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A última desilusão

 

Ficou paralisada diante da tela do computador.

Nunca dá para dizer que algo é inacreditável, já que se acontece, torna-se necessário acreditar. Lutar contra a realidade não dá, é um romantismo placebo. A notícia teve o efeito de uma grande desilusão, mais uma.

Mais de cinquenta anos juntos! Como pode?

De uns tempos para cá, as uniões estão sofrendo um golpe atrás de outro. Isso não faz bem para as pessoas, nós precisamos acreditar que os compromissos podem durar para sempre. O amor precisa ser invencível! Precisa!

 Tem palavras que deveríamos tirar do dicionário; para começar, todo e qualquer juramento e “para sempre”. Jurar, no fim das contas, é prometer que nunca mudaremos, e o que é pior, independente das circunstâncias. Isso não é possível!

Talvez o problema seja mesmo falta de experiência. Quem pediu para jurar, algum dia jurou para alguém de carne e osso?

Tem juramentos que não tem graça. Sem conviver é fácil!

Isso de estarmos sempre mudando tem dois lados; não existe nenhuma condenação, por outro, sei lá quem vou ser e o que esse que serei pensara e irá querer da vida?

 Isso tira a tranquilidade, dá uma ansiedade de um futuro incerto. Por outro lado, que graça teria um futuro certo? Se nunca mudássemos, gostaríamos sempre da mesma coisa…chato por um lado, já que nunca conheceria coisas novas, seguro por outro.

Que confusão!

Melhor não pensar. Mas a cabeça não para de falar.

A vida não está mais nos dando os exemplos de que é possível, que dá para, mesmo mudando, gostar de estar sempre junto.

O Willian e a Fátima?

Tantos filhos, sucesso, dinheiro, fama. Mas o tempo, ou a previsão do tempo mudam tudo! Jamais se poderia imaginar!

Mesmo um homem sério pode se abalar e as esperanças das pessoas comuns sofreram um duro golpe.

Como ele pode deixar de gostar dela? Tão simpática, sempre sorrindo!

Será que ela pode tê-lo cansado? De tanto sorrir?

Mal tínhamos nos acostumado com esse duro golpe, quando de repente, a pá de cal: O Brad e a Angelina, e agora?

Ela que sempre é muito decidida, mais uma vez tirou da sua vida tudo que poderia, mesmo que somente um dia, vir a incomodá-la. Dos seios ao Brad, a mesma regra. Não teve dó.

Ele pediu para voltar e ela irredutível. Diz que não quer mais e até apareceu na internet que bloqueou o telefone para não receber chamadas dele.

Como uma mulher pode não gostar de receber ligações do Brad? É o sonho de todas, menos dela.

O que ela sabe que não sabemos?

Pode alguém tão perfeito ter defeitos? Seria a perfeição uma expectativa que nos mantém motivados?

 A realidade não ajuda. Por isso não vou a palestras motivacionais, pensou ela, fico toda empolgada e dois ou três dias depois, o mundo não percebeu meu entusiasmo e volta a ser como sempre foi. Dá até ressaca, que nem bebedeira.

Decepção, mais uma!

Mas mesmo o Willian e Fátima, o Brad e a Angelina não ficaram cinquenta anos juntos. Chega um tempo que, mesmo que esteja ruim, as pessoas ficam pela companhia. No fim sempre foi uma grande amizade, temperada com carinho e uma briga, vez por outra. Mas depois de mais de meio século, os laços deveriam ser tão fortes que não dá para imaginar um sem o outro. Dias atrás saiu a notícia que um casal que estavam juntos a mais de sessenta anos morreram com horas de diferença; um de doença e o outro, por não querer ficar nesse mundo sozinho.

Que lindo, o amor vencendo a morte!

Mas como eles foram se separar nessa hora? Será que não perceberam que o casamento está sofrendo duros golpes? O que custava pensar no quanto isso é importante para as pessoas continuarem a acreditar que pode dar certo, para sempre? Depois de cinquenta anos, recomeçar?

Agora não acredito em mais nada!

Levantou e foi fazer o almoço, secando as lágrimas com o avental.

Na tela do computador continuava estampada a notícia: Bob’s e Ovomaltine se separaram. Mal terminaram o e Ovomaltine anunciou que vai ser só do MacDonald’s.

Os relacionamentos não são mais os mesmos!

Que pena!

