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A última desilusão

 

Ficou paralisada diante da tela do computador.

Nunca dá para dizer que algo é inacreditável, já que se acontece, torna-se necessário acreditar. Lutar contra a realidade não dá, é um romantismo placebo. A notícia teve o efeito de uma grande desilusão, mais uma.

Mais de cinquenta anos juntos! Como pode?

De uns tempos para cá, as uniões estão sofrendo um golpe atrás de outro. Isso não faz bem para as pessoas, nós precisamos acreditar que os compromissos podem durar para sempre. O amor precisa ser invencível! Precisa!

 Tem palavras que deveríamos tirar do dicionário; para começar, todo e qualquer juramento e “para sempre”. Jurar, no fim das contas, é prometer que nunca mudaremos, e o que é pior, independente das circunstâncias. Isso não é possível!

Talvez o problema seja mesmo falta de experiência. Quem pediu para jurar, algum dia jurou para alguém de carne e osso?

Tem juramentos que não tem graça. Sem conviver é fácil!

Isso de estarmos sempre mudando tem dois lados; não existe nenhuma condenação, por outro, sei lá quem vou ser e o que esse que serei pensara e irá querer da vida?

 Isso tira a tranquilidade, dá uma ansiedade de um futuro incerto. Por outro lado, que graça teria um futuro certo? Se nunca mudássemos, gostaríamos sempre da mesma coisa…chato por um lado, já que nunca conheceria coisas novas, seguro por outro.

Que confusão!

Melhor não pensar. Mas a cabeça não para de falar.

A vida não está mais nos dando os exemplos de que é possível, que dá para, mesmo mudando, gostar de estar sempre junto.

O Willian e a Fátima?

Tantos filhos, sucesso, dinheiro, fama. Mas o tempo, ou a previsão do tempo mudam tudo! Jamais se poderia imaginar!

Mesmo um homem sério pode se abalar e as esperanças das pessoas comuns sofreram um duro golpe.

Como ele pode deixar de gostar dela? Tão simpática, sempre sorrindo!

Será que ela pode tê-lo cansado? De tanto sorrir?

Mal tínhamos nos acostumado com esse duro golpe, quando de repente, a pá de cal: O Brad e a Angelina, e agora?

Ela que sempre é muito decidida, mais uma vez tirou da sua vida tudo que poderia, mesmo que somente um dia, vir a incomodá-la. Dos seios ao Brad, a mesma regra. Não teve dó.

Ele pediu para voltar e ela irredutível. Diz que não quer mais e até apareceu na internet que bloqueou o telefone para não receber chamadas dele.

Como uma mulher pode não gostar de receber ligações do Brad? É o sonho de todas, menos dela.

O que ela sabe que não sabemos?

Pode alguém tão perfeito ter defeitos? Seria a perfeição uma expectativa que nos mantém motivados?

 A realidade não ajuda. Por isso não vou a palestras motivacionais, pensou ela, fico toda empolgada e dois ou três dias depois, o mundo não percebeu meu entusiasmo e volta a ser como sempre foi. Dá até ressaca, que nem bebedeira.

Decepção, mais uma!

Mas mesmo o Willian e Fátima, o Brad e a Angelina não ficaram cinquenta anos juntos. Chega um tempo que, mesmo que esteja ruim, as pessoas ficam pela companhia. No fim sempre foi uma grande amizade, temperada com carinho e uma briga, vez por outra. Mas depois de mais de meio século, os laços deveriam ser tão fortes que não dá para imaginar um sem o outro. Dias atrás saiu a notícia que um casal que estavam juntos a mais de sessenta anos morreram com horas de diferença; um de doença e o outro, por não querer ficar nesse mundo sozinho.

Que lindo, o amor vencendo a morte!

Mas como eles foram se separar nessa hora? Será que não perceberam que o casamento está sofrendo duros golpes? O que custava pensar no quanto isso é importante para as pessoas continuarem a acreditar que pode dar certo, para sempre? Depois de cinquenta anos, recomeçar?

Agora não acredito em mais nada!

Levantou e foi fazer o almoço, secando as lágrimas com o avental.

