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Quando o mal faz bem

O que mantém um comportamento são os resultados.

pessoas espertas

“Ganho secundário” é o nome que se dá quando alguém se beneficia de algum problema, ou seja, o mal que está acometendo a pessoa está sendo útil de alguma forma.

Certa vez conheci uma cliente que chegou ao consultório com um histórico antigo de depressão. Passadas algumas sessões percebi que ela estava claramente sabotando o trabalho da terapia, encontrando uma série de desculpas para não tomar as novas atitudes. Perguntei a ela qual era a diferença na vida dela antes e depois da doença e ela respondeu sem pensar:

-Naquela época ninguém se preocupava muito comigo…

Obviamente não era do interesse dela melhorar, afinal, se isso ocorresse o nível de atenção que ela estava recebendo iria diminuir, até porque curada, não precisaria de tantos cuidados.

Muitas vezes os ganhos secundários são mais explícitos; quando, por exemplo, uma determinada doença ou incapacidade temporária afasta a pessoas de atividades que claramente não gosta ou a mantém com remuneração em casa. Pode ocorrer de um determinado sintoma ou mesmo doença ser o motivo para se adiar compromissos desagradáveis. Quantos de nós, na infância, já não apresentamos uma febre ou dor de barriga para não irmos à escola quando nos esperava alguma prova ou por ser a data de entrega de algum trabalho que não fizemos? Além é claro, de imaginarmos como uma doença nos ajudaria em determinadas situações, sendo a solução fácil de um problema.

Isso é muito mais comum do que se pode imaginar e ocorre em vários níveis. Nem sempre é um processo consciente, mas mesmo quando ocorre abaixo do nível de percepção, quando confrontada com o problema, a grande maioria das pessoas reconhece que isso está ocorrendo, apesar de negar no começo, já que isso não é uma atitude que faz bem à autoimagem.

A doença ou o problema se torna um aliado e quando isso ocorre sempre a pessoa tem um aumento de seu poder e influência sobre os demais. Quem já não ouviu alguém encerrar uma discussão alegando que se o assunto continuasse poderia fazer “mal” ou causar algum problema grave?

Por mais duro que possa parecer, toda a relação em si é uma troca de interesses, seja de que nível for. Negar isso é esconder a cabeça no buraco, como bem faz o avestruz.

Só nos relacionamos baseados em algum tipo interesse, que pode ser de transformarmos o outro no que achamos correto (pais e filhos), ou de termos vantagens e seguranças sejam afetivas, comerciais ou mesmo de poder, simplesmente. Mesmo quando estamos apaixonados ou dizemos que amamos alguém, temos o interesse (necessidade) dessa pessoa ao nosso lado para sermos mais felizes; em outras palavras, “precisamos” desse relacionamento e isso também é um tipo de interesse. Dai a usarmos as armas disponíveis para isso nem precisa se pensar muito. No final, é a luta pela felicidade que impulsiona o ganho secundário.

Só que isso vai muito além e abrange também os comportamentos. Pessoas, depois de construírem determinada imagem passam a usufruir de benefícios. Poderemos usar como exemplo aquela pessoa que criou fama de agressiva. Ela passa a ser poupada de uma série de assuntos, justamente por ser assim. Ninguém conversa com ela para tentar demovê-la de seu ponto de vista, já que ninguém quer se incomodar. O que normalmente ocorre é tudo se encaixar no jeito dela, justamente por ter esse tipo de atitude que tanto desagrada às pessoas. Isso só reforça esse tipo de comportamento, afinal, porque ela mudaria se tem vantagem e controla situações sendo assim?

Também não podemos esquecer que muitas doenças, sejam emocionais ou físicas, mudam a vida da pessoa, no começo para pior e depois para “melhor”. Imaginem, por exemplo, o caso de alguém que se afasta do trabalho por motivos emocionais que o estejam incapacitando, independente da origem do problema. No começo a pessoa se sente mal pela situação, mas não tem mesmo forças para retomar suas atividades e precisa mesmo do repouso. O problema é que passado algum tempo, a própria família se adequa a situação e tudo vai se encaixando com a ideia de que essa pessoa não poderá contribuir com o orçamento por algum tempo. Se a situação perdura por alguns meses (o que no caso da depressão, problemas graves de ansiedade e acidentes é comum), essa pessoa tem sua vida readaptada dentro dessa nova perspectiva e se percebe com suas necessidades atendidas e sem a necessidade de trabalhar.