 

 

 

Quatro linhas

Crônica publicada no Jornal Folha SC em 19 de Janeiro de 2016

O bilhete ainda estava sobre a mesa no mesmo lugar que quando chegou em casa.

Já tinha lido dezenas de vezes na esperança de estar tendo um sonho. Agora sentia uma exaustão, como se tivesse participado de uma maratona sem nunca ter corrido antes. Esse cansaço, pensou, só pode ser o esforço desses últimos anos para que a relação desse certo. Sentia um misto de tristeza, mágoa e um alívio que parecia não combinar com os outros sentimentos.

O esforço terminou, mas de nada adiantou.

Quando começou o namoro ele havia prometido a si mesmo que dessa vez daria certo. Tinha aprendido nos relacionamentos anteriores a dar mais atenção e ser menos egoísta. Suas “ex” tinham as mesmas queixas e se deu conta que o problema era mesmo ele.

Mas e agora? Onde errou?

De uns tempos para cá, sentia que ela estava mais distante e desmotivada. Nada que fazia era suficiente, qualquer mínima coisa servia para uma insatisfação rancorosa. Procurou leva-la mais para sair, propôs viagens e percebia que quanto mais tentava, mais fria ela ficava. Quando ela começou com evasivas para não fazer planos para o futuro, uma sensação de perda começou a ficar cada dia mais forte.

Um amigo mais experiente com quem conversou, disse que ele estava exagerando com tantos cuidados e agrados,  e que isso fazia mais mal que bem. Lembra-se de ter argumentado que carinho e zelo demais não poderiam ser um problema e que essas atitudes eram provas de amor e ela saberia valorizar.

Parece que o amigo estava certo.

Só conseguia pensar agora que ele foi de um extremo a outro; se importava pouco e agora demais. O resultado foi o mesmo. Como é difícil?

Respirou fundo e ganhou forças para levantar da cadeira e foi na direção do quarto. As roupas, perfumes e bijuterias não estavam mais. Só um frasco de perfume, ainda na caixa, estava no centro da penteadeira. Foi o que ele havia dado de presente na semana passada, o preferido dela. Chegou à conclusão que nesse dia ela já tinha decidido ir embora.

– Mas por que não falou comigo? Gritou sozinho no quarto diante do guarda roupa vazio.

Lembrou-se do bilhete. A  resposta poderia estar lá, não diretamente, mas nas entrelinhas.

Voltou para a sala, pegou o papel e jogou-se no sofá. Leu novamente:

“Vou embora. Era para ter falado com você nos últimos dias e não deu, então vai por aqui mesmo. Já não sou mais feliz e não tenho esperança que isso mude. Espero que entenda e não me queira mal. Você é boa pessoa, mas preciso respirar. Tenho certeza que serás feliz no futuro.”

Nem assinatura havia. Como se o bilhete fosse apenas uma formalidade. Parece que ela precisava sair correndo. Na verdade ela não tinha motivos e esse foi o motivo; ele fez pelos dois e ela não precisou lutar por nada. Gostar só pode estar ligado a algum tipo de sofrimento, de luta e conquista.

Olhou em volta e reparou que todo apartamento havia sido decorado por ela. Não havia nada do gosto dele ali. Pensou nela o tempo todo e deixou que isso acontecesse para que ela nunca tivesse queixas, como um mundo perfeito. Perfeição é o que se persegue e só é conseguida com alguma espécie de erro. Mundos perfeitos fazem parte da fantasia.

Ligou para o amigo e contou-lhe o que aconteceu. Do outro lado da linha, um silêncio respeitoso esperou até que ele conseguiu controlar a emoção. O amigo apenas disse:

– Venha até aqui e vamos tomar um vinho. Saia de casa, ficar aí não ajuda em nada.

Desligou e foi tomar um banho e percebeu o silêncio que agora seria seu companheiro junto a toda essa decoração que teria que trocar. Sentiu raiva pela primeira vez.

Antes de sair pegou novamente o bilhete e só conseguiu pensar que todos esses anos terminaram em quatro linhas. Parece que sonhou sozinho todo tempo.

Apagou a luz e saiu.

Quando entrou no carro, lembrou que havia deixado o bilhete na mesa e se questionou do motivo de não tê-lo rasgado.

Aquela frase não saia da cabeça: “vai por aqui mesmo…”.

Ficou com raiva pela segunda e última vez.

