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O sorriso do Padre Anselmo

É como se soubesse que um dia voltaria ali. Todos voltam e o que se diz nas conversas privadas é que, quem ainda não voltou, não escapará. Estar de volta, portanto, não parece ser um demérito ou fraqueza.

Seu superior já tinha notado que estava diferente a algum tempo. Seus sermões dominicais tinham perdido fôlego, como se falasse por que tinha que falar. Estava tão automático, sem ânimo, como se ele já não acreditasse mais. Parecia que esses anos em contato direto com a realidade haviam suprimido sua fé. Os argumentos a favor dos sonhos não eram mais suficientes nem para seu próprio consumo. O que tinha a oferecer para as queixas comuns das pessoas comuns lhe parecia vazio e carente de um sentido real. Difícil de passar uma confiança que tudo dará certo no final se essa data poderia ser amanhã ou na eternidade. Tempo demais para quem sofre as violências da vida e quer uma explicação ou reparação das injustiças. Pessoas que fazem tudo certo, esperando que isso resulte em algo bom e que, quando não acontece, precisam de uma explicação que as conforte. Fazer o que é “certo” precisa valer a pena e ninguém se sente bem enganado.

Quando chegou encontrou tudo igual. O mesmo cheiro, sons, sopas à noite e os mesmos quadros nas paredes de rostos sisudos, contraídos por uma vida, que agora conhecia, de muitas abstenções e rigidez. Faltava alegria ali.

Por coincidência ou não, foi-lhe dado o mesmo quarto que frequentou na sua formação. Cama de solteiro com colchão de palha, curta demais para seu tamanho. Nos invernos rigorosos forçava a cabeça contra a parede para tentar manter os pés aquecidos. Passados muitos anos, a pergunta era a mesma: Precisava ser assim? No que dormir mal em um lugar sem nenhum conforto aumentaria sua fé? Desapego não precisa rimar com sofrimento. Se é para se ter poucas posses, por que não serem as melhores possíveis?

Perguntas demais, respostas de menos e sempre tão vagas. Esse sempre fora o problema.

Passaria uns dias por lá ou o tempo que fosse necessário. A ideia era reavivar seus compromissos e também suas crenças, obviamente. Nos primeiros dias, fora instruído a ficar em silêncio, conversando consigo. Não achou uma boa opção e chegou a iniciar uma argumentação, mas desistiu. Recebeu um olhar fulminante, que dizia claramente que se ele não dava mais conta de si, precisava fazer exatamente o que lhe mandavam. Quem mandava, mandava porque sabia mais do que quem era mandado, pelo menos pensavam assim.

Deu de ombros, afinal, poderiam até ter razão.

 As horas e dias iam passando e sua ansiedade só aumentava. Ele não era um bom interlocutor para essa situação, já que foram seus próprios pensamentos que trouxeram as dúvidas. Nos corredores, passava por jovens que tinham o mesmo brilho no olhar que ele nessa fase. Aquela certeza que a sua revelação mudaria o mundo. Se via neles, tinha vontade de avisá-los, preveni-los. Engolia essa vontade com um suspiro.

Participava dos momentos de oração com os demais, mas sentia que não estava ali. Era como se testemunhasse a si e aos outros orando. Em outra situação, essa sensação poderia ser vista como algum problema psicológico, mas ali, só o entristecia e aumentava seus questionamentos sobre o futuro. Até bem pouco tempo não tinha dúvida sobre o que queria para sua vida, agora via-se diante de um entroncamento onde muitas estradas se encontravam.

Terminado o tempo do silêncio, notava que as conversas com os superiores não surtiam efeito. Sentia-se mal, traindo a si mesmo, pois quando perguntado sobre o que acreditava, não sabia se o que respondia era mesmo verdade. Duplicou seu tempo de oração e estudo como se quisesse se auto convencer de que o que sentia não era a perda da fé. Era uma fase, iria passar. Todos passaram por dúvidas e se questionaram, pelo menos é o que diziam as biografias.

Em uma tarde, percebeu que não sabia mais exatamente a quanto tempo estava ali, duas, três semanas talvez. Naquele lugar, exceção aos domingos, todos os dias são iguais. Tempo que se arrasta como as reticências que nos dão liberdade de preencher significados.

