus enquanto humanidade estiver errado? Afinal foram pessoas como eu e você, algumas que hoje em dia certamente estariam acompanhadas por um psiquiatra, inventoras dessa ideia de um pai protetor, que nos cuida como crianças, a quem pedimos ajuda para atender aquilo que não nos sentimos capazes de conseguir ou para termos a desculpa para os erros crassos em nome do desenvolvimento e da felicidade geral.

Estamos destruindo o planeta e não teremos ajuda “externa”, pois se ela existisse teria evitado muitas das bobagens que já fizemos, como duas guerras mundiais e tantas outras no decorrer da história, para dizer o mínimo.

Qualquer ecologista principiante sabe que não existe crescimento sustentável, isso é uma mentira. Todo o crescimento ou destruição não pode ser recomposto. Da atmosfera aos lençóis freáticos, estamos matando esse organismo vivo que é o planeta Terra e morreremos juntos, esperando uma redenção. Temos prognósticos nada animadores sobre doenças que estão por vir, justamente pelo desequilíbrio que estamos produzindo em larga escala.

Então, estive pensando e cheguei a uma conclusão que uma das saídas filosóficas para o problema seria mudar o conceito de Deus. Já que ninguém pode discutir crenças, lá vai mais uma:

E se Deus apenas seja um impulso de vida e que depois estamos cada um por nossa conta? A isso damos o nome de “livre arbítrio”. Seja individualmente, seja coletivamente, estamos fazendo coisas para atender nossos desejos de riqueza e poder,  gerando resultados que teremos que assumir. Se a lei do Carma existir, estamos ferrados!

Dessa forma, talvez a solução possa ser nos tornarmos todos Agnósticos**.

Sei que isso faria com que as Igrejas de todos os tipos perdessem finalidade e muita gente teria que arrumar outro programa para os domingos pela manhã. Alguns canais de televisão perderiam parte ou toda sua programação, além é claro de muita gente, mais muita mesmo teria que fazer outra coisa para sobreviver.

O agnosticismo é a visão que mais tem crescido ultimamente no mundo, principalmente nos países mais desenvolvidos onde o nível cultural é o mais elevado. Obviamente, isso não é uma coincidência; afinal quanto mais se estuda, mais se consegue pensar com alguma lucidez e observar que algumas histórias de ninar fazem parte do mundo da fantasia.

Reconhecer que a natureza como um todo  é movida por uma “inteligência “ superior e que a vida é algo tão magnifico que não poderia ser causada por nenhum acidente, é um conceito religioso em si mesmo. Mas saber que isso possa ser tão grandioso que não possamos entender é muito justo pela nossa insignificância. Vivemos em um planetinha minúsculo em uma galáxia pequena diante de milhões de outras em um Universo sem fim. É como querer que uma ameba entendesse  os textos de Kant.

Sei que isso nos deixaria desamparados em um primeiro momento, afinal estamos acostumados à ideia de sermos cuidados, mas em seguida começaremos a assumir nossa responsabilidade de forma totalmente diferente. Viraríamos adultos e rápido.

Isso poderia trazer uma nova visão ecológica, bem mais fatalista, já que tomaríamos consciência de que somos responsáveis e estamos caminhando para a autodestruição. Toda e qualquer prática que levasse ao esgotamento dos recursos seria rechaçada de pronto e teríamos um lugar para viver por mais tempo. Mas a condição é assumirmos que estamos por nossa conta, sem ajuda.

Tenho um filho de 5 anos e saber que ele poderá morrer jovem por falta de água e ar para respirar atesta que somos um fracasso enquanto humanidade. Muito da falta de consciência vem não só da ignorância, mas da ideia que nada nos acontecerá, que estamos protegidos por sermos a “imagem e semelhança” do criador.

Tudo que existe é assim, de certa forma entregue ao acaso e a grande maioria das espécies que já habitaram esse mundo desapareceram. As poucas que podem ser consideradas antigas não sobreviveram por serem fortes ou qualquer qualidade superior, mas pela sua capacidade de adaptação. Isso é uma forma de inteligência que precisamos aprender com os lagartos, tartarugas e moluscos. Se eles estão aqui há muito mais tempo do que nós, é por possuírem um tipo de inteligência que nos falta. É uma questão de lógica,  é só observarmos os fatos e não há como negar.

Nosso problema, como diz sabiamente o filósofo Mario Sérgio Cortella ***, é nos acharmos “grande coisa”, de estarmos acima das consequências da destruição que promovemos.

Esse tipo de pensamento tem fundo religioso, de nos acharmos quase deuses, quando na verdade somos só um pouco melhores do que os macacos, com bem nos mostrou e provou Darwin.

Assumir nossa ignorância mais essencial, que nada sabemos sobre esse Criador, levar em conta que tudo pode ser totalmente diferente do que esperamos confortavelmente, possa ser a alternativa mais rápida para não nos destruirmos.

Não somos crianças que não sabem o que fazem, somos autores e responsáveis por cada ato e nisso não há quem possa nos perdoar.

Quando o Papa Bento XVI esteve visitando os campos de concentração de Auschwitz saiu de lá abalado e perguntou em voz alta: Deus onde você estava que deixou isso acontecer? Via-se no seu rosto que ele estava em dúvida na sua ideia de Deus e teve seu momento agnóstico.

Essa Força criadora estava no lugar de sempre, aquele que não tenho noção de onde seja e que pode ser em todos os lugares, para o que entendemos por bem e mal. E não fez nada, porque mesmo que Ele exista, não é da conta dele. Só mesmo estando cego por alguma crença para não perceber. Observe a história e me diga que se o meteoro que dizimou os dinossauros, as pestes e nossa ganância que matou milhões e continua matando tem sido impedida por alguém.

Sinceramente, você acha mesmo que tem alguém cuidando do seu ou do nosso destino?

                                 homem com ursinho de pelúcia

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*http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2013/03/22/quase-metade-do-mundo-pode-ficar-sem-agua-ate-2030-alerta-onu.htm

**Agnosticismo – doutrina que reputa inacessível ou incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou religião (a existência de Deus, o sentido da vida e do universo etc.), na medida em que ultrapassam o método empírico de comprovação científica.

*** Palestra disponível em:

Imagem de Amostra do You Tube

Sobre a questão da história do planeta e dos seres mais adaptados sugiro a leitura do livro: “Uma breve história de quase tudo” de Bill Bryson editado pela Companhia das Letras.

O Básico

“Se você ama uma pessoa, projeta coisas que não estão ali. Se odeia uma pessoa, novamente você projeta coisas que não estão ali. No amor, uma pessoa se torna um deus, no ódio ela se torna um demônio, a pessoa é simplesmente a mesma.

Esses demônios e deuses são projeções. Se você ama não consegue enxergar claramente. Se odeia, não consegue ver com clareza”.

                             Osho –  Zen, sua história e ensinamentos.

espelho

Não é fácil aceitar que na verdade nunca conhecemos ninguém.

Quantas vezes você já se decepcionou ou encantou com alguém que gostava, seja em algum romance, amizade ou relação familiar e profissional? Com certeza muitas e o grande problema é que essas pessoas não tiveram absolutamente nada a ver com isso, o problema sempre é de quem se encanta e decepciona.

Um dos assuntos mais falados em psicologia é a projeção, ou seja, quando transferimos para o outro nossos conteúdos. Isso acontece por não termos muita ideia de quem somos, daí a única coisa que podemos ver e identificar nos relacionamentos somos nós mesmos.

Essa oscilação do amor para o ódio ou da expectativa para a decepção acontece toda hora. Inconscientemente sempre espero que todo mundo seja como eu, sinta como eu e vá fazer as mesmas coisas que eu faria em cada situação. Conscientemente, todos dizem que “ninguém é igual a ninguém”, ou a pérola biológica que se cada um tem um DNA diferente é justamente porque não existem duas pessoas iguais no mundo.

Tudo da boca para fora!

O que se vê, é “amar” e “odiar” o tempo todo. Da mesma forma que tem horas que exageramos em alguma coisa e depois precisamos nos abster por um tempo para compensar, oscilamos entre gostar e não gostar. Essa oscilação é simples de explicar; esse espelho que é cada pessoa que nos relacionamos, ora nos mostra nosso lado que gostamos em nós e queremos que os outros vejam, ora mostra o que não queremos que saibam a nosso respeito.

Já quando a paixão surge, pensamos que encontramos a pessoa “certa” nossa “alma gêmea” por quem teremos amor eterno, que superaremos todas as vicissitudes da vida, até porque é bem provável que já tenhamos nos apaixonados na vida passada…

Passado um tempo todos esses 100 tons de rosa vão esmaecendo, até porque só nos apaixonamos pelo que gostamos em nós que esse outro(a) nos mostra nesse início entusiasmante. Na verdade, nos apaixonamos por nós mesmos. Mas como nenhuma ilusão é duradoura, nosso lado menos glamouroso começa a aparecer com o tempo. A isso damos o nome de desgaste ou rotina.

Algum tempo depois queremos intimamente nos apaixonar de novo, voltar a sentir vibrar o coração. Lá estamos à procura de quem me mostre de novo meu melhor ângulo, assim como fazia aquele cantor famoso que só se deixava fotografar de perfil, onde ficava “melhor”.

Desde a infância, quem teve ou tem um irmão  com pouca diferença de idade pode observar que os dois são opostos um do outro, com temperamentos antagônicos. Isso ocorre em uma grande quantidade de vezes. Na verdade, é como se conseguíssemos juntar os dois daria um “perfeito”. Um se projeta no outro e vice versa e aí as brigas e discussões são diárias.

Depois levamos isso para todos os âmbitos dos nossos relacionamentos, quando simpatizamos com pessoas e antipatizamos com outras. De novo, todos são espelhos e, dependendo do ângulo, quero distância ou proximidade.

Quando alguém faz alguma coisa que nos deixa chocados, é justamente por termos descoberto que nunca realmente conhecemos essa pessoa. Imagina apresentarem alguém a você, sendo que “conhece” essa pessoa há vinte anos?

A terapia de casal e familiar trazem essas surpresas todo o dia nos consultórios de psicoterapia.

Portanto, o básico em relação à busca pelo autoconhecimento é começar a parar de imaginar os outros, de usar a minha medida (lembra do DNA?), esperando que todos sejam uma cópia de mim mesmo.

Pode parecer uma loucura, mas a única maneira de encontrarmos um dia esse amor verdadeiro talvez seja por alguém que não amamos nem odiamos. Essa talvez seja a condição básica de realmente podermos “ver” outra pessoa de verdade. Já reparou como uma pessoa com quem você convive, mas que lhe é indiferente, nunca te decepcionou ou surpreendeu positivamente?

Eu sei que seria difícil amarmos (essa palavra é sempre perigosa e exagerada) alguém de quem não gostamos, mas estou falando em tese.

Por outro lado, uma coisa é certa; do jeito que está, comprovadamente não dá certo. Essa constatação se dá pelo número de divórcios cada vez maior, principalmente depois que as mulheres conquistaram sua independência financeira.

Na verdade, penso que não conseguimos conviver conosco muito tempo. Daqui a pouco, precisamos de um espelho novo, com uma moldura diferente.

Como nos ensina o Zen budismo, estamos sós o tempo todo. Qualquer relacionamento seja de que nível for só terá êxito se assumirmos essa responsabilidade essencial. Ninguém me fará feliz, ou será um amigo maravilhoso, nem pai, nem mãe.

Ficamos procurando o tempo todo alguém que finalmente nos compreenda profundamente. Essa é a tese da “tampa da panela” ou da “outra metade da laranja”. Nunca dará certo  me procurar em qualquer pessoa, como posso me encontrar em alguém? Talvez o medo de assumir  responsabilidade  faça com que tenhamos essa fuga de procurar alguém especial, para quem transferiremos essa tarefa.

É como se todos fôssemos estranhos, vagando mundo a fora atrás de algo que nos explique e dê sentido.

O poeta persa Rumi disse certa vez que esteve por longo tempo batendo a porta e quando viu estava do lado de dentro. No caso, ele falava de seu relacionamento com Deus, mas cabe bem aqui.

Portanto, naqueles momentos de angústia, quando nos perguntamos se, algum dia, alguém irá nos compreender, a resposta é não!

Como que alguém poderá compreendê-lo, se nem mesmo você se entende ou compreende verdadeiramente outra pessoa, já que se projeta o tempo todo?

Podemos começar por quebrar os espelhos e ver quem realmente está do outro lado.

Aceitação

“Em meio ao sofrimento consciente existe já a transmutação. O fogo do sofrimento transforma-se na luz da aceitação. A verdade é que, antes de sermos capazes de transcender o sofrimento, precisamos aceita-lo.”

Eckhart Tolle – O despertar de uma nova consciência

 

“ O sofrimento é a não compreensão da dor.”

Dulce Magalhães

aceitação

Qual o limite do sofrimento?

Essa resposta é difícil e por isso penso que seja interessante refletirmos sobre ela. Muitas vezes, o sofrimento termina por irmos até o seu final, esgotá-lo. Para isso o corpo tem seus mecanismos. Noto na prática da psicoterapia que a pessoa experimenta uma melhora súbita depois de um sofrimento intenso, normalmente passado alguns dias. Isso ocorre justamente por irmos tão fundo nele que não há como prosseguir, já que nosso próprio sistema tem uma limitação, afinal, precisamos continuar vivos.

Essa também é uma espécie de técnica terapêutica defendida por alguns que tem o objetivo de viver o sentimento intensamente por um tempo curto com esse fim; de esgotá-lo o mais rapidamente possível. Do jeito como somos, preferimos sofrer longamente, pois isso nos dá, inconscientemente, essa sensação de justificá-lo.

O âmbito do sofrimento normalmente está abaixo da nossa racionalidade, justamente porque, na maioria das vezes, seu simples entendimento poderia dirimi-lo. Mas como na nossa cultura sofrer é algo que entendemos que nos purifica ou nos faz evoluir a via longa parece ser a escolhida.

Vamos analisar algo extremo: a perda (morte) de uma pessoa muito querida.

É inevitável e muito normal sentir uma dor profunda. Mesmo os adeptos do reencarnacionismo não estão isentos a ela, afinal, essa pessoa sairá de nossa convivência e não a veremos mais, nem teremos a possibilidade de estar com ela pelo restante de nossa vida.

Aqui, entra o ditado popular: “ A dor é obrigatória, mas o sofrimento é opcional”.

Mas como colocar isso em prática? É muito difícil e precisamos entender o porquê.

Em primeiro lugar, o que acontece é que aprendemos que uma forma de demonstrar amor é pelo sofrimento. Esse conceito é levado muito a sério nos relacionamentos afetivos, por exemplo, onde tendemos a avaliar o quanto gostamos de alguém pelo sofrimento que essa pessoa é capaz de nos trazer. É como fossemos cobrados em sofrer para demonstrar o quanto gostamos da pessoa que partiu.

Sejamos racionais: A morte é definitiva para o corpo e, seja por uma doença, acidente ou qualquer outro motivo, não tem como voltar atrás. O sofrimento muitas vezes vem de procurarmos respostas para perguntas como:

Por que aconteceu com ele(a)?

Não merecia, pois era uma ótima pessoa.

Por que agora e dessa forma?

Por que alguém merece passar por isso?

Essas perguntas nunca serão respondidas, já que para isso a vida precisaria ter uma lógica, um sentido que não tem. Em artigos anteriores já discutimos esse assunto. Dessa forma, ficamos procurando um sentido onde não há e isso mantém o sofrimento por longo tempo, até que a pessoa chegue à conclusão que não terá essas respostas e vai recolocando sua vida nos trilhos. Essa forma, digamos, natural, demora muito. No caso de uma morte, por exemplo, é aceito que a pessoa enlutada tenha prejuízo na sua vida por até um ano depois da perda. Somente após desse período é que se considera a necessidade de procurar alguma espécie de tratamento.

O que podemos questionar é se precisa esperar tanto tempo, se esse sofrimento não poderia ser dirimido pela simples aceitação da infalibilidade da morte. Muitos procuram em si alguma responsabilidade, se poderiam ou deixaram de fazer alguma coisa que evitaria o ocorrido.

Nesse caso, já entramos em mais um aspecto, onde o sofrimento se encontra com a culpa. Sentir-se culpado ou ficar remoendo pensamentos de que algo poderia ter sido feito, nada mais é do que encontrar finalmente uma resposta para entender essa perda: Eu fui culpado, pois poderia ter percebido ou feito isso ou aquilo.

Se, por um lado a pessoa simplifica a situação ao se culpar, por outro essa solução traz o outro problema. Já que a culpa existe, é porque algo errado foi feito e isso exige uma punição. Para isso, não precisa de nenhum juiz ou tribunal; nós mesmos nos impomos algum tipo de pena. Mais tempo passa onde essa punição é cumprida para expiarmos nosso “erro”.

Quando não é uma morte, necessariamente, mas uma perda material onde precisaremos retroceder socialmente ou abrindo mão de algum conforto, sempre vem junto um abatimento do ego que, tem sua autoimagem afetada. Quantos já foram ao limite do suicídio por terem ficado repentinamente pobres e não suportaram lidar com essa nova realidade?

Em outros casos, algum segredo vem à tona e essa descoberta afeta a imagem que a pessoa luta por defender. Daí, acontece de pensar que a morte a eximirá de passar pela responsabilização do seu ato e da mudança que provocará em seu círculo de amizades com a perda do reconhecimento que viria.

Seja qual for o caso, e poderia citar outros tantos, a simples racionalização pura e simples já teria, em tese, a força de tornar o sofrimento sem sentido ou diminuí-lo. Seja para prestar contas à sociedade do nosso amor, seja para defender uma posição ou conceito que temos de nós mesmos, as perdas em geral nos remetem a um longo período de abatimento que pode nos levar a abandonarmos caminhos ou fazermos escolhas que mudarão nosso futuro.

É claro que a dor, seja pela perda que for, até mesmo de um emprego que gostamos e que jamais imaginaríamos que fossemos nos afastar, causa um baque inicial que devemos aceitar. Mas compreender e usar a racionalização poderá ajudar a diminuir o tempo do sofrimento.

Quem sofre pouco, pode parecer aos olhos comuns como alguém insensível, que não se importa ou que não gostava tanto assim da pessoa falecida, que não dava importância ao relacionamento, etc.

Será?

Pode ser simplesmente que essa pessoa tenha optado por não sofrer, desistiu de ficar procurando respostas lógicas para perguntas que nasceram para não serem respondidas.

Seja a perda que for, não tem como não doer, e isso é normal, faz parte e como diz  Eckhart Tolle pode ajudar a transcender, ou seja,  ir além do sofrimento.  Só que isso só será possível se simplesmente aceitarmos que, por exemplo, nada nunca está sólido, seguro ou garantido em qualquer aspecto da vida.

Isso, por um lado pode gerar angústia, por outro é justamente o oposto; se é assim, que seja;  já que sofrer não vai tornar nada mais seguro ou evitar que o inesperado aconteça.

O animal que somos necessita se sentir seguro, por isso lidamos mal com as mudanças, principalmente as inesperadas ou incompreensíveis, como sabemos. Mas entender o sofrimento e ir além nunca foi coisa de bicho.

Temos um cérebro emocional e é dele que vem tudo isso. Mas nunca é demais lembrar que desenvolvemos uma nova parte, chamada Néo Cortex, que nos permite entender, racionalizar e colocar uma compreensão mais profunda.

Só que esse novo cérebro precisa de consciência para ser utilizado e precisaremos ir além do nosso emocional, muito automático, reativo e programado desde o dia do nosso nascimento.

No final, aceitação é muito mais do que dobrar os joelhos diante do desconhecido, pode ser simplesmente aceitarmos que tem coisas que, simplesmente, não devemos saber.

Imaginação

A felicidade não é um ideal da razão mas sim da imaginação.”

Immanuel Kant

 

“A imaginação tem todos os poderes: ela faz a beleza, a justiça, e a felicidade, que são os maiores poderes do mundo.”

Blaise Pascal

 

“É a imaginação que governa os homens.”

Napoleão Bonaparte

 

imaginação

Em artigos anteriores procurei refletir sobre o fato de sermos seres com potenciais infinitos, habitando um corpo que, por ser de natureza animal, tende ao envelhecimento e a morte. Isso faz com que a inteligência do corpo seja baseada no medo, afinal, é isso que nos mantêm vivos.

Essa fricção entre o eterno e o que perece, transcendente e imanente, explica o que definimos por “humano”. Na parte mecânica desse humano está o cérebro, que também atende, de certa forma, a essa divisão. Duas das suas três partes, ligadas a manutenção da vida, cérebro reptiliano e límbico, e a outra, Neo Córtex, esconde nossa divindade possível.

No Neo Córtex, está a linguagem, o simbolismo e, principalmente, a nossa capacidade de imaginação. Quando usamos nossos atributos de criatura (capaz de criar) é a imaginação que nos permite visualizar o que poderá existir no mundo manifesto, depois que transformarmos o pensamento em matéria. Assim, tudo que hoje existe, produzido pelo homem e que podemos tocar e sentir foi, primeiramente, imaginado pelo seu criador ou, se preferir, inventor.

Portanto, imaginar é atributo exclusivo do bicho homem, e aí pode começar a surgir os problemas. Mas, antes deles, podemos definir o que é imaginar?

O poeta Victor Hugo disse que a imaginação é a inteligência em ereção. Menos erótico, eu a definiria como um pensamento que ganha vida. Pensamos a todo momento, mas só naqueles em que ficamos mais tempo vira uma imaginação, com imagens, roteiro e um final que pode ser alegre, triste ou simplesmente emocionante.

Podemos pensar, porque não, a imaginação como sendo uma energia, que, por fazer parte da nossa natureza está disponível e funcionando continuamente. Essa disponibilidade atende as duas forças que compartilham nosso corpo; a parte animal e a espiritual (ou o nome que você queira dar).

Quando estamos inconscientes a imaginação atende a nossa animalidade. Assim funciona o que a cultura popular costuma chamar de “oficina do diabo”. Sempre que estamos em atividades absolutamente rotineiras, cumprido mecanicamente nossas vidas e sem perceber a passagem do tempo, nossa imaginação funciona em sua parte negativa. Ficamos “pensando” nos problemas que poderemos ter no futuro, doenças, dificuldades de toda ordem, abandonos, etc.

Para quem acompanha o blog, já escrevi inúmeras vezes que essa negatividade tem por objetivo nos trazer uma inquietação para que evitemos que essas previsões aconteçam, pois o sofrimento que advirá delas poderá nos levar a morte. Eu e você já sabemos que isso quase nunca acontece. Mas as pessoas pensam (se é que posso dizer que isso é um pensamento), que essas “pré” ocupações da mente não acontecem justamente por termos nos preocupados com elas. Isso é uma bobagem sem fim, pois a vida é algo totalmente alheio e sem previsibilidade. Mesmo aquilo que esperamos que aconteça, quando ocorre, sempre foi de um jeito completamente diferente do que esperávamos.

Assim, a imaginação, quando não usada com direcionamento, atende ao animal que somos, e isso sempre será ruim. Todos que experimentam algum tempo sem uma ocupação ou têm sua vida muito rotinizada, sabem que a negatividade dos pensamentos só aumenta.

Aqueles que se dão o trabalho de perceberem nitidamente seus pensamentos se assustam com sua impossibilidade ou até  mesmo com a capacidade de transformarmos coisas pequenas em grandes tragédias e isso é a imaginação quem faz. O animal só imagina besteiras e isso explica porque alguns animais são usados em experimentos de comportamento humano e porque esses mesmo animais podem testar os remédios que iremos tomar.

De outro lado, quando usamos essa energia chamada de imaginação de forma focada e criativa somos testemunhas de onde podemos chegar e só observarmos toda a tecnologia disponível e novidades e criações que acontecem diariamente. Não há mesmo limite para isso.

Mas observe como precisamos dominar essa energia para conseguirmos usá-la de modo positivo. Sempre que não fazemos isso com frequência, ou abandonamos a criatividade, como temos dificuldade de foco e até de retermos o que lemos em uma página de um livro qualquer, por exemplo. A imaginação precisa ser “domesticada” e quando isso é feito, paramos de pensar em problemas e situações sofridas.

Parece que só podemos imaginar livremente quando somos crianças, depois só o que nos ensinam ou mandam. Toda a pessoa criativa se permite imaginar livremente, não aceitou nenhuma regra. Querer enquadrar a imaginação em certo e errado é um absurdo sem fim.

Evolutivamente precisamos entender que se a imaginação não for dominada e usada em seu lado positivo, ela se voltará contra nós. E o que temos visto? Cada vez mais gente com ansiedade, depressão e compulsões. Isso só acontece porque a imaginação saiu do controle e ao invés de servir a seu dono e encaminhá-lo à evolução, voltou-se contra ele e o adoeceu (possuiu).

Nossa imaginação é, na verdade, nosso maior obsessor e quando está de posse de nós, até pela sua natureza criativa, pode inventar um outro nome ou se dizer passar por um antepassado ou ficar nos trazendo pensamentos delirantes, paranoicos e tantas outras coisas.

Todas as energias que movem o cosmo não são positivas nem negativas, simplesmente se manifestam pela dualidade e podem ser usadas de igual forma por qualquer um desses aspectos.

O que quero dizer é que será o domínio da imaginação que fará diferença no processo evolutivo. Justamente por isso é que sempre estou repetindo que devemos nos esforçar para estarmos sempre conscientes do que fazemos a cada momento. É claro que isso é muito difícil, mas não tem outro jeito. Se a imaginação não for primeiramente entendida e depois dominada, a realidade que vivemos hoje, cada vez mais ampliada pela informação e pelo sistema econômico que nos cobra cada vez mais, não escaparemos dessa epidemia de doenças nervosas que atingem a maioria das pessoas. Olhe em volta, não é difícil perceber.

Em estado livre e sem domínio, apenas pensamentos ruins em relação ao futuro e ao passado, inevitavelmente, já que essa é a natureza do animal. Não repetir sofrimentos passados e evitar possíveis no futuro.

Na atenção consciente isso não acontece, pois a imaginação está controlada com a rédea curta da consciência e só vai para onde deixarmos e ali é ela que nos serve. Esse é nosso potencial e que realmente nos faz dominar o planeta. Do outro jeito, estamos doentes e destruindo tudo a nossa volta.

Precisaria mudar toda a estrutura que vivemos para que possamos evoluir como espécie, já que, por exemplo, na educação temos apenas a finalidade de formar mão de obras e pessoas competitivas. Toda a pessoa competitiva é movida pelo medo da derrota e de imaginar o que poderá lhe acontecer se não atingir o “sucesso”. Isso por si só é a utilização da imaginação de forma negativa, voltada apenas ao interesse da produção e do consumo.

Isso é tão “furado” que as classes mais abastadas apresentam índices altíssimos de doenças psiquiátricas e de consumo de entorpecentes. Esse medo pode realmente gerar grandes fortunas, mas a grande fortuna também significa desigualdade e miséria para muitos. O que surge dessa diferença? A violência.

A imaginação sempre é o primeiro passo da ação consciente, mas não podemos ficar só nela. Como o próprio nome diz:

                             imagem+ação = imaginação.

Domine sua imaginação, antes que ela o domine e apenas imagine o que  mandam aqueles que não estão preocupados com você.

 

 

 

Lá e cá

Praticar Yoga na fifth Avenue ou em outro lugar qualquer ao alcance do telefone é uma mentira espiritual.”

                                        Carl G. Jung – Psicologia e Religião Oriental  – 1963

                                                                                                                                                                         yoga executivo

O que fez Jung ir além de Freud, em minha opinião, foi sua busca pela cultura e religião oriental. Lá ele formulou toda sua teoria que, a cada dia que passa se mantém atual e estabelece os pontos de divergência e convergência entre o homem que habita os dois lados do planeta.

Ele defende a ideia de que o homem oriental é tipicamente um introvertido, já o ocidental extrovertido e, por aí, começa toda uma diferença cultural que, hoje em dia, por modismo tentamos equiparar. Essa diferença também torna-se importante quando falamos da religião onde diz: “ O ocidente cristão considera o homem inteiramente dependente da graça de Deus ou da Igreja, na sua qualidade de instrumento terreno exclusivo da obra da redenção sancionada por Deus. O Oriente, pelo contrário, sublinha o fato de que o homem é a única causa eficiente de sua evolução superior; o Oriente, com efeito, acredita na auto-redenção”.

Também é importante ressaltar que o ponto de vista religioso, via de regra, sempre representará a atitude psicológica do sujeito, mesmo para quem não pratica a religião, já que essa influência se dá na cultura e costumes. Assim, no ocidente somos cristãos, queiramos ou não.

Dessa forma, nosso jeito de viver nos tempos atuais está nos adoecendo cada vez mais, e como é normal oscilarmos de um extremo a outro, buscamos cada vez mais no outro lado (oriente) a solução para a nossa angústia. Buscamos na Yoga, medicina ou alimentação a calma que imaginamos no homem oriental. Também é verdade o fato de que, antes do processo de globalização, algumas doenças tipicamente ocidentais, principalmente psicológicas, eram desconhecidas no oriente. Por pensar a vida diferente, o resultado só pode ser outro.

Quando Jung percebeu essa busca, já na década de 60 avisou: “Se nos apropriarmos diretamente dessas coisas do Oriente, teremos de ceder nossa capacidade ocidental de conquista…teremos aprendido alguma coisa com o Oriente no dia em que entendermos que nossa alma possui em si riquezas suficientes que nos dispensam fecunda-la com elementos tomados de fora, e quando nos sentirmos capazes de desenvolver-nos por nossos próprios meios, com ou sem a graça de Deus.”

Assim, ele mostra essa diferença com a qual precisamos nos entender e chegar a um acordo; ou somos ocidentais, vivendo como tal e esperando a “graça divina” ou nos assumimos com uma autonomia evolutiva que nos foi negada desde a primeira missa.

Nosso modo de viver, social e competitivo não se adequam em nada à cultura oriental. Como ressalta Jung, para a medicina de cá, a introversão oriental é considerada até uma patologia.

Assim, não há nada de errado em introduzir toda uma prática oriental em nossa vida, desde que entendamos que o resultado nunca será o mesmo, pela diferença cultural. Como bem ressalta Kierkegaard, estamos sempre em dívida com Deus aqui no ocidente. Isso se dá pela impossibilidade de conseguirmos cumprir os mandamentos e os pecados capitais por sermos, simplesmente, humanos. Esse débito (culpa) nos impossibilita da vivência da experiência religiosa, e assim ficamos parados no mesmo lugar. Como temos algo em nós que nos pede essa evolução interior, estamos vendo no oriente nossa saída. Viajamos para a Índia e achamos tudo lindo, a cultura, a religiosidade, a sujeira das ruas e o caos do trânsito.

Junto com as fotos diante dos templos em postura de lótus, também está a preocupação com as contas a pagar quando voltarmos da viagem. Por aqui, convivemos com um tipo de religião que, como diz Jung: “A fé implica, potencialmente, um sacrificium intellectus, desde que o intelecto exista para ser sacrificado”. Assim, esse modo de viver traz um paradoxo que, se não for resolvido, impede que o que se busca na cultura oriental possa ser encontrado.

Tudo que importamos de lá está dentro de um contexto de milhares de anos. Aqui, somos educados, desde a infância, para sermos agressivos e competidores, enquanto a Índia, por exemplo, foi dominada por um povo que tinha tamanho e população infinitamente menor. Não estou julgando quem está certo ou errado, apenas mostrando que são diametralmente opostos e que o mais possível é uma aproximação, um meio termo, que inclua práticas sem a utopia de nos transformarmos em quem não temos como ser.

Quando buscamos a paz em um retiro de meditação, por exemplo, nos são oferecidas todas as condições como um lugar bonito em contato com a natureza, silêncio e uma alimentação saudável. Três dias depois, caímos na correria, na música alta do vizinho, no cheiro de fumaça e um fast food no almoço, pois estamos atrasados para um compromisso profissional.

Portanto, não há nada de errado em experimentarmos tudo isso, mas precisamos ter a consciência de saber o que podemos esperar como resultado. Somos bombardeados covardemente pela mídia para comprarmos coisas o tempo todo e a lutarmos pela sobrevivência nessa sociedade capitalista e extremamente competitiva. Dá para amar o concorrente à promoção na empresa?

Do lado de cá, jogamos tudo para fora, seja em Deus, no destino ou na boa ou má sorte. No oriente tudo está dentro de nós, nas ilusões das quais precisamos nos desvencilhar para enxergarmos a verdade. Diferenças como essas são irreconciliáveis e não será passando um mês se banhando no Ganges ou ficando de cabeça para baixo em um ásana que encontraremos esse equilíbrio.

Precisamos mudar o jeito não só como vivemos, mas como pensamos e colocando alguns pontos, como quem tempera uma comida, em nossas ações para podermos trazer um pouco do Oriente para nossa vida por aqui. Tudo dentro do que é possível, só isso, sem grandes expectativas.

Assim, Jung encerra o pensamento com uma sentença, atualíssima, mais de meio século depois; “Mas é impossível ser um bom cristão na fé, na moral e no desempenho intelectual e, ao mesmo tempo, praticar honestamente a Yoga…ou seja: o homem ocidental não é capaz de se desligar tão facilmente de sua história, com sua memória de pernas curtas. Ele possui a história como que no sangue. Não aconselharia ninguém a ocupar-se com a Yoga sem uma cuidadosa análise de suas reações inconscientes. Que sentido tem imitar um yogue, se o lado obscuro do homem continua tão cristão e medieval quanto antes?”

Um Buda, não é possível no Ocidente, mas um filósofo sim.

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As partes em itálico são transcrições do livro.

A Yoga aqui é usada como uma metáfora da cultura oriental no ocidente e no sentido da sua prática mais profunda, como uma filosofia. Sou particularmente favorável a sua prática e a incentivo, enquanto essa busca de equilíbrio.

C.G. Jung Psicologia e Religião Oriental . ed. Círculo do Livro 1989.