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A velha TV

Nem todo mundo que faz sua caminhada cedo pela manhã, necessariamente acorda cedo. Eu, começo a despertar no final do primeiro quilômetro, lá pela terceira música que toca no celular com o volume bem baixo, para não irritar. Como nada é somente ruim, o automatismo das ações antes de sair e do mesmo trajeto, ajudam a fazer tudo isso sem precisar estar, necessariamente, acordado. Diria algum especialista em sono que este estado, nem lá nem cá, chama-se hipnopômpico.

Pois assim estava, “hipnopompicamente” caminhando quando me deparei com uma televisão jogada fora. Como hoje, somos todos fotógrafos e cinegrafistas, resolvi clicar, mas sem nem saber o motivo. A esperança é que quando acordasse aquilo faria algum sentido ou seria mais uma dessas ações que terminam em nada.

Alguns minutos depois, não sei se levado pela música que ouvia ou por falta do que pensar, a imagem da televisão na calçada me veio à mente e junto com ela algumas sensações e pensamentos. Somos movidos por tantos estímulos que nem nos damos conta que nossas escolhas e suposta liberdade, até mesmo de apenas pensar, sejam realmente nossas?

A televisão nem era tão antiga assim, pensei. Era do tempo do tubo de imagem, o que sempre exigia um espaço para que o aparelho “respirasse”, não podendo encostá-la na parede. Hoje, as televisões ultramodernas, pelo visto, dispensam o oxigênio. Lembro das primeiras, na minha infância com a parte de cima em madeira, antena longa e seletor de canais redondo, que girávamos como uma maçaneta. Naquela época, mudávamos pouco de canal, não só por termos poucas opções, mas precisávamos levantar e dava preguiça. Controle remoto só veio mais tarde, causando um assombro de tecnologia. Por ali fomos ficando mais preguiçosos, e logo em seguida, os carros tinham os vidros elétricos. Viramos reis, vontades atendidas em um toque!

Para os mais jovens, onde tudo é touch screem, isso é tão fora da realidade quanto um selo de carta, mas como diziam os antigos: Recordar é viver…

Como não era tão antiga assim? Foi um pensamento abrupto.

 Caí na realidade e percebi que ultimamente nada para mim é “tão antigo assim”. Depois de uma idade, precisamos encurtar o tempo, fazer de conta que os anos têm seis meses, ou que tudo é mais veloz do que realmente é. Mente e corpo vão se separando depois dos cinquenta. Um dói aqui e ali e o outro insiste em uma juventude onde tudo é mais fácil, sem joelhos, dores de coluna ou óculos que aumentam o grau a cada ano.

Hoje, onde tudo é Smart, essa velha senhora perdeu a validade. Tomara que tenha morrido, tenha sido largada na rua por não funcionar mais. Seria desrespeitoso pô-la fora ainda funcionando, apenas por não oferecer os recursos modernos. Mais ou menos como se faz com as pessoas no mercado de trabalho.

Por mais que ela não tenha sido brilhante, tenha só servido para novelas, os jornais de sempre e os imortais programas dominicais que, pasmem, já existiam antes dela e continuarão até os modelos que ainda nem imaginamos, ela conseguiu aumentar o tamanho do mundo de quem assistia.  Mas nem isso garantiu-lhe algum respeito. Não serve mais, ninguém quer e, se estava doente, não valia a pena pelo preço do conserto.

Triste fim.

Quem sabe, um dia não esteve conectada às primeiras parabólicas, tão grandes quanto a que a NASA usa para receber mensagens do espaço. Imagem limpa, mas nada como o HD de hoje em dia, onde as atrizes precisam de muito mais maquilagem para que eventuais espinhas e falhas na pele não as denunciem como mulheres iguais às que vemos nas ruas.

Um dia, essa televisão era o que tinha de mais moderno, mas o tempo, que torna tudo cada vez mais obsoleto rapidamente, a fez chegar a velhice sem sequer ter terminado de ser jovem.

Nós, da geração do seletor de canal, do celofane azul e amarelo para transformar o preto e branco em bicolor estamos passando como ela. Só o que permanece é a Maizena e o Sílvio Santos, holograma que ainda imaginamos vivo.

