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O Louco e o Iluminado

“Quando você atinge a iluminação, não se torna uma nova pessoa. Na verdade, você não ganha nada, apenas perde algo: se desprende de suas correntes, de suas amarras, deixa para trás seu sofrimento e vai perdendo outras coisas. A iluminação é um processo de perda.”

OSHO

Quando nos dedicamos ao estudo dos arcanos do tarô, nos deparamos com um profundo ensinamento com a carta que começa e encerra a trajetória do homem, que vai da ignorância até a  busca da “iluminação,” que nada mais é do que um desligamento de todo o sofrimento e das alucinações sobre o passado e o futuro.  Além é claro, do total desapego, que é  não depender de nada externo a ele para se sentir bem.

Todo o mistério e ensinamento é que tanto o louco (ignorante) como o iluminado, são representados pela mesma figura. E o primeiro aprendizado é que a diferença entre esses estados opostos é ao mesmo tempo imensa e sutil.

Tanto um quanto outro estão fora da “curva” de normalidade, e isso é muito interessante, afinal os dois são considerados pela psicologia e psiquiatria como pessoas com alguma patologia. Existe o que se chama de “normal”, que nada mais é do que pessoas diferentes entre si – lembrando que ninguém é igual a ninguém – que tem comportamentos semelhantes, sonhos semelhantes e acham que o certo e o errado é o mesmo para todos. Evidentemente que isso é que é doentio, em minha opinião.

Dessa forma, podemos encontrar dois tipos de loucos, a saber: o primeiro tipo são aqueles que estão abaixo da linha da normalidade, são pessoas realmente doentes devido a distúrbios, enfermidades psicológicas de vários tipos. Esse tipo de loucura é involuntária, já que ninguém escolheu isso para si. Precisa de cuidado e tratamento!

Do outro lado, temos os loucos acima da linha da normalidade, que são pessoas que não temem o desconhecido, não tem medo do ridículo (o que os outros vão pensar), sabem que o “conhecido” as mantêm estagnadas e vão em busca de seus sonhos sem medo. Essa loucura é voluntária e representa a minoria, aqueles que estão realmente vivos e em evolução. São eles que, na verdade, podem até perder tudo, menos a razão!

E é, justamente por isso, que os dois tipos de loucos representam ao mesmo tempo a ignorância e a sabedoria. O louco sábio tem consciência de sua ignorância, por isso busca seus sonhos sem julgar o dos outros, não busca convencer ninguém de suas ideias e, principalmente, está ligado ao que acontece a cada momento, sem se preocupar muito com o futuro, que ele sabe ser mais uma das alucinações dos preocupados “normais”.

Tanto o iluminado como o completo ignorante andam pela vida de forma inocente, quase infantil, parecendo irresponsáveis sobre seus atos, afinal eles não premeditam nada e não esperam nada dos demais. Certa vez li um trabalho que mostrava que os psicóticos (pessoas desligadas da realidade para a psiquiatria) tem uma expectativa de vida maior do que as pessoas ditas normais, afinal eles não se preocupam com nada, se expressam livremente sem repressão, não guardando mágoas nem rancor, muito menos se estressando com a vida. Deve ser por isso que são fortemente medicados e mantidos sob confinamento. Nesse mundo normal, realmente, não há lugar para gente assim!

A consciência é estar inteiro a cada momento e essa é a única felicidade! Tudo que acontece fora de mim, como os problemas do cotidiano, as perdas e tristezas agem sobre cada pessoa diferentemente. Aquele que está inconsciente fica reativo às situações e é governado por elas e seu sofrimento é longo e penoso. Já quando alguma coisa abate uma pessoa consciente, ela tem uma autonomia de, livremente, dar outro sentido ou significado ao que aconteceu e nunca é dominada pela situação.

Por mais simples que possa parecer, lembre que se estamos conscientes nada nos acontece fora do nosso controle. Quando alguém, por exemplo, está comendo demais, usando álcool, drogas  ou qualquer outra forma de atitude contra si mesmo (auto sabotagem), isso só ocorre pela inconsciência de não entender a raiz do seu sofrimento passando a buscar compensações externas.