Quero deixar bem claro que isso acontece, na maioria das vezes, inconscientemente, ou seja, não existe uma premeditação. Ninguém gosta dessa situação de dependência, já que a autoestima também acaba, mas por ser um processo de acomodação, termina se consolidando pela repetição dos dias. É aquela história; acostumamo-nos com tudo até mesmo com o que não concordamos ou gostamos, basta repetir.

Imagino que a essa altura da leitura, você deve estar se perguntando o que fazer para lidar com isso?

A resposta é simples e tem seu fundamento em um princípio: todo comportamento só é mantido enquanto dá resultado.

Assim, se a pessoa não conseguir mais ter controle das situações, seja pelos seu sintomas, seja pela sua doença, ela, obrigatoriamente irá mudar. Isso porque ela tentará manter seus resultados, só que terá de agir de outra forma e isso abre a possibilidade de uma mudança positiva, que poderá ser negociada. É como fazer um novo acordo de convivência.

Assim, a questão “ganho secundário” é muito ampla e pode ocorrer de diversas formas pelos exemplos que dei, não envolvendo apenas doenças como se pensa normalmente. Imagino que lendo esse artigo você tenha pensado em várias pessoas que conhece que se encaixam nesse tipo de comportamento e elas não são mesmo difíceis de serem encontradas.

Porém, a finalidade desse texto, muito mais do que ajudar a entender o “ganho secundário” e identificar pessoas da sua relação que se utilizam dele de alguma forma é também, e, principalmente, trazer a reflexão de se cada um de nós também não se aproveita de alguma forma.

A melhor maneira de conhecer qualquer pessoa é aumentando cada vez mais o autoconhecimento. Inicie, portanto, sempre por você mesmo!

 

A Paixão (2ª parte)

“Frequentemente um amor desesperado não é o motivo mais confiável para uma vida juntos.”

                                                      Mario Puzo – Escritor

                                                                                                                                   paixão III

Uma das marcantes características do período paixão é que nosso “eu” se funde no outro (a) e tudo vira “nós”. Paramos de pensar individualmente e tudo só tem sentido com a presença do outro, com o outro e pelo outro. É uma fase tão inebriante que não precisamos mais dos amigos e podemos ficar confinados sem esforço. Depois, com o arrefecimento da paixão, vem o preço dessa exclusão iniciando um processo de desgaste que é natural. Já vemos o outro (a) com seus defeitos e qualidades e o afastamento dos amigos individuais traz o risco do tédio na relação.

Já não sentimos mais aquele prazer transbordante, aquela euforia onde nada é impossível se for para o casal se manter junto. O perigo dessa fase “alucinada” é  pensarmos nossa vida e futuro sob o efeito desse intenso prazer acreditando que isso durará para sempre, afinal todos nossos sentidos dizem que encontramos aquela pessoa que, para sempre, nos fará feliz. Como muitos já passaram por isso mais de uma vez, a ideia de que exista alguma “alma gêmea” cai por terra, afinal a cada paixão encontramos uma, ou seja, a cada paixão encontramos a pessoa certa para aquele momento que estamos vivendo e isso passa, afinal estamos sempre mudando.

Isso difere em muito dos relacionamentos baseados em um sentimento mais calmo e racional, onde as vantagens de se estar junto vão se apresentando pela convivência, cumplicidade e confiança. E isso, na verdade, é o que cria o ciúme (que já foi motivo de um artigo anterior), invenção de humanos, que querem proteger seus relacionamentos de longo prazo. Esse sentimento precisa ter uma certa medida para não ser um problema, afinal ele é baseado no medo da perda e isso faz com que o (a) ciumento precise controlar seu parceiro para que não vá embora.

Estudos mostram que as pessoas apaixonadas passam 85% do tempo pensando no parceiro (a), vendo sinais dele por todos os lugares. A cada lembrança, o cérebro vai liberando mais e mais aquela sensação de prazer inebriante. É uma euforia que erradamente chamados de felicidade, porque  estamos sob efeito de drogas, mesmo que naturais produzidas pelo cérebro com o objetivo de uma intensa atividade sexual para que possamos dar continuidade à espécie.

Isso é tão fora do âmbito da consciência, que homens acham mais atraente foto de mulheres com pupilas dilatadas já que esse é um sinal não verbalizado de interesse sexual sem nem perceber o motivo dessa escolha. Mesmo sem saber disso conscientemente, nosso cérebro captou esse sinal de forma instintiva. Da mesma forma como um estudo feito com dançarinas no Novo México, revelou que recebiam em média mais do dobro de gorjetas quando estavam no período fértil enquanto que as que estavam no período da menstruação tinham uma receita menor que a metade das colegas. Os sinais dessa fertilidade ainda não são claros para a ciência, já que podem ter a ver com a tonalidade da pele, cheiro ou pela sutil mudança da simetria das orelhas e seios nesse período. Nossa consciência não sabe, mas o cérebro sim e isso se demonstra em um interesse sexual que não conseguimos muitas vezes explicar o real motivo. O fato é que isso se dava até quando homens analisavam fotos de mulheres. As que foram tiradas propositadamente no período fértil eram escolhidas como as mais atraentes.