Quando a porta do seu quarto abriu levou um susto. Estava tão absorvido em seus pensamentos que chegou a sobressaltar. A visão do seu instrutor mais querido trouxe lágrimas aos olhos. Padre Anselmo fazia parte daquelas raras unanimidades positivas; sempre bem-humorado, afável e com uma incrível capacidade de entender, de se colocar no lugar do outro, só para sentir o que o outro sente. Nunca impôs verdades, pois falava de sentimentos, lugar onde elas não combinam. Devia ser por isso que nunca subiu na hierarquia, sorria demais para isso. Como em todas as empresas, os cargos mais disputados são poucos para tantos pretendentes e a luta era intensa e surda, como devia a quem precisa dizer-se o tempo todo humilde e desinteressado de alguma forma de poder.

Um longo abraço! Finalmente alguém com quem sentia que poderia se abrir sem medo, falar abertamente sobre perguntas e não sobre certezas.

Toca o sino para a hora da oração. Sem ainda trocarem palavra foram juntos para a pequena capela do outro lado do monastério. Ali, era o lugar das orações particulares e quem queria ter essa privacidade precisava se antecipar. Naquele dia, ela estava disponível para os dois.

Ajoelhou-se e começou sua prece. Sentindo algo estranho, notou que Padre Anselmo continuava sentado, de olhos fechados.

Ficaram ali, em silêncio, por muito tempo.

Pensou em perguntar ao antigo professor o motivo de não ter ajoelhado. Quando ia fazê-lo, deu-se conta que estava recebendo mais uma lição. A que precisava agora. Todas as peças se juntaram e muita coisa fez sentido naquele momento. Era isso, todo esse ritual o estava distanciando do que realmente acreditava por não fazer mais sentido.

Muitos dos seus momentos de desencanto aconteciam por querer entender essa lógica divina de resultados tão distantes e improváveis. Não via justiça nenhuma em os erros ou acertos terem um desfecho em outro lugar, assim como o sofrimento se transformar em fé. O que é humano nessas situações é só desencanto. Jó era um exemplo que não vingava mais; dores e sofrimentos pensados por um Deus sugestionado pelo mal. Não, não poderia ser assim! A rigidez dos rituais estava acabando com sua sensibilidade, criando uma barreira, queria dizer o que sentia não o que “deveria”.

Padre Anselmo parece que lia seus pensamentos. Esboçou um leve sorriso.

Era por isso que ele exalava uma verdade! Ele não se rendia ao que não acreditava. Tinha sua relação com Deus do jeito dele e isso nunca o faria sair dali. Não abria mão do que realmente acreditava em troca de poder ou prestígio. Só a admiração dos alunos o mantinha lá. Ele tentou ensiná-lo, mas na época não entendeu. O “pacote pronto” parecia fazer mais sentido que receitas individuais, maneira arriscada, punida com dureza por quem precisa que todos anulem suas diferenças. Mais fácil, mais seguro.

O Deus em que sempre acreditou tinha menos cerimônia, porta aberta para quem precisasse, dispensando intermediários. E muitas vezes, porque não, uma resposta de simplesmente não ter resposta, de aceitar que tudo pode ser somente o que é.

Na saída da pequena capela, mais um abraço e apenas um “obrigado”.

Arrumou suas coisas e quando estava saindo, voltou-se para ver a porta que se fechava as suas costas. Esteve em uma bolha de tempo e realidade. O ar da rua o trouxe de volta à vida, a que acontece, imprevisível a cada instante.

Tudo que se aprende como certo, serve apenas como uma maneira de chegarmos mais rápido ao nosso próprio jeito de pensar e fazer. Teorias, programas e técnicas servem para pessoas que não existem, que deveriam ser desse ou daquele jeito. A vida é tão móvel que tudo que a prende e engessa vai tirando-lhe a graça, porque afeta sua natureza.

Enquanto caminhava, lembrou que tinha voltado a sonhar, o único sonho que valia a pena ser sonhado; aquele do seu próprio jeito. Padre Anselmo tinha ensinado a difícil arte de responder perguntas complexas; não disse nada, apenas deixou que ele mesmo respondesse.

Arrume seus armários

   “Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida.”

                                                            Fernando Pessoa

mudança

Mudanças são difíceis e, na maioria das vezes, ocorrem sem nossa concordância; são necessidades impostas pela vida. Portanto, a famosa frase “resistir a mudança” tem sua lógica. Nosso instinto de sobrevivência quer a manutenção do que nos mantêm vivos, afinal, estar vivo é uma pré-condição da almejada felicidade poder ser alcançada.

Uma mudança, seja ela imposta ou escolhida sempre será um processo de alguma dor, ou como dizia Nietzsche, de “rasgar a alma”. Isso porque, saímos do terreno conhecido em direção a essa nova etapa que não controlamos (por ainda não termos vivido algum tempo nela), com o receio que nossa máquina corporal nos impõe sempre que estamos diante do que não conseguimos prever; o medo.