Agora fica mais fácil de entender que quando estamos lúcidos e congruentes (comprometido com o que sou hoje), estamos experimentando uma espécie de unidade, já quando perco minha percepção da realidade por estar vivendo as alucinações do passado e do futuro estou na dualidade, que, como sabemos, é a raiz do sofrimento humano. Fico dividido em dois: meu corpo e vida aqui, meu pensamento o tempo todo fora do tempo presente, negativando situações e criando um estresse baseado em nada que seja real, apenas em expectativas delirantes.

Osho disse certa vez em uma de suas palestras, que, quando nos aproximamos de Deus temos uma sensação de estarmos ficando loucos, e isso me parece simples de entender. Se vivemos no mundo da dualidade desde quando nascemos, tudo que conhecemos, portanto normal, é dual e sofrido. A evolução tende a nos levar a unidade e ao fim do sofrimento e isso parece mesmo loucura, não acha?

Justamente por isso o caminho evolutivo é sempre uma trajetória solitária, que poucos se dispõem a empreender, afinal,  normalidade cobra um preço caro para quem sai do bando, se arvorando na loucura de ser diferente!

Então, se pensarmos bem, veremos como é profundo o significado dessa mesma carta representar dois extremos, ao mesmo tempo, tão parecidos. Quando alguém lhe disser que essa ou aquela pessoa é louca, procure prestar atenção, fique atento, e cuidado com os julgamentos rápidos, você pode estar diante de um Mestre!

O Louco - Tarô de Marselha

A Tortura dos Desejos

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Essa é uma estória muito antiga que vem a séculos ajudando a entender como vivemos. Guarde-a com carinho:

“Um dia um anjo apareceu diante de um homem bom e correto e disse:

– Homem bom, venho em nome de Deus, avisar-lhe que, dentro de uma semana, ele mudará a água e todos vão enlouquecer.

Depois de o anjo desaparecer, esse homem bom começou a estocar toda a água que pode para não ser afetado pela loucura que iria se instalar. Realmente, depois de uma semana, todos ficaram loucos.

 Passados mais alguns dias, começou a correr na cidade o boato de que um homem havia enlouquecido…

Nosso homem bom começou a se sentir cada dia mais triste, afinal todos o olhavam com estranheza, os amigos se afastaram e ele não era mais convidado para nada. Foi ficando cada vez mais difícil viver assim.

Um dia, na hora de sua prece, o homem bom agradeceu a Deus por ter enviado o anjo e disse que não aguentava mais viver triste, isolado de todos, e sendo, muitas vezes, motivos de risos e fofocas. Disse que esse sofrimento o havia feito decidir que, a partir do dia seguinte, iria tomar a água que todos bebiam.

Dias depois, um novo boato começou a correr de boca em boca: de que o louco havia se curado…”

Conto da sabedoria Sufi.

                                                                                                                                                                                       

Diz-se no oriente, que um dos primeiros passos em busca de extinguir o sofrimento é “desejar não desejar”. Esse conceito é proveniente da doutrina budista e quero refletir um pouco mais sobre ele.

O ser humano é movido a desejos constantemente e isso é natural. Se não estivermos desejando algo e se não tivermos medo de não conseguir esse desejo, perdemos a motivação de viver, e, provavelmente, não teremos vontade de levantar pela manhã. A questão que coloco é que, dependendo do tipo e direcionamento dos nossos desejos, entraremos em um processo de infelicidade e frustração constante.

Existe, então, um tipo de desejo certo ou que não me coloque em angústia? Penso que somente aquele que tem a ver com uma busca evolutiva e não esteja ligado a aspectos materiais. Aprendemos, pela cultura em que estamos inseridos, que a “felicidade” será atingida quando cumprimos a aquisição de bens que, demonstrarão (para ou outros, sempre é assim), que somos competentes e de sucesso. É só observar em volta de suas relações e ver como algumas pessoas, por exemplo, se colocam em dívidas que as fazem sofrer, já que as impedem de curtir melhor a vida, para mostrar que possuem símbolos de sucesso. Isso na verdade, como é da nossa natureza, a busca da felicidade, de ser reconhecido e admirado (a).

O grande problema dessa maneira de se viver é que essa “felicidade” nunca chegará, justamente porque, como não conseguimos esse bem estar nesses objetos depois de adquiri-los, transferimos para a próxima compra essa expectativa, e assim até o fim da vida.

