Agenda

  • Nenhum evento

O império do Medo

“A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo”.

                                                                         Voltaire

                                                                                                                                                                                                  medo

Como em uma pequena cidade do interior, onde todas as ruas desembocam na praça, por onde pretendermos entender nossa sociedade encontraremos o medo no final da busca.

No aspecto religioso, que ainda tem grande influência na formação da cultura e da moral, já nascemos pecadores e o medo da punição divina ou de não ter o “visto” de acesso ao paraíso faz com que muitas pessoas vivam baseadas nessa dúvida; se conseguirão terminar suas vidas aptas a passar para próxima com os méritos exigidos? A condição é sofrer quase sempre e com pouca alegria, receita que dizem, fez santos ao longo da história. Nunca tenha raiva, negue seu corpo e jamais repita o bolo. Tem Alguém que sabe o que você pensa, nunca esqueça! Pensar, então, também dá medo, nos torna impuros. Assim como castramos animais por ser mais confortável para o dono, muito de nossa essência humana precisa ser negada. E o pior, é que quem deveria nos mostrar que isso é possível, derrapa todos os dias, pois esquece que é humano. É muito difícil conduzir ovelhas sendo uma delas.

Na escola, ou mesmo antes dela, ficamos sabendo da escassez e competitividade do mundo e o medo de não conseguirmos nosso lugar ao sol, de não termos poder, de não sermos admirados e respeitados pelos demais faz dessa angústia uma companheira que termina se tornando tão íntima, que acabamos nem percebendo que ela está sempre conosco e fazendo parte da nossa vida. Pensamos baseados nela e fizemos escolhas a todo momento, vendo tudo em tons de cinza, só que esse sem nenhum prazer. Também tememos que nossos pais se decepcionem conosco por não atendermos sua expectativa de como deveremos ser e fazer. É incrível como os pais “sabem” o que é melhor para seus filhos sem que nem mesmo eles tenham essa resposta para si.

Olhamos em volta e a mídia nos mostra que o sucesso e o respeito, que no fim é só conseguirmos ser “alguém” no meio da multidão, virá inevitavelmente se tivermos aquele carro, um corpo desejável (nem sempre saudável), usarmos aquela marca e nosso celular for dessa ou daquela fruta. Claro, sempre com uma casa própria com muitos metros quadrados, suficientes para nos sentirmos sós junto dos demais.  Estarmos bem não basta, tudo virá quando tivermos tudo isso e quando isso acontecer, se acontecer, diremos aquela surrada frase; “Era feliz e não sabia”.

Quando finalmente percebermos que tudo isso só é bom porque é desejo, e se é desejo é só por não termos.  Mas aí, virão outros desejos sem fim, só que agora de uma filosofia ou religião que possa finalmente encerrar essa angústia e tornará tudo supérfluo e sem graça. Quem sabe alguém que toque aqui e ali, diga umas palavras ou desvende algum mistério de sua vida milenar ou que descubra o que você pensou quando era um feto traga a grande e esperada Resposta! O problema, é que quando todas as mágicas já tiverem sido experimentadas,  a vida desse mundo já nos decepcionou. Mas o desejo nunca acaba, disfarçado de desânimo, nos dirá que no “outro” mundo, aí sim!

Depois, tememos não sermos amados por alguém de quem possamos gostar, dessa pessoa especial não nos querer seja hoje, seja um dia. Mais tarde, quem sabe, essa pessoa tão especial não será mais especial e virá o medo de não amarmos de novo. Alguns temem não ter filhos, outros temem tê-los em um mundo do jeito que está.

Pensamos que poderemos não ter sucesso profissional, não conseguirmos o dinheiro que compre a liberdade de, finalmente, podermos fazer o que quisermos da vida, sem prestar contas a ninguém. Pensamos que uma boa poupança nos protegerá da morte, podendo oferecer os melhores médicos, remédios e hospitais. Tememos as doenças que pensamos inevitáveis e receamos não mantermos o plano de saúde (ou será plano de doença?) em dia. Já imaginamos que as doenças chegarão para nós e nossos filhos desde cedo. Será?

Todos os dias, o medo leva gente às emergências dos hospitais sentindo que estão morrendo, enfartando. Síndrome do Pânico, o medo que sai do controle e lembra que ele só existe por estarmos morrendo de medo, quando a vida pensada desse jeito nos retorna a uma metáfora do útero materno. Só queremos ficar em casa. Lá, com um mundo pequeno, limitado pelas paredes, sentiremos que estaremos seguros, enquanto o mundo continuará lá fora, perfeitamente bem sem nós.

Todos esses medos nos tiram o sono, elevam o peso ou então nos encaminham para atalhos como as drogas em geral, vendidas em bares, becos ou farmácias. Substâncias mágicas que tiram o medo por encanto, trazendo momentos de felicidade em uma vida cheia de esperanças que tememos nunca se concretizem. É mesmo um milagre, não acham?

Tememos a velhice, as doenças inevitáveis e, é claro, o abandono.

Toda a “máquina” da sociedade moderna é movida pelos nossos medos. Manter as pessoas angustiadas e receosas em suas imaginações mantém todo um sistema que vive da doença, indústrias que produzem os objetos de reconhecimento e, logicamente, a estrutura que vende tudo, entregando em casa e a crédito. O negócio é sossegar agora, e depois pagamos o cartão. Mas ele nos avisa que não devemos nos preocupar, se não tiver o dinheiro, use o crédito rotativo, outra mágica que transforma tudo em três vezes mais em um ano. Milagres de multiplicação.  Incrível, não acham?

No fim, vamos acreditando que tudo isso é assim e não tem jeito. Com certeza tem Alguém que sabe e está cuidando de tudo, só pode! Melhor que tenha, pois se não tiver, aí poderá advir o pior dos medos; de ser responsável por tudo que sou e também pelo que não consigo ser.

Quem sabe Sartre tenha razão quando diz que nosso desejo fundamental e, portanto, o grande medo, é não conseguirmos “ser” para toda a existência, uma eternidade que venceria a morte. Deus, nada mais seria que a projeção desse desejo para fora de nós, como sempre fazemos com tudo que nos incomoda ou não damos conta de resolver sozinhos.

Uma mudança necessária*

– Senhor, precisamos conversar!

– Fala Pedro, você me parece ansioso.

– Sempre fui Senhor, desde a minha vida lá na Terra, quando me senti pressionado para salvar meu pescoço e neguei três vezes que conhecia Jesus, nunca mais fui o mesmo.

– Entendo, mas agora que você está na vida eterna não precisa mais ficar assim. Como aqui ninguém morre mais, não há motivo para a ansiedade. Respira Pedro, respira.

Depois de Pedro fazer a respiração que aprendeu no Yoga, ficou com o semblante mais sereno e continuou:

– O natal Senhor, não está mais dando certo. Precisamos rever.

– Como assim? Começou ontem, como  pode não estar funcionando?

– Lembre que o Senhor existe desde sempre. Dois mil anos lá na terra até que é bastante tempo.

– Essa coisa de tempo sempre me confundiu. Mas afinal, qual é o problema?

– Nossas pesquisas mostram que quase  metade dos cristãos fica triste nessa época. Como se fosse uma espécie de depressão. Chamam por lá de Christmas Blues.

– Mas porque eles ficam tristes, não entenderam minha mensagem?

– Sabe o que é Senhor, é a época do ano que aumenta a ansiedade pela quase obrigação das pessoas de se sentirem felizes. Tem uma pressão para que todos se amem e se perdoem. Alguns dizem que tem que fingir que gostam de alguns parentes e outras coisas.

– Sei, estou entendo.

– E tem ainda a coisa da morte…

– Morte? Natal não tem a ver com morte, é justamente o contrário!

– Eu sei, mas como é um encontro de família, todos lembram os que já morreram e aí fica pior. Andei vendo uns vídeos no Youtube Celestial e realmente não está indo nada bem. Tem ainda as coisas que eles se comprometeram de fazer e não conseguiram, de mais um natal que um ou outro problema continuou sem solução.

– Poxa, não sabia que estava desse jeito! Você sabe Pedro que comando o universo inteiro e a Terra é um planeta pequeno, em uma galáxia sem muita graça. Acho que preciso aumentar o número de anjos. Faça um edital.

– Mas Senhor, eu tive uma ideia.

– Olha Pedro, pelo que andei lendo a sua última ideia fez chover na primavera inteira. Pense bem antes de sugerir alguma coisa!

Pedro ficou em silêncio olhando para o chão. Pensou em dizer que todos têm maus momentos e quase perguntou sobre os dinossauros, a inquisição e as pestes, mas resolveu se calar. Tem horas que Ele fica bravo como era no Antigo Testamento e aí a coisa pega.

Respirou mais uma vez e resolveu falar:

– Pensei em mandar alguns sonhos reveladores. Como o Senhor sabe, sempre que queremos fazer alguma mudança por lá enviamos ideias. Lá eles chamam de inspiração e nos desenhos animados fazem uma lâmpada acender. Na verdade, eles já perceberam que vivem em uma espécie de escuridão.

– Mas a escuridão é natural, Pedro. Quando eu criei a Luz, era isso que queria dizer.

– Mas eles ainda são crianças Senhor. Veja o nosso departamento de pedidos; continua sempre abarrotado,  continuam precisando de nós como no primeiro dia, não fazem muita coisa sozinhos.

– Verdade, fico esperando que cresçam, mas sei que demora.

O Senhor ficou vagando em pensamentos, olhando para o vazio. Pedro, ao vê-lo pensando, sentiu um aperto no coração, mas teve uma dúvida; se Ele pensa, pode errar, ou seria uma insegurança?

Repentinamente o Senhor voltou a assumir a postura confiante de sempre e perguntou:

– Afinal, qual sua ideia, não me venha com outro dilúvio!

– Não Senhor, um já foi bastante e preciso reconhecer que os resultados não foram os esperados. Minha ideia para salvar as pessoas dessa tristeza no natal são as crianças.

– Como assim as crianças?

– Tudo começou com o nascimento de Jesus, não foi?

– Sim…

– O que eles ainda não perceberam é que o natal só funciona com crianças. Crianças não tem ansiedade, não se preocupam e vivem intensamente o presente, por isso são sempre alegres.

– Foi por isso que mandei Jesus dizer que só sendo assim eles viriam para o reino dos céus.

– Eu sei Senhor, mas eles não entenderam. Então minha ideia é mandar sonhos inspiradores de que só se poderá comemorar o natal em lugares onde tiver crianças. Dessa forma, resolvemos dois problemas; O primeiro é fazê-los entender que para estar em paz e harmonia é fundamental estar despreocupado e sem medo para confraternizar de verdade. E o outro é que temos milhões de crianças abandonadas por lá. Família sem criança é tão sem graça como natal sem criança. Meu plano é que todas as famílias sempre tenham uma criança em casa. Depois que os filhos entrarem na adolescência precisa adotar uma criança. Isso garantirá que o melhor da vida sempre estará em cada família.

– Parabéns Pedro, que grande ideia! Como pretende começar?

– Senhor, vou  mandar isso em sonho para um colunista e inspirá-lo a publicar.

– Tomara Deus que dê certo Pedro!

– Mas o Senhor é Deus…

– É mesmo, deixa prá lá, modo de dizer….

_____________________________________________________________________

* Resolvi transcrever no blog a íntegra da coluna publicada no jornal Folha SC em 22/12/2015, tendo em vista não só a data, mas pelo assunto se relacionar com os textos aqui publicados, já que muitos assinantes do blog não  terem acesso à publicação da coluna no Facebook.

Cortina de fumaça

“É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída.”   

                                                                  Clarice Lispector  –  Outros escritos

“Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber.”

                                                         Markus Zusak – A menina que roubava livros

 inconsciente

É comum dentro do processo da psicoterapia a pessoa conseguir resolver rapidamente o problema que a levou a procurar ajuda. Claro que isso não acontece sempre, afinal nada é mais imprevisível do que uma terapia, onde duas pessoas estão sempre em transformação (cliente e terapeuta). Existem obviamente situações que demandam mais tempo, mas quero me referir aqui a esse aspecto em particular.

A própria pessoa reconhece que o problema não é tão grave ou difícil (lembrando que todo problema é importante), mas tem dificuldade em entender o motivo de não conseguir resolvê-lo, ou conclui que a questão pode ser mais complexa e esse seja o motivo da demora.

Minha percepção mostra que essa “dificuldade” nada mais é que o problema em questão está sendo mantido ativo por atender a uma necessidade que está inconsciente (na maioria das vezes). Mas, afinal, qual o motivo de mantermos problemas que reconhecemos como simples no catálogo dos insolúveis em nossa vida?

A resposta é simples: os mantemos assim para não precisarmos enfrentar o verdadeiro problema, esse sim, mais difícil de resolver por sua solução, normalmente, afetar vários campos que estão estáveis na vida da pessoa e ser antevisto como muito sofrido.

Como diz o título desse artigo, é uma “cortina de fumaça” que esconde ou ajuda a nos entretermos com algo bem menos perigoso, enquanto esperamos duas coisas pouco prováveis de acontecer:

A primeira, é o dito problema se resolver sozinho, sem que seja necessário mover as montanhas que imaginamos que existem para sua solução, ou não precisemos sujar nossas mãos de sangue (é uma metáfora). Quando digo isso é por termos a ideia que nossa ação na mudança pretendida vai trazer sofrimento a outras pessoas e nos tirar alguns confortos. Além disso, sempre tem o medo da nova situação ser pior que a atual e que a mudança não teria sido um bom lance no jogo da vida. Como já frisei em outras oportunidades, dificilmente o que está ruim pode melhorar por si, enquanto a mudança traz a possibilidade de um quadro muito melhor no futuro.

Tudo que é vivo se caracteriza por ser instável, imprevisível e estar em risco, mas nossa mente detesta aventuras. Nunca esqueça que ela só gosta do “de sempre”, mesmo que esteja ruim ou esteja nos fazendo sofrer. O que se pensa nesse caso vem do ditado popular, que, como outros, estão no nosso subconsciente, como leis em nossa vida: “não se troca o certo pelo duvidoso”. Particularmente penso que se o que chamamos de “certo” é ruim, o “duvidoso”, pelo menos, abre algumas possibilidades.

Quando o caso é relacionamento tem o não menos famoso “ruim sem ele(a), pior sem”. Esse ditado afeta mais as mulheres, que na nossa cultura, infelizmente, só se explicam se estiverem acompanhadas. Parece que estar com alguém é um atestado de competência feminina, e esse “alguém” pode não ser tão bom assim. Se você é mulher e está me lendo, quero deixar claro que isso não a inclui, sei que isso não acontece com você e nem é assim que pensa, estou falando das outras…

Já no caso dos homens a palavra que comanda é a acomodação. Os homens, na sua maioria, lidam com o regular como sendo bom e mudar dá trabalho, despesas e um recomeço que, se o sofrimento não for insuportável, pode esperar uma outra oportunidade (que normalmente nunca chega).

A segunda maneira de não enfrentar diretamente o problema é uma pequena variação “mística” da primeira, só que mais absurda: entregar para “Deus” ou para o “Universo” a solução do imbróglio. Nesse modelo a situação fica risível, já que tudo fica resolvido de um jeito ou de outro.  Afinal, se a situação não muda (claro que não vai) é porque Deus não quer, e isso é um “sinal” de que se precisa continuar como está. Com certeza, tem a ver com “vidas passada” ou “carma” a ser resolvido e o sofrimento é uma purificação ou acerto de contas com a vida. Assim, meu sofrimento se torna algo útil que vai tornar minha próxima vida melhor, ou me encaminhar ao paraíso. Olha que inteligente: minha dor fica sendo uma maneira de me tornar uma pessoa melhor!

Você pode me perguntar: de que ditado vem essa abordagem confortável e de entregar para nosso deus a solução?

“Deus sabe o que faz”, ou, “Deus escreve certo por linhas tortas”. Mas, você pode preferir o inigualável: “Todo sofrimento é enviado por Deus para nos purificar e expiar nossas culpas”. Sofrer fica bom, traz vantagens e não preciso fazer nada para mudar!

Nossa inteligência não tem mesmo limites e a criatividade pode nos levar a lugares, realmente, inimagináveis!

Por isso, caso esteja acontecendo de você estar com um problema antigo, que você mesmo não consegue entender o motivo de persistir por tanto tempo, investigue se ele não está servindo para distrai-lo do que realmente seja o motivo da sua tristeza.

Isso é muito mais comum do que se possa imaginar e ninguém faz por mal ou covardia. Lembre que nossa mente não lida bem com nada que nos faça sofrer e isso sempre a deixa em estado de alerta. Nessa hora, mudar o foco e ficar olhando para “outro lado” é uma saída saudável do ponto de vista da mente.

Quando isso acontece no consultório, a pessoa sempre diz que não entende porque resolveu tão rápido essa questão que a incomodava a tanto tempo e tende a dar todo o mérito ao terapeuta. Por isso, sempre digo a meus alunos e futuros colegas que nem toda vitória da terapia é um mérito exclusivo do terapeuta, aliás,  nunca é.

Assim, uma solução rápida muito mais do que um resultado surpreendente pode ser apenas um aviso que o realmente importante e decisivo esteja por vir. O problema anterior foi removido e agora ficar-se-á cara a cara com o verdadeiro inimigo.

Como frisei, não é sempre assim e não são todos os casos, mas os consultórios, comumente, sempre tem um habitual cheiro de fumaça.

Primeira vez

 

Psicoterapia

– Então, em que posso ajuda-lo?

– Sei lá doutor, minha mulher insistiu que  precisava vir, diz que ando estranho.

– O que o está incomodando?

– Esse é o problema, não sei.

– É a primeira vez que faz terapia?

– Sim, por isso nem sei por onde começar.

– Pode começar por qualquer assunto, por exemplo, quando você me ligou para marcar esse horário estava pensando em que?

– Em nada e em tudo. Estou me sentindo totalmente perdido, mas, às vezes, irritado. Como se tivesse sido passado para trás.

– Desconfia da sua esposa?

– Não doutor! Na verdade não tem a ver com ela. Acho que meu problema é com a vida.

O terapeuta se ajeitou melhor na cadeira e pensou como esse tipo queixa é cada vez mais comum. É sempre a mesma história. Pigarreou para retomar a atenção e disse olhando por cima dos óculos:

– Como assim, com a vida? Poderia me explicar melhor? Diga exatamente o que sente, não procure palavras melhores. Estou aqui porque sou capaz de entendê-lo.

– Espero que sim. Se não der certo, nem sei o que vou fazer. Até me benzi na semana passada, tomei banho de ervas e até incenso já queimei em casa.

Suspirou longamente, pensou que precisava começar. Afinal, daqui a pouco o tempo acaba e queria sair do consultório com alguma resposta, pelo menos.

– Sempre fiz tudo certo. Quando era criança, sempre procurei ser um bom aluno para que meus pais se orgulhassem de mim. Lembro que deixei de fazer algumas coisas, brincadeiras ou travessuras que tinha vontade para não decepcioná-los. Parece que me alimentava dos elogios que recebia. Pensando hoje, parece que tinha medo que meus pais deixassem de gostar de mim. Isso é normal ou eu já era um problema desde criança?

– Mais do que você imagina, disse o terapeuta. Na verdade esse é um dos motivos que nos faz mudar sem nem termos tido tempo de sermos nós mesmos de verdade. E depois, me fale da sua adolescência.

– Bom, quando virei adolescente minha maior transgressão foi deixar o cabelo crescer um pouco e usar umas camisetas pretas. Na época não se falava em tatuagens nem brincos. Uma ou outra vez, fui ao cemitério com uns amigos na época do The Cure, lembra? O negócio era ficar triste e desencantado com a vida. Aquela coisa de gótico.

Depois de sorrir, continuou;

– Cheguei uma vez a usar uma maquiagem nos olhos, todos usavam. Mas só de imaginar a decepção que meu pai teria, limpei na hora. Sabe, nem era a surra, já que meu pai nunca me bateu, era mesmo desgostá-lo meu maior medo.

Quanto terminei o segundo grau, queria mesmo era fazer vestibular para oceanografia. Sempre adorei o mar, sabe? Quando falei disso pro meu pai, ele disse que estava surpreso com minha escolha. Que o certo era fazer vestibular para administração e cuidar dos negócios da família. Tínhamos um comércio e o sonho  dele era que eu tocasse o negócio.

– E sua mãe, disse o que? Perguntou o terapeuta.

– Disse que meu pai me amava e queria o melhor para mim. Confesso que tinha uma esperança que ela me incentivasse. Ali, percebi como ela sempre viveu a sombra do marido.

– Isso foi uma decepção para você?

– Acho que não aos dezoito anos. Pensando nisso hoje, vejo que era o que deveria esperar. Minha mãe era dona de casa, não tinha liberdade para discordar, era dependente.

– O que decidiu?

– Então, fiz o vestibular de Administração e cursei a faculdade até o final.

– Gostou?

– Não. Brincava comigo e pensava que um dia poderia ter algum negócio no fundo do mar.

Deu um sorriso amarelo, como se tivesse contado uma piada de humor negro.

– E depois?

– Conforme o script, comecei a trabalhar com meu pai e fui, aos poucos, assumindo a responsabilidade dos negócios. Ele decidiu se aposentar uns dez anos depois. Toco tudo sozinho faz quinze anos. Na verdade, não posso me queixar, me sinto até mal com esse desconforto. Mesmo não sendo o trabalho dos meus sonhos, vivo bem e pude comprar tudo que quis até hoje.

Notando que a frustração aumentava, o terapeuta resolver mudar o assunto:

– E sua vida afetiva? Teve muitas namoradas.

– Na verdade não. Como filho único, percebo hoje como eu tinha responsabilidades. Era a única chance de meus pais darem certo nessa função e tinha que atender as expectativas. Deve ser por isso que sempre fui meio quieto, na minha. Tive duas namoradas antes de conhecer minha esposa. Era a pessoa ideal para mim, lembrava muito a minha mãe em alguns aspectos.

O terapeuta sentindo o momento psicológico interviu:

– Assim você poderia “ser” seu pai?

Nunca tinha pensado por esse ângulo, e é incrível como hoje me vejo com os trejeitos dele. Será que se eu tivesse outro pai, teria me casado com outra mulher?

O terapeuta preferiu não responder, deixou que chegasse a suas próprias conclusões e pudesse, mais tarde, aprofundar a reflexão.

– Casei perto dos trinta anos,  tenho dois filhos e a mesma esposa, casa na praia, bom carro e as crianças estudam em boas escolas. Viajo para o exterior, vez por outra.

– Pelo visto sua vida é boa. Não é todo mundo que consegue o que você conseguiu.

– É boa e não é boa. Por um lado, posso dizer que tenho tudo. Por outro, parece que vivo uma história que não é minha. Na verdade, nunca quis nada disso. Nem minha esposa, que é ótima pessoa por sinal, realmente escolhi. Era só a pessoa certa com quem casar. Entende doutor?

O terapeuta não respondeu. Sustentou o olhar, dando a deixa para que continuasse.

– Quando digo que me sinto enganado é por isso. Fiz tudo que me disseram ser o certo, tudo! Só que não recebi o que esperava por ter aberto mão de um monte de coisas.

– O que você esperava? Não tem uma vida boa?

– Esperava me sentir bem, ficar feliz com o que faço, experimentar uma espécie de realização. Mas na verdade sou uma fraude, é assim que tenho me sentido ultimamente.

Depois de alguns segundos pensando, cobriu o rosto com as mãos, respirou fundo para segurar o choro.

– Não me sinto realizado, nunca vibrei com meu trabalho e tenho tido sonhos em que caio em buracos enormes, como se fossem precipícios. Minha mulher acha que devo procurar um psiquiatra e tomar uns remédios. Já não estou dormindo bem faz tempo.

– Mas você sabe o que gostaria de fazer, para se sentir melhor?

– Esse é na verdade o grande problema. Por ter fingido toda uma vida, não sei onde posso me encontrar. Tudo ao meu redor é falso, das paredes da minha casa ao saldo no banco. Nunca fui “eu” mesmo, nunca! Não quero morrer assim, desde criança nunca fui honesto comigo. De que valeu todo esse esforço? Por onde posso começar doutor?

O terapeuta não respondeu. Baixou os olhos e sentiu que havia um silêncio que precisava ser respeitado. Depois de algum tempo, fez uma pergunta:

– Que tipo de pai você é com seus filhos?

– No fundo doutor, acho que estou repetindo meu pai, dando indiretas para eles  continuarem o negócio. Ainda mais agora, depois da nossa conversa. Porque estou fazendo isso?

– Porque você está tendo com eles a mesma preocupação que seu pai teve. Esperando que essa “receita” faça com que o conforto material possa compensar o que abrimos mão.

– Vendi meus sonhos e minha identidade, não é?

– Não penso ser justo você se tratar assim, afinal, quando esse “negócio” foi feito, você não tinha condições de decidir, era uma criança ou adolescente.

– Mas não funciona, eu sou a prova disso!

– É verdade. Pense em começar sua busca  por eles.  Quem sabe, eles não têm o mapa que o leve até o lugar onde você se perdeu, onde sua identidade foi trocada, simbolicamente.

– Eu tenho cura doutor?

– O tempo acabou, infelizmente. Podemos continuar na próxima semana?

 

 

 

 

Aceitação

“Em meio ao sofrimento consciente existe já a transmutação. O fogo do sofrimento transforma-se na luz da aceitação. A verdade é que, antes de sermos capazes de transcender o sofrimento, precisamos aceita-lo.”

Eckhart Tolle – O despertar de uma nova consciência

 

“ O sofrimento é a não compreensão da dor.”

Dulce Magalhães

aceitação

Qual o limite do sofrimento?

Essa resposta é difícil e por isso penso que seja interessante refletirmos sobre ela. Muitas vezes, o sofrimento termina por irmos até o seu final, esgotá-lo. Para isso o corpo tem seus mecanismos. Noto na prática da psicoterapia que a pessoa experimenta uma melhora súbita depois de um sofrimento intenso, normalmente passado alguns dias. Isso ocorre justamente por irmos tão fundo nele que não há como prosseguir, já que nosso próprio sistema tem uma limitação, afinal, precisamos continuar vivos.

Essa também é uma espécie de técnica terapêutica defendida por alguns que tem o objetivo de viver o sentimento intensamente por um tempo curto com esse fim; de esgotá-lo o mais rapidamente possível. Do jeito como somos, preferimos sofrer longamente, pois isso nos dá, inconscientemente, essa sensação de justificá-lo.

O âmbito do sofrimento normalmente está abaixo da nossa racionalidade, justamente porque, na maioria das vezes, seu simples entendimento poderia dirimi-lo. Mas como na nossa cultura sofrer é algo que entendemos que nos purifica ou nos faz evoluir a via longa parece ser a escolhida.

Vamos analisar algo extremo: a perda (morte) de uma pessoa muito querida.

É inevitável e muito normal sentir uma dor profunda. Mesmo os adeptos do reencarnacionismo não estão isentos a ela, afinal, essa pessoa sairá de nossa convivência e não a veremos mais, nem teremos a possibilidade de estar com ela pelo restante de nossa vida.

Aqui, entra o ditado popular: “ A dor é obrigatória, mas o sofrimento é opcional”.

Mas como colocar isso em prática? É muito difícil e precisamos entender o porquê.

Em primeiro lugar, o que acontece é que aprendemos que uma forma de demonstrar amor é pelo sofrimento. Esse conceito é levado muito a sério nos relacionamentos afetivos, por exemplo, onde tendemos a avaliar o quanto gostamos de alguém pelo sofrimento que essa pessoa é capaz de nos trazer. É como fossemos cobrados em sofrer para demonstrar o quanto gostamos da pessoa que partiu.

Sejamos racionais: A morte é definitiva para o corpo e, seja por uma doença, acidente ou qualquer outro motivo, não tem como voltar atrás. O sofrimento muitas vezes vem de procurarmos respostas para perguntas como:

Por que aconteceu com ele(a)?

Não merecia, pois era uma ótima pessoa.

Por que agora e dessa forma?

Por que alguém merece passar por isso?

Essas perguntas nunca serão respondidas, já que para isso a vida precisaria ter uma lógica, um sentido que não tem. Em artigos anteriores já discutimos esse assunto. Dessa forma, ficamos procurando um sentido onde não há e isso mantém o sofrimento por longo tempo, até que a pessoa chegue à conclusão que não terá essas respostas e vai recolocando sua vida nos trilhos. Essa forma, digamos, natural, demora muito. No caso de uma morte, por exemplo, é aceito que a pessoa enlutada tenha prejuízo na sua vida por até um ano depois da perda. Somente após desse período é que se considera a necessidade de procurar alguma espécie de tratamento.

O que podemos questionar é se precisa esperar tanto tempo, se esse sofrimento não poderia ser dirimido pela simples aceitação da infalibilidade da morte. Muitos procuram em si alguma responsabilidade, se poderiam ou deixaram de fazer alguma coisa que evitaria o ocorrido.

Nesse caso, já entramos em mais um aspecto, onde o sofrimento se encontra com a culpa. Sentir-se culpado ou ficar remoendo pensamentos de que algo poderia ter sido feito, nada mais é do que encontrar finalmente uma resposta para entender essa perda: Eu fui culpado, pois poderia ter percebido ou feito isso ou aquilo.

Se, por um lado a pessoa simplifica a situação ao se culpar, por outro essa solução traz o outro problema. Já que a culpa existe, é porque algo errado foi feito e isso exige uma punição. Para isso, não precisa de nenhum juiz ou tribunal; nós mesmos nos impomos algum tipo de pena. Mais tempo passa onde essa punição é cumprida para expiarmos nosso “erro”.

Quando não é uma morte, necessariamente, mas uma perda material onde precisaremos retroceder socialmente ou abrindo mão de algum conforto, sempre vem junto um abatimento do ego que, tem sua autoimagem afetada. Quantos já foram ao limite do suicídio por terem ficado repentinamente pobres e não suportaram lidar com essa nova realidade?

Em outros casos, algum segredo vem à tona e essa descoberta afeta a imagem que a pessoa luta por defender. Daí, acontece de pensar que a morte a eximirá de passar pela responsabilização do seu ato e da mudança que provocará em seu círculo de amizades com a perda do reconhecimento que viria.

Seja qual for o caso, e poderia citar outros tantos, a simples racionalização pura e simples já teria, em tese, a força de tornar o sofrimento sem sentido ou diminuí-lo. Seja para prestar contas à sociedade do nosso amor, seja para defender uma posição ou conceito que temos de nós mesmos, as perdas em geral nos remetem a um longo período de abatimento que pode nos levar a abandonarmos caminhos ou fazermos escolhas que mudarão nosso futuro.

É claro que a dor, seja pela perda que for, até mesmo de um emprego que gostamos e que jamais imaginaríamos que fossemos nos afastar, causa um baque inicial que devemos aceitar. Mas compreender e usar a racionalização poderá ajudar a diminuir o tempo do sofrimento.

Quem sofre pouco, pode parecer aos olhos comuns como alguém insensível, que não se importa ou que não gostava tanto assim da pessoa falecida, que não dava importância ao relacionamento, etc.

Será?

Pode ser simplesmente que essa pessoa tenha optado por não sofrer, desistiu de ficar procurando respostas lógicas para perguntas que nasceram para não serem respondidas.

Seja a perda que for, não tem como não doer, e isso é normal, faz parte e como diz  Eckhart Tolle pode ajudar a transcender, ou seja,  ir além do sofrimento.  Só que isso só será possível se simplesmente aceitarmos que, por exemplo, nada nunca está sólido, seguro ou garantido em qualquer aspecto da vida.

Isso, por um lado pode gerar angústia, por outro é justamente o oposto; se é assim, que seja;  já que sofrer não vai tornar nada mais seguro ou evitar que o inesperado aconteça.

O animal que somos necessita se sentir seguro, por isso lidamos mal com as mudanças, principalmente as inesperadas ou incompreensíveis, como sabemos. Mas entender o sofrimento e ir além nunca foi coisa de bicho.

Temos um cérebro emocional e é dele que vem tudo isso. Mas nunca é demais lembrar que desenvolvemos uma nova parte, chamada Néo Cortex, que nos permite entender, racionalizar e colocar uma compreensão mais profunda.

Só que esse novo cérebro precisa de consciência para ser utilizado e precisaremos ir além do nosso emocional, muito automático, reativo e programado desde o dia do nosso nascimento.

No final, aceitação é muito mais do que dobrar os joelhos diante do desconhecido, pode ser simplesmente aceitarmos que tem coisas que, simplesmente, não devemos saber.