Na tela do computador continuava estampada a notícia: Bob’s e Ovomaltine se separaram. Mal terminaram o e Ovomaltine anunciou que vai ser só do MacDonald’s.

Os relacionamentos não são mais os mesmos!

Que pena!

 

 

 

O Básico

“Se você ama uma pessoa, projeta coisas que não estão ali. Se odeia uma pessoa, novamente você projeta coisas que não estão ali. No amor, uma pessoa se torna um deus, no ódio ela se torna um demônio, a pessoa é simplesmente a mesma.

Esses demônios e deuses são projeções. Se você ama não consegue enxergar claramente. Se odeia, não consegue ver com clareza”.

                             Osho –  Zen, sua história e ensinamentos.

espelho

Não é fácil aceitar que na verdade nunca conhecemos ninguém.

Quantas vezes você já se decepcionou ou encantou com alguém que gostava, seja em algum romance, amizade ou relação familiar e profissional? Com certeza muitas e o grande problema é que essas pessoas não tiveram absolutamente nada a ver com isso, o problema sempre é de quem se encanta e decepciona.

Um dos assuntos mais falados em psicologia é a projeção, ou seja, quando transferimos para o outro nossos conteúdos. Isso acontece por não termos muita ideia de quem somos, daí a única coisa que podemos ver e identificar nos relacionamentos somos nós mesmos.

Essa oscilação do amor para o ódio ou da expectativa para a decepção acontece toda hora. Inconscientemente sempre espero que todo mundo seja como eu, sinta como eu e vá fazer as mesmas coisas que eu faria em cada situação. Conscientemente, todos dizem que “ninguém é igual a ninguém”, ou a pérola biológica que se cada um tem um DNA diferente é justamente porque não existem duas pessoas iguais no mundo.

Tudo da boca para fora!

O que se vê, é “amar” e “odiar” o tempo todo. Da mesma forma que tem horas que exageramos em alguma coisa e depois precisamos nos abster por um tempo para compensar, oscilamos entre gostar e não gostar. Essa oscilação é simples de explicar; esse espelho que é cada pessoa que nos relacionamos, ora nos mostra nosso lado que gostamos em nós e queremos que os outros vejam, ora mostra o que não queremos que saibam a nosso respeito.

Já quando a paixão surge, pensamos que encontramos a pessoa “certa” nossa “alma gêmea” por quem teremos amor eterno, que superaremos todas as vicissitudes da vida, até porque é bem provável que já tenhamos nos apaixonados na vida passada…

Passado um tempo todos esses 100 tons de rosa vão esmaecendo, até porque só nos apaixonamos pelo que gostamos em nós que esse outro(a) nos mostra nesse início entusiasmante. Na verdade, nos apaixonamos por nós mesmos. Mas como nenhuma ilusão é duradoura, nosso lado menos glamouroso começa a aparecer com o tempo. A isso damos o nome de desgaste ou rotina.

Algum tempo depois queremos intimamente nos apaixonar de novo, voltar a sentir vibrar o coração. Lá estamos à procura de quem me mostre de novo meu melhor ângulo, assim como fazia aquele cantor famoso que só se deixava fotografar de perfil, onde ficava “melhor”.

Desde a infância, quem teve ou tem um irmão  com pouca diferença de idade pode observar que os dois são opostos um do outro, com temperamentos antagônicos. Isso ocorre em uma grande quantidade de vezes. Na verdade, é como se conseguíssemos juntar os dois daria um “perfeito”. Um se projeta no outro e vice versa e aí as brigas e discussões são diárias.

Depois levamos isso para todos os âmbitos dos nossos relacionamentos, quando simpatizamos com pessoas e antipatizamos com outras. De novo, todos são espelhos e, dependendo do ângulo, quero distância ou proximidade.

Quando alguém faz alguma coisa que nos deixa chocados, é justamente por termos descoberto que nunca realmente conhecemos essa pessoa. Imagina apresentarem alguém a você, sendo que “conhece” essa pessoa há vinte anos?

A terapia de casal e familiar trazem essas surpresas todo o dia nos consultórios de psicoterapia.

Portanto, o básico em relação à busca pelo autoconhecimento é começar a parar de imaginar os outros, de usar a minha medida (lembra do DNA?), esperando que todos sejam uma cópia de mim mesmo.