Seremos felizes quando tivermos o corpo perfeito, o carro do ano, a casa elegante, a piscina, a promoção, a viagem, a “pessoa certa” ao nosso lado (esse é tema para outro artigo), a roupa da grife chique, etc. Pare um pouco para pensar e use sua própria vida como exemplo e veja como esse tipo de maneira de viver nos contamina. Estamos sempre sendo estimulados pela mídia, e ela está em todos os lugares, nos bombardeando com a informação de que aquele artigo nos tornará pessoas melhores.

Não é nada fácil nos livrarmos disso, afinal todos a nossa volta são assim, e, portanto, nos cobram isso com perguntas, olhares e julgamentos. Isso se chama cultura e serve a interesses bem específicos. Assim o rebanho passa pela vida correndo atrás do que não existe, em agonia constante, privilegiando com seu trabalho e a riqueza que dele se origina, aqueles que controlam o paradigma. O que quero dizer é que o pensamento que controla a sociedade não tem nenhuma preocupação com o ser humano e seu desenvolvimento, apenas com produção de riqueza. Essa competição é alimentada desde cedo na escola, que sempre está a serviço da ideologia, afinal é dela que vem o salário ( no ensino público) e a mensalidade do cliente (aluno) na escola privada. Desde criança somos educados a desejar esses símbolos de prosperidade, sem nenhuma preocupação com formar um cidadão com senso crítico e com capacidade de usar sua liberdade e de descobrir seus talentos naturais. De lá vem o que é “certo” e “errado”. Como se as pessoas que são o modelo desse modo de viver fossem exemplos de felicidade…

O desejo que nos faz bem é aquele de atingirmos uma libertação, aprendendo a viver nesse mundo sem ser contaminado pelo pensamento doente. Quantos que buscam essa evolução ou não conseguem atingir a posse desses bens, encontram refúgio na alienação das drogas, e compulsões de toda a ordem. Muitos pensam nisso em um ou outro momento, como se fosse um sonho, mas no momento seguinte estão lá com suas atitudes fomentando a angústia e o sofrimento sem fim.

Não há nada que esteja fora de você que possa lhe trazer essa paz interior (isso é felicidade). Da sabedoria antiga aos mestres da atualidade, todos são unânimes em afirmar que precisamos encontrar dentro de nós esse ponto de quietude. Consta que Jesus tenha dito que “o reino dos céus está dentro de vós”.

Sei que isso está longe de ser fácil, ser diferente dos outros tem sempre um preço caro. Ainda mais se seu objetivo for atingido, e sua simples presença mostrar aos demais o sofrimento a que eles estão submetidos. A força do pensamento dominante estará se esforçando para trazê-lo de volta ao aconchego do grupo.

Não há nada de errado em se possuir o quer que seja, o erro é transferir para isso seu bem estar. Possua tudo, lembrando que nada possui. Não torne qualquer objeto, pessoa, ideologia ou religião o chão sobre o qual caminha. Quando é assim, estamos sempre com medo de que isso acabe de uma hora para outra, afinal como não depende de mim  o medo está sempre ao meu lado.

Toda e qualquer viagem é feita com mais conforto quando a bagagem não é grande.

Mas não é fácil, e nem o homem bom de nossa história resistiu…

A Possível Leveza do Ser

“Eu já me dei ao poder que rege meu destino.

 Eu não me prendo a nada para não ter nada a defender…

 Eu não tenho pensamentos para assim poder ver.

 Eu não receio nada para assim poder me lembrar de mim mesmo.

 Desprendido e natural…”

                                 Carlos Castañeda

                                                                                                                                

As palavras do Mestre Castañeda, famoso por suas aventuras com seu Xamã Don Juan, fez história na década de 70 com seus livros e hoje é cult, principalmente para quem já ultrapassou a barreira dos cinquenta. Seus versos acima podem nos convidar a uma reflexão mais detalhada para procurarmos mais a fundo sua mensagem. Vejo grande significado nessas palavras, e convido o leitor a nos debruçarmos sobre elas, com atenção.

                Eu já me dei ao poder que rege meu destino…

Existe mesmo uma força ou inteligência que nos conduz? Penso que não. Se assim fosse, seríamos marionetes e nosso livre arbítrio não existiria. Nossa realidade é sempre resultado de ações, pensamentos e atitudes anteriores e nada na natureza acontece sem uma razão. É um fatalismo cômodo aceitarmos o “destino”. Se, por exemplo, o destino quis que seu pneu furasse, isso significaria que deveria ficar sentado a beira da estrada pelo resto da vida?