É justamente aí que reside a origem e a necessidade de todos os deuses e superstições: uma mão forte diante do medo do desconhecido e de um mundo repleto de acasos e variáveis que escapam à nossa lógica e compreensão.

Assim, diante de uma mudança necessária (as desnecessárias adiamos até se tornarem imperativas), ficamos à espera de uma força que nos anime para adentrar nessa selva desconhecida. Vale fazer uma promessa, beijar a medalhinha do santo protetor e confiar no apoio do Grande Pai, que sempre sabe o que faz e quer o nosso bem. Então, munidos dessa “força”, respiramos fundo e vamos adiante, seja para uma cidade nova, um relacionamento, um novo projeto profissional, um regime ou abandonar velhas rotinas que já não servem mais.

Nossa realidade externa sempre é reflexo do nosso interior, da ordem e desordem emocional que estamos vivendo. Esse conceito não é novo, frequenta a filosofia de autoajuda faz tempo e nos serve muito, quando estamos falando de processos de mudança.

Como já tive a oportunidade de escrever em outros textos, ansiamos por estarmos emocionalmente aptos a enfrentar esse processo de ir em direção a uma nova realidade. Queremos estar animados para o novo começo e isso não é possível, como expliquei acima. O máximo que se consegue, quando a mudança pode representar o fim de uma longa agonia é uma alegria misturada com tensão, que é esse medo diante do novo. Dizemos a nós mesmos: “Vai dar certo, eu sei !”

Não, não sabe. Se soubesse não precisaria estar repetindo segurando a medalhinha. Lembrando que “fé” é acreditar no que não sabemos.

Voltando ao começo desse texto, digo que a saída é a seguinte: se não tem como termos essa alegria/força/ânimo puro, diante do que nos espera, então, como fazer?

A resposta é simples, faça “por fora”, ou seja, mesmo a confiança e a certeza estando ausentes, tome as atitudes (ações) que representem que essa mudança já está em curso e sendo bem-sucedida. Mudando nossa realidade externa, nosso interior acompanhará essa mudança.

Tudo que esperamos que venha de dentro nunca é algo que sentiremos antes, mas somente depois. A “confiança”, qualidade aspirada por muitos, sempre é resultado de atitudes que deram certo. As primeiras, normalmente acompanhadas do medo. Por isso, não tem como se sentir confiante sem ter feito ainda. Parece óbvio, mas está longe de ser.

A “alegria” é sempre depois, nunca antes. É resultado de algo que aconteceu e ninguém fica alegre por algo que acontecerá, visto que isso está no futuro, sujeito a variáveis que podem não resultar no que se espera. Nesse caso, chamamos de “esperança”, sempre acompanhada do medo de não se concretizar.

Portanto, qualidades são depois, resultado de ações que tomamos sentindo receio e cheio de dúvidas. Em toda história de sucesso, sempre encontraremos no começo do relato o momento em que um grande risco foi corrido. O orgulho de quem conta a história nem é do resultado em si, mas de ter vencido a angústia diante da possibilidade de naufragar.

Dificilmente quem está em desordem interna, seja pelo que for, estará com suas coisas pessoais arrumadas. Nós e o mundo somos uma só coisa, indivisível. Justamente por isso, como já disse, o mundo precisa ser um caos. Temos oito bilhões de “mundos” convivendo e para que cada um possa Ser, nenhuma ordem deve estar pré-estabelecida.

Mudamos a mente pelo corpo e o corpo pela mente. A Yoga traz calma a mente, justamente por tirar a tensão dos músculos pelo alongamento, e uma criança é flexível  por não ter uma mente repleta de medos e crenças. Não há corpo saudável em uma mente desordenada e vice-versa.

Dificilmente atraímos para qualquer tipo de relacionamento alguém que seja oposto. Um mau momento pressupõe um mau encontro e escolhas idem.

Assim, mudar o externo é uma maneira mais rápida de mudar internamente mas, como tudo, precisa de compreensão. Quem age sabendo o motivo de estar fazendo tem um resultado mais sólido. De nada adianta repetir mil vezes que se é confiante, por exemplo, se não temos atitudes de confiança. Você poderá dizer que estaríamos mentindo a nós mesmos fazendo isso. Pode ser, no começo. Mas nunca esqueça que tudo que repetimos vira uma verdade pessoal. Mas isso só vale para atitudes, nunca para frases.

Observe como é difícil manter nossa vida financeira em ordem quando estamos em desequilíbrio, assim como nossos armários estão tão desarrumados quanto nossos pensamentos e emoções.