Amor e Ódio

“É como um pêndulo de um relógio. O pêndulo vai até a esquerda, a extrema esquerda, então, para a extrema direita… Aparentemente ele parece estar indo para a esquerda, mas ele está gerando impulso para ir para a direita.

Assim é na sua vida. Quando você ama uma pessoa, você está gerando impulso para odiar a pessoa. Eis porque a pessoa a quem você ama e a  que você odeia não são duas pessoas diferentes”.

                                       Osho – Teologia mística

 

“Nascemos com necessidades, essas necessidades nunca serão inteiramente supridas, mas amamos nada mais que nossas necessidades.

 As necessidades quase sempre aparecem inexplicavelmente ligadas à raiva, em geral dirigidas a alguém que as evoca sem satisfazê-las plenamente”.

                                          Laura Knipis – Contra o Amor

                                                                                                                                                                                                                amor e ódio

Como pode o amor se transformar em ódio?

Na verdade, tudo que é uno se manifesta de forma dual, amor e ódio são as duas maneiras de expressar uma mesma coisa. Como alguém que amamos (ou pensamos isso) pode ser alguém que nos  gere ódio, raiva ou decepção algum tempo depois?

Muitos estudiosos da psicologia defendem a tese que estamos nos projetando todo o tempo na outra pessoa. Como padecemos da falta de autoconhecimento, o que vemos a todo instante no outro nada mais é do que  nós mesmos. É como se  a outra pessoa fosse um espelho onde me vejo o tempo todo. Como a função  do espelho é apenas refletir uma imagem, oscilamos tão bruscamente de sentimento ao nos vermos por vários ângulos.

Podemos até arriscar dizer que o que chamamos de “gostar” ou “amar” nada mais  são que as nossas próprias qualidades que estamos recebendo de volta desse espelho chamado relacionamento. E aqui não falo somente dos relacionamentos afetivos, mas entre amigos, pais e filhos e tudo mais.

Quando, porém, vemos no outro aquilo que não gostamos em nós, que afeta a imagem que temos de nós mesmos, o sentimento se transforma em ódio e no momento em que isso acontece parece que estamos diante de outra pessoa. A identificação é tão profunda que o “espelho” reflete uma imagem distorcida e, em momentos assim, dizemos até que a pessoa em questão estava transfigurada.

Como que alguém que conhecemos há anos (e, às vezes, são muitos anos) pode nos surpreender? Como pode acontecer de ficarmos chocados depois de tanto tempo?

A resposta só pode ser uma: realmente não conhecíamos a pessoa, pensávamos isso. A surpresa de ver o outro tão diferente advém de, na verdade, nunca termos realmente “visto”  como ela realmente é. Víamos a nós mesmo o tempo todo e não percebíamos.

Quando estudamos o fenômeno da “Sombra” fica mais fácil de entendermos esse processo. Segundo esse conceito, só podemos ver no outro aquilo que somos ou poderemos ser.

Observo na prática clínica com frequência essa mudança brusca de quadro quando estamos trabalhando com a terapia de casais. É comum a frase: “Nunca pude imaginar que ele(a) poderia agir assim. Depois de tantos anos…”

Toda a expectativa que desenvolvemos em relação a outras pessoas sempre tem uma base, que sou eu mesmo. Expectativa significa esperar que a outra pessoa aja como eu em determinada situação. Dessa forma, estou novamente diante do espelho esperando do outro a minha ação. Assim, não fica difícil entender como as decepções são algo que certamente ocorrerão e só o que muda é o tempo que isso vai levar.

É muito difícil não agir assim, exigiria um tamanho conhecimento de si que não está disponível para a maioria dos mortais. Torna-se necessário um tamanho conhecimento do conteúdo reprimido que carregamos desde a formação do nosso Ego que precisa uma busca de, quem sabe, uma vida inteira.

Assim, o que podemos fazer para evitarmos tudo isso?

Penso que o primeiro passo é tomar consciência de como as coisas são. Uma boa autoanálise já ajuda. Para tanto,  basta respondermos seriamente algumas perguntas:

– O que admiro na pessoa?

– O que me irrita nela?

– Em que momento tenho vontade de uma aproximação?

– Quando prefiro estar a quilômetros de distância?

Procurar ver o outro  (e lembre que isso vale para todos os tipos de relacionamento), como alguém realmente novo, que não conheço e quero verdadeiramente descobrir. Claro que essa busca pode trazer boas e más notícias, mas veja por  outro lado; é bem melhor a verdade que a ilusão.