O poder ou “lei” que rege toda a existência é baseado em uma só palavra: Liberdade! Somos livres para tomar nossas decisões e arcar com suas consequências, sejam elas boas ou más. É incrível, mas tudo que pedimos ganhamos! Se não pedimos (atitudes) não ganhamos nada e esse é o limite que separa quem faz seu destino e quem reza pelas dádivas divinas. A confiança é a qualidade de termos certeza de que somos capazes de alguma coisa e nunca conheci ninguém confiante que, em algum momento, não tivesse arriscado e apostado em si. Confiança é resultado de atitude e não vem de graça para ninguém.

                   Eu  não me prendo a nada para não ter nada a defender

Isso me lembra uma das mais perigosas armadilhas que armamos para nós mesmos; nossas coerências! Ser coerente é, antes de tudo, um compromisso com o passado, ou seja, com uma pessoa que não existe mais. Sabemos que mudamos constantemente por tudo que vivemos, vimos, lemos, aprendemos, etc., e não é lógico mantermos compromissos assim. A coerência é contra a maior qualidade dos sábios que é mudar de ideia, respeitando a pessoa que somos hoje. A palavra correta é “congruência”, isso significa que minha opinião ou ação está sempre atualizada, respeitando todas as mudanças que passei. Nos cobram a coerência ao invés da congruência, isso me cheira a poeira. Como disse certa vez o poeta Carlos Drummond de Andrade: “Nada é mais velho que o jornal de ontem”.

                          Eu não tenho pensamentos para assim poder ver

Que são os pensamentos? Na maioria das vezes são condicionamentos que recebemos e nos impõe definições de maneira de ver. Nossas “avaliações” de tudo que nos acontece sempre vêm de segunda mão. Fomos domesticados, desde criança e nos impuseram os conceitos que são a base de nosso pensamento. Todos, por exemplo, querem não ter preconceitos, afinal sabemos que eles são a maior ignorância possível a algum ser humano, mas precisamos “pensar” nossos pensamentos preconceituosos para conseguirmos uma atitude mais igualitária. Como vemos tudo com olhos velhos dos avós, pais, professores, cultura e religiões não conseguimos enxergar a verdade. São tantos véus nos nossos olhos, como diria madame Blavastsky, que precisamos dos desprender deles para podermos realmente enxergar. Talvez Castañeda tenha lido Fernando Pessoa quando, em de seus melhores poemas, nos disse: “se quer ver não pense…porque pensar é estar doente dos olhos.” Perdemos situações e pessoas demais em nossa vida, justamente porque “pensamos” quando as vemos. Não pense, não julgue e veja!

                   Eu não receio nada para assim poder lembrar de mim mesmo

E estamos aqui, diante de nosso maior amigo e inimigo que é o medo. Ter receio é ter medo, e isso sempre nos diz que estamos diante de alguma mudança. Ainda não conseguimos entender que só evoluímos e crescemos diante do enfrentamento do medo, que é simplesmente um mecanismo de defesa que nos avisa que estamos rumando para o desconhecido. Sem medo poderemos “lembrar de nós mesmos” justamente porque poderemos rumar para nossa missão na vida que é colocar em prática nossos talentos. A única jornada a que viemos percorrer na vida é do nosso autoconhecimento, nenhuma outra! E nada dá mais medo do que vencermos tudo que encobre nosso verdadeiro Eu, já que temos “medo” de nos afastarmos do conhecido, das rotinas, relações que receamos perder nessa busca. Muitas pessoas passam pela vida sem terem vivido um segundo sequer, justamente porque nunca se encontraram. O tempo vai passando e esquecer parece inevitável, mesmo que seja de si mesmo!

                                         Desprendido e natural….

Naturalmente Ser…

A caminhada fica leve, justamente porque não temos bagagem para carregar. Como viver fica um êxtase quando estamos congruentes, não julgamos ninguém, não tentamos mudar as pessoas e fazemos do que somos nosso trabalho. Evidentemente que nesse estágio estamos saudavelmente desapegados, entrando no fluxo natural da existência, afinal entendemos o medo e ele vira sempre uma motivação para seguirmos adiante estrada a fora. A tensão não faz mais parte do nosso dia-a-dia e aproveitamos tudo ao máximo, fazendo de cada situação um aprendizado, simplificando as coisas.

