Agenda

A chance de sobreviver

            “É estupidez pedir aos deuses o que se pode conseguir sozinho.”

                                                         Epicuro – Filósofo Grego

                                                                                                                                                                reencarnacao (1)

E se a teoria da reencarnação que tanto nos consola não for bem como pensamos?

Vivemos no maior país católico do mundo e mais da metade dos que se dizem cristãos frequentam religiões (algumas abrigadas com o nome de filosofias) que dizem que nasceremos de novo. Essa incoerência só pode ser explicada pela nossa busca de saídas fáceis. De um lado o condicionamento cultural, de outro a esperança de uma nova oportunidade para ser feliz, finalmente!

E se existir uma terceira possibilidade entre as religiões orientais e ocidentais? As primeiras defendendo vidas seguidas e a segunda com apenas uma existência, onde depois da morte rumaremos para “outra” casa.

Penso que o ser humano não é algo definível, conforme já escrevi em artigos anteriores. De um lado nossa biologia Darwiniana, muito fácil de ser constada pelos nossos instintos e de outro nosso potencial para o divino, que também vemos diariamente em ações solidárias e fraternas por todos os lados. Vivemos essa constante oscilação entre um e outro, e nosso potencial está mesmo em desenvolvermos uma consciência, conforme escrevi no texto “O terceiro fator”. O despertar dessa consciência, isso sim nos definiria enquanto humanos, um ser entre o animal e o divino, com uma vida própria, no sentido do contexto e identidade evolutiva.

Se esse corpo biológico precisa de uma mente que o faça ter medo e preocupações para garantir que sobreviva o maior tempo possível, também necessita do “espírito”, ou seja, um impulso para o novo, desconhecido, onde realmente podemos evoluir, já que no conhecido não se aprende mais nada.

Essa fricção entre o medo o e impulso é o que leva o ser humano a avançar ou permanecer estagnado em suas crenças e condicionamentos limitantes, outro nome para a palavra “medo”. Como já disse, nossa parte espiritual não está muito preocupada com as coisas desse mundo e se só a ouvirmos os problemas serão tão grandes quanto as alegrias, fora o risco que esses lampejos de liberdade impensada podem nos trazer. Os dois são impulsos, não fazendo parte da individualidade, como equipamentos de um carro fabricado em série, ou seja, mente e espírito são itens de série, sem vida própria, ambos finalizando junto com o corpo no momento da morte.

O desenvolvimento da consciência, que media e une essa dualidade em uma trindade só pode ser dada por dois caminhos; o primeiro é saber que ela existe em potencial e que pode ser desenvolvida. E o segundo, é a determinação, somada aos esforços corretos para obtê-la. Esse “querer” nada mais é do que  outra definição para a palavra “vontade”, que em última análise é o que nos move a enfrentar o medo, matéria prima da mente.

Essa consciência, se for desenvolvida, adquirindo portanto uma identidade, poderá sim, reencarnar. Não é nossa parte espiritual que passaria a ocupar outros corpos no futuro, mas nossa consciência, essa sim uma identidade conquistada pelo mérito de pôr o saber em prática, como uma forma de viver e entender a existência. O espírito nada mais é que um impulso, necessário para fazer oposição à mente puramente animal. Mente e espírito são claramente antagônicos, conforme citei acima, não sendo, portanto, a verdade.

Dentro dessa abordagem, a reencarnação só seria possível se essa consciência for desenvolvida, caso contrário, no momento da morte nada se desprenderia, como uma semente, que por nunca ter germinado, não chegou a nascer no sentido evolutivo.

Como na natureza nada se perde, essa essência retornaria à sua origem, um potencial de vida, sem forma, sem nada! De onde veio esse potencial que não tenha frutificado, para lá voltaria, mas sem uma identidade, já que o potencial de consciência não se oportunizou e a identidade não foi atingida.

É muito cômodo e pouco lógico que todos, independentes ou não de esforço, evoluam em direção ao divino. Em um universo onde o movimento e a impermanência são a verdadeira Lei, como entender a estagnação? Essa recusa precisa de um preço ou reação.