Pode parecer uma loucura, mas a única maneira de encontrarmos um dia esse amor verdadeiro talvez seja por alguém que não amamos nem odiamos. Essa talvez seja a condição básica de realmente podermos “ver” outra pessoa de verdade. Já reparou como uma pessoa com quem você convive, mas que lhe é indiferente, nunca te decepcionou ou surpreendeu positivamente?

Eu sei que seria difícil amarmos (essa palavra é sempre perigosa e exagerada) alguém de quem não gostamos, mas estou falando em tese.

Por outro lado, uma coisa é certa; do jeito que está, comprovadamente não dá certo. Essa constatação se dá pelo número de divórcios cada vez maior, principalmente depois que as mulheres conquistaram sua independência financeira.

Na verdade, penso que não conseguimos conviver conosco muito tempo. Daqui a pouco, precisamos de um espelho novo, com uma moldura diferente.

Como nos ensina o Zen budismo, estamos sós o tempo todo. Qualquer relacionamento seja de que nível for só terá êxito se assumirmos essa responsabilidade essencial. Ninguém me fará feliz, ou será um amigo maravilhoso, nem pai, nem mãe.

Ficamos procurando o tempo todo alguém que finalmente nos compreenda profundamente. Essa é a tese da “tampa da panela” ou da “outra metade da laranja”. Nunca dará certo  me procurar em qualquer pessoa, como posso me encontrar em alguém? Talvez o medo de assumir  responsabilidade  faça com que tenhamos essa fuga de procurar alguém especial, para quem transferiremos essa tarefa.

É como se todos fôssemos estranhos, vagando mundo a fora atrás de algo que nos explique e dê sentido.

O poeta persa Rumi disse certa vez que esteve por longo tempo batendo a porta e quando viu estava do lado de dentro. No caso, ele falava de seu relacionamento com Deus, mas cabe bem aqui.

Portanto, naqueles momentos de angústia, quando nos perguntamos se, algum dia, alguém irá nos compreender, a resposta é não!

Como que alguém poderá compreendê-lo, se nem mesmo você se entende ou compreende verdadeiramente outra pessoa, já que se projeta o tempo todo?

Podemos começar por quebrar os espelhos e ver quem realmente está do outro lado.

Amor e Ódio

“É como um pêndulo de um relógio. O pêndulo vai até a esquerda, a extrema esquerda, então, para a extrema direita… Aparentemente ele parece estar indo para a esquerda, mas ele está gerando impulso para ir para a direita.

Assim é na sua vida. Quando você ama uma pessoa, você está gerando impulso para odiar a pessoa. Eis porque a pessoa a quem você ama e a  que você odeia não são duas pessoas diferentes”.

                                       Osho – Teologia mística

 

“Nascemos com necessidades, essas necessidades nunca serão inteiramente supridas, mas amamos nada mais que nossas necessidades.

 As necessidades quase sempre aparecem inexplicavelmente ligadas à raiva, em geral dirigidas a alguém que as evoca sem satisfazê-las plenamente”.

                                          Laura Knipis – Contra o Amor

                                                                                                                                                                                                                amor e ódio

Como pode o amor se transformar em ódio?

Na verdade, tudo que é uno se manifesta de forma dual, amor e ódio são as duas maneiras de expressar uma mesma coisa. Como alguém que amamos (ou pensamos isso) pode ser alguém que nos  gere ódio, raiva ou decepção algum tempo depois?

Muitos estudiosos da psicologia defendem a tese que estamos nos projetando todo o tempo na outra pessoa. Como padecemos da falta de autoconhecimento, o que vemos a todo instante no outro nada mais é do que  nós mesmos. É como se  a outra pessoa fosse um espelho onde me vejo o tempo todo. Como a função  do espelho é apenas refletir uma imagem, oscilamos tão bruscamente de sentimento ao nos vermos por vários ângulos.

Podemos até arriscar dizer que o que chamamos de “gostar” ou “amar” nada mais  são que as nossas próprias qualidades que estamos recebendo de volta desse espelho chamado relacionamento. E aqui não falo somente dos relacionamentos afetivos, mas entre amigos, pais e filhos e tudo mais.