Isso não é utopia, mas perfeitamente possível, mas para isso precisamos enfrentar nossos medos e buscar o autoconhecimento incessantemente e relaxar. Não tenha medo de você mesmo! Nelson Mandela disse certa vez que temos medo de assumir toda a nossa grandeza.

Difícil discordar, não acha?

TIMIDEZ

“Toda vez que te olho

Crio um romance.

Te persigo, mudo

todos instantes.

Falo pouco pois não

sou de dar indiretas.

Me arrependo do que digo

em frases incertas.

Se eu tento ser direto, o medo me ataca

sem poder nada fazer.

Sei que tento me vencer e acabar com a mudez

Quando eu chego perto, tudo esqueço

e não tenho vez.

Me consolo, foi errado o momento, talvez

Mas na verdade, nada esconde essa minha timidez…”

Timidez – Biquini Cavadão

                                                                                                                                                                 

Para falarmos sobre a timidez, precisamos, em primeiro lugar, definir o que em conceito psicológico é a personalidade. É, pela personalidade, que nós incorporamos todas as nossas experiências (tudo que vivemos) com os significados que nos deram e como aprendemos a reagir a cada situação. Entende-se a personalidade como sendo uma parte biológica e outra vivenciada com as respectivas emoções. Para dar um exemplo, é como uma forma de bolo (parte biológica) com a massa do bolo que, dependendo da maneira que será feito, terá texturas e sabores diferentes (experiências de vida).

Evidente que podemos falar de uma série de tipos de personalidade que, dependendo do enfoque se divide de várias formas, mas aqui, quando falamos de timidez vamos simplificar em apenas duas: os introvertidos e os extrovertidos, entendendo-se desde já, os tímidos como fazendo parte do time dos introvertidos.

Buscando simplificar o entendimento, poderemos conceituar o introvertido como aquela pessoa que orienta seu foco de atuação na vida para dentro de si, vendo tudo por um ângulo sempre subjetivo, ou seja, interpreta tudo além da percepção ordinária dos cinco sentidos, característica essa das pessoas extrovertidas. Não é a toa que, a maioria dos artistas tem personalidade introvertida. Dando mais um exemplo, o introvertido com sua subjetividade cria uma obra de arte, como um poema, e o extrovertido tem mais facilidade para declamá-lo em público.

Um dos motivos de grande parte dos introvertidos serem mais “fechados (as)” é o fato de possuírem uma subjetividade que procura por uma realidade ideal, diferente da vivenciada pela experiência cotidiana, e isso pode trazer aquela percepção de afastamento e profunda interiorização. Assim, para o tímido não é fácil captar novos amigos, por outro lado os mantêm com mais facilidade, já que sua maneira de ser o torna um bom ouvinte e uma pessoa com capacidade de entender os sentimentos do outro, que sempre são subjetivos.

A timidez torna a pessoa sempre temerosa da opinião dos outros sobre ela e, para não correr o risco de não gostarem dela ou acharem isso ou aquilo ela busca o afastamento. Dependendo do caso, essa é a causa mais profunda da ansiedade que elas sentem em lugares com mais pessoas. O tímido fica sofrendo, imaginando (sempre negativamente) o que todas aquelas pessoas estão pensando dele (a). Alguns preferem nem comemorar aniversário ou outras datas, já que se sentem constrangidas em estarem no centro das atenções e dos olhares e o que é ainda pior; todas as pessoas teriam a possibilidade de interagir e essa perspectiva para a pessoa introvertida é assustadora!

Basicamente, poderemos definir três grupos distintos, mas inter-relacionados de pessoas tímidas: medo da exposição e serem motivo de chacota e rebaixamento, com medo de passar vergonha em público e com medo de falar algo errado.