O ser humano exala mais de 300 aromas e alguns deles passam ao cérebro (sempre abaixo do limite da consciência) a idade e a dieta da pessoa. Ai entram os perfumes com a finalidade de “enganar” nossos sensores naturais. Das estratégias de conquistas não verbais, o olhar e o sorriso são as mais eficientes. As mulheres, justamente pelos atributos necessários a maternidade tem uma facilidade natural de distinguir o sorriso falso do verdadeiro. Justamente por isso, durante o momento da sedução as mulheres sorriem mais que o homem, já que eles tem não tem essa habilidade e os dentes fortes e bonitos mostrados pelas mulheres, passam uma informação sobre sua juventude, saúde e, principalmente, fertilidade.

Assim fica fácil entender os motivos que levam a razão ser superada pelo instinto durante o período da paixão, já que a amigdala, responsável pelas experiências desagradáveis, avisando-nos do perigo, fica “desativada” quando se pensa ou está diante da pessoa por quem se está apaixonado.

A ansiedade provocada pela saudade é compensada por grandes doses de ocitocina que a ameniza e transforma o momento do reencontro em êxtase, mesmo que a separação tenha sido por poucas horas.

Mas, quando o relacionamento termina, como fica a pessoa apaixonada?

O sofrimento experimentado pode ser bem definido pela poesia musicada de Milton Nascimento na música “Travessia” quando diz: “Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver…”. A dor,  tanto emocional quanto física é intensa e pode ser comparada aos das pessoas viciadas durante a crise de abstinência. Afinal, nossa felicidade foi embora e nesse momento, como ocorre na depressão, não conseguimos sequer imaginar a possibilidade desse profundo sofrimento acabar algum dia. Isso explica as atitudes impensadas, passionais e irracionais que uma pessoa possa ter nesse período, da mesma forma que um viciado faz o que precisar ser feito para atenuar seu sofrimento pela falta da substância que precisa. Não há diferença nesses casos.

Até mesmo quando e pessoa (somente quando afastada do outro (a)) consegue raciocinar e avaliar que a relação não tem possibilidade de dar certo seja pelo motivo que for, quando chega diante da sua paixão não consegue terminar ou por em prática suas decisões tomadas no período em que raciocinou. O prazer volta, e imagina-se que tudo poderá ser diferente, que dará certo, etc.

Esse período de sofrimento é mesmo longo já que o cérebro precisara se reestruturar sem essa forte conexão neuronal provocada pela paixão. Quando o relacionamento eventualmente termina nas suas fases iniciais, deixa uma profunda marca, já que a pessoa sempre lembrará como foi feliz nesse período e mesmo vivenciando outros relacionamentos tornará essa pessoa um “mito”, alguém perfeito que, certamente, traria a felicidade durante toda a vida. Isso só acontece porque o relacionamento foi interrompido durante o período da paixão. Se continuasse, depois que passasse a euforia e o relacionamento se normalizasse essa idealização do outro deixaria de existir. Por isso que alguns namoros da adolescência são mantidos como ideais dentro de nós, mas isso só ocorre porque eles não duraram o tempo suficiente para a paixão terminar ou mesmo que essa relação existisse pelo tempo suficiente para entrar na normalidade. A lembrança dessa pessoa nos traz de volta algumas dessas sensações prazerosas e da felicidade que vivenciamos. Um efeito colateral do sofrimento pela perda da paixão é a pessoa sabotar seus próximos relacionamentos pelo medo de sofrer novamente. Alguns só conseguem se relacionar sem um envolvimento mais profundo, já que isso garantirá que não haverá sofrimento se tudo terminar.

Por isso penso ser importante que entendamos com funciona a paixão e as pessoas ao nosso redor que estejam passando por essa fase. Por ser algo muito mais ligado ao instinto do que a razão a paixão pode atacar sorrateiramente qualquer pessoa, mesmo aquelas que estejam vivendo um relacionamento estável e agradável. Nessa hora, quando mais cedo se tomar os cuidados necessários melhor. Arriscar é sempre perigoso, pois depois que o circuito de prazer se instala fica difícil e muito dolorido de controlar. Afinal o instinto vence a razão quase sempre!