Sei que você, caro leitor(a), poderá perguntar como que as pessoas que moram em lugares miseráveis, tanto materialmente como socialmente e encaixariam nessa ideia? Minha resposta é que mesmo nesses lugares, e a história está repleta de exemplos,  há muitas pessoas que avançam consciencialmente. Sempre com muito esforço, remando contra uma maré muito mais forte que a dos outros lugares privilegiados. Na verdade é mais fácil de desenvolver ali, onde o sofrimento é epidérmico e a busca por compreende-lo, dar-lhe um sentido é quase uma necessidade.

Já, quem tem melhores condições, sofre justamente por uma fácil acomodação e uma crença em um deus “papai” que nunca vai deixar nada acontecer a seu filho, aquela eterna criança. Mas mesmo o conforto não impediu Sidarta de se tornar um Buda nem Francisco de Assis de atingir a santidade e poderia trazer outros exemplos.

Assim, de um jeito ou de outro, sempre sofremos com uma força contrária, que nos empurra para a estagnação (medo), nos desafiando a buscar o outro lado e, finalmente, encontrar o meio termo, esse sim a Verdade, por incluir os opostos.

Conta a história que quando Sidarta Gautama chegou à iluminação, disse ter se lembrado das suas últimas mil vidas, ou seja, depois de ter despertado essa consciência (terceiro fator), esse foi o tempo que precisou para encerrar sua jornada reencarnatória. Da mesma forma poderíamos falar de Cristo, por que não?

Como diz Osho em “Destino, Liberdade e Alma”, o que sabemos de Jesus foi sua última encarnação. Assim como Sidarta, ele deve ter vivido muitas vidas antes do seu clímax. Sei que para os cristãos, Jesus só nasceu essa vez e voltará. Mas se você gosta da ideia da reencarnação, na medida em que vidas seguidas nos levam à evolução, a ideia de Jesus ter vivido vidas anteriores deveria ser óbvia e fazer todo sentido.

O que constato é que mais de dois mil anos se passaram e esse retorno esperado não aconteceu. O planeta está morrendo pela exploração desenfreada e inconsciente de uma humanidade  ainda primária no aspecto evolutivo, como também comentei no texto “Verdadeiramente órfãos”, e Ele ainda não apareceu.

Não virá, por não estar mais ligado a essa etapa evolutiva. Ele se “salvou”, tentou salvar a todos como fizeram outros grandes Mestres da história, sem sucesso. Não há salvação fora da consciência, mesmo que ela esteja estampada na frente da pessoa, ela não poderá reconhecer. Como ela poderá ver algo que não tenha em si?

Vejo o processo como individual, precisamos desse “despertar” para que através do pensamento racional, de uma observação atenta à realidade e práticas pessoais se busque uma nova abordagem que não seja a dos dois impulsos que conhecemos. Estar em um extremos é estar com apenas meia percepção.

Quando se diz que Deus está dentro de cada um, vejo como esse potencial que precisamos  buscar de uma consciência mais desenvolvida que nos faz operar o maior dos milagres;  mudar a realidade  que cada um experiencia sua existência. O mundo nunca muda, só o que pode ser alterado é nossa relação com ele e isso só vem se morrermos para inconsciência e ressuscitarmos mais lúcidos, no “caminho do meio”.

Nossa reencarnação pode não ser garantida, para muito menos o paraíso. Podemos, porque não, abrir o leque de possibilidades para algo que nos motive a ir adiante. Do jeito que pensamos como cristãos ou reencarnacionistas de um jeito ou de outro tudo se resolverá um dia, seja vivendo infinitamente, seja indo morar no “céu”. Esse pensamento acomodado carece de lógica e é no fim das contas muito cômodo.

Como tudo são teorias e sempre serão, fique com mais essa. Nesse primeiro post de 2016 porque não começar o ano pensando diferente?

Sei que ela tem um problema, um desconforto que nos responsabiliza diante da evolução.

Mas vai que essa seja mesmo a certa?

Cortina de fumaça

“É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída.”   

                                                                  Clarice Lispector  –  Outros escritos

“Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber.”

                                                         Markus Zusak – A menina que roubava livros

 inconsciente

É comum dentro do processo da psicoterapia a pessoa conseguir resolver rapidamente o problema que a levou a procurar ajuda. Claro que isso não acontece sempre, afinal nada é mais imprevisível do que uma terapia, onde duas pessoas estão sempre em transformação (cliente e terapeuta). Existem obviamente situações que demandam mais tempo, mas quero me referir aqui a esse aspecto em particular.