Pesquisas* mostram que para as pessoas tímidas algumas situações em presença de outras pessoas podem ser dificílimas e as principais são: falar em público (73%), conversar com alguém que deseja afetivamente (64%), conversar com pessoas que ela entende superior por algum motivo (55%), falar com qualquer pessoa estranha por menor que seja o motivo ou situação (50%) e diante de alguma situação nova (48%). Assim, para os leitores que tiveram oportunidade de ler os artigos sobre ansiedade, fica mais fácil entender que o medo projetado diante de qualquer das situações acima é, para a pessoa introvertida, um obstáculo realmente intransponível. Muitas vezes sou procurado para ajudar pessoas a enfrentarem situações como as descritas acima, que vão desde apresentar trabalho em grupo ou diante dos colegas, um trabalho de final de curso universitário, ou mesmo se aproximar de alguém que interessa afetivamente. Na maioria dos casos, a pessoa tímida tem certeza de que não conseguirá se fazer entender, ou que cometerá erros que farão os demais terem uma opinião negativa sobre ela.

Esses mesmos estudos demonstram que as pessoas do tipo introvertido ficam em média mais horas nas internet, principalmente nas redes sociais e sites de relacionamento. Não é difícil entender o porquê disso, afinal estar atrás da tela do computador traz uma proteção e diminui em muito a ansiedade sobre o outro, além é claro do anonimato que, por proteger a identidade social, facilita uma manifestação mais verdadeira, sem o medo do julgamento alheio.

Também é importante lembrar que a timidez, de certa forma, serve como um mecanismo de defesa que permite a pessoa avaliar toda e qualquer nova situação com muita cautela, só que essa resposta ao novo sempre pode vir em forma de fuga ou de negação, afinal é comum nesse tipo de maneira de ser estar decepcionado porque o mundo externo não atinge sua expectativa interior.

Quando os exames de imagens ficaram disponíveis, as pesquisas mostraram que as pessoas tímidas tem uma função maior do lado direito do cérebro enquanto as mais extrovertidas tem o lado esquerdo mais ativo. Como sabemos, o lado direito do cérebro é mais voltado ao pensamento subjetivo, intuitivo e artístico, enquanto o esquerdo é mais lógico e racional.

Alguns introvertidos, movidos pelo medo da exposição, apresentam manchas vermelhas no rosto e pescoço ou simplesmente ficam “vermelhos”, que nada mais é do que a manifestação física do sofrimento interior que eles estão passando. Nessa hora é sempre bom lembrar que, de alguma forma, todos já passamos por situações que nos deixaram corados de vergonha. Pense o motivo dessa reação. Não seria porque essa situação o deixou mais exposto, sem a máscara que todos criamos para sermos bem aceitos e termos certo controle sobre o que as pessoas pensam de nós? Mesmo uma simples queda na rua, um elogio inesperado, uma palavra dita errada diante de um grupo, etc. nos deixam “nus” e a timidez aparece.

 Nos casos mais extremos temos a chamada “fobia social” que impede a pessoa de, mesmo sendo introvertido, ter uma vida minimamente saudável nesse aspecto, necessitando, portanto, de tratamento adequado. A pergunta que se pode fazer então é: quando a pessoa precisa de alguma ajuda terapêutica ou médica? A resposta é simples; quando sua introversão trouxer um sofrimento e perda de qualidade de vida.

Todos nós temos facilidades em alguns aspectos e dificuldade em outros. Ser introvertido não quer dizer uma timidez generalizada, mas forte demais em alguns pontos, principalmente no contato com tudo que gere expectativa e falta de controle da situação. A pessoa tímida trabalha com uma “certeza” negativa dessas situações que sempre geram stress de alguma forma. Porém é nessa interiorização que encontramos a maioria das formas de arte e expressão. A introversão, quando na medida certa (se é que podemos assim dizer), pode dar uma compreensão do mundo mais profunda, indo além do que simplesmente se percebe pelos meios mecânicos dos sentidos.

O importante é lembrar que a introversão não é uma condenação a que estão expostos os tímidos, mas algo que pode ser melhorado e muito com disposição e, quem sabe, uma ajuda terapêutica. Caso sua introversão ser em apenas algum aspecto da vida, é sinal de que pode ser melhorada, afinal em outros pontos isso não acontece. No caso de ser generalizada, avalie os prejuízos e lembre que o ser humano se caracteriza por ser sempre uma possibilidade em aberto e não há nada que não possa ser modificado.