Pode ser um dia, oxalá, possamos nos responsabilizar pelo nosso gostar ou não gostar de alguém, por aquilo que o outro realmente é ao invés do que esperamos que a pessoa seja.

Caso contrário vamos de relacionamento em relacionamento nos encontrando e desencontrado de nós mesmos, sem termos tido a oportunidade de realmente conhecermos aquela pessoa que cruzou em nosso caminho, voluntária ou involuntariamente, como no caso da família.

Quando os orientais dizem que vivemos uma grande ilusão o tempo todo (maya), é lícito pensarmos que tem a ver com isso também, ou seja, nos iludimos vendo a nós mesmos quando deveríamos ver o outro. Ficamos projetando nossos sonhos internos o tempo todo para fora, criando uma realidade particular vista apenas pelos olhos de quem somos.

Justamente por isso a frase; “jamais poderia imaginar…” tem um profundo significado. A situação não pode ser imaginada justamente por isso, não faz parte da minha realidade interior. Vez por outra a vida nos assusta, tirando-nos do sonho da imaginação do dia a dia quando constatamos que alguma coisa não foi como imaginávamos ou pensávamos.

Portanto, tanto o amor como o ódio é uma só coisa; aquilo que as pessoas que estão o tempo todo me mostrando; quem sou, minhas qualidades e meus defeitos.

Para muitos místicos essa nossa identidade além do ego é um imenso vazio. Para o Zen, isso é chamado de “ninguém”. Enquanto acharmos e nos identificarmos com esse alguém que pensamos ser, chamado de Ego, também pensamos que não somos a nossa Sombra e vamos vivendo na escuridão, compartilhando a vida com pessoas que imaginamos ser algo, de  quem gostamos ou não.

Isso, no final, é uma grande injustiça.

Quem sabe, só no pensamento, quando nos perguntarem que somos, nosso nome ou coisa parecida, respondêssemos:

– Sou ninguém.

Dessa forma, poderemos ir, aos poucos, abrindo nossos olhos internos para nosso Ser inteiro, única maneira de podermos realmente ver quem está na nossa frente.

O Ciúme nos relacionamentos

Como homem ciumento eu sofro quatro vezes: por ser ciumento, por me culpar por ser assim, por temer que meu ciúme prejudique o outro, por me deixar levar por uma banalidade; eu sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum

Roland Barthes – Fragmentos de um discurso amoroso

Será que é mesmo verdade a ideia de que um pouco de ciúmes faz bem aos relacionamentos?

Como definição, recorri a literatura psiquiátrica que assim define o ciúme:

“O ciúme pode ser um conjunto de emoções desencadeadas por sentimentos que de alguma forma ameaça à estabilidade ou qualidade de um relacionamento íntimo valorizado, tendo em comum três elementos, a saber: ser uma reação frente a uma ameaça percebida, haver um(a) rival imaginário(a) e eliminar os riscos da perda do objeto amado”.*

Existe uma linha tênue que separa a certeza (fatos), do que se acredita e o pior; as fantasias. A pessoa ciumenta pode transformar uma dúvida, ou até mesmo uma imaginação em uma certeza. Quando o ciúme se instala, o trajeto para as verificações obrigatórias como: onde esteve e com quem esteve, abrir correspondências, verificar bolsos (bolsas), marcas e cheiro em roupas, telefone, etc., é muito curto e rápido. Isso é claro, além de visitas inesperadas, ligação de madrugada ou em horários impróprios, alegando “saudades” ou o já nem mais tão poético: “queria só ouvir sua voz…”.

 Quem está com ciúmes em um estágio mais avançado sempre está à procura de alguma evidência que confirme suas suspeitas e nada muda o quadro que só vai piorando com o tempo, já que nada fará terminar esse processo. O fato de não ter ainda encontrado a evidência não traz a dúvida, mas só que o outro (a) ainda está conseguindo esconder seu relacionamento ou flerte paralelo.

Evidente que com esse tipo de comportamento o companheiro (a) começa naturalmente a ocultar, por exemplo, os elogios que recebe, presentes, telefonemas, etc., com o objetivo de impedir os acessos raivosos e as afirmações de que algo está ocorrendo. Assim, começa a fazer parte do relacionamento um nível de tensão que inevitavelmente corrói a relação já que não há sentimento que possa suportar uma pressão diária. A pessoa com ciúmes sempre é uma vítima, já que sua tranquilidade e confiança em relação ao outro nunca depende dela. Já sabemos que a vítima tem poucas possibilidades de mudança, justamente por isso.