Na volta da caminhada ela não estava mais lá. Levada pelo caminhão do reciclável, reencarnará em algum plástico e nunca ninguém poderá imaginar sua vida passada, quando ver apenas uma torradeira ou um ventilador. Já o tubo de imagem, por onde assistíamos a emoção e a tragédia, esse não tem mais jeito. Precisará terminar, vida única, sem paraíso ou inferno.

Hoje também vamos para a reciclagem como doadores de órgãos, ato sublime de despedida, dando utilidade ao que temos de plástico. Mas nossas histórias, alegrias e tristezas não têm chance. Desaparecerão e terão algum eco na memória dos que ficam, cada um com seu jeito de lembrar de nós.

No fim, posso só ter usado essa televisão para ficar pensando, talvez imaginando tudo apenas para ocupar a cabeça.

 Mas afinal, isso não tem problema, fazemos isso o tempo todo com tudo e todos que estão a nossa volta.

Ambição e Necessidade

“ Poucos veem o que somos, mas todos veem o que aparentamos”.

                                                    Maquiavel

 

“O homem precisa daquilo que em si há de pior se pretende alcançar o que nele existe de melhor.”

                                                     Nietzsche

“Responsabilidade: um fardo descartável e facilmente transferido para os ombros de Deus, do Destino, da Sina, da Sorte, ou do nosso vizinho.”

                                                     Ambrose Bierce in Dicionário do Diabo

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Maquiavel foi um dos muitos injustiçados da história. Ter seu nome vinculado a atos de maldade e interesses escusos é no mínimo uma constatação de que não foi lido. Seu grande mérito, em meu entender, foi transformar Reis e Príncipes que, em sua época, só prestavam contas a Deus, em políticos. Políticos são pessoas comuns, como eu e você, que querem o poder e, para tanto, fazem o que deve ser feito. E aqui cabe já uma curiosidade: Maquiavel nunca escreveu que “os fins justificam os meios”. Essa frase famosa nada mais é do que uma interpretação ou tradução malfeita. Poucos em tão poucas linhas (seu livro O Príncipe é pequeno) desnudou a natureza humana com tanta precisão e sem afetamentos. Maquiavel nunca falou de um homem idealizado mas do real, que quer atender seus desejos e busca a felicidade pelo caminho que sua capacidade de percepção permite.

Aliás, é nesse ponto que podemos começar: existe mesmo uma “natureza humana”?

Alguns, como Heidegger, dizem que não; que nossa natureza se faz na medida em que vivemos, que somos sempre uma possibilidade muito moldada pelo contexto onde estamos inseridos. Que o fato de vivermos em grandes conglomerados nos empurram para sermos muito parecidos uns com os outros e isso se dá pelos limites de expressão cada vez menores que temos como condição de podermos viver junto a uma grande quantidade de pessoas. Heidegger diz que o homem que vive mais junto a natureza e com menos pessoas a sua volta consegue uma originalidade maior em seu Ser, na medida em que está menos pressionado. Poderemos, para apoiar essa ideia, nos perguntarmos se existe um número menor de doenças emocionais em quem vive em lugares menores em comparação a centros urbanos mais povoados.

Seria lícito observarmos que, à medida que a sociedade se “desenvolve”, cada vez mais aumenta o número de pessoas com doenças ligadas a ansiedade, visto que o cerco está se fechando cada vez mais em termos de expressões individuais. Cada vez precisamos seguir mais um padrão de normalidade, o que negaria a biologia, já que para esse ramo da ciência não existem duas pessoas iguais.

A ansiedade, conhecida como o “mal do século”, é definida como um sentimento de apreensão em relação ao futuro, um medo constante de que algo que tememos venha a acontecer. Aqui poderemos, usando da liberdade, dar mais um passo e dizer que em um nível mais profundo, a ansiedade é o medo de nunca sermos únicos em relação aos demais, da originalidade que nunca se expressa.

Para quem entende que existe uma natureza comum a todos os humanos se apoia na ideia que temos semelhanças entre os homens, e isso só poderá acontecer se houver algo em comum.  Podemos, em tese, sermos tudo que outros seres humanos já foram, colocando até um toque pessoal. Mas mesmo que possamos ser qualquer coisa, não quer dizer, necessariamente, que realmente seremos isso ou aquilo. É como se a ideia de uma natureza comum se baseasse em um potencial que todos temos, mas sabemos que um potencial não quer dizer sua efetiva realização.

Esse é um assunto polêmico que não chegaríamos a uma conclusão, mas Maquiavel faz uma dura assertiva que nos coloca dentro de um padrão comum; que os seres humanos só agem por ambição ou necessidade. Se ele estiver certo, mais do que termos algo em comum, além da constituição física, somos todos prisioneiros.

Quando agimos por necessidade não temos escolha. A necessidade está ligada a sobrevivência e isso tem vários níveis, não só não morrer de fome. Necessidade também está ligada a um desejo que precisa ser atendido rapidamente, sob pena de nos trazer sofrimento. A necessidade não nos dá muitas escolhas e o que muda é a categoria: urgente ou emergência. Assim, não temos muita liberdade e nossas ações são mais reativas, já que estão sendo impulsionadas por uma pressão interna. Agir por necessidade não é um ato livre ou proativo já que é um desejo extremo a ser satisfeito que está na origem do ato.

Já ambição, ah…a ambição! Maquiavel diz que somos todos ambiciosos, e até querer não ter ambição alguma não deixa de ser uma espécie de ambição. Quando quero ser visto, por exemplo,  como alguém “superior”, que é desapegado da materialidade, quase um santo, a ambição de ser admirado e elogiado é o desejo a ser satisfeito.  Aqui também está presente uma necessidade que se ambiciona.  Afinal o homem é um ser desejante, age por desejo, busca realizá-los e é isso que o move na vida. Quando dizemos que não desejamos algo é somente por dois motivos: não entender que aquilo possa fazer-nos mais felizes ou não nos achamos em condições de obter tal desejo. Temos uma forte tendência de dissimular nossas ambições, até como uma condição para que elas possam se realizar um dia. Ambicionar viver longe de todos em uma praia deserta ou em um bosque lindo é simplesmente um desejo de fugir de constatações sobre nós mesmo que, por não serem muito agradáveis, projetamos sobre os outros.

 Ambição é tão institucional em nossa sociedade de consumo que não pega bem em uma entrevista para auxiliar de escritório de uma multinacional dizer que você não almeja ser o CEO no futuro.

Júlio Pompeu, em seu ótimo livro sobre Maquiavel diz com precisão:

“Nossos desejos são ilimitados. Eles não são uma demanda do corpo pelo que lhe falta, mas muito mais do que isso, são demandas por tudo que não possuímos. Se os desejos fossem apenas uma demanda do corpo físico, uma busca pelo que ele necessita para viver, como água, alimento, etc., então a saciedade do corpo seria o limite dos desejos. Mas nosso desejo não tem limites. Eles são a demanda do homem como um todo. De sua inteireza: corpo físico e psíquico. Desejamos não apenas o que falta ao corpo, mas também o que falta ao espírito, como riquezas, prestígio, honrarias, poder, etc.

O corpo físico é saciável, o espírito não. ”

E arremata dizendo que “a ambição é apenas uma valoração cínica ou alienada do desejo.” E nunca podemos esquecer que junto com a ambição nasce a esperança de que ela se realize. Para Maquiavel, essa combinação leva o homem para o abismo, já que ele pode perder a capacidade de avaliar seus riscos.

Assim, ambição e necessidade são como tijolos unidos pelo desejo. Essa para Maquiavel é a nossa natureza comum e isso não deve ser visto como bom ou ruim, simplesmente é assim.

A ambição nos faz maus, já que não queremos ser assim e os desejos nos enfraquecem por não os conseguir, todos.

Ter essa consciência é o que pode mover o homem para evitar que seja arrastado como tantos outros já foram, e são diariamente, por atitudes que os desonram. Se Maquiavel fosse vivo em nossos dias ele seria muito previdente contra essa fúria que pede a execução em praça pública dos corruptos. Ele simplesmente diria que os que desejam a execução sumária nunca tiveram milhões à sua frente para poder recusar.

As ideias de Maquiavel sobre como somos não são o que nosso ego gostaria de ouvir. Mas a atualidade dos seus pensamentos, tantos séculos depois, mostra que poucos foram tão efetivos e objetivos em nos desnudar. Muitos outros, falaram de um tipo de homem idealizado, potencialmente bom, piedoso e com outras qualidades difíceis de encontrar na realidade. Kant com seu imperativo categórico de uma ação universalmente boa e totalmente desinteressada ou Rousseau, com uma certa ingenuidade, quando diz que o que nos torna maus é a sociedade e que é ela que devemos mudar para que nossa natureza piedosa aflore, falam de utopias. Nossa capacidade de fazer o bem é a mesma de fazermos o mal, e isso, para Maquiavel, serão ações sempre tomadas por desejo ou necessidade.

Somente nos aceitando como somos que poderemos ir além ou, apesar de ser como somos, sermos melhores.

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Para saber mais:

Somos todos maquiavélicos – Júlio Pompeu. Editora Objetiva, 2011.

O Príncipe – Maquiavel – obra de domínio público.

O peso da Solidão

“ Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é um Deus.”

Aristóteles

“ A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais.”

Arthur Schopenhauer

“ A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.”

Fernando Pessoa

 

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Um estudo recente promovido pela Universidade de Virgínia*, nos Estados Unidos, publicado na revista Science, traz interessantes conclusões sobre a solidão.

Os voluntários eram colocados em uma sala, sozinhos, por 15 minutos, sem fazer nada, sem seus celulares ou qualquer outra distração. Não havia televisão, som ou qualquer estímulo que pudesse dividir a atenção. A pessoa ficava acompanhada apenas dos seus pensamentos.

Mas havia uma saída, caso apertassem um botão poderiam usar o que quisessem como pegar seu celular, por exemplo. O detalhe era que esse botão, que possibilitaria voltar a ficar conectado dava um choque elétrico. Em outras palavras, para sair da solidão o preço era levar um choque, que, segundo a pesquisa, era dolorido o suficiente para, em princípio, desestimular essa iniciativa.

Os resultados foram surpreendentes: 67% dos homens e 25% das mulheres preferiram a dor do choque a ficarem os 15 minutos completamente sós. Alguns, inclusive, preferiram tomar mais de um choque nesse curto período.

O resultado não deixa dúvidas;  o ser humano (na sua média, afinal toda a regra tem exceção) vê a solidão como algo negativo. O simples fato de estar conectado a internet, já abranda essa angústia. Isso explica muito bem como os celulares modernos ocupam muito do espaço que antes era da televisão, ou seja, de nos entreter e evitar que a pessoa se perceba só.

Alguns estudiosos como John Cacioppo que é diretor do centro de neurociência da Universidade de Chicago, defendem a ideia que a solidão trabalha em nosso cérebro da mesma maneira que percebemos a dor, fome ou sede. Isso quer dizer, que, quando sozinhos nosso cérebro entende que corremos risco de vida, afinal os estímulos citados acima têm a ver com sobrevivência.

Todos os estudos mostram que as pessoas sozinhas, ou que assim se sentem, têm, em média,  um aumento da pressão arterial e o processo de envelhecimento acelerado, se comparado com pessoas não afetadas. Já as pesquisas sobre suicídio dão conta de que as pessoas consideradas “cronicamente sós” atentam mais contra sua vida do que as que não pertencem a esse grupo.

A explicação para o resultado dessa pesquisa tem suas raízes em nosso processo evolutivo. Nos primórdios, mesmo antes da podermos dizer que havia algum rudimento de civilização, a sobrevivência do “bicho” homem só era possível em bandos, ou seja, estar com mais pessoas ajudava a manter a vida. O grupo proporcionava essa segurança de uns defenderem os outros, a conseguir alimento e dividir tarefas.

Mas, pelo visto, nem todas as mudanças nesses muitos milhares de anos trouxeram grandes acréscimos em relação ao nosso modelo original. Talvez porque a própria teoria evolucionista mostra que temos em nossos genes contato com esse homem das cavernas, de quem somos descendentes.

O fato de sermos animais sociais, não tem a ver com não podermos estar sós. A solidão é um problema que a pessoa tem consigo, é interior. É de alguma forma sentir-se a parte, desconectada da vida. Quantos se dizem sós, mesmo rodeado de pessoas?

Hoje, com toda a tecnologia disponível a maioria das pessoas teme a solidão como uma doença letal. A mente sempre agitada e negativa deixa a pessoa atordoada com suas maquinações de medo em relação ao futuro ou culpa pelo passado e, na verdade, o outro ou algo que prenda minha atenção cumpre a tarefa de  salvar desse inferno de ficar ouvindo esses pensamentos ruins o tempo todo.

Não vejo como possamos estar realmente bem com alguém sem que tenhamos a experiência agradável da solidão. Parece que as pessoas não entendem que não “são” sua mente e  não há nada que faça essa negatividade acabar, afinal essa é a sua natureza. Ter medo ajuda o bicho homem a sobreviver, como já enfatizei em artigos anteriores.

Mas isso não impede que minha companhia me seja agradável, que possa curtir a solidão como algo prazeroso e profundamente evolutivo. Quem fica bem sozinho transcendeu ao bicho que também faz parte de si, e, provavelmente, entendeu sua mente e convive bem com ela, apesar de tudo.

A solidão será um problema na medida em que pensamos que esse “vazio” só pode ser preenchido por outra pessoa ou por estar em contato com outras. Aí, já entramos no perigoso terreno do apego e da dependência emocional que sempre é facilmente confundido com amor. Se dependo da presença de outra pessoa para me sentir bem, é porque me falta algo, que espero que seja preenchido pelo outro. Nunca será, e é por isso que muitas pessoas pulam de relacionamento em relacionamento atrás de si mesmas e  nunca sossegam. Procuram  no outro o que falta em si e isso nunca será possível.

Assim, vamos imaginando nas outras pessoas ou esperando em um futuro relacionamento “perfeito” a peça que falta no quebra cabeça do meu autoconhecimento.

A grande vantagem de encontrar essa paz em si mesmo é nunca cobrar do outro essa responsabilidade, além de facilitar e nivelar sempre “por cima” as escolhas que fazemos, não só afetivamente, mas em todos os campos de relacionamento. Se não preciso, escolho melhor e sempre me relaciono de forma mais saudável. Parece óbvio, mas,  infelizmente, não é.

Os choques que as pessoas preferiram levar nesses apenas 15 minutos, mostram que preferem sofrer a ficar sós com seus pensamentos. Daí é bem fácil entender porque também sofrem em suas relações. O outro é alguém que me salva dessa sensação de inadaptação que nos faz sofrer e ativa nosso sistema como um perigo letal.

É claro que se estou morrendo qualquer um que me salve resolve meu problema, mas ninguém está doente ou morrendo por estar só. Hoje, com a internet, temos milhares de contatos na palma da mão e ter a possibilidade de conversar com pessoas on line e saber o que ocorre um tempo real virou também um substituto para a convivência.

É tão mais seguro se relacionar atrás da tela, já que nos isenta das frustrações possíveis de ocorrer em relacionamentos reais. Sempre será importante lembrar que dificilmente um relacionamento entre pessoas emocionalmente saudáveis dará errado. Vamos de um extremo a outro, sempre fugindo da dor e buscando a felicidade.

Como nosso lado instintivo é  forte!  Somos ainda mais bichos que humanos.

Pelo visto, evolutivamente, a pré-história ainda não terminou.

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*Os resultados dessa pesquisa foram publicado no Jornal de Santa Catarina na edição de 21/07/2014

Verdade e Mentira

“Quando um homem pisa no pé de um estranho

 desculpa-se educadamente.

 Se um irmão mais velho

 pisa no pé do mais moço

 Diz: “desculpe” e fica por isso mesmo.

 Quando um pai pisa no pé do filho,

 não lhe diz nada.

 A mais perfeita polidez

 está livre de qualquer formalidade.

 A perfeita conduta

 está livre de preocupação.

 A perfeita sabedoria não é premeditada.

 O perfeito amor

 dispensa demonstrações.

A perfeita sinceridade não oferece

 nenhuma garantia.”

                                              Chuang Tsu

                                                                                                                                                         mentira

O Taoísmo e o Zen têm ganhado cada vez mais adeptos no ocidente.  Dispensam escrituras sagradas e se dedicam mais a meditação deixando outras práticas como secundárias. Não se preocupam em falar de nenhum deus e buscam suplantar a mente, praticamente desprezando-a. Mas isso só é mesmo possível pela observação e entendimento de seu funcionamento. A mente é astuta, trabalha com medo, planejamento e busca tirar sempre o melhor proveito de tudo. Aspira à segurança, respeito e por isso é ardilosa.

Dificilmente é possível ser espontâneo em uma sociedade que vive pelos ditames da mente. Tudo precisa ser “pensado” e isso significa a busca de  uma estratégia para atingir o objetivo, seja qual for. A mente e a sociedade não gostam de surpresas. Tudo precisa ser conforme se espera, segundo as normas. Assim, as pessoas mais sinceras são as crianças e por isso não são levadas muito a serio. Sua sinceridade é tratada como se fossem ofensas ditas por quem não sabe o que diz. Deve ser mesmo por isso que em alguns lugares não devemos levar crianças. Elas são perigosas porque dizem o que pensam – a verdade – e isso é mesmo constrangedor.

Passados alguns anos, depois que sua inocência e sinceridade são esmagadas pela educação (domesticação) elas já estão prontas para conviver em sociedade, ou seja, já prenderam a mentir e a fingir como os demais.

Como já escrevi em artigo anterior, é praticamente impossível conviver sem mentir. Deve ser por isso que em determinados momentos da vida, quando depois de termos cumprido tudo que nos pediram e ensinaram e o sofrimento continua, alguns rompem com tudo e querem abrir mão de toda sua história em busca de uma mudança. Uma mudança que proporcione uma vida mais simples ou sincera.

As pessoas precisam se embriagar ou se deixarem ser levadas ao extremo para se permitirem dizer o que pensam e isso as sufoca, e as verdades saem aos gritos. Depois, a mente e o social voltam, pelo medo das consequências, a retomar o controle e os pedidos de desculpas vem na busca de, em primeiro lugar, dizer que as “verdades” eram mentiras ditas em momentos de destempero.

Para grandes Mestres como Chuang Tsu ser sincero e espontâneo é um pontos mais altos que se pode chegar em termos de evolução espiritual. E isso é muito interessante; ser espiritual é ser verdadeiro.

Osho diz em seu livro “O barco Vazio”:  até hoje, mais de dois mil anos depois, as “técnicas” cristãs não conseguiram que nenhum outro Jesus aparecesse. Permito-me completar, lembrando que ninguém que tenha seguidos preceitos de Sidarta Gautama tenha se tornado um novo Buda, passados dois mil e seiscentos anos de sua morte.

E, se formos ver bem, no cristianismo, por exemplo, todos ou a grande maioria dos mandamentos ou do que se considera “pecados” graves ou capitais, são coisas que não podemos fazer. Toda essa cultura baseada no “não” é limitante, tirando, portanto, a espontaneidade das pessoas.

Cabe colocar, que entendo a necessidade de limitar as ações das pessoas, já que isso tem o objetivo de criar condições de vivermos em grupo e evitar que a própria raça corra perigo. Infelizmente, devido ao precário ou quase inexistente desenvolvimento da consciência, precisamos de leis e punições, sejam dos homens ou de algum deus para nos mantermos minimamente na linha. O problema é que isso se torna necessário porque estamos sempre reprimidos, ou seja, existe uma energia que precisa ser controlada.

E aí encontramos toda contradição, já que, para ser espontâneo não posso planejar. Não temos a experiência de deixar que nossos pensamentos se tornem ações. Tudo que nos seja natural são barrados pelos conceitos proibitivos a que fomos submetidos desde a infância.

Já em seu livro* reflexivo, praticamente indispensável para o entendimento do desenvolvimento, Ernest Becker lembra: dissemos que o estilo de vida de uma pessoa é uma mentira vital…é uma desonestidade necessária e básica a cerca da sua própria pessoa e de toda sua situação. Não queremos admitir que somos fundamentalmente desonestos no que se refere a realidade, que não controlamos realmente nossas vidas. Não queremos admitir que não ficamos sozinhos, que sempre nos apoiamos em algo que nos transcende, um certo sistemas de ideias e poderes no qual estamos mergulhados e que nos sustenta.

Todas as relações que estabelecemos tem o objetivo de obtermos resultados, que nosso plano dê certo, e tenhamos sucesso no que quer que seja. Começamos isso na infância e essa é a descoberta, junto com o inconsciente, que torna Freud um marco, apesar de outros conceitos que já se mostraram insuficientes e pouco úteis em nosso tempo.

Dessa forma, vamos à medida que crescemos  nos anulando cada vez mais. Não é  atoa que os números de suicídios, alcoolismo e drogas estejam se multiplicando ano a ano no mundo. Isso pode ser interpretado pela perda da originalidade ou da sinceridade, como diz Chuang Tsu. Por isso, para entendermos seu sutra, precisamos sair da superfície e buscar sua enorme profundidade.

Escolhemos com cuidado as pessoas que pagam o preço de nossa anulação. São os filhos, empregados, pais ou aquele cônjuge ou amigo que sabemos não nos penalizarão com seu abandono. Sobre eles projetamos nossa ira e frustração pela perda de nossa naturalidade, culpando-os pelo nosso próprio desconhecimento, pelo fato de sermos obrigados mentir desde que nascemos, praticamente.

A mente medrosa e insegura tem medo de morrer e nos reduz a algo que apodrecerá. Do outro lado está o homem religioso de Jung, capaz de estabelecer um entendimento superior sobre essa triste realidade, a que parte de nós está sujeita; a de morrer e virar comida de vermes (cadáver). O problema é justamente esse, para vencer essa morte da carne precisamos transcender e os “pacotes prontos” das religiões já se mostram insuficientes. Aqui, encontramos a beleza dos ensinamentos de Sidarta, de aceitarmos as mudanças, de nos desapegarmos (não é afastamento) e pararmos de achar que algo que possamos ter nos salvará do nosso triste destino enquanto habitantes de um corpo perecível.

 Obviamente somos mais, muito mais, mas isso só é possível com a “sinceridade” de Chang Tsu, que, por ser honesta não pode oferecer nenhuma garantia. Garantir significa dizer que não ocorrerão mudanças. Impossível para a sinceridade!

A mente precisa dessa garantia, dos contratos e das promessas. Isso é ou não, outra definição para a palavra MEDO?

*”A negação da morte” – Ernest Becker ed. Record

“ O barco Vazio” – Osho ed. Cultrix

O ERRO

“Muitos de nós levam a vida presumindo que estão basicamente certos o tempo todo, sobre basicamente tudo…”

                                                     Kathryn Schulz

                                                                                                                                                        crenças

Lidamos mal com o erro, e penso que isso ocorra por não sabermos avaliar sua importância. Só o erro nos ensina e deveríamos ser mais gratos a ele. São justamente eles que nos mostram a melhor maneira de acertarmos e de entendermos o que está a nossa volta.

Mas é interessante o fato de pensarmos que, ao levarmos nossa vida cotidiana de forma natural, isso nos leva a pensar que estamos certos sobre quase todas as coisas. Partimos de pressupostos sobre quase todos os aspectos da vida, e são esses pressupostas que também chamamos de preconceitos, ou seja, temos conceitos que entendemos corretos e, a partir deles, tomamos nossas decisões.

Imagine, por exemplo, que você esteja fazendo uma viagem e não conheça o lugar onde esteja. Precisará pedir uma informação para chegar onde quer. Se muitas pessoas estiverem passando a sua volta, sua escolha sobre a quem pedirá a informação será totalmente baseada em preconceitos. Seja pelo tipo físico, roupa ou algum outro fator que será analisado em fração de segundo, sua escolha recairá sobre aquela pessoa que você pré conceba que poderá lhe dar a orientação correta.

O preconceito, portanto, é extremamente útil, mas ele é baseado em ideias que, na maioria das vezes, nem questionamos se são corretas para nós. Assim, nos dizemos contra os preconceitos raciais, por exemplo, mas vez por outra um ato ou outro pode deixar claro que isso ainda não está bem resolvido em nós. Isso porque os preconceitos agem inconscientemente em nós, o que quer dizer que são quase um movimento automático no nosso cérebro.

Mas, quando nos descobrimos errados, nos sentimos muito mal, e só nos “entregamos” quando não temos mais mesmo nenhuma saída. Até o último momento, lutamos pelo que acreditamos certo, dando justificativas que nos isentem de nos sentirmos mal por estarmos errados. Ao fim, antes de capitular, podemos dizer: tudo bem, estou errado, mas….

Para Kathryn Schulz, “em nossa imaginação coletiva, o erro não está associado apenas à vergonha e estupidez, mas também a ignorância, indolência, psicopatologia e degeneração moral. Longe de ser um sinal de inferioridade intelectual, a capacidade de errar é crucial para a cognição humana. Longe de ser um defeito moral, ele é indissociável de algumas de nossas qualidades mais humanas e honradas: empatia, otimismo, imaginação, convicção e coragem”.

Associamos nossa auto imagem a conceitos que acreditamos corretos e mudá-los não é mesmo fácil. Mas se o erro tem uma vantagem que devemos valorizar sempre é justamente permitir que nos atualizemos e possamos corrigir nossas ideias a respeito de tudo. Seria algum absurdo pensarmos que será sempre o erro que nos definirá mais verdadeiramente? Melhor que Descartes com seu “penso logo existo”, Santo Agostinho se saiu bem melhor com “fallor ergo sum”, ou seja: erro, logo existo!

O erro é sempre uma experiência própria, enquanto o preconceito será sempre uma experiência não adquirida por vivência, mas, normalmente, aprendida pela cultura ou educação que recebemos.

Poderemos passar pela ciência que é a que mais erra, sendo, portanto, a que mais busca o acerto. Seja em que ramo for, desde a terra ser o centro do universo às inúmeras vezes que o café fez mal e depois fez bem, quase todas as “verdades” científicas caíram por terra ao longo do tempo. Mas isso não tira o mérito da ciência, mas a eleva, na medida em que busca o acerto vendo que errou. Claro que isso não é tão simples, afinal, cientistas são pessoas e demoram a aceitar seus erros, que eram verdades para eles quando chegaram a suas descobertas.

Tendemos a associar todas as nossas crenças ao que entendemos moralmente certo, e por isso sempre será um ótimo exercício revermos nossos conceitos do que é certo. Isso é melhor do que somente reagirmos a situações e termos que nos desculpar depois, principalmente quando percebemos que erramos de forma nítida.  Mas pelo conceito estar arraigado em nosso inconsciente só percebemos depois.

Justamente por isso, o fato de errarmos é de grande importância; justamente por ser uma experiência. Como nos ensinou Sidarta Gautama, um dos Budas, a verdade só pode ser comprovada por termos vivido a experiência. De mais a mais, como seres tidos como imperfeitos podem acertar sempre?

Deveríamos aceitar melhor os nossos e os erros dos outros. Como psicoterapeuta, costumo dizer a meus clientes que o erro só é mesmo um problema quando não aprendemos nada com ele, e o pior, ainda repetiu e continuou a sofrer.

Podemos poeticamente dizer que quando estamos errados é como se tivéssemos uma verdade momentânea, que perdeu validade. Da mesma forma, como a evolução do homem tem mostrado em todos os campos, as verdades também são efêmeras.

De certa forma, todos estamos certos, pelo menos enquanto não somos “desmascarados” pela vida ou situações, e isso é uma boa maneira de pensar em como lidar com as pessoas que pensam diferente de nós. Tanto nós como o outro poderão a qualquer momento se perceber como errado, então por que se preocupar e pior; tentar impor aos outros nossas verdades transitórias?

Podemos ter a consciência socrática de que nada sabemos, e isso torna muito mais fácil  lidar com nossas crenças e com as dos demais. Para que discutir? Sendo o erro uma experiência individual, vai ser mesmo difícil convencer os demais do que achamos certo, não concorda? Lembre sempre que, para alguém tomar sua ideia como certa, ele terá que aceitar que a dele é errada e isso não é um exercício fácil, como já citei anteriormente.

A dúvida sobre tudo ou a certeza de nada saber, é um tipo de exercício extremamente evolutivo, afinal, para estar em dúvida e aberto a rever meus conceitos, preciso estar bem consciente e não estar muito preocupado em defender meu ego.

Nossos sentidos, que são nossa leitura de grande parte da realidade, nos enganam a todo o momento e isso é fácil de perceber. Mesmo nossa memória (ver artigo anterior sobre o assunto), já está mais do que provado que nos engana sempre, criando nossas lembranças, nos coloca diante do fato de errarmos como algo inerente a estarmos vivos.

Dizemos que gostamos e depois desgostamos, prometemos que nunca faremos algo e logo depois estamos com vontade de experimentar. Prometemos coisas que não conseguimos cumprir mesmo que na hora da promessa estejamos certos do que dizemos e assim por diante.

Aliás, penso que promessas e juramentos nada mais são que tentativas de permanecermos achando certo o que já descobriremos errado um dia, tornando o transitório definitivo.

Assim, sempre que ficamos surpresos ou espantados com algo é porque nossas expectativas e preconceitos estavam errados. Não é?

 

O presente texto teve como inspiração a leitura do livro:

Por que erramos? – Kathryn Schulz  ed. Larousse