O introvertido ou tímido “sente” a vida de forma mais intensa, elabora significados para tudo e leva a emoção muitas vezes onde o extrovertido nada vê. Como no exemplo que demos acima, enquanto o introvertido se emociona com a música e busca interpretar a letra fazendo paralelos com sua vida e outras situações enquanto no mesmo momento o extrovertido aproveita a melodia para dançar… Não existe certo e errado, afinal o que seria da arte se não houvesse quem dela se aproveitasse da beleza e do significado? Leonardo da Vinci disse certa vez que a arte existe apenas porque temos dois tipos de pessoas; os que criam e os que a apreciam e a julgam bela.

*Ballone GJ – Personalidade introvertida e timidez.

Zen Budismo

Um discípulo procurou  Bodhidharma e disse:

– Eu não tenho paz de espírito. Poderia lhe pedir, Senhor, que pacificasse minha mente?

– Ponha sua mente aqui na minha frente – replicou Bodhidharma – Eu a pacificarei!

– Mas é impossível que eu faça isso!

– Então já pacifiquei sua mente!

                                                                                                                                                              

O Zen é completamente diferente de qualquer outra forma de budismo e mesmo de qualquer religião. Isso tem provocado muita curiosidade nas pessoas e despertado um interesse cada vez maior. Ele é indicado para todos aqueles que estão cansados de religiões e filosofias convencionais, basicamente porque dispensa todas as teorias, instruções doutrinárias e qualquer formalidade. Nessa hora, para nós acidentais, fica difícil pensar que algo assim possa ser uma religião, afinal, o que aprendemos é exatamente o oposto. Enquanto as religiões em geral fazem uma descrição emocional ou intelectual de seus ensinamentos, o Zen é fundamentalmente prático, estritamente ligado à realidade, sendo considerado complexo, justamente pela sua simplicidade.

Como diz Allan Watts “Antes de tudo, os credos, dogmas e sistemas filosóficos não passam de ideias a cerca da verdade, da mesma maneira que as palavras não são fatos, mas descrevem algo sobre os fatos. Já o Zen é uma vigorosa tentativa para entrar em contato direto com a verdade sem permitir que teorias e símbolos se interponham entre o conhecedor e conhecido”.

Concordo, afinal a busca do Religare, quando acompanhada de toda essa parafernália ritualística, simbólica e comportamental, leva a darmos voltas sem fim, quase sem sair do lugar. Vejo a busca como pessoal, fundamentada na prática e, é claro, sem intermediários e uma infinidade de pré condições.

O objetivo da escola Zen é ir além das palavras e ideias afim de que a busca interior de Buda possa ser acessível aos demais “mortais”. Não existe nada de excepcional, pois o Zen consiste apenas em uma atitude mental que é aplicada de igual forma a, por exemplo, varrer uma casa ou como a prática rígida de qualquer ritual religioso. Esse tipo de atitude também foi tratada em artigo anterior com o título de “O Sofrimento”.

 Cabe lembrar que sofrimento existe pelo anseio que temos de possuir e manter para sempre coisas que em essência são impermanentes. Essa busca é uma maneira errônea de viver, afinal ela está contra o princípio da vida que é baseado justamente nas mudanças constantes.

De outra parte, o lado criativo de nossa mente é a nossa imaginação e é justamente ela que nos cria essa alucinação da separatividade, nossa ignorância mais essencial. Jung já defendeu a ideia de uma “mente universal” quando definiu o inconsciente  coletivo. O que acontece é que nós projetamos nossa própria ignorância no mundo exterior e o definimos e julgamos baseados nisso. Uma escritura Mahayana mostra isso com clareza quando diz: “As atividades da mente não tem limite e formam o ambiente da vida. Uma mente impura se envolve com coisas impuras e vice versa. Portanto o ambiente que criamos tem os mesmos limites das atividades da mente…Assim, o munda da vida e da morte é criado pela mente, está escravizado pela mente, é regido pela mente. A mente é a mestra de cada situação.”

Explica-se assim com facilidade que as Escolas orientais busquem esse estado que ultrapassa as barreiras da mente para encontrar a dita “iluminação” que nada mais é do que um estado de unidade com o todo, isento de todo e qualquer sofrimento, onde não existe mais o caos do aspecto mental ligado ao que “passa”, mas ao eterno, ligado ao que “é”. O homem comum que sofre o tempo todo olha para o mundo exterior para buscar sua felicidade (salvação), já que aprendeu que está nas formas materiais sua saída para a ansiedade e angústia. Tomara que chegue a hora em que ele perceba que não pode encontrar no exterior aquilo que está no seu interior, e que para chegar lá precisa suplantar a visão separada e desconexa da mente.