No nível patológico observa-se um desejo voraz de ter total controle sobre a vida do parceiro(a) o que inclui um dos grandes sinais da patologia, que pela sua total falta de lógica chega a ser engraçado;  que é sobre os relacionamentos anteriores do parceiro(a), com ruminações constantes e sem fim sobre uma época em que, muitas vezes, o casal nem se conhecia ainda. Nessas horas, uma série de emoções são experimentadas com ênfase na ansiedade, raiva, insegurança, culpa, aumento do desejo sexual (como objetivo de “segurar” o parceiro(a), mostrar que é melhor do que a (o) ex ), vingança, etc. Tudo isso com bruscas oscilações de humor, uma série de arrependimentos pelas atitudes impensadas e promessas quase nunca cumpridas de melhorar o quadro. É como se as atitudes irrefletidas fizessem parte de quadro alcoólico ou drogas e depois, quando vem a “ressaca”,  aparecem as desculpas e as justificativas que tudo é por amor…

Não tenho dúvida, pela experiência profissional, que existe uma estreita relação do ciúme com baixa autoestima. Esse sentimento, muitas vezes até criado pelo parceiro (a), que com críticas diárias, baseadas na segurança que o outro oferece, vai trazendo uma certeza de que a pessoa não tem condições de ter um relacionamento saudável, de que somente seu parceiro pode suportá-la (o) e, é claro que pensando assim, essa pessoa torna-se fundamental para minha felicidade. Perde-la? Nem pensar! Só que com um quadro de baixo amor próprio o que era um relacionamento vira uma dependência. Amor pressupõe independência, dependência é doença emocional.

Por isso nunca é demais lembrar que todo o controle está ligado ao medo e a insegurança!

Muitas vezes as pessoas buscam provocar ciúmes no parceiro (a) como forma de medir o interesse e até mesmo fazê-lo (a) sofrer um pouco do que a pessoa passa. E um jogo começa com o resultado já sabido: os dois são derrotados!

Outra ideia decorrente do ciúme é a quase certeza de que qualquer pessoa pode ser mais interessante e ”roubar” meu objeto de amor. Dessa forma surge as proibições, o afastamento dos amigos que possam oferecer algum risco, trazendo o casal a um enclausuramento social que também vai acelerando o desgaste da relação.

Dentro da prática da psicoterapia e da psiquiatria é sempre importante avaliar a racionalidade, o quanto o ciúme está interferindo na qualidade de vida. O quadro é considerado mais patológico quanto mais a pessoa sofre. O que não quer dizer que a preocupação com a fidelidade não possa existir, mas o como se lida com ela é que pode caracterizar um problema. Normalmente os quadros mais graves de ciúme tem estreita relação com o transtorno obsessivo-compulsivo (toc) e com a dependência química, onde ela pode chegar ao que se chama de ciúme delirante, que nada mais é do que a presença de pensamentos obsessivos (paranoicos) e comprovadamente infundados (reconhecidos nos momentos de lucidez), mas tratados pelo doente como se verdades fossem e tendo as respectivas reações físicas e emocionais.

Tudo, no final, passa pela ideia de que perco meu valor pessoal se meu objeto de amor (?) não estiver ao meu lado, fico sendo “menor” sozinho (a) e nunca mais poderei ter alguma expectativa de ser feliz sem essa pessoa compondo o meu Eu.

Todo o relacionamento minimamente saudável é composto por duas pessoas que se respeitam individualmente em primeiro lugar, e o outro depois. Quando coloco alguém, relacionamento, etc., acima de mim, torno-me dependente e isso está longe de ser saudável e toda a doença continuada sempre leva a morte do organismo.

Assim posso responder a pergunta que inicia esse artigo; não acredito que quando uma pessoa sofre por ciúmes isso possa fazer bem ao relacionamento. Não escolhemos alguém para sofrer por nós ou sofrermos por ela. Isso vem de mais um dos paradigmas doentios a que fomos submetidos: que o amor está ligado ao sofrer, e que sofrer é prova de amor. Enquanto esta regra estiver vigendo, a maneira como medimos o quanto somos amados e amamos estará baseada em dor, angústia e muita tensão.

Nesse artigo trato do ciúme não comprovado por fatos. Quando realmente aconteceu algo que fundamenta o ciúme a abordagem é outra, mas também bastante fundamentada na valorização pessoal e auto imagem, mas seria assunto para um artigo específico.