A própria pessoa reconhece que o problema não é tão grave ou difícil (lembrando que todo problema é importante), mas tem dificuldade em entender o motivo de não conseguir resolvê-lo, ou conclui que a questão pode ser mais complexa e esse seja o motivo da demora.

Minha percepção mostra que essa “dificuldade” nada mais é que o problema em questão está sendo mantido ativo por atender a uma necessidade que está inconsciente (na maioria das vezes). Mas, afinal, qual o motivo de mantermos problemas que reconhecemos como simples no catálogo dos insolúveis em nossa vida?

A resposta é simples: os mantemos assim para não precisarmos enfrentar o verdadeiro problema, esse sim, mais difícil de resolver por sua solução, normalmente, afetar vários campos que estão estáveis na vida da pessoa e ser antevisto como muito sofrido.

Como diz o título desse artigo, é uma “cortina de fumaça” que esconde ou ajuda a nos entretermos com algo bem menos perigoso, enquanto esperamos duas coisas pouco prováveis de acontecer:

A primeira, é o dito problema se resolver sozinho, sem que seja necessário mover as montanhas que imaginamos que existem para sua solução, ou não precisemos sujar nossas mãos de sangue (é uma metáfora). Quando digo isso é por termos a ideia que nossa ação na mudança pretendida vai trazer sofrimento a outras pessoas e nos tirar alguns confortos. Além disso, sempre tem o medo da nova situação ser pior que a atual e que a mudança não teria sido um bom lance no jogo da vida. Como já frisei em outras oportunidades, dificilmente o que está ruim pode melhorar por si, enquanto a mudança traz a possibilidade de um quadro muito melhor no futuro.

Tudo que é vivo se caracteriza por ser instável, imprevisível e estar em risco, mas nossa mente detesta aventuras. Nunca esqueça que ela só gosta do “de sempre”, mesmo que esteja ruim ou esteja nos fazendo sofrer. O que se pensa nesse caso vem do ditado popular, que, como outros, estão no nosso subconsciente, como leis em nossa vida: “não se troca o certo pelo duvidoso”. Particularmente penso que se o que chamamos de “certo” é ruim, o “duvidoso”, pelo menos, abre algumas possibilidades.

Quando o caso é relacionamento tem o não menos famoso “ruim sem ele(a), pior sem”. Esse ditado afeta mais as mulheres, que na nossa cultura, infelizmente, só se explicam se estiverem acompanhadas. Parece que estar com alguém é um atestado de competência feminina, e esse “alguém” pode não ser tão bom assim. Se você é mulher e está me lendo, quero deixar claro que isso não a inclui, sei que isso não acontece com você e nem é assim que pensa, estou falando das outras…

Já no caso dos homens a palavra que comanda é a acomodação. Os homens, na sua maioria, lidam com o regular como sendo bom e mudar dá trabalho, despesas e um recomeço que, se o sofrimento não for insuportável, pode esperar uma outra oportunidade (que normalmente nunca chega).

A segunda maneira de não enfrentar diretamente o problema é uma pequena variação “mística” da primeira, só que mais absurda: entregar para “Deus” ou para o “Universo” a solução do imbróglio. Nesse modelo a situação fica risível, já que tudo fica resolvido de um jeito ou de outro.  Afinal, se a situação não muda (claro que não vai) é porque Deus não quer, e isso é um “sinal” de que se precisa continuar como está. Com certeza, tem a ver com “vidas passada” ou “carma” a ser resolvido e o sofrimento é uma purificação ou acerto de contas com a vida. Assim, meu sofrimento se torna algo útil que vai tornar minha próxima vida melhor, ou me encaminhar ao paraíso. Olha que inteligente: minha dor fica sendo uma maneira de me tornar uma pessoa melhor!

Você pode me perguntar: de que ditado vem essa abordagem confortável e de entregar para nosso deus a solução?

“Deus sabe o que faz”, ou, “Deus escreve certo por linhas tortas”. Mas, você pode preferir o inigualável: “Todo sofrimento é enviado por Deus para nos purificar e expiar nossas culpas”. Sofrer fica bom, traz vantagens e não preciso fazer nada para mudar!

Nossa inteligência não tem mesmo limites e a criatividade pode nos levar a lugares, realmente, inimagináveis!