O Zen deixa de lado todas as definições e conceitos intelectuais e especulações de toda ordem, buscando sacudir seus adeptos de seus hábitos e crenças arraigados por gerações e de forma simples sair desse estado comprovadamente entorpecido e doentio. Tudo isso baseado na simples forma de sentar-se em meditação sem nenhum objetivo a não ser estar ali, e tomando uma consciência cada vez mais ampliada de cada movimento. Já sabemos que todo o sofrimento é alucinatório porque sempre se fundamenta em pensamentos ligados ao inexistente passado e inexistente futuro, numa roda de preocupações e lamentações sem fim. Estar aqui e agora inteiro de corpo e percepção é o fim da agonia. Uma de suas técnicas mais poderosas é o Koan que nada mais é do que do que um “problema” que é dado ao discípulo para resolver enquanto medita, só que sua solução não é intelectual, a resposta não tem conexão lógica com a pergunta e a pergunta é de tal natureza que embaralha o intelecto. Sua finalidade é de tanto se buscar essa resposta fora do âmbito ordinário da mente, suplantá-la! Quer experimentar?

Aqui está um homem numa árvore, segurando-se a um dos seu ramos com a boca, não se agarrando a nada com as mãos e nem tocando o tronco com os pés. Alguém ao pé da árvore pergunta: O que é o Zen?

Caso não responda essa pergunta não deixará satisfeito quem perguntou; mas, se falar, mesmo se disser uma só palavra cairá para a morte. Que respostas darias se fosses ele?” Um discípulo pode levar anos para chegar a essa resposta, mas se chegar venceu esse estágio mental ordinário de onde vem todos nossos problemas.

Quando for entendido na totalidade, não apenas intelectualmente, mas em cada atitude que o universo é agora, pois tudo está sendo criado nesse momento e o fim do universo também é agora, já que tudo está desaparecendo agora, poderemos almejar sair dessa alucinação que projetamos em tudo e todos.

Além disso o Zen é extremamente bem humorado, na medida quem seus principais mestres sempre responderam perguntas sobre a iluminação, de como chegar até ela de forma desconexa e sem sentido. Isso se dá justamente porque querer saber já é perder o que se busca saber. Certa vez perguntaram ao mestre Tung-shan “o que é o buda?” E ele respondeu: “Um quilo e meio de linho”. Nesse momento em que você e  quem perguntou ficam sem ação, tentando encontrar um sentido na resposta, não houve pensamentos negativos, medos e culpa na sua mente, ou seja, ela foi superada!

Importante entender que essa atitude desapegada diante da vida está longe de significar ir viver em uma montanha meditando o dia inteiro, já que nem lá escaparemos de nossas ilusões a respeito do que seja a vida. Vivemos em um mundo material e precisamos vencer nele também, sabendo que isso é parte, nunca o todo. Esconder-se atrás de uma ideia de espiritualidade ligada a pobreza e necessidades materiais pode muito bem ser uma ótima desculpa para a incompetência.

Mestre Pai-chang disse que o Zen é simplesmente “comer quando se tem fome, dormir quando se está cansado. Quando deseja caminhar, caminha; quando quer sentar, senta-se.”

Muito simples e muito difícil já que caminhamos quando podemos, paramos quando dá. Comemos na hora que nos disseram para comer e dormimos na hora que nos disseram que era certo dormir. Ficamos de pé quando queremos sentar e vice versa… Nada natural, nada escolhido! Apenas fazendo tudo isso contra a vontade esperando uma recompensa que nunca vai chegar.

 É como ter feito uma plantação de batatas esperando encontrar nela abacates.

Portanto, para quem está cansado de esperar milagres, salvação, bençãos e outras improbabilidades, a prática do Zen pode ser um jeito novo e bem mais real de fazer a verdadeira religião: estar bem consigo e com a vida por si mesmo, por entende-la em movimento, por aceitar que nunca poderemos controlar tudo e saber que a felicidade é estar em paz e relaxado…

Isso é ser Zen….

Para saber mais: “ O espírito do Zen” Allan Watts