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SUFISMO

sufismo

“ Falo com meu amor interior e digo: por que tanta pressa?
Sentimos que há algum tipo de espírito que ama os pássaros, os
animais e as formigas – talvez o mesmo que deu a você uma cen-
telha no útero de sua mãe.

Você acha lógico estar andando inteiramente
órfão agora? A verdade é que você mesmo se afastou e
decidiu ir sozinho para a escuridão. Agora está emaranhado em
outros e esqueceu que um dia já soube, e é por isso que tudo que
você faz tem em si algum tipo de falha.”
Kabir

sufismo

Falar sobre sufismo é falar de um caso de amor à vida, da alegria de ser e estar consciente e sem medo dessa aventura que é viver. Muitos são sufis sem necessariamente terem sido iniciados diretamente, mas porque seu jeito de sentir a existência os torna assim. Buda era um sufi, Cristo e Maomé também. Mais do que um método, o sufismo é uma maneira de viver. Apesar de ser conhecido como a corrente mística do islamismo, já existia antes de Maomé.

O Sufismo pertence ao milenar grupo de “Escolas da Tradição”, ou seja, são escolas que trabalham para desenvolver a consciência de seus membros com métodos comprovadamente eficientes, alguns milenares, outros adaptados ao que de mais moderno a ciência nos traz. Nesse ponto o Sufismo é único, pois está sempre aberto e em movimento. Em artigo anterior, já falei o sobre o Zen Budismo que, para mim, são as duas Escolas mais eficientes por serem simples e diretas em seu objetivo, cada uma a seu estilo.

O Sufismo é um mundo e não uma visão de mundo, busca a transcendência sem ser uma filosofia de transcendência. Nesse ponto é importante entender o que é “transcendência”. Aqui no ocidente significa algo que não é desse mundo, enquanto que para o oriente, logo, para o sufismo, significa algo que é além do pensamento, e isso faz toda a diferença. O que importa não é diretamente chegar a Deus, mas o caminho até Ele. Muitos sufis não falam de Deus, assim como Buda não falava, mas mostram que a “estrada” até Ele é o que realmente transforma!

Está longe de ser especulativo, porque é prático, com os pés bem fincados na terra, tendo a ação no mundo como meta. Também não é um sistema, na medida em que respeita cada membro, dando-lhe o tempo necessário para ultrapassar etapas, respeitando, portanto, a individualidade. Importante lembrar que todo um sistema busca uma explicação seja para o que venha a se propor. O Sufismo não é assim porque sabe que a explicação está dentro de cada buscador. Portanto, respeita esse Mistério que somos. Como diz Bhagwan Shree Rajneesh, “e’ como um dedo apontando para a lua, o dedo não é a lua, mas nos mostra a direção”.

Esse “método”, se assim podemos chamar, passa pelos contos, poesia, música e silêncios que acompanham os encontros e práticas pessoais. São indícios, favorecem insights, lampejos, não para tornar o “desconhecido” conhecido, porque dessa forma, estaria impondo verdades, mas para que cada um mergulhe em seu próprio Mistério. Os contos, poemas e histórias não são filosóficos, mas indicações (dedos que apontam) e que, além de uma profunda mensagem para reflexão e ensinamento, respeitam, suavemente, o momento de cada um, como uma semente que plantada corretamente escolhe a melhor hora para brotar com vigor.

Os sufis gostam de sentar, conversar e buscar o entendimento escondidos nessas estórias, de pensar livre e profundamente reunidos em um círculo, imagem mais antiga de Deus.

Aquela estória que foi tema de algum encontro, entendida naquele momento, tempos após ganha outro significado, outra profundidade. Por isso, tem por séculos, alavancado consciências e despertando buscadores.

Outras escolas (a maioria delas) têm seu foco na mente, vencê-la e transcendê-la, como o Zen, que é a Escola dos Samurais. O símbolo dos Sufis é o coração. O coração não briga com a mente, é indiferente a ela porque a entende e sabe porque ela é assim, tão mentirosa e insegura. Sua meta é a amorosidade com plena consciência, não são guerreiros, mas amantes, amigos de Deus. Sendo que esse Deus não é uma personificação, mas essa inteligência que cria e faz fluir o universo e que habita como uma centelha no interior de todos nós. O Sufismo busca desobstruir dentro de cada um essa distância e fazer florescer a centelha na sua consciência plena.

Sua pedagogia é feita de lições, histórias e poemas, que para serem apreciadas corretamente precisam de relaxamento, entrega e ausência de tensão. É como tomar um vinho especial ou um chá com um querido e antigo amigo. O caminho é o da leveza, do riso e da confiança.

Os sufis não tem crenças, afinal respeitam todas as correntes e tiram dela o que há de melhor se permitirmos descartar o que sobra, simplesmente porque são pessoas livres, já que crenças significam falta de flexibilidade, tensão e pouca tolerância. Como o caminho é o do coração, buscam a confiança. Crença é da mente, confiança é do coração, por isso que o membro de qualquer religião pode ser um Sufi, desde que esteja de coração aberto e consciência límpida de dogmas e verdades definitivas. A confiança é gentil e livre, a crença agressiva porque está presa. Quando não conseguimos confiar, precisamos de crenças para acalmar nossos medos.