Tudo é resultado de ações ou da falta delas em nosso universo particular.

Outros mundos colidem com o nosso a todo momento e esse entrechocar de vontades e ânimos torna os resultados sempre imprevisíveis. Mas o que nos compete é fazer o que nos cabe para termos o que desejamos.

Quem toma uma ação nova já é “outro”, mesmo que seja com algum receio. O tornar-se outro, maior do que se era, seja por escolha ou imposição das circunstâncias precisa de uma alma maior. A antiga rasga por não se caber mais nela.

Portanto, pare de esperar que a confiança e todos os bons ventos se façam presentes para sua travessia. O bom marinheiro veleja com todo tipo de vento e só é bom porque sabe para onde vai.

Perguntas desnecessárias

…Ser moderado é a maior virtude. A sabedoria consiste em falar e agir na verdade,

    dando atenção a natureza das coisas. É sábio reconhecer que todas as coisas são

   uma só. A sabedoria é uma só – conhecer a inteligência pela qual todas as coisas

   são guiadas por todas as coisas.

   A sabedoria é uma e única; ela não está inclinada e, ainda assim, está inclinada a

  ser chamada pelo nome de Zeus”.

                                    Heráclito – Fragmentos

  “Nullas ex omnibus rebus, quae in protestade mea non sunt, pluris, quan cum Viris

   veritatem sincere amantibus foedus inire amicitiae”.*

                        Espinosa – citação de abertura da Éthica

perguntas

   Temos uma dificuldade em aceitar o mundo e a vida como um todo simplesmente como são. Nos sentimos inseguros diante da realidade e nos escondemos atrás de uma série de ideias pouco prováveis. É como se tivesse luz em demasia e só colocando uma lente escura pudéssemos viver confortavelmente. Ou, se preferir, já que a palavra “luz” pode ser interpretada de várias formas, fosse necessária uma lente com algum grau para distorcer minha visão para que pense que enxergo.

Qual, afinal, o problema de tudo ser simplesmente como é?

 Não conseguimos simplesmente viver a vida que temos; ansiosos, precisamos pensar na próxima, garantir-se nela com privilégios. Agimos baseados em condutas ditas corretas, não por uma iniciativa do bem pelo bem, mas como condição da obtenção de vantagens, seja para nossa vida aqui (proteção e saúde), como para estarmos de bem com quem cuida da nossa contabilidade divina. Mesmo religiões que não falam de nenhum deus, têm sempre seu julgador com quem acertamos as contas depois da morte e que nos encaminha para a próxima existência baseado em nosso saldo de boas ou más ações. Não valem as ações sinceras, só as pré determinadas como corretas, nunca esqueça!

Heráclito diz que a verdade está oculta pelas aparências. Não foi fácil para ele viver na mesma época que Aristóteles, que defendia que a verdade está aparente. O pai da lógica ocidental dizia que A e B são coisas diferentes, justamente por serem A e B. Já Heráclito dizia que A e B são apenas duas formas em que uma mesma coisa se manifesta. Osho afirma que se Heráclito tivesse nascido na Índia seria um dos Budas. E seria mesmo!

Nossas sofridas definições de “bem e mal”, “certo e errado” ou de “justo e injusto” entre outras, são oriundas de Aristóteles que não via, como Heráclito, que a impermanência, como regra básica da vida, deveria merecer nosso silêncio e simples observação. Quando fazemos julgamentos imediatos, significa que só conseguimos entender baseados nessa separação entre positivo e negativo, bom ou mal. Como já comentei em artigos anteriores, basta cada um observar sua própria vida para notar que acontecimentos foram sentidos de uma maneira no momento e de outra completamente diferente depois de algum tempo.

O problema é que Heráclito nos exige um esforço. Para não fazer o julgamento, que leva ao sofrimento, precisamos em primeiro lugar entender seu pensamento e depois estar muito consciente para que Aristóteles, que está impregnado em nosso subconsciente, não se manifeste de forma automática e mecânica.

Já Espinosa, afirma que a Alegria é o que aumenta nossa potência, ou força para viver. Só que, para ele, a Alegria é a condição para a liberdade, para podemos viver em potência. E o que é, afinal, essa Alegria?

 É o conhecimento das causas!

 Nas palavras do próprio Espinosa: “A potência de um efeito é definida pela potência de sua causa, na medida em que a essência dele é explicada ou definida pela essência de sua causa”. (Ética V – Axioma II). Podemos também optar pela Proposição III; “Uma afecção, que é paixão (aquilo que nos domina sem entendermos a causa – grifo meu), deixa de ser paixão no momento em que dela formamos uma ideia clara e distinta”. Ou seja, quando entendemos as causas, somos livres.

