Agenda

  • Nenhum evento

Como fazer para falar com Deus

Gilberto Gil diz que essa letra não é dele, mas não diz de quem. Claramente é uma “inspiração”. Dizem que Deus fala pela boca e age pela mão dos homens. Nessa música está um manual de instruções para entrar em contato. Você perceberá que a receita passa por entrar dentro de nós mesmos. Será que Ele não está lá?

 

 

Além do NORMAL (2a parte)

Você não existe para se tornar um robô e não existe para se tornar igual a mais ninguém. Você tem que se tornar você mesmo! Essa é a maior coragem do mundo, porque a sociedade inteira tenta forçá-lo a se tornar outra pessoa.

OSHO – O cipreste no jardim

 

 

Continuarei nessa semana o artigo anterior de mesmo nome, com o intuito de aumentar a abrangência do assunto. Por isso, caso não tenha sido lido, recomendo que o faça (está logo abaixo), para ter o entendimento amplo sobre o tema.

Se realmente acreditamos que todo o ser humano tem potenciais inexplorados, talentos não utilizados e que essa vivência é fundamental para sua saúde, no sentido mais amplo do termo, e se concordamos que o meio social tem cumprido a função de impedir o florescimento desses talentos, o que fazer?

Penso que uma educação que tivesse essa finalidade seria a saída. O que sempre acompanhamos é o sistema educacional servir a ideologia dominante. Hoje, a escola se dedica a formar mão de obra para o capital, apenas isso. Freud disse certa vez, com acerto, que só a arte seria capaz de libertar o ser humano da angústia existencial. Evidente que Freud não contemplava aspectos mais transcendentes da existência em sua teoria, mas é inegável que quando estamos praticando alguma forma de arte, o bem que isso traz é inquestionável! Mas hoje, a aula de educação artística é relegada e tratada de forma pouco séria. Entendo que a arte, para uma criança é muito mais importante para o seu desenvolvimento do que ensinamentos de matemática, geografia ou ciências que poderiam esperar uma idade mais favorável. Mas como a idéia não é libertar, mas “domesticar”, a educação é tratada da forma que é.

Mais uma vez citando Maslow, ele defendia a idéia de que esse desenvolvimento poderia se dar mais facilmente em um ambiente “eupsíquico”, que seria um meio favorável a essa prática. Isso significaria a convivência com pessoas que valorizam o desenvolvimento da consciência (transpessoal), o que permitiria uma facilitação do processo, na medida em que, em uma atmosfera segura podemos abandonar nossas defesas e medos e nos dedicarmos a experimentação. Hoje isso acontece em cursos e workshops que, felizmente, tem sido cada vez mais ofertados.

Esse estado de desenvolvimento, que revoga os condicionamentos e levam a verdadeira liberdade, já que não mais existe o medo e o apego é chamado pelas Tradições religiosas de diversas formas a saber:

Ele e ele tornaram-se uma só entidade. (Abuláfia, Judaísmo)

O Reino dos Céus está dentro de vós. (Cristianismo)

Atman (consciência individual) e Brahman (consciência universal) são um só. (Hinduísmo)

Da compreensão do Eu decorre a compreensão de todo este universo. ( Upanixades)

Aquele que conhece a si mesmo conhece seu Senhor. ( Islamismo)

O céu, a terra e o homem formam um só corpo. ( Neoconfucionismo)

 

Nesse momento entra em questionamento a meditação como meio de se atingir essa compreensão mais ampla da realidade. Penso que a meditação, seja pela técnica que for, por si só talvez não seja suficiente e não para todos. De alguma forma, noto que as pessoas que tem usufruído mais dos seus benefícios já tem algum tempo de “caminhada”, ou seja, conhecimentos teóricos, mudanças pessoais já realizadas que fazem da meditação algo que se encaixa dentro de um contexto. Aqueles que ainda não atingiram esses pré requisitos sempre tem pouca persistência no processo e não conseguem resultados, nem os mais iniciais como uma tranqüilidade maior, mais tolerância e uma percepção consciente das agitações da mente.

Diz a tradição, que depois que a consciência é transformada e ganha uma estabilização não se chegou ainda ao final da jornada. Depois que as questões mais profundas são resolvidas, uma paz interior é alcançada, existe um direcionamento para o sofrimento humano de forma geral, conduzindo a um sentimento que só quem chega nesse estágio pode descrevê-lo que é a compaixão. Isso quer significar que a pessoa se volta para o “outro”, com a intenção de levar essa luz encontrada às demais pessoas. Esse é o estágio que Campbell chamaria do “retorno do herói” que na verdade é o que aconteceu com todos aqueles que contribuíram para a humanidade.