Quando, porém, vemos no outro aquilo que não gostamos em nós, que afeta a imagem que temos de nós mesmos, o sentimento se transforma em ódio e no momento em que isso acontece parece que estamos diante de outra pessoa. A identificação é tão profunda que o “espelho” reflete uma imagem distorcida e, em momentos assim, dizemos até que a pessoa em questão estava transfigurada.

Como que alguém que conhecemos há anos (e, às vezes, são muitos anos) pode nos surpreender? Como pode acontecer de ficarmos chocados depois de tanto tempo?

A resposta só pode ser uma: realmente não conhecíamos a pessoa, pensávamos isso. A surpresa de ver o outro tão diferente advém de, na verdade, nunca termos realmente “visto”  como ela realmente é. Víamos a nós mesmo o tempo todo e não percebíamos.

Quando estudamos o fenômeno da “Sombra” fica mais fácil de entendermos esse processo. Segundo esse conceito, só podemos ver no outro aquilo que somos ou poderemos ser.

Observo na prática clínica com frequência essa mudança brusca de quadro quando estamos trabalhando com a terapia de casais. É comum a frase: “Nunca pude imaginar que ele(a) poderia agir assim. Depois de tantos anos…”

Toda a expectativa que desenvolvemos em relação a outras pessoas sempre tem uma base, que sou eu mesmo. Expectativa significa esperar que a outra pessoa aja como eu em determinada situação. Dessa forma, estou novamente diante do espelho esperando do outro a minha ação. Assim, não fica difícil entender como as decepções são algo que certamente ocorrerão e só o que muda é o tempo que isso vai levar.

É muito difícil não agir assim, exigiria um tamanho conhecimento de si que não está disponível para a maioria dos mortais. Torna-se necessário um tamanho conhecimento do conteúdo reprimido que carregamos desde a formação do nosso Ego que precisa uma busca de, quem sabe, uma vida inteira.

Assim, o que podemos fazer para evitarmos tudo isso?

Penso que o primeiro passo é tomar consciência de como as coisas são. Uma boa autoanálise já ajuda. Para tanto,  basta respondermos seriamente algumas perguntas:

– O que admiro na pessoa?

– O que me irrita nela?

– Em que momento tenho vontade de uma aproximação?

– Quando prefiro estar a quilômetros de distância?

Procurar ver o outro  (e lembre que isso vale para todos os tipos de relacionamento), como alguém realmente novo, que não conheço e quero verdadeiramente descobrir. Claro que essa busca pode trazer boas e más notícias, mas veja por  outro lado; é bem melhor a verdade que a ilusão.

Pode ser um dia, oxalá, possamos nos responsabilizar pelo nosso gostar ou não gostar de alguém, por aquilo que o outro realmente é ao invés do que esperamos que a pessoa seja.

Caso contrário vamos de relacionamento em relacionamento nos encontrando e desencontrado de nós mesmos, sem termos tido a oportunidade de realmente conhecermos aquela pessoa que cruzou em nosso caminho, voluntária ou involuntariamente, como no caso da família.

Quando os orientais dizem que vivemos uma grande ilusão o tempo todo (maya), é lícito pensarmos que tem a ver com isso também, ou seja, nos iludimos vendo a nós mesmos quando deveríamos ver o outro. Ficamos projetando nossos sonhos internos o tempo todo para fora, criando uma realidade particular vista apenas pelos olhos de quem somos.

Justamente por isso a frase; “jamais poderia imaginar…” tem um profundo significado. A situação não pode ser imaginada justamente por isso, não faz parte da minha realidade interior. Vez por outra a vida nos assusta, tirando-nos do sonho da imaginação do dia a dia quando constatamos que alguma coisa não foi como imaginávamos ou pensávamos.

Portanto, tanto o amor como o ódio é uma só coisa; aquilo que as pessoas que estão o tempo todo me mostrando; quem sou, minhas qualidades e meus defeitos.

Para muitos místicos essa nossa identidade além do ego é um imenso vazio. Para o Zen, isso é chamado de “ninguém”. Enquanto acharmos e nos identificarmos com esse alguém que pensamos ser, chamado de Ego, também pensamos que não somos a nossa Sombra e vamos vivendo na escuridão, compartilhando a vida com pessoas que imaginamos ser algo, de  quem gostamos ou não.