Por isso, caso esteja acontecendo de você estar com um problema antigo, que você mesmo não consegue entender o motivo de persistir por tanto tempo, investigue se ele não está servindo para distrai-lo do que realmente seja o motivo da sua tristeza.

Isso é muito mais comum do que se possa imaginar e ninguém faz por mal ou covardia. Lembre que nossa mente não lida bem com nada que nos faça sofrer e isso sempre a deixa em estado de alerta. Nessa hora, mudar o foco e ficar olhando para “outro lado” é uma saída saudável do ponto de vista da mente.

Quando isso acontece no consultório, a pessoa sempre diz que não entende porque resolveu tão rápido essa questão que a incomodava a tanto tempo e tende a dar todo o mérito ao terapeuta. Por isso, sempre digo a meus alunos e futuros colegas que nem toda vitória da terapia é um mérito exclusivo do terapeuta, aliás,  nunca é.

Assim, uma solução rápida muito mais do que um resultado surpreendente pode ser apenas um aviso que o realmente importante e decisivo esteja por vir. O problema anterior foi removido e agora ficar-se-á cara a cara com o verdadeiro inimigo.

Como frisei, não é sempre assim e não são todos os casos, mas os consultórios, comumente, sempre tem um habitual cheiro de fumaça.

Grávido

               convite eduardoo

Sabiamente a natureza que não quis que os homens engravidassem. Foi uma boa medida, afinal não lidamos bem com dores e também não somos muito bons de acordar a cada duas horas. No dia seguinte tem trabalho e precisamos estar aptos a trazer comida para casa, já diriam os antigos.

Uma das maneiras metafóricas de experimentar uma gravidez é o processo de escrever e publicar um livro.

Como tudo, começa com uma ideia, quase um prazer, digamos intelectual, de deixar registrado aquilo que pensamos ou contar uma história, seja verdadeira, ficcional ou um pouco de cada. Se for esse o caso, objetivo  também é expressar nossas ideias e inquietudes, só que  colocando os personagens para falar por nós.

Depois que o texto está pronto e isso é como uma relação sexual que termina, começa o processo de gestação, que envolve a revisão (às vezes mais de uma), correções e tudo mais. Vão alguns meses nessa etapa e, muitas vezes, só o escritor, sua família e os profissionais envolvidos no projeto é que sabem que estamos grávidos. É bom não divulgar muito, já que problemas podem ocorrer e o projeto do livro ser abortado por algum motivo. Também é dolorido quando acontece por isso o sigilo faz parte para não gerar uma  ansiedade desnecessária.

Assim como os pais, a parte final do processo é de muita expectativa. Se para eles começa a procura pelo nome da criança, para o escritor é o momento de definir o título da publicação, a capa, cores, tipo de papel, diagramação,  fontes e outros detalhes. De tudo a escolha do título e da capa, para mim, é o mais difícil. Precisamos dizer e não dizer, levando o leitor, principalmente aquele que não nos conhece, a ter curiosidade de manusear o livro e se interessar por ele. A capa é como ver o rosto do bebê e por isso é também é muito importante e precisa de cuidado.

São muitas conversas, sugestões,  e a busca por desvendar o pensamento do leitor, de como ele se sentirá folheando o livro, esperando que encontre em alguma página aberta ao acaso, algo que o toque e transmita a ideia de que a obra poderá ser útil ou trazer momentos de prazer.

Depois é esperar que a impressão fique pronta e que tudo esteja conforme os modelos e testes. Nessa etapa, é como fazer os exames de ressonância magnética e ver o bebê inteiro, vendo aquelas imagens onde só o médico diz que vê alguma coisa com clareza.

 Marcamos o dia do lançamento que é como o parto, quando nosso “filho” ganha vida própria, saindo de nossas mãos e controle, ganhando sentido na mão de cada leitor.

O dia do lançamento é sempre especial e quando ele é concorrido, com muitas pessoas presentes é quase um prenúncio de que sua vida será longa e ele deixará “papai” satisfeito, caindo no gosto dos leitores e atendendo todas as expectativas.

Amanhã, estarei tendo o parto do meu segundo filho e estou convidando a todos. Assim como o anterior “Céu, inferno e outros lugares”, “61824….” tem como objetivo ajudar na busca do autoconhecimento, trazendo informações úteis para nossa vida. Mesmo podendo ser lido separadamente, sendo completo em si mesmo, é inegável que ele se une com o anterior, abordando assuntos e buscando reflexões que possam ajudar a nos entendermos melhor com a pessoa mais difícil que conhecemos; nós mesmos.