O Sufismo não faz jogos mentais, é prático! Por isso além dos ensinamentos, são oferecidos exercícios que permitem mergulhos profundos no interior, práticas que,  de forma lenta e segura, levam ao autoconhecimento que é o outro nome para Deus. Em suas reuniões, partilham seus sentimentos e percepções. Com isso sempre saem enriquecidos, já que, além do entendimento próprio, ouvem o “sentir” dos demais e a cada sentimento colocado, ampliam e aprofundam o seu.

Sua ritualística é simples, mas de profundo significado. As iniciações são verdadeiros momentos de “despertar” e todo o ensinamento busca manter seus membros perceptivos, vivendo em paz e, por buscarem estar conscientes, aproveitando o que de melhor a vida oferece: o momento presente!

Quando falam de Deus, mostram maneiras de chegar a Ele. Não dizem onde fica o paraíso, mas buscam vivê-lo aqui e agora. Os sufis sabem que fugir do mundo não traz nenhuma descoberta, já que se estão nesse mundo, é para dentro dele, do jeito que ele é que buscam encontra a plenitude. Para o Sufismo qualquer livro é bom; pode ser alcorão, bíblia, Gita, Vedas, Torá etc. Por isso não são nem de longe uma religião, porque sabem onde todas erram, mas trabalham a religiosidade, na medida que sabem que Deus está tão próximo quanto nossa veia jugular. Como dito anteriormente, investigam o essencial de cada religião, filosofia e pensamento, descartando o não essencial, afinal toda essência é eterna, só o que perece é o não essencial.

As estórias sufis não pretendem buscar o status de filosóficas, portanto não existem para serem “discutas”, apenas as ouça como uma criança e vá penetrando no âmago e seu ensinamento vai se revelando. Quando Cristo disse que só as crianças encontrarão o Reino, estava se referindo a essa percepção inocente, viver com leveza em uma saudável brincadeira.

Logo abaixo, uma dessas estórias, assim como o poema de Kabir que ilustra esse texto. Uma das mais curtas e profundas que mostram que a busca é sair dos condicionamentos que nos fazem vagar pela vida sem percepção, apenas repetindo, morrendo sem nunca ter nascido para o que realmente são. Ao final de seus encontros, a despedida não é um “até logo” ou “fique bem”. É um abraço e uma lembrança: Permaneça acordado!!

-Um homem se aproximou de um sufi e perguntou:
-Como se sente?
-Como alguém que acordou pela manhã e não sabe se estará vivo à tarde. Respondeu o sufi.
– Mas isso acontece com todos! Afirmou o homem.
Ao que o sufi respondeu: – Mas quantos tem consciência disso?

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Para saber mais: “A sabedoria das Areias – discursos sobre sufismo” OSHO

Quando o NADA é TUDO

     “A desgraça do ser humano é nunca estar em casa”

Pascal

“Quando a mente cessa, Deus começa”

Yogananda

vazio

Nossa cultura, baseada na produção, materialismo e racionalismo é toda alicerçada em ter no material a identidade que faz uma pessoa ser ou não respeitada, ter ou não poder. Assim, desde os primeiros anos de escola, somos ensinados para “sermos” alguma coisa um dia. Mesmo nossos pais, que foram educados por pessoas que também sofriam desse mal, nos perguntam: o que você vai ser quando crescer?

Quanto mais crescemos, aprendemos a mesma teoria mentirosa de que o mundo é escasso e que devemos estar aptos a disputar nosso espaço e, para termos essa tal riqueza que nos trará admiração dos demais, precisaremos ser competitivos, fortes e hábeis para chegarmos à frente dos concorrentes (que aos domingos em Igrejas e Templos são chamados de irmãos). Até hoje as escolas se preocupavam em preparar seus alunos para o vestibular (competição) e nunca se preocuparam em seus currículos em fazer dessa criança alguém que se conheça, que domine algum tipo de arte (que sempre é um dos remédios para a angústia, por acalmar e superar a mente) e assim possa compreender a existência, encontrando sua paz sem depender de nada que tenha alguma marca.

Precisamos, incansavelmente, “ser” alguém na vida e estarmos sempre em atividade “fazendo” alguma coisa, ou seja, produzindo. Assim, essa cultura criou a ansiedade que é o medo de chegarmos ao final da vida sem termos “sido” ou “feito” algo importante que nos traga a riqueza material e o respeito dos demais, que ficaram para trás na corrida e na luta pela sobrevivência. Por fim, apenas “sobrevivemos” baseados no fazer e no ser. Mas o que é esse “ser”? Refiro-me às identidades e personagens que criamos para nos adaptarmos ao meio e conseguirmos sobreviver e sermos aceitos pelos demais. Isso é sobrevivência, até mesmo uma simples bactéria ou inseto também sobrevive sem tanto sofrimento. Evidente que sobreviver é importante, mas isso nos traz alguma realização interior? Se assim fosse, o mundo seria o que é hoje?

Mas o que está por trás e na essência de quem “faz” e “é” alguém?

Um vazio!

Na simbologia numérica o algarismo “zero” tem um profundo significado. Nada começa pelo “um”, afinal para que ele possa existir, precisará não ter tido existência anterior, onde só havia o “zero” que representa o vazio. Não é à toa, que os antigos herméticos simbolizavam Deus por um “zero”, ou vazio.

É justamente nesse vazio que tudo se origina, é o terreno fértil da criação e nossa cultura nos exilou de nossa verdadeira natureza vazia, por onde surgiu nosso “eu” ou Ego, que é representado pela nossa metade que “é” e “faz” alguma coisa. Ficamos