Isso, no final, é uma grande injustiça.

Quem sabe, só no pensamento, quando nos perguntarem que somos, nosso nome ou coisa parecida, respondêssemos:

– Sou ninguém.

Dessa forma, poderemos ir, aos poucos, abrindo nossos olhos internos para nosso Ser inteiro, única maneira de podermos realmente ver quem está na nossa frente.

A Paixão (2ª parte)

“Frequentemente um amor desesperado não é o motivo mais confiável para uma vida juntos.”

                                                      Mario Puzo – Escritor

                                                                                                                                   paixão III

Uma das marcantes características do período paixão é que nosso “eu” se funde no outro (a) e tudo vira “nós”. Paramos de pensar individualmente e tudo só tem sentido com a presença do outro, com o outro e pelo outro. É uma fase tão inebriante que não precisamos mais dos amigos e podemos ficar confinados sem esforço. Depois, com o arrefecimento da paixão, vem o preço dessa exclusão iniciando um processo de desgaste que é natural. Já vemos o outro (a) com seus defeitos e qualidades e o afastamento dos amigos individuais traz o risco do tédio na relação.

Já não sentimos mais aquele prazer transbordante, aquela euforia onde nada é impossível se for para o casal se manter junto. O perigo dessa fase “alucinada” é  pensarmos nossa vida e futuro sob o efeito desse intenso prazer acreditando que isso durará para sempre, afinal todos nossos sentidos dizem que encontramos aquela pessoa que, para sempre, nos fará feliz. Como muitos já passaram por isso mais de uma vez, a ideia de que exista alguma “alma gêmea” cai por terra, afinal a cada paixão encontramos uma, ou seja, a cada paixão encontramos a pessoa certa para aquele momento que estamos vivendo e isso passa, afinal estamos sempre mudando.

Isso difere em muito dos relacionamentos baseados em um sentimento mais calmo e racional, onde as vantagens de se estar junto vão se apresentando pela convivência, cumplicidade e confiança. E isso, na verdade, é o que cria o ciúme (que já foi motivo de um artigo anterior), invenção de humanos, que querem proteger seus relacionamentos de longo prazo. Esse sentimento precisa ter uma certa medida para não ser um problema, afinal ele é baseado no medo da perda e isso faz com que o (a) ciumento precise controlar seu parceiro para que não vá embora.

Estudos mostram que as pessoas apaixonadas passam 85% do tempo pensando no parceiro (a), vendo sinais dele por todos os lugares. A cada lembrança, o cérebro vai liberando mais e mais aquela sensação de prazer inebriante. É uma euforia que erradamente chamados de felicidade, porque  estamos sob efeito de drogas, mesmo que naturais produzidas pelo cérebro com o objetivo de uma intensa atividade sexual para que possamos dar continuidade à espécie.

Isso é tão fora do âmbito da consciência, que homens acham mais atraente foto de mulheres com pupilas dilatadas já que esse é um sinal não verbalizado de interesse sexual sem nem perceber o motivo dessa escolha. Mesmo sem saber disso conscientemente, nosso cérebro captou esse sinal de forma instintiva. Da mesma forma como um estudo feito com dançarinas no Novo México, revelou que recebiam em média mais do dobro de gorjetas quando estavam no período fértil enquanto que as que estavam no período da menstruação tinham uma receita menor que a metade das colegas. Os sinais dessa fertilidade ainda não são claros para a ciência, já que podem ter a ver com a tonalidade da pele, cheiro ou pela sutil mudança da simetria das orelhas e seios nesse período. Nossa consciência não sabe, mas o cérebro sim e isso se demonstra em um interesse sexual que não conseguimos muitas vezes explicar o real motivo. O fato é que isso se dava até quando homens analisavam fotos de mulheres. As que foram tiradas propositadamente no período fértil eram escolhidas como as mais atraentes.