Testes também foram realizados com pessoas que se diziam apaixonadas mesmo depois de muitos anos de relacionamento. As imagens cerebrais mostraram que as áreas ativada não eram mais as ligadas ao prazer, mas aquela associada ao afeto e ao contentamento com recompensas. Ou seja, apesar do declínio da fase da paixão cresceu o companheirismo. E é isso que mantém casais juntos, diferente de outros mamíferos. Também aprendemos a sentir prazer e alegria navegando em águas calmas. Cada casal é único porque não existem duas pessoas iguais, assim, com cuidado necessário e entendendo como as coisas funcionam podemos sim termos relacionamentos longos e compensadores, desde que cuidados.

O final da paixão marca uma nova etapa, que precisa de compreensão, tolerância e bom senso. Descobrir o outro (a) como realmente é com suas qualidades e defeitos faz tudo mais verdadeiro. Mantemos os relacionamentos pelas qualidades do parceiro e administrando as diferenças que são naturais. Viva e curta sua paixão, mas a entenda e saiba que não devemos tomar decisões de longo prazo vivenciando emoções de curta duração.

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Bibliografia:

Odisséia do amor – documentário. Produtor Cristian Gerin e CharlesGazelle. Direção Thierry Binisti

Incógnito – A vida secreta do cérebro – David Eagleman ed. Rocco

Comportamento sexual compulsivo – Ballone. www.psiquiveb.com.br

Contra o amor – Laura Knips ed. Record

Revista Galileu. Disponível em: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI294422-17770,00-SAIBA+O+QUE+A+PAIXAO+FAZ+COM+O+SEU+CEREBRO.html

A Paixão (1a parte)

“Por você eu dançaria tango no teto,

Eu limparia os trilhos do metrô,

Eu iria a pé do Rio a Salvador…

Eu aceitaria a vida como ela é,

Viajaria a prazo pro inferno,

Eu tomaria banho gelado no inverno.

Por você… Eu deixaria de beber,

Por você… Eu ficaria rico num mês,

Eu dormiria de meia pra virar burguês.

Eu mudaria até o meu nome,

Eu viveria em greve de fome,

Desejaria todo o dia a mesma mulher…

Por você… Por você…”

Por você – Frejat

Entender os mecanismos da paixão sempre despertou a curiosidade da ciência, afinal esse sentimento é responsável por momentos de felicidade, profundas tristezas e todo o tipo de loucuras.

paixão II

O que é importante entender é que a paixão é um mecanismo ligado ao nosso instinto de procriação e, não fosse por ela, esse planeta estaria muito despovoado. Assim, para a psicoterapia, a pessoa apaixonada está de certa forma “doente”, visto que muitos dos seus mecanismos de entendimento, raciocínio lógico ficam prejudicados durante esse período.

Os pesquisadores já conseguem definir que a paixão tem uma duração que oscila entre 18 a 30 meses. Mas por quê? Na verdade é o tempo necessário para que o macho e a fêmea da espécie humana, movidos por essa “avalanche” emocional, façam sexo o número de vezes necessário para que um filho seja gerado. Aliás, a tendência natural é a atividade sexual ter sua maior intensidade e frequência nesse período, daí começam os problemas, já que depois que a paixão termina, muitos casais ficam se questionando se o “amor” acabou ou se estão perdendo o interesse um pelo outro, tendo em vista uma redução dessa atividade.

Paixão não é amor e nunca foi. Amor tem a ver com pensamento racional, prerrogativa dos humanos enquanto a paixão tem a ver com nossos instintos mais primários, coisa de bicho mesmo!

O processo da paixão é inconsciente, ou seja, funciona abaixo da linha da consciência. E isso nem é difícil de perceber, afinal quem já não ouviu alguém dizer que “não sabe” o que foi que fez com que se apaixonasse por determinada pessoa. Muitas vezes, depois que o período de “embriaguez” termina, aquela frase é mais do que comum: “não sei o que eu vi nele (a)”. Já no amor, ou em um sentimento mais provido de alguma razão ou bom senso, a pessoa tem uma boa clareza sobre as qualidades e defeitos do outro, ponderando as razões que fazem com que fique ou queira terminar o relacionamento.

Mas afinal, o que faz com que uma pessoa se apaixone?

Cada pessoa tem critérios pessoais do que faz alguém atraente; beleza física, poder pessoal, simpatia, sensualidade, inteligência, educação, etc.

Quando esses critérios se encontram, temos o que a paixão precisa para começar. Os homens se fixam mais em aspectos físicos enquanto as mulheres também utilizam-se de critérios subjetivos nessa avaliação. Como dizem os cientistas; o homem conquista e a mulher seleciona.