O problema é que buscamos essa liberdade, ou seja, conhecer as causas em crenças que trazem explicações quase que “sobrenaturais” para as questões que mais nos deixam inseguros.

A resposta mais óbvia e mais aceita pela nossa mente Aristotélica é que deve haver uma explicação para tudo ser do jeito que é. Pode ser que a explicação é que não tem explicação. Heráclito diria que estamos querendo revogar a lei da impermanência, congelando um acontecimento, evitando que ele se reverbere na pessoa que seremos logo ali à frente.  Para os amantes do futebol é como congelarmos a imagem antes do pênalti ser cobrado. Não sabemos se o gol será ou não feito e muito menos se o jogo não pode ser virado, logo ali à frente.

Já Espinosa nos diria que a causa primeira é que por não sabermos o motivo de Deus** para que aquilo ocorra, sofremos por ignorância.

No final, esses dois pensadores nos pediriam simplesmente para que vivamos a nossa vida por ela mesma. Como nunca saberemos as respostas sobre de onde e como viemos e para onde vamos (se vamos), sejamos mais livres e mais alegres, o que é quase a mesma coisa. Nos bons momentos não necessitamos de nenhuma ajuda externa ou divina, não temos pedidos a fazer e muito menos medo do que virá. A ideia de Deus que recebemos o torna indispensável no sofrimento, por não entendermos sua causa. Daí vem as explicações: devo merecer isso por algum motivo ou as famosas e fáceis “linhas tortas” e outras mais ou menos criativas quanto essas.

Todos os julgamentos são na verdade uma espécie de automatismo, onde usamos uma interpretação de segunda mão, vindo do meio onde estamos ou fomos criados. Ver sem julgar exige o conhecimento das causas ou assumir-se ignorante delas. “Não saber” também é um bom e leve jeito de entender que muitas vezes as causas estão além da minha capacidade, que existe uma aleatoriedade, ou seja, pode não ter a ver comigo, necessariamente. Lembrar que, minha percepção sobre o que for, mudará na medida em que mudo pela experiência de viver ajudará muito.

“Não saber” o que é a morte, se existe outra vida, se Deus é “alguém” ou alguma inteligência, se o Carma é mesmo uma lei ou outra grande Pergunta qualquer é entender, finalmente, que a única verdade realmente é aquela que vejo e que esteja acessível a minha razão. Nunca saberei essas respostas, já que elas estão no âmbito do “crer”.

Justamente por isso que o “buscador” é eterno. Ele nunca encontrará nada e sua diversão é a busca, simplesmente.

Para outros, viver é a única religião e a Alegria de Espinosa é a liberdade que pode ser alcançada. Mas tudo isso só funciona se estivermos alimentados, seguros e abrigados.

Porque nesse mundo de verdade, estar vivo e “viver” plenamente sempre vem em primeiro lugar e também é o que esquecemos primeiro quando as necessidades diminuem.

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O presente texto é um complemento não necessário (independente) do anterior “Para que(m) serve a verdade”

 *Nada estimo mais, entre todas as coisas que não estão em meu poder, do que contrair uma aliança de amizade com homens que amem, sinceramente, a verdade.

**Resumidamente, o Deus de Espinosa é imanente, ou seja, a Natureza como uma inteligência infinita.

Para saber mais:

Harmonia oculta  – Discursos sobre os fragmentos de Heráclito.  Osho, ed Cultrix.

Espinosa – Coleção “Os pensadores” ed Abril

O império do Medo

“A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo”.

                                                                         Voltaire

                                                                                                                                                                                                  medo

Como em uma pequena cidade do interior, onde todas as ruas desembocam na praça, por onde pretendermos entender nossa sociedade encontraremos o medo no final da busca.

No aspecto religioso, que ainda tem grande influência na formação da cultura e da moral, já nascemos pecadores e o medo da punição divina ou de não ter o “visto” de acesso ao paraíso faz com que muitas pessoas vivam baseadas nessa dúvida; se conseguirão terminar suas vidas aptas a passar para próxima com os méritos exigidos? A condição é sofrer quase sempre e com pouca alegria, receita que dizem, fez santos ao longo da história. Nunca tenha raiva, negue seu corpo e jamais repita o bolo. Tem Alguém que sabe o que você pensa, nunca esqueça! Pensar, então, também dá medo, nos torna impuros. Assim como castramos animais por ser mais confortável para o dono, muito de nossa essência humana precisa ser negada. E o pior, é que quem deveria nos mostrar que isso é possível, derrapa todos os dias, pois esquece que é humano. É muito difícil conduzir ovelhas sendo uma delas.