O ser humano exala mais de 300 aromas e alguns deles passam ao cérebro (sempre abaixo do limite da consciência) a idade e a dieta da pessoa. Ai entram os perfumes com a finalidade de “enganar” nossos sensores naturais. Das estratégias de conquistas não verbais, o olhar e o sorriso são as mais eficientes. As mulheres, justamente pelos atributos necessários a maternidade tem uma facilidade natural de distinguir o sorriso falso do verdadeiro. Justamente por isso, durante o momento da sedução as mulheres sorriem mais que o homem, já que eles tem não tem essa habilidade e os dentes fortes e bonitos mostrados pelas mulheres, passam uma informação sobre sua juventude, saúde e, principalmente, fertilidade.

Assim fica fácil entender os motivos que levam a razão ser superada pelo instinto durante o período da paixão, já que a amigdala, responsável pelas experiências desagradáveis, avisando-nos do perigo, fica “desativada” quando se pensa ou está diante da pessoa por quem se está apaixonado.

A ansiedade provocada pela saudade é compensada por grandes doses de ocitocina que a ameniza e transforma o momento do reencontro em êxtase, mesmo que a separação tenha sido por poucas horas.

Mas, quando o relacionamento termina, como fica a pessoa apaixonada?

O sofrimento experimentado pode ser bem definido pela poesia musicada de Milton Nascimento na música “Travessia” quando diz: “Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver…”. A dor,  tanto emocional quanto física é intensa e pode ser comparada aos das pessoas viciadas durante a crise de abstinência. Afinal, nossa felicidade foi embora e nesse momento, como ocorre na depressão, não conseguimos sequer imaginar a possibilidade desse profundo sofrimento acabar algum dia. Isso explica as atitudes impensadas, passionais e irracionais que uma pessoa possa ter nesse período, da mesma forma que um viciado faz o que precisar ser feito para atenuar seu sofrimento pela falta da substância que precisa. Não há diferença nesses casos.

Até mesmo quando e pessoa (somente quando afastada do outro (a)) consegue raciocinar e avaliar que a relação não tem possibilidade de dar certo seja pelo motivo que for, quando chega diante da sua paixão não consegue terminar ou por em prática suas decisões tomadas no período em que raciocinou. O prazer volta, e imagina-se que tudo poderá ser diferente, que dará certo, etc.

Esse período de sofrimento é mesmo longo já que o cérebro precisara se reestruturar sem essa forte conexão neuronal provocada pela paixão. Quando o relacionamento eventualmente termina nas suas fases iniciais, deixa uma profunda marca, já que a pessoa sempre lembrará como foi feliz nesse período e mesmo vivenciando outros relacionamentos tornará essa pessoa um “mito”, alguém perfeito que, certamente, traria a felicidade durante toda a vida. Isso só acontece porque o relacionamento foi interrompido durante o período da paixão. Se continuasse, depois que passasse a euforia e o relacionamento se normalizasse essa idealização do outro deixaria de existir. Por isso que alguns namoros da adolescência são mantidos como ideais dentro de nós, mas isso só ocorre porque eles não duraram o tempo suficiente para a paixão terminar ou mesmo que essa relação existisse pelo tempo suficiente para entrar na normalidade. A lembrança dessa pessoa nos traz de volta algumas dessas sensações prazerosas e da felicidade que vivenciamos. Um efeito colateral do sofrimento pela perda da paixão é a pessoa sabotar seus próximos relacionamentos pelo medo de sofrer novamente. Alguns só conseguem se relacionar sem um envolvimento mais profundo, já que isso garantirá que não haverá sofrimento se tudo terminar.

Por isso penso ser importante que entendamos com funciona a paixão e as pessoas ao nosso redor que estejam passando por essa fase. Por ser algo muito mais ligado ao instinto do que a razão a paixão pode atacar sorrateiramente qualquer pessoa, mesmo aquelas que estejam vivendo um relacionamento estável e agradável. Nessa hora, quando mais cedo se tomar os cuidados necessários melhor. Arriscar é sempre perigoso, pois depois que o circuito de prazer se instala fica difícil e muito dolorido de controlar. Afinal o instinto vence a razão quase sempre!