Nesses dois volumes, deixo minhas impressões como psicoterapeuta, buscando sempre uma linguagem fácil de ser entendida e é um daqueles livros que pode ser aberto em qualquer lugar, podendo ficar na sua cabeceira, para ser relido ou consultado.

“Nunca” é uma palavra que não gosto de usar, mas minha intenção com esse segundo livro é encerrar esse tipo de escrita e abordagem. Se, por acaso, um dia voltar a publicar, o assunto será outro e o estilo também.

Então, amanhã, dia 28 no Bistrô e Empório Richter, que fica ali, quase em frente ao restaurante Madalena, estarei recebendo os amigos e me despedir de mais esse “filho”, esperando que todos possam comparecer.

O horário é das 19hs às 22hs, para que, sem pressa, todos cheguem, tomem uma taça de vinho  e eu possa fazer uma dedicatória especial, esperando que o livro seja um bom companheiro.

As mulheres dirão que estar grávida é mais difícil e dolorido, concordo!

Mas como também foram quase nove meses, tem um nome que escolhi e é para ser a minha “cara”, me dei ao direito se me sentir, literariamente, grávido!

Verdadeiramente órfãos

“Ser agnóstico é como enfim tirar a venda, mas descobrir-se cego.”

                                                                                 Rodrigo Quito

Ograndepensador

Essa foi uma daquelas notícias que ninguém dá importância:

“O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, alertou que até 2030 quase metade da população global terá problema de abastecimento. Isso vai acontecer porque, daqui a 17 anos, a demanda por água vai superar a oferta em mais de 40%.”*

Poderia citar tantas outras sobre outros tipos de esgotamento do planeta, mas vou deixar apenas essa, já serve para nossa reflexão.

Em outros artigos desse blog já  falei que a ideia que temos de Deus, como sendo um “pai” ou uma figura quase humana nos mantêm infantis por toda uma vida, já que no nosso inconsciente (estou sendo otimista), temos a ideia de um Deus que está cuidando de nós; aquela história de crianças que não sabem o que fazem. Como tudo que é dito mil vezes…

Assim, vivemos achando que se algo bom acontece é “graças a Deus”, e se for sofrimento “Deus sabe o que faz”, ou a ótima: “cada um carrega uma cruz que suporta o peso”.

Interessante observar que isso nos coloca sempre na condição de uma vítima, sem autonomia, ou seja, sempre terá quem me cuide, seja Deus ou um Anjo da Guarda qualquer designado para esse fim. De forma coletiva pensamos da mesma forma, e isso pode estar por trás do nosso descaso ou falta de consciência ecológica.

Esse alerta da ONU é baseado em dados científicos e existem outros estudos que mostram que até 2040, mais da metade da população mundial poderá morrer por problemas ligados a exaustão do planeta. Esses dados não são ficção científica, estamos falando daqui a 25 anos e, se não fosse pela destruição, provavelmente todos nós poderíamos estar vivos nessa data.

Cabe lembrar que o ser humano não faz parte da cadeia alimentar. Alguns dizem que estamos no topo, mas na verdade somos a única espécie que, se deixasse de existir, garantiria que esse pequeno planeta azul duraria  muito mais. Somos desnecessários aqui e deve ser por isso que só fazemos mal.

Existe um equilíbrio na natureza que o Homem insiste por ignorância e ganância, que no fim é a mesma coisa, afetar com sua conduta destrutiva. Nenhuma espécie destrói seu habitat, só mesmo o humano.

O sonho do mundo é viver uma vida de consumo, como os EUA,  por exemplo. Só que  se isso ocorrer fará com que precisemos de outros planetas iguais ao nosso só para dar conta da demanda dos recursos necessários para gerar energia e matéria prima para produzir tudo que queremos comprar.

Fico pensando se tudo isso não está acontecendo por termos a ideia de que nenhuma tragédia acontecerá, que nada se esgotará porque “Papai do Céu” está cuidando e certamente intervirá de alguma forma para que seus filhos não morram pelas suas burradas. Vai que Deus é um daqueles pais que não colocou o filho no mundo para sofrer.

Penso que não seja.