Cabe lembrar que a reprodução humana é tarefa feminina e isso explica o motivo pelo qual, muitas vezes, um homem pode se tornar interessante para uma mulher, as conversas, o conhecimento, vão dando informações que podem determinar qualidades no homem pelas quais ela se sinta atraída. Basicamente o processo da paixão para o homem tem a ver com sexo, enquanto a mulher, mesmo inconscientemente, quando se sente atraída por um homem, tem na base desse interesse qualidades que ela, por admirar, quer transmitir para o filho que irá gerar. Sendo assim, a mulher precisa admirar o homem por suas qualidades, sejam elas quais forem e aí, cada uma tem a sua lista. Quando essa admiração porventura termina, o desejo de ter filhos com esse homem deixa de existir. E nada como o dia a dia, a rotina e os problemas para que as qualidades que na paixão superavam em muito os defeitos (às vezes nem percebidos), vão trocando de importância e de peso. Aí, essa admiração fantasiosa vai dando lugar a realidade, a ilusão termina.

Quando a paixão começa, tendemos a ver a outra pessoa como alguém especial, muito acima das demais pessoas. Nós a consideramos através de um filtro especial criado pela nossa crença em sua amabilidade, desejabilidade, dignidade, etc. Isso quer dizer que projetamos sobre essa pessoa nossas expectativas de que ela é a ideal para nós e isso se dá porque nosso cérebro começa a secretar substâncias ligadas ao prazer e a as áreas responsáveis pela recompensa são ativadas. Isso também se dá, curiosamente, com as drogas. Estudos demonstram que a paixão ativa a mesma área do cérebro acionada quando os viciados usam suas drogas.

Cada um, inconscientemente ou não, esconde seus defeitos e procura mostrar com ênfase o que o outro quer ver, criando um jogo de engano com o objetivos de termos para nós essa pessoa “perfeita”. Começa aí, a criação do apego, pois nos sentimos tão bem ao lado dela (são hormônios de prazer, não esqueça) que temos a certeza que só seremos felizes com ela ao nosso lado.

É um estado de espírito inteiramente enamorado, obcecado, altamente enfeitiçado que reduz a capacidade de pensar e avaliar. A dopamina, por exemplo, liberada em abundância durante esse período, além de várias mudanças prazeirosas, também “desliga” no nosso cérebro a capacidade de análise crítica e julgamento.

Fica-se tão absorvido à espera de uma breve visão da pessoa amada que negligencia-se tudo (trabalho, amigos, família, alimentação, etc) e esse é um dos motivos pelos quais a paixão precisa ter um tempo reduzido. Manter-se assim pode fazer adoecer, afinal saímos do equilíbrio natural. Obviamente que isso é muito gostoso e traz uma euforia e felicidade. Como temos a tendência de nos viciarmos em hormônios, muitas pessoas estão sempre apaixonadas, independente do parceiro(a). Na verdade são viciados nessas substâncias e querendo se sentir assim, pelo vício, vão pulando de relacionamento em relacionamento. Quando a paixão começa seu declínio, o relacionamento já não é mais tão bom, e busca-se o próximo.

Assim, nos “viciamos” nessa pessoa “perfeita” e sempre que a vemos, ouvimos ou pensamos nela, somos inundados de prazer, e toda a atividade ligada à sexualidade experimenta intensa atividade e é por isso que durante a paixão se faz muito mais sexo do que durante as épocas subsequentes.

Com o tempo, essas substâncias químicas inebriantes, vão fazendo menos efeito, já que o organismo vai se tornando resistente a elas e loucura vai terminando. Depois, ou vem a separação ou o casal fica satisfeito com sensações menos intensas de prazer, como as que advêm do companheirismo, afeto e das inegáveis vantagens que manter um relacionamento estável pode trazer: filhos, uma vida mais saudável (regrada), progresso financeiro e outras.

A professora Cindy Hazan da Universidade de Cornell entrevistou mais de cinco mil pessoas de 37 diferentes culturas e chegou a uma conclusão: “Graças à intensidade da ilusão romanceada (paixão), achamos que escolhemos nossos parceiros; mas a verdade é conhecida até mesmo pelos zeladores do zoológico: a maneira mais confiável de se fazer um casal de qualquer espécie reproduzir é mantê-los no mesmo espaço durante algum tempo”.

Não repare, cientistas são assim mesmo, pouco românticos…

É importante entender que não podemos confundir esse estado transitório e inebriante com um sentimento mais profundo e duradouro. Por se tratar de um processo biológico não poderemos balizar o sentimento pelo período da paixão. Nada impede que se atinja um ótimo relacionamento sem ter passado pela paixão e isso é muito comum de acontecer.

O que não podemos esperar é que esse estado dure a vida toda, morreríamos cedo se isso acontecesse. Noto que as pessoas querem estar sempre apaixonadas e isso não é possível nem saudável. Viver “drogado” a vida toda sempre traz seus problemas e todos sabemos disso, independente da substância, seja a cocaína, dopamina, ocitocina e outras, produzidas em plantações, laboratórios ou no cérebro. No final, droga é droga!

No próximo artigo, trarei experiências, testes e as descobertas da neurociência sobre os efeitos da paixão e falaremos um pouco mais sobre esse excitante tema…

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Toda a bibliografia será citada no artigo final.

O tratado aqui inclui todas as espécies de relacionamentos, sejam heterossexuais ou homossexuais.

Espiritualidade: difícil definição

“Hasan procurou Rabia, num dia em que ela estava sentada entre diversos contempladores, e disse: – Eu tenho a capacidade de andar sobre a água. Venha, vamos ali para aquela água e, sentados sobre ela, poderemos ter uma discussão espiritual.

Rabia disse: – Se você deseja se separar dessa augusta companhia, por que não vem comigo para voarmos e conversarmos sentados no ar?

Hasan respondeu: – Não posso fazer isso, pois o poder que você menciona eu não possuo.

Rabia disse: – Seu poder de permanecer imóvel sobre a água é o mesmo que o peixe possui. Minha capacidade de voar pode ser realizada por uma mosca. Essas habilidades não fazem parte da verdade real – elas podem se tornar o alicerce da egolatria e da competição, não da espiritualidade.”

          Bhagwan Shree Rajneesh – Sufis o povo do caminho

Gravura de Rabia

Gravura de Rabia

Em uma cultura centrada no Ego, como a que vivemos, essa velha estória Sufi permanece mais atual que nunca. De um lado, continuamos com essa velha ideia de que a pessoa dita “espiritualizada” é medida pelas dificuldades que passa, ou aparenta passar, em sua relação com o aspecto material.  Precisará mesmo ser alguém pobre para ter desenvolvido sua consciência pela via do sofrimento ou da privação? Será que as coisas materiais tem mesmo essa capacidade de iludir o verdadeiro “buscador” a ponto de, necessariamente, serem rejeitadas como uma prova ou tentação?

É claro que todos já conhecemos pessoas humildes que conseguiram altos níveis de consciência, mas isso não me parece uma obrigatoriedade, você, caro leitor, o que acha?

Particularmente, penso que uma pessoa que se realiza financeiramente tem muito mais facilidade de perceber que não é o material que explica e dá sentido a vida, justamente por possuir isso e não sentir-se “completa” e em sintonia com o mundo que a cerca. O que vemos, justamente por ser incentivado pela cultura dominante, é que os bens materiais nos trarão a total realização e completude. Justamente por se acreditar nisso, é que vemos as pessoas destruindo sua saúde para poder adquirir essas expressões de poder que dão status e reconhecimento.

Só existe mesmo o desapego quando ele é real e não uma divagação que fica bonito de se dizer, buscando uma imagem perante os demais de que traga essa aura espiritual, como um guru. Para poder se dizer desapegado a condição inicial é poder ter o objeto em questão. Os próprio sufis dizem que por ser esse mundo material, devemos mostrar nossa competência também nesse aspecto, mas que, se por ventura tudo for perdido, seja pelo motivo que for, tudo poderá ser reconquistado, não sendo, portanto, motivo para grandes tristezas. Essa relativização da materialidade é uma concepção que se adéqua muito bem aos nossos tempos, apesar de muito antiga.

Nessa bela estória, Rabia coloca o ego de Hasan no seu lugar, mostrando como ele havia perdido a direção, achando que se pudesse andar sobre a água isso representaria uma grande evolução se diferenciando dos demais. Puro ego! Para ele, conseguir esse feito representava uma grande conquista e a Mestre mostrou que ele havia, na realidade, involuído, já que um simples peixe era capaz de tal “façanha”.

Conheço pessoas muito evoluídas espiritualmente que vivem com conforto, frequentam restaurantes e viajam pelo mundo. Para mim, sem tirar o mérito das demais, isso é a espiritualidade do século XXI. E é muito importante ressaltar que não há nada de errado, que de vez em quando, elas não possam ter seus momentos de raiva, medo e angústia. A diferença é que essas pessoas sabem muito bem a diferença entre o que elas realmente são e o corpo que elas habitam, muito ligado a esses sentimentos. Justamente por isso, logo conseguem trazer-se de volta ao equilíbrio.

Ser Humano compreende saber-se habitando um corpo que faz parte dessa natureza e que, como o de qualquer animal, busca sobreviver e tem o medo como norma. Afinal, é justamente lidando diretamente com esses sentimentos nada nobres que, ao observá-los, vamos conseguindo lidar melhor com eles.

Ser “espiritual”, em minha opinião, é tocar a vida sem medo, focado no presente, relativizando o futuro já que não sabemos o que virá, nem apegado a um passado que não existe mais e muito menos voltará um dia. É estar relaxado muito mais tempo do que tenso. É saber a hora de trabalhar, de se divertir e ter em si mesmo uma ótima companhia. O que torna uma pessoa assim ótima de se ter por perto, não acha?

Ser “espiritual” é não sofrer por pensamentos ilusórios e estar sempre longe dos extremos, aceitando os outros como são sem tentar salvá-los ou mudá-los, já que reconhece que não existe apenas uma verdade ou caminho, aliás, eles são tantos quantos os habitantes desse mundo.

Portanto, para ser “espiritual” não é obrigatório pertencer a nada, fazer parte de nada. Até pode acontecer, mas essa pessoa é totalmente LIVRE, não condicionável, simplesmente porque não tem medo de ser punido nem se sente culpada caso não atenda alguma ordem “superior”. Sua ética é ampla, justamente por valorizar a casa (planeta) que vive e todos os seres vivos, respeitando o direito a vida e a liberdade.

Ser “espiritual” é reconhecer suas qualidades e ter sempre bem presente o mal que pode causar, afinal isso é conhecer-se verdadeiramente, não se iludindo consigo mesmo, o que mantém todo seu Ser em harmonia que justamente significa paz e guerra em equilíbrio.

Penso que tudo isso esteja ao nosso alcance, se realmente quisermos e me parece bem mais difícil que andar em cima da água, afinal a sociedade sempre cobrou um preço caro por quem fugiu do rebanho.

                                                          maria-vai-com-as-outras

A HORA DE AVANÇAR

A semente nunca está em perigo, lembre-se disso. Que perigo haveria para a semente? Ela está completamente protegida. Mas a planta está sempre em perigo, a planta é muito delicada. A semente é como uma rocha, dura, protegida por uma crosta grossa. Mas a planta precisa enfrentar mil e um perigos. E nem todas as plantas atingirão o estágio em que poderão florescer em mil e uma flores…

Poucos seres humanos atingem o segundo estágio e, desses, muito poucos atingem o terceiro, o estágio da flor. Por que não podem atingir o estágio da flor? Por causa da ganância, por causa da miséria, não estão prontos para dividir…Por causa de um estado em que há falta de amor. É necessário coragem para tornar-se uma planta, e é necessário amor para tornar-se uma flor.

Uma flor significa que a árvore está abrindo seu coração, liberando seu perfume, oferecendo sua alma, vertendo seu ser na existência. Não continue sendo apenas uma semente. Reúna coragem: coragem para deixar para trás o ego, coragem para deixar para trás sua segurança, coragem para se tornar vulnerável.

Osho – O Livro da Transformação

 

Existem alguns requisitos que se fazem necessários para que as pessoas iniciem sua “jornada” em busca de elevar seu nível de entendimento, buscando fugir da normose e encontrar paz em si mesmas nesse mundo caótico. A cada época evolutiva, a humanidade, dentro do que era possível, sempre, em sua maioria, fez da vida uma grande confusão; seja na época de guerras sem sentido (isso ainda não mudou), seja quando a intolerância religiosa matava milhares e milhões (isso ainda continua), ou atualmente, onde a busca de satisfação e prazeres materiais estão levando todos a um nível altíssimo de ansiedade.

E o mundo sempre será mesmo um caos, justamente para que cada um, por mérito, encontre o cosmo dentro de si. Estar nesse mundo sem ser desse mundo é o princípio das principais Escolas iniciáticas ao longo da história. Se a afirmativa de que somos seres espirituais em uma jornada material for verdadeira, e é, justifica o tumulto exterior (materialidade) e busca interior (espiritual). Assim caro leitor, não perca tempo em esperar que a vida melhore, que as pessoas se tornem mais conscientes e mais fraternas, que acabem os conflitos por interesses econômicos, políticos e religiosos. Isso nunca vai acabar porque a esmagadora maioria das pessoas mantêm-se alheias a tudo, seguindo pela vida como verdadeiros zumbis, mortos evolutivamente, mas parecendo vivas, já que seus corpos continuam funcionando.

Mas, para aqueles que se deram conta de que o modo de se viver e pensar a vida atualmente é doentio, surgirá dentro de si uma necessidade de buscar esse entendimento superior, e isso passa por algumas condições, sem as quais essa busca não poderá ser empreendida.

A primeira delas é ter uma vida ordenada, e o que isso significa? Isso significa que é necessário cuidar de si mesmo, da saúde do corpo e emocional. Ter um sono reparador e não se entorpecer com drogas de todos os tipos, nem buscar compensações em comida, compras e bebidas. Sem que o corpo esteja saudável, não há como a sensibilidade e a percepção possam assimilar o conhecimento e, ao mesmo tempo, tirar proveito das práticas que serão exigidas no processo evolutivo.

A segunda é ter um bom nível intelectual, afinal, para ler e entender é preciso ter uma mente treinada e receptiva às novas informações que chegarão. E isso é dado por leituras variadas, apreciar bons filmes, curtir música de qualidade, ir a um teatro e outras atividades que desenvolvem a percepção e ampliam a sensibilidade. A leitura é fundamental, afinal pensamos em palavras e quanto mais palavras soubermos mais nosso pensamento fica abrangente. E nessas leituras incluem-se biografias de pessoas que se admire, pensadores importantes com quem se afine, ficção, livros que tragam as mais recentes descobertas científicas e aqueles textos que passam pelo tempo sem perder validade e importância. É claro que depois que você se identificar com alguma ideia ou filosofia, ler e ler cada vez mais! Dentro do quesito leitura, também recomendo saber sobre outras correntes de pensamento, mesmo as antagônicas, para sempre estar reavaliando se continuamos onde estamos ou fazemos ajustes em nosso entendimento, já que mudar de ideia é coisa de gente sábia. Ficar preso a qualquer conceito ou crença sempre desenvolve o apego e o medo, afinal poderemos sofrer muito se descobrirmos que não era bem o que pensávamos. Lembre que a vida é baseada em flexibilidade e a rigidez (que tem a ver com nunca mudar de ideia) está ligada a morte.

O terceiro quesito é ser uma pessoa livre. Quando falo de liberdade, não falo de estarmos fora da cadeia, mas de possuirmos as condições de ir e vir no mundo com qualidade. Evidentemente que essa liberdade está muito ligada ao aspecto financeiro. Nenhum dos dois requisitos anteriores será útil se o buscador não dispuser de recursos para comprar os livros, fazer seminários e outras atividades que inevitavelmente surgirão ao longo desse percurso. Mesmo que venha a ser convidado a participar de alguma Escola ou grupo dedicado a estudos com os objetivos acima, isso necessitará de dinheiro, afinal o local de encontro e os livros ou apostilas tem um custo, que sempre é rateado entre os membros.

No mundo que vivemos, e de certa forma sempre foi assim, só é mesmo livre quem tem recursos para poder fazer o que quer. Poderíamos até questionar se, nesse caso, não estaríamos presos ao dinheiro. Na verdade, se não geramos os recursos, não temos liberdade, o que significa que o conceito de liberdade está “preso” ao compromisso de se trabalhar para consegui-lo. É um paradoxo, mas perfeitamente fácil de compreender.

Então, será que termos uma vida ordenada, bom nível cultural e recursos são suficientes para buscarmos essa evolução? Sim, mas desde que estejamos profundamente insatisfeitos com nosso estado de percepção atual e não queiramos assim permanecer. Para isso precisaremos não aceitar mais e nem negociarmos nossos passos evolutivos e estejamos dispostos a enfrentar, sem medo, todas as consequências que as grandes mudanças sempre trazem. Os nossos relacionamentos sempre sofrerão algum atrito, afinal não há como não mudarmos sem afetar nossos relacionamentos e isso sempre tem um preço.

A partir daí, almejar um estado evolutivo maior, buscar e encontrar esse cosmo pessoal e poder compartilhar com pessoas que tenham os mesmos objetivos comporá o que se precisa para a “grande viagem” que se empreenderá até o âmago de nosso ser, onde nada que for externo nos tirará do caminho.

Gurdjieff sempre disse que o ser humano tem muito medo de fazer esse caminho, justamente por ser muito mais cômodo e sem riscos ficar como está, em uma vida mecânica, cumprindo a cartilha do status quo, esperando que a promessa de que se for uma boa ovelha, o grande pai será benevolente com ela no juízo final.

Posso observar que muitas pessoas sonham com essa busca, mas, infelizmente não conseguem ainda, cumprir os pré-requisitos necessários. Talvez elas esperem que algum milagre torne tudo mais fácil ou ainda não sofreram o suficiente para se permitirem embarcar na única viagem que elas vieram cumprir, verdadeiramente, em suas existências.