Testes também foram realizados com pessoas que se diziam apaixonadas mesmo depois de muitos anos de relacionamento. As imagens cerebrais mostraram que as áreas ativada não eram mais as ligadas ao prazer, mas aquela associada ao afeto e ao contentamento com recompensas. Ou seja, apesar do declínio da fase da paixão cresceu o companheirismo. E é isso que mantém casais juntos, diferente de outros mamíferos. Também aprendemos a sentir prazer e alegria navegando em águas calmas. Cada casal é único porque não existem duas pessoas iguais, assim, com cuidado necessário e entendendo como as coisas funcionam podemos sim termos relacionamentos longos e compensadores, desde que cuidados.

O final da paixão marca uma nova etapa, que precisa de compreensão, tolerância e bom senso. Descobrir o outro (a) como realmente é com suas qualidades e defeitos faz tudo mais verdadeiro. Mantemos os relacionamentos pelas qualidades do parceiro e administrando as diferenças que são naturais. Viva e curta sua paixão, mas a entenda e saiba que não devemos tomar decisões de longo prazo vivenciando emoções de curta duração.

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Bibliografia:

Odisséia do amor – documentário. Produtor Cristian Gerin e CharlesGazelle. Direção Thierry Binisti

Incógnito – A vida secreta do cérebro – David Eagleman ed. Rocco

Comportamento sexual compulsivo – Ballone. www.psiquiveb.com.br

Contra o amor – Laura Knips ed. Record

Revista Galileu. Disponível em: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI294422-17770,00-SAIBA+O+QUE+A+PAIXAO+FAZ+COM+O+SEU+CEREBRO.html

O Ciúme nos relacionamentos

Como homem ciumento eu sofro quatro vezes: por ser ciumento, por me culpar por ser assim, por temer que meu ciúme prejudique o outro, por me deixar levar por uma banalidade; eu sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum

Roland Barthes – Fragmentos de um discurso amoroso

Será que é mesmo verdade a ideia de que um pouco de ciúmes faz bem aos relacionamentos?

Como definição, recorri a literatura psiquiátrica que assim define o ciúme:

“O ciúme pode ser um conjunto de emoções desencadeadas por sentimentos que de alguma forma ameaça à estabilidade ou qualidade de um relacionamento íntimo valorizado, tendo em comum três elementos, a saber: ser uma reação frente a uma ameaça percebida, haver um(a) rival imaginário(a) e eliminar os riscos da perda do objeto amado”.*

Existe uma linha tênue que separa a certeza (fatos), do que se acredita e o pior; as fantasias. A pessoa ciumenta pode transformar uma dúvida, ou até mesmo uma imaginação em uma certeza. Quando o ciúme se instala, o trajeto para as verificações obrigatórias como: onde esteve e com quem esteve, abrir correspondências, verificar bolsos (bolsas), marcas e cheiro em roupas, telefone, etc., é muito curto e rápido. Isso é claro, além de visitas inesperadas, ligação de madrugada ou em horários impróprios, alegando “saudades” ou o já nem mais tão poético: “queria só ouvir sua voz…”.

 Quem está com ciúmes em um estágio mais avançado sempre está à procura de alguma evidência que confirme suas suspeitas e nada muda o quadro que só vai piorando com o tempo, já que nada fará terminar esse processo. O fato de não ter ainda encontrado a evidência não traz a dúvida, mas só que o outro (a) ainda está conseguindo esconder seu relacionamento ou flerte paralelo.

Evidente que com esse tipo de comportamento o companheiro (a) começa naturalmente a ocultar, por exemplo, os elogios que recebe, presentes, telefonemas, etc., com o objetivo de impedir os acessos raivosos e as afirmações de que algo está ocorrendo. Assim, começa a fazer parte do relacionamento um nível de tensão que inevitavelmente corrói a relação já que não há sentimento que possa suportar uma pressão diária. A pessoa com ciúmes sempre é uma vítima, já que sua tranquilidade e confiança em relação ao outro nunca depende dela. Já sabemos que a vítima tem poucas possibilidades de mudança, justamente por isso.