A história da humanidade está repleta de erros que custaram milhões de vidas e não percebi nenhuma intervenção divina. E se o conceito que temos de Deus enquanto humanidade estiver errado? Afinal foram pessoas como eu e você, algumas que hoje em dia certamente estariam acompanhadas por um psiquiatra, inventoras dessa ideia de um pai protetor, que nos cuida como crianças, a quem pedimos ajuda para atender aquilo que não nos sentimos capazes de conseguir ou para termos a desculpa para os erros crassos em nome do desenvolvimento e da felicidade geral.

Estamos destruindo o planeta e não teremos ajuda “externa”, pois se ela existisse teria evitado muitas das bobagens que já fizemos, como duas guerras mundiais e tantas outras no decorrer da história, para dizer o mínimo.

Qualquer ecologista principiante sabe que não existe crescimento sustentável, isso é uma mentira. Todo o crescimento ou destruição não pode ser recomposto. Da atmosfera aos lençóis freáticos, estamos matando esse organismo vivo que é o planeta Terra e morreremos juntos, esperando uma redenção. Temos prognósticos nada animadores sobre doenças que estão por vir, justamente pelo desequilíbrio que estamos produzindo em larga escala.

Então, estive pensando e cheguei a uma conclusão que uma das saídas filosóficas para o problema seria mudar o conceito de Deus. Já que ninguém pode discutir crenças, lá vai mais uma:

E se Deus apenas seja um impulso de vida e que depois estamos cada um por nossa conta? A isso damos o nome de “livre arbítrio”. Seja individualmente, seja coletivamente, estamos fazendo coisas para atender nossos desejos de riqueza e poder,  gerando resultados que teremos que assumir. Se a lei do Carma existir, estamos ferrados!

Dessa forma, talvez a solução possa ser nos tornarmos todos Agnósticos**.

Sei que isso faria com que as Igrejas de todos os tipos perdessem finalidade e muita gente teria que arrumar outro programa para os domingos pela manhã. Alguns canais de televisão perderiam parte ou toda sua programação, além é claro de muita gente, mais muita mesmo teria que fazer outra coisa para sobreviver.

O agnosticismo é a visão que mais tem crescido ultimamente no mundo, principalmente nos países mais desenvolvidos onde o nível cultural é o mais elevado. Obviamente, isso não é uma coincidência; afinal quanto mais se estuda, mais se consegue pensar com alguma lucidez e observar que algumas histórias de ninar fazem parte do mundo da fantasia.

Reconhecer que a natureza como um todo  é movida por uma “inteligência “ superior e que a vida é algo tão magnifico que não poderia ser causada por nenhum acidente, é um conceito religioso em si mesmo. Mas saber que isso possa ser tão grandioso que não possamos entender é muito justo pela nossa insignificância. Vivemos em um planetinha minúsculo em uma galáxia pequena diante de milhões de outras em um Universo sem fim. É como querer que uma ameba entendesse  os textos de Kant.

Sei que isso nos deixaria desamparados em um primeiro momento, afinal estamos acostumados à ideia de sermos cuidados, mas em seguida começaremos a assumir nossa responsabilidade de forma totalmente diferente. Viraríamos adultos e rápido.

Isso poderia trazer uma nova visão ecológica, bem mais fatalista, já que tomaríamos consciência de que somos responsáveis e estamos caminhando para a autodestruição. Toda e qualquer prática que levasse ao esgotamento dos recursos seria rechaçada de pronto e teríamos um lugar para viver por mais tempo. Mas a condição é assumirmos que estamos por nossa conta, sem ajuda.

Tenho um filho de 5 anos e saber que ele poderá morrer jovem por falta de água e ar para respirar atesta que somos um fracasso enquanto humanidade. Muito da falta de consciência vem não só da ignorância, mas da ideia que nada nos acontecerá, que estamos protegidos por sermos a “imagem e semelhança” do criador.

Tudo que existe é assim, de certa forma entregue ao acaso e a grande maioria das espécies que já habitaram esse mundo desapareceram. As poucas que podem ser consideradas antigas não sobreviveram por serem fortes ou qualquer qualidade superior, mas pela sua capacidade de adaptação. Isso é uma forma de inteligência que precisamos aprender com os lagartos, tartarugas e moluscos. Se eles estão aqui há muito mais tempo do que nós, é por possuírem um tipo de inteligência que nos falta. É uma questão de lógica,  é só observarmos os fatos e não há como negar.