*http://www.psiqweb.med.br

A Questão da Fidelidade (1ª Parte)

Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.
Machado de Assis

Meus amigos, esse assunto que vou tratar hoje é controverso, vai ser extenso, mexe com muitos paradigmas, mas já que, pelo visto, você já leu até aqui e pretende continuar, peço que se desarme das crenças tradicionais e reflita sobre o tema de forma isenta. O livro que indico no final desse artigo como uma leitura complementar foi escrito por um casal de biólogos, baseado em critérios científicos, os demais pontos fazem parte da história e podem ser lidos em obras de psicologia evolutiva, história, antropologia e afins.

Em seu livro “O Mito da Monogamia” David Barash e Judith Lipton mostram através de seus estudos e observações que, nós, humanos somos poligâmicos*, ou seja, nossa natureza mais essencial nos remete a termos relações sexuais com diversos parceiros durante a vida. Para isso não precisa ir longe nem estudar tanto como eles fizeram, basta observar os nossos antecessores símeos. Há historiadores que defendem a tese de que isso foi assim (poligamia) por um longo tempo em nossa história evolutiva. Acontece que, como sempre, tem pessoas mais avançadas, que enxergam longe, e que começaram a observar que várias crianças nasciam com deformidades de vários tipos, e uma observação bem apurada demonstrou que, na maioria dos casos, era o resultado do “cruzamento” de pais com filhos ou irmãos com irmãos. A partir daí criou-se o que hoje se chama de casamento, que mantém desde lá os mesmo critérios de proibição; não podemos nos casar com nenhum de nossos pais ou irmãos. Evidentemente que isso depois passou a fazer parte das religiões primitivas, já que para impor uma norma como essa, precisava ser algo vindo de Deus. Dessa forma, o medo da punição divina fez com que a idéia fosse logo implementada e o mandamento diz que “não cobiçarás”, ou seja, isso é tão verdadeiro que não se pode nem pensar….

Assim o casamento trouxe consigo a proibição do sexo antes de sua realização, o que ajudou a criar a profissão mais antiga do mundo que é a prostituição – que só existe pela natureza poligâmica. Nos tempos antigos esse “serviço” era oferecido apenas aos homens, mas com evolução dos tempos, os garotos de programa já nem são mais novidade.

Não resta dúvida que a ideia do casamento ajudou não só a higienizar o processo reprodutivo como também fortaleceu essa união que passou a ser uma família, que de certa forma já existia antes, já que os pais protegiam suas crias, assim como fazem várias espécies de animais. Com o tempo, o casamento passou também a ser interessante no aspecto econômico, já que ajudou famílias a unirem-se por esse meio e aumentar suas riquezas e influências, mas não é o nosso assunto agora.

Posto isso, vamos a uma importante questão que é a diferença entre amor e paixão. Noto com freqüência em minha prática profissional as pessoas confundirem essas duas situações, o que acarreta muitos problemas. A paixão* faz parte do processo reprodutivo humano, portanto, muito ligada aos instintos. Não fosse por ela, o planeta ainda estaria deserto. Dentro da psicoterapia a pessoa apaixonada sempre é vista como alguém que não está de posse de todas as suas faculdades. Isso agora já está mais do que provado em estudos de imagem que mostram que, quando diante da sua paixão, as áreas do cérebro ligadas ao julgamento e análise simplesmente deixam de funcionar. Existe uma idéia onde a pessoa não se imagina feliz sem a presença da sua paixão e tudo gira em torno disso. A pessoa apaixonada se alimenta mal, dorme pouco e está sempre em estado de ansiedade. Durante esse período a freqüência sexual é muito grande e essa foi mesmo a idéia da natureza. Estudos mostram que esse estado “alterado” tem, em média, uma duração de 1 a 3 anos. Normalmente a pessoa apaixonada vive uma monogamia, já que existe toda uma mudança na química cerebral e em todo o corpo mostrando que só existe aquela pessoa no mundo e que a felicidade só será possível com ela, mas isso passa… A paixão, portanto, é um sentimento exclusivo, já que não se apaixona por duas pessoas ao mesmo tempo.