Na escola, ou mesmo antes dela, ficamos sabendo da escassez e competitividade do mundo e o medo de não conseguirmos nosso lugar ao sol, de não termos poder, de não sermos admirados e respeitados pelos demais faz dessa angústia uma companheira que termina se tornando tão íntima, que acabamos nem percebendo que ela está sempre conosco e fazendo parte da nossa vida. Pensamos baseados nela e fizemos escolhas a todo momento, vendo tudo em tons de cinza, só que esse sem nenhum prazer. Também tememos que nossos pais se decepcionem conosco por não atendermos sua expectativa de como deveremos ser e fazer. É incrível como os pais “sabem” o que é melhor para seus filhos sem que nem mesmo eles tenham essa resposta para si.

Olhamos em volta e a mídia nos mostra que o sucesso e o respeito, que no fim é só conseguirmos ser “alguém” no meio da multidão, virá inevitavelmente se tivermos aquele carro, um corpo desejável (nem sempre saudável), usarmos aquela marca e nosso celular for dessa ou daquela fruta. Claro, sempre com uma casa própria com muitos metros quadrados, suficientes para nos sentirmos sós junto dos demais.  Estarmos bem não basta, tudo virá quando tivermos tudo isso e quando isso acontecer, se acontecer, diremos aquela surrada frase; “Era feliz e não sabia”.

Quando finalmente percebermos que tudo isso só é bom porque é desejo, e se é desejo é só por não termos.  Mas aí, virão outros desejos sem fim, só que agora de uma filosofia ou religião que possa finalmente encerrar essa angústia e tornará tudo supérfluo e sem graça. Quem sabe alguém que toque aqui e ali, diga umas palavras ou desvende algum mistério de sua vida milenar ou que descubra o que você pensou quando era um feto traga a grande e esperada Resposta! O problema, é que quando todas as mágicas já tiverem sido experimentadas,  a vida desse mundo já nos decepcionou. Mas o desejo nunca acaba, disfarçado de desânimo, nos dirá que no “outro” mundo, aí sim!

Depois, tememos não sermos amados por alguém de quem possamos gostar, dessa pessoa especial não nos querer seja hoje, seja um dia. Mais tarde, quem sabe, essa pessoa tão especial não será mais especial e virá o medo de não amarmos de novo. Alguns temem não ter filhos, outros temem tê-los em um mundo do jeito que está.

Pensamos que poderemos não ter sucesso profissional, não conseguirmos o dinheiro que compre a liberdade de, finalmente, podermos fazer o que quisermos da vida, sem prestar contas a ninguém. Pensamos que uma boa poupança nos protegerá da morte, podendo oferecer os melhores médicos, remédios e hospitais. Tememos as doenças que pensamos inevitáveis e receamos não mantermos o plano de saúde (ou será plano de doença?) em dia. Já imaginamos que as doenças chegarão para nós e nossos filhos desde cedo. Será?

Todos os dias, o medo leva gente às emergências dos hospitais sentindo que estão morrendo, enfartando. Síndrome do Pânico, o medo que sai do controle e lembra que ele só existe por estarmos morrendo de medo, quando a vida pensada desse jeito nos retorna a uma metáfora do útero materno. Só queremos ficar em casa. Lá, com um mundo pequeno, limitado pelas paredes, sentiremos que estaremos seguros, enquanto o mundo continuará lá fora, perfeitamente bem sem nós.

Todos esses medos nos tiram o sono, elevam o peso ou então nos encaminham para atalhos como as drogas em geral, vendidas em bares, becos ou farmácias. Substâncias mágicas que tiram o medo por encanto, trazendo momentos de felicidade em uma vida cheia de esperanças que tememos nunca se concretizem. É mesmo um milagre, não acham?

Tememos a velhice, as doenças inevitáveis e, é claro, o abandono.

Toda a “máquina” da sociedade moderna é movida pelos nossos medos. Manter as pessoas angustiadas e receosas em suas imaginações mantém todo um sistema que vive da doença, indústrias que produzem os objetos de reconhecimento e, logicamente, a estrutura que vende tudo, entregando em casa e a crédito. O negócio é sossegar agora, e depois pagamos o cartão. Mas ele nos avisa que não devemos nos preocupar, se não tiver o dinheiro, use o crédito rotativo, outra mágica que transforma tudo em três vezes mais em um ano. Milagres de multiplicação.  Incrível, não acham?