Nosso problema, como diz sabiamente o filósofo Mario Sérgio Cortella ***, é nos acharmos “grande coisa”, de estarmos acima das consequências da destruição que promovemos.

Esse tipo de pensamento tem fundo religioso, de nos acharmos quase deuses, quando na verdade somos só um pouco melhores do que os macacos, com bem nos mostrou e provou Darwin.

Assumir nossa ignorância mais essencial, que nada sabemos sobre esse Criador, levar em conta que tudo pode ser totalmente diferente do que esperamos confortavelmente, possa ser a alternativa mais rápida para não nos destruirmos.

Não somos crianças que não sabem o que fazem, somos autores e responsáveis por cada ato e nisso não há quem possa nos perdoar.

Quando o Papa Bento XVI esteve visitando os campos de concentração de Auschwitz saiu de lá abalado e perguntou em voz alta: Deus onde você estava que deixou isso acontecer? Via-se no seu rosto que ele estava em dúvida na sua ideia de Deus e teve seu momento agnóstico.

Essa Força criadora estava no lugar de sempre, aquele que não tenho noção de onde seja e que pode ser em todos os lugares, para o que entendemos por bem e mal. E não fez nada, porque mesmo que Ele exista, não é da conta dele. Só mesmo estando cego por alguma crença para não perceber. Observe a história e me diga que se o meteoro que dizimou os dinossauros, as pestes e nossa ganância que matou milhões e continua matando tem sido impedida por alguém.

Sinceramente, você acha mesmo que tem alguém cuidando do seu ou do nosso destino?

                                 homem com ursinho de pelúcia

______________________________________________________________________

*http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2013/03/22/quase-metade-do-mundo-pode-ficar-sem-agua-ate-2030-alerta-onu.htm

**Agnosticismo – doutrina que reputa inacessível ou incognoscível ao entendimento humano a compreensão dos problemas propostos pela metafísica ou religião (a existência de Deus, o sentido da vida e do universo etc.), na medida em que ultrapassam o método empírico de comprovação científica.

*** Palestra disponível em:

Imagem de Amostra do You Tube

Sobre a questão da história do planeta e dos seres mais adaptados sugiro a leitura do livro: “Uma breve história de quase tudo” de Bill Bryson editado pela Companhia das Letras.

O Básico

“Se você ama uma pessoa, projeta coisas que não estão ali. Se odeia uma pessoa, novamente você projeta coisas que não estão ali. No amor, uma pessoa se torna um deus, no ódio ela se torna um demônio, a pessoa é simplesmente a mesma.

Esses demônios e deuses são projeções. Se você ama não consegue enxergar claramente. Se odeia, não consegue ver com clareza”.

                             Osho –  Zen, sua história e ensinamentos.

espelho

Não é fácil aceitar que na verdade nunca conhecemos ninguém.

Quantas vezes você já se decepcionou ou encantou com alguém que gostava, seja em algum romance, amizade ou relação familiar e profissional? Com certeza muitas e o grande problema é que essas pessoas não tiveram absolutamente nada a ver com isso, o problema sempre é de quem se encanta e decepciona.

Um dos assuntos mais falados em psicologia é a projeção, ou seja, quando transferimos para o outro nossos conteúdos. Isso acontece por não termos muita ideia de quem somos, daí a única coisa que podemos ver e identificar nos relacionamentos somos nós mesmos.

Essa oscilação do amor para o ódio ou da expectativa para a decepção acontece toda hora. Inconscientemente sempre espero que todo mundo seja como eu, sinta como eu e vá fazer as mesmas coisas que eu faria em cada situação. Conscientemente, todos dizem que “ninguém é igual a ninguém”, ou a pérola biológica que se cada um tem um DNA diferente é justamente porque não existem duas pessoas iguais no mundo.

Tudo da boca para fora!

O que se vê, é “amar” e “odiar” o tempo todo. Da mesma forma que tem horas que exageramos em alguma coisa e depois precisamos nos abster por um tempo para compensar, oscilamos entre gostar e não gostar. Essa oscilação é simples de explicar; esse espelho que é cada pessoa que nos relacionamos, ora nos mostra nosso lado que gostamos em nós e queremos que os outros vejam, ora mostra o que não queremos que saibam a nosso respeito.