Maslow e outros transpessoalistas defendem a idéia que essa evolução é tão essencial quanto o abrigo e a alimentação e que quando isso não é atingido desenvolvem-se doenças de toda a ordem que nos seus sintomas iniciais nunca são detectados pelos exames, já que é uma espécie de mal estar existencial que se somatiza no corpo de alguma forma. O que vemos é a tentativa de sanar essa angústia com compensações de toda ordem; alimentação exagerada, compras, drogas,  e outras formas de agregar alguma coisa ao meu “Eu” que me faça sentir melhor, diminuindo o sofrimento.

Na verdade, só uma consciência ampliada pode me dizer quem realmente sou, o que realmente quero. Ao final desses dois artigos fica a idéia de que tudo começa, que toda a busca se inicia pelo auto conhecimento, da descoberta de quem sou, para só assim iniciar uma caminhada que possa me levar de “volta para casa”…

 


PERDAS

Diga teus apegos e te direi o quanto sofres.

Roberto Crema

Nessa semana, quero refletir com você sobre a questão das perdas. Dentro da dualidade da vida, as perdas só acontecem porque, antes houve ganhos. Tanto um como outro fazem parte de fato de estarmos vivos.

A vida, por definição, é algo que tem um fluir onde a mudança é inevitável. Mudamos fisicamente a cada momento (como já coloquei em texto anterior) e, portanto, de certa forma também “nos perdemos” na medida em que o Eu que era já não mais existe, seja pelas experiências, biologia, conhecimento, relações, etc. que nos transformam, quer queiramos ou não. Acredito que um dos motivos maiores do sofrimento das pessoas é a não aceitação dessa mudança, de querermos “congelar” nosso Ser em determinado momento da vida, com o que temos a nossa volta, em que estamos mais felizes e nunca mais mudarmos. Nessa hora, já começa um medo de “perder” esse Eu que está feliz e lá vem a angústia e ansiedade…

Essa saudável insegurança do processo de se estar vivo, que sempre nos torna criativos, dedicados a algo, motivados, só nos faz bem! Mas não, buscamos a anti-vida, a estagnação.

E é justamente aí, que entra nossa relação com tudo que entendemos que seja nosso, ou seja, que sou dono, que me pertence. Nesse rol além de bens materiais, posição social, temos nosso “patrimônio” de pessoas: amigos, pais, filhos e relacionamentos afetivos. Não conseguimos  pensar na idéia de que essas pessoas nos deixem, nem que seja quando morrem. Vinculamos a sua presença a nossa volta, nossa influência sobre elas como a razão de nosso bem estar. Logo, perdê-las, seria perder esse bem estar, e aí vem a dor quase insuportável quando alguém morre, se afasta, etc.

Não precisamos ir muito longe para ligar sem esforço tudo que foi dito até agora ao conceito de APEGO. As tradições orientais trabalham isso há séculos, mas aqui no Ocidente nossas principais religiões, logo, nossa cultura, fazem o contrário; enfatizam o apego valorizando uma cultura de sofrimento, afinal se não sofro é porque não amo… Que absurdo!!

Evidentemente que o que entendemos que seja morrer, por exemplo, também faz parte de apego. Se vejo a morte como fim, reajo de um jeito, se vejo como a continuidade da vida de outro modo, me consola. Isso explica, principalmente no Brasil, a imensa quantidade de cristãos que freqüentam outras religiões ou filosofias que tratam a morte não como um fim, apesar de isso se opor diretamente a religião “oficial”. Muito irônico!

Será que se me propor a aceitar as inevitáveis mudanças, que as pessoas possam deixar de estar do meu lado, seja por o motivo que for, isso me fará infeliz? Tenho repetido que nunca essa plenitude de estar em paz comigo chegará enquanto depender de pessoas ou situações para isso. Meu bem estar não pode estar fora do meu alcance. Buda em suas quatro nobre verdades deixa isso muito claro e até hoje não entendo como seu pensamento (não falei do budismo, da religião) não é estudado nos meios acadêmicos de psicologia, onde os ícones eram e são pessoas realmente inteligentes e que trouxeram contribuições, mas que estão a milhares de quilômetros da evolução de consciência que ele atingiu.

André Gide, filósofo e escritor, observou: “A infelicidade resulta de olhar ao redor e controlar o que se vê.”

Não há como estancar o fluir da vida…deixe que o que termina se vá…só assim você terá braços para abraçar o novo. Isso não quer dizer que não amamos, valorizamos ou sentimos falta, apenas que entendemos que a vida é assim! Não adianta resistir. Adianta?