No fim, vamos acreditando que tudo isso é assim e não tem jeito. Com certeza tem Alguém que sabe e está cuidando de tudo, só pode! Melhor que tenha, pois se não tiver, aí poderá advir o pior dos medos; de ser responsável por tudo que sou e também pelo que não consigo ser.

Quem sabe Sartre tenha razão quando diz que nosso desejo fundamental e, portanto, o grande medo, é não conseguirmos “ser” para toda a existência, uma eternidade que venceria a morte. Deus, nada mais seria que a projeção desse desejo para fora de nós, como sempre fazemos com tudo que nos incomoda ou não damos conta de resolver sozinhos.

Ambição e Necessidade

“ Poucos veem o que somos, mas todos veem o que aparentamos”.

                                                    Maquiavel

 

“O homem precisa daquilo que em si há de pior se pretende alcançar o que nele existe de melhor.”

                                                     Nietzsche

“Responsabilidade: um fardo descartável e facilmente transferido para os ombros de Deus, do Destino, da Sina, da Sorte, ou do nosso vizinho.”

                                                     Ambrose Bierce in Dicionário do Diabo

mascara

Maquiavel foi um dos muitos injustiçados da história. Ter seu nome vinculado a atos de maldade e interesses escusos é no mínimo uma constatação de que não foi lido. Seu grande mérito, em meu entender, foi transformar Reis e Príncipes que, em sua época, só prestavam contas a Deus, em políticos. Políticos são pessoas comuns, como eu e você, que querem o poder e, para tanto, fazem o que deve ser feito. E aqui cabe já uma curiosidade: Maquiavel nunca escreveu que “os fins justificam os meios”. Essa frase famosa nada mais é do que uma interpretação ou tradução malfeita. Poucos em tão poucas linhas (seu livro O Príncipe é pequeno) desnudou a natureza humana com tanta precisão e sem afetamentos. Maquiavel nunca falou de um homem idealizado mas do real, que quer atender seus desejos e busca a felicidade pelo caminho que sua capacidade de percepção permite.

Aliás, é nesse ponto que podemos começar: existe mesmo uma “natureza humana”?

Alguns, como Heidegger, dizem que não; que nossa natureza se faz na medida em que vivemos, que somos sempre uma possibilidade muito moldada pelo contexto onde estamos inseridos. Que o fato de vivermos em grandes conglomerados nos empurram para sermos muito parecidos uns com os outros e isso se dá pelos limites de expressão cada vez menores que temos como condição de podermos viver junto a uma grande quantidade de pessoas. Heidegger diz que o homem que vive mais junto a natureza e com menos pessoas a sua volta consegue uma originalidade maior em seu Ser, na medida em que está menos pressionado. Poderemos, para apoiar essa ideia, nos perguntarmos se existe um número menor de doenças emocionais em quem vive em lugares menores em comparação a centros urbanos mais povoados.

Seria lícito observarmos que, à medida que a sociedade se “desenvolve”, cada vez mais aumenta o número de pessoas com doenças ligadas a ansiedade, visto que o cerco está se fechando cada vez mais em termos de expressões individuais. Cada vez precisamos seguir mais um padrão de normalidade, o que negaria a biologia, já que para esse ramo da ciência não existem duas pessoas iguais.

A ansiedade, conhecida como o “mal do século”, é definida como um sentimento de apreensão em relação ao futuro, um medo constante de que algo que tememos venha a acontecer. Aqui poderemos, usando da liberdade, dar mais um passo e dizer que em um nível mais profundo, a ansiedade é o medo de nunca sermos únicos em relação aos demais, da originalidade que nunca se expressa.

Para quem entende que existe uma natureza comum a todos os humanos se apoia na ideia que temos semelhanças entre os homens, e isso só poderá acontecer se houver algo em comum.  Podemos, em tese, sermos tudo que outros seres humanos já foram, colocando até um toque pessoal. Mas mesmo que possamos ser qualquer coisa, não quer dizer, necessariamente, que realmente seremos isso ou aquilo. É como se a ideia de uma natureza comum se baseasse em um potencial que todos temos, mas sabemos que um potencial não quer dizer sua efetiva realização.

Esse é um assunto polêmico que não chegaríamos a uma conclusão, mas Maquiavel faz uma dura assertiva que nos coloca dentro de um padrão comum; que os seres humanos só agem por ambição ou necessidade. Se ele estiver certo, mais do que termos algo em comum, além da constituição física, somos todos prisioneiros.

Quando agimos por necessidade não temos escolha. A necessidade está ligada a sobrevivência e isso tem vários níveis, não só não morrer de fome. Necessidade também está ligada a um desejo que precisa ser atendido rapidamente, sob pena de nos trazer sofrimento. A necessidade não nos dá muitas escolhas e o que muda é a categoria: urgente ou emergência. Assim, não temos muita liberdade e nossas ações são mais reativas, já que estão sendo impulsionadas por uma pressão interna. Agir por necessidade não é um ato livre ou proativo já que é um desejo extremo a ser satisfeito que está na origem do ato.

Já ambição, ah…a ambição! Maquiavel diz que somos todos ambiciosos, e até querer não ter ambição alguma não deixa de ser uma espécie de ambição. Quando quero ser visto, por exemplo,  como alguém “superior”, que é desapegado da materialidade, quase um santo, a ambição de ser admirado e elogiado é o desejo a ser satisfeito.  Aqui também está presente uma necessidade que se ambiciona.  Afinal o homem é um ser desejante, age por desejo, busca realizá-los e é isso que o move na vida. Quando dizemos que não desejamos algo é somente por dois motivos: não entender que aquilo possa fazer-nos mais felizes ou não nos achamos em condições de obter tal desejo. Temos uma forte tendência de dissimular nossas ambições, até como uma condição para que elas possam se realizar um dia. Ambicionar viver longe de todos em uma praia deserta ou em um bosque lindo é simplesmente um desejo de fugir de constatações sobre nós mesmo que, por não serem muito agradáveis, projetamos sobre os outros.

 Ambição é tão institucional em nossa sociedade de consumo que não pega bem em uma entrevista para auxiliar de escritório de uma multinacional dizer que você não almeja ser o CEO no futuro.

Júlio Pompeu, em seu ótimo livro sobre Maquiavel diz com precisão:

“Nossos desejos são ilimitados. Eles não são uma demanda do corpo pelo que lhe falta, mas muito mais do que isso, são demandas por tudo que não possuímos. Se os desejos fossem apenas uma demanda do corpo físico, uma busca pelo que ele necessita para viver, como água, alimento, etc., então a saciedade do corpo seria o limite dos desejos. Mas nosso desejo não tem limites. Eles são a demanda do homem como um todo. De sua inteireza: corpo físico e psíquico. Desejamos não apenas o que falta ao corpo, mas também o que falta ao espírito, como riquezas, prestígio, honrarias, poder, etc.

O corpo físico é saciável, o espírito não. ”

E arremata dizendo que “a ambição é apenas uma valoração cínica ou alienada do desejo.” E nunca podemos esquecer que junto com a ambição nasce a esperança de que ela se realize. Para Maquiavel, essa combinação leva o homem para o abismo, já que ele pode perder a capacidade de avaliar seus riscos.

Assim, ambição e necessidade são como tijolos unidos pelo desejo. Essa para Maquiavel é a nossa natureza comum e isso não deve ser visto como bom ou ruim, simplesmente é assim.

A ambição nos faz maus, já que não queremos ser assim e os desejos nos enfraquecem por não os conseguir, todos.

Ter essa consciência é o que pode mover o homem para evitar que seja arrastado como tantos outros já foram, e são diariamente, por atitudes que os desonram. Se Maquiavel fosse vivo em nossos dias ele seria muito previdente contra essa fúria que pede a execução em praça pública dos corruptos. Ele simplesmente diria que os que desejam a execução sumária nunca tiveram milhões à sua frente para poder recusar.

As ideias de Maquiavel sobre como somos não são o que nosso ego gostaria de ouvir. Mas a atualidade dos seus pensamentos, tantos séculos depois, mostra que poucos foram tão efetivos e objetivos em nos desnudar. Muitos outros, falaram de um tipo de homem idealizado, potencialmente bom, piedoso e com outras qualidades difíceis de encontrar na realidade. Kant com seu imperativo categórico de uma ação universalmente boa e totalmente desinteressada ou Rousseau, com uma certa ingenuidade, quando diz que o que nos torna maus é a sociedade e que é ela que devemos mudar para que nossa natureza piedosa aflore, falam de utopias. Nossa capacidade de fazer o bem é a mesma de fazermos o mal, e isso, para Maquiavel, serão ações sempre tomadas por desejo ou necessidade.

Somente nos aceitando como somos que poderemos ir além ou, apesar de ser como somos, sermos melhores.

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Para saber mais:

Somos todos maquiavélicos – Júlio Pompeu. Editora Objetiva, 2011.

O Príncipe – Maquiavel – obra de domínio público.