Já quando a paixão surge, pensamos que encontramos a pessoa “certa” nossa “alma gêmea” por quem teremos amor eterno, que superaremos todas as vicissitudes da vida, até porque é bem provável que já tenhamos nos apaixonados na vida passada…

Passado um tempo todos esses 100 tons de rosa vão esmaecendo, até porque só nos apaixonamos pelo que gostamos em nós que esse outro(a) nos mostra nesse início entusiasmante. Na verdade, nos apaixonamos por nós mesmos. Mas como nenhuma ilusão é duradoura, nosso lado menos glamouroso começa a aparecer com o tempo. A isso damos o nome de desgaste ou rotina.

Algum tempo depois queremos intimamente nos apaixonar de novo, voltar a sentir vibrar o coração. Lá estamos à procura de quem me mostre de novo meu melhor ângulo, assim como fazia aquele cantor famoso que só se deixava fotografar de perfil, onde ficava “melhor”.

Desde a infância, quem teve ou tem um irmão  com pouca diferença de idade pode observar que os dois são opostos um do outro, com temperamentos antagônicos. Isso ocorre em uma grande quantidade de vezes. Na verdade, é como se conseguíssemos juntar os dois daria um “perfeito”. Um se projeta no outro e vice versa e aí as brigas e discussões são diárias.

Depois levamos isso para todos os âmbitos dos nossos relacionamentos, quando simpatizamos com pessoas e antipatizamos com outras. De novo, todos são espelhos e, dependendo do ângulo, quero distância ou proximidade.

Quando alguém faz alguma coisa que nos deixa chocados, é justamente por termos descoberto que nunca realmente conhecemos essa pessoa. Imagina apresentarem alguém a você, sendo que “conhece” essa pessoa há vinte anos?

A terapia de casal e familiar trazem essas surpresas todo o dia nos consultórios de psicoterapia.

Portanto, o básico em relação à busca pelo autoconhecimento é começar a parar de imaginar os outros, de usar a minha medida (lembra do DNA?), esperando que todos sejam uma cópia de mim mesmo.

Pode parecer uma loucura, mas a única maneira de encontrarmos um dia esse amor verdadeiro talvez seja por alguém que não amamos nem odiamos. Essa talvez seja a condição básica de realmente podermos “ver” outra pessoa de verdade. Já reparou como uma pessoa com quem você convive, mas que lhe é indiferente, nunca te decepcionou ou surpreendeu positivamente?

Eu sei que seria difícil amarmos (essa palavra é sempre perigosa e exagerada) alguém de quem não gostamos, mas estou falando em tese.

Por outro lado, uma coisa é certa; do jeito que está, comprovadamente não dá certo. Essa constatação se dá pelo número de divórcios cada vez maior, principalmente depois que as mulheres conquistaram sua independência financeira.

Na verdade, penso que não conseguimos conviver conosco muito tempo. Daqui a pouco, precisamos de um espelho novo, com uma moldura diferente.

Como nos ensina o Zen budismo, estamos sós o tempo todo. Qualquer relacionamento seja de que nível for só terá êxito se assumirmos essa responsabilidade essencial. Ninguém me fará feliz, ou será um amigo maravilhoso, nem pai, nem mãe.

Ficamos procurando o tempo todo alguém que finalmente nos compreenda profundamente. Essa é a tese da “tampa da panela” ou da “outra metade da laranja”. Nunca dará certo  me procurar em qualquer pessoa, como posso me encontrar em alguém? Talvez o medo de assumir  responsabilidade  faça com que tenhamos essa fuga de procurar alguém especial, para quem transferiremos essa tarefa.

É como se todos fôssemos estranhos, vagando mundo a fora atrás de algo que nos explique e dê sentido.

O poeta persa Rumi disse certa vez que esteve por longo tempo batendo a porta e quando viu estava do lado de dentro. No caso, ele falava de seu relacionamento com Deus, mas cabe bem aqui.

Portanto, naqueles momentos de angústia, quando nos perguntamos se, algum dia, alguém irá nos compreender, a resposta é não!

Como que alguém poderá compreendê-lo, se nem mesmo você se entende ou compreende verdadeiramente outra pessoa, já que se projeta o tempo todo?

Podemos começar por quebrar os espelhos e ver quem realmente está do outro lado.