No nível patológico observa-se um desejo voraz de ter total controle sobre a vida do parceiro(a) o que inclui um dos grandes sinais da patologia, que pela sua total falta de lógica chega a ser engraçado;  que é sobre os relacionamentos anteriores do parceiro(a), com ruminações constantes e sem fim sobre uma época em que, muitas vezes, o casal nem se conhecia ainda. Nessas horas, uma série de emoções são experimentadas com ênfase na ansiedade, raiva, insegurança, culpa, aumento do desejo sexual (como objetivo de “segurar” o parceiro(a), mostrar que é melhor do que a (o) ex ), vingança, etc. Tudo isso com bruscas oscilações de humor, uma série de arrependimentos pelas atitudes impensadas e promessas quase nunca cumpridas de melhorar o quadro. É como se as atitudes irrefletidas fizessem parte de quadro alcoólico ou drogas e depois, quando vem a “ressaca”,  aparecem as desculpas e as justificativas que tudo é por amor…

Não tenho dúvida, pela experiência profissional, que existe uma estreita relação do ciúme com baixa autoestima. Esse sentimento, muitas vezes até criado pelo parceiro (a), que com críticas diárias, baseadas na segurança que o outro oferece, vai trazendo uma certeza de que a pessoa não tem condições de ter um relacionamento saudável, de que somente seu parceiro pode suportá-la (o) e, é claro que pensando assim, essa pessoa torna-se fundamental para minha felicidade. Perde-la? Nem pensar! Só que com um quadro de baixo amor próprio o que era um relacionamento vira uma dependência. Amor pressupõe independência, dependência é doença emocional.

Por isso nunca é demais lembrar que todo o controle está ligado ao medo e a insegurança!

Muitas vezes as pessoas buscam provocar ciúmes no parceiro (a) como forma de medir o interesse e até mesmo fazê-lo (a) sofrer um pouco do que a pessoa passa. E um jogo começa com o resultado já sabido: os dois são derrotados!

Outra ideia decorrente do ciúme é a quase certeza de que qualquer pessoa pode ser mais interessante e ”roubar” meu objeto de amor. Dessa forma surge as proibições, o afastamento dos amigos que possam oferecer algum risco, trazendo o casal a um enclausuramento social que também vai acelerando o desgaste da relação.

Dentro da prática da psicoterapia e da psiquiatria é sempre importante avaliar a racionalidade, o quanto o ciúme está interferindo na qualidade de vida. O quadro é considerado mais patológico quanto mais a pessoa sofre. O que não quer dizer que a preocupação com a fidelidade não possa existir, mas o como se lida com ela é que pode caracterizar um problema. Normalmente os quadros mais graves de ciúme tem estreita relação com o transtorno obsessivo-compulsivo (toc) e com a dependência química, onde ela pode chegar ao que se chama de ciúme delirante, que nada mais é do que a presença de pensamentos obsessivos (paranoicos) e comprovadamente infundados (reconhecidos nos momentos de lucidez), mas tratados pelo doente como se verdades fossem e tendo as respectivas reações físicas e emocionais.

Tudo, no final, passa pela ideia de que perco meu valor pessoal se meu objeto de amor (?) não estiver ao meu lado, fico sendo “menor” sozinho (a) e nunca mais poderei ter alguma expectativa de ser feliz sem essa pessoa compondo o meu Eu.

Todo o relacionamento minimamente saudável é composto por duas pessoas que se respeitam individualmente em primeiro lugar, e o outro depois. Quando coloco alguém, relacionamento, etc., acima de mim, torno-me dependente e isso está longe de ser saudável e toda a doença continuada sempre leva a morte do organismo.

Assim posso responder a pergunta que inicia esse artigo; não acredito que quando uma pessoa sofre por ciúmes isso possa fazer bem ao relacionamento. Não escolhemos alguém para sofrer por nós ou sofrermos por ela. Isso vem de mais um dos paradigmas doentios a que fomos submetidos: que o amor está ligado ao sofrer, e que sofrer é prova de amor. Enquanto esta regra estiver vigendo, a maneira como medimos o quanto somos amados e amamos estará baseada em dor, angústia e muita tensão.

Nesse artigo trato do ciúme não comprovado por fatos. Quando realmente aconteceu algo que fundamenta o ciúme a abordagem é outra, mas também bastante fundamentada na valorização pessoal e auto imagem, mas seria assunto para um artigo específico.

*http://www.psiqweb.med.br