Terminada a paixão, a relação pode evoluir para uma estabilidade, onde a agitação dá lugar a uma convivência mais tranqüila que pode até se transformar em amor, que é mais calmo, com o incremento da convivência, cumplicidade e uma menor freqüência sexual se comparada ao período anterior. Como é muito bem dito, o amor é um sentimento exclusivo dos seres humanos e nos torna quase divinos. Todavia o amor é um sentimento inclusivo por sua própria natureza. Se somos convidados a amar a todos, isso também vale para a questão afetiva (é ai que se confunde com a paixão). O que quero dizer é que não é anormal a possibilidade de se amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Pode-se amar a pessoa “A” pela sua ternura, companheirismo e a pessoa “B” pela sua sensualidade e temperamento, por exemplo, e se pensar que poder-se-ia casar com qualquer uma das duas (não simultaneamente, claro) e sermos felizes. O que não significa uma atitude de manter-se em relacionamentos paralelos, mas que isso é um aspecto de nossa natureza humana.

Porém não é difícil observar que a maioria das pessoas foram geradas durante o período de paixão, cumprindo a finalidade que a natureza lhe destinou. O que ocorre é que depois voltamos a uma certa normalidade (o amor ou final do relacionamento) que para os cientistas é o retorno à natureza poligâmica.

É sempre importante lembrar que as mulheres tem sido reprimidas desde sempre em relação a sua sexualidade, afinal vivemos em uma cultura patriarcal e, portanto, foram os homens que fizeram as leis e escreveram até mesmo os livros sagrados de todas as religiões, legislando sempre em causa própria. Isso começou a ser revogado com a participação feminina no mercado de trabalho e a invenção da pílula anticoncepcional, dando liberdade sexual à mulher sem o risco de gravidez.

O que quero enfatizar é que depois da paixão, pode-se, por motivos diversos, sentir-se atraído por outra pessoa sem querer dizer que não se goste ou ame aquele que está conosco. Cada pessoa tem critérios diversos que podem tornar alguém atraente para si, sem prejuízo de um sentimento já existente por outrem. E esses critérios normalmente mudam durante a vida. Isso não é nenhum erro, mas acontece justamente pela natureza poligâmica do “bicho homem” enquanto espécie, seja do gênero masculino ou feminino. Noto que muitas pessoas questionam seus sentimentos ao sentirem-se atraídas por outra pessoa, nada mais comum, já que os hormônios funcionam independentes da vontade. Porém, nessa hora, é importante lembrar que se fez uma escolha e, com ela, suas conseqüências.  Quero encerrar essa primeira parte dizendo que, apesar de nossa natureza poligâmica, a escolha por uma conduta monogâmica é perfeitamente possível, desde que saibamos que ela nos exigirá esforço e atenção, afinal a convivência diária traz os desgastes naturais como a rotina e os problemas do dia-a-dia. Penso que manter uma relação monogâmica torna-se muito mais fácil quando enfatizamos suas vantagens comprovadas como: mais tempo de vida, hábitos mais saudáveis, recompensas afetivas mais intensas (como filhos, por exemplo) e tantas outras, mas tendo sempre em mente que por não fazer parte dos nossos instintos, precisamos cuidar disso com carinho e atenção. Esse esforço faz parte de nossa capacidade única que temos como seres humanos que é a de transcender a nossa parte instintiva, já que como muitos dizem, somos meio bicho e meio deus. Nenhum outro habitante desse planeta tem essa possibilidade. Porém, como o ser humano sempre está aberto a todas as possibilidades, também não é um problema a pessoa optar por um estilo de vida sem um relacionamento monogâmico, sentindo-se bem consigo e com a vida sem estar necessariamente casado(a). Saber viver só também tem suas vantagens e penso sempre ser a condição inicial para se viver em harmonia com alguém. Quando pensamos que só seremos felizes na companhia de outra pessoa a tendência é desenvolvermos relacionamentos baseados na insegurança e no medo.

Continuaremos…

*A poligamia aqui não é tratada sob o enfoque de relações simultâneas do ponto de vista sexual, mas de desenvolver interesse por mais de uma pessoa durante a vida.

*A paixão (do verbo latino, patior, que significa sofrer ou suportar uma situação dificil) é uma emoção de ampliação quase patológica. O acometido de paixão perde sua individualidade em função do fascínio que o outro exerce sobre ele. É tipicamente um sentimento doloroso e patológico, porque, via de regra, o indivíduo perde parcialmente a sua individualidade, a sua identidade e o seu poder de raciocínio. Fonte: wikippédia

 

*Para saber mais: O Mito da Monogamia – David Barash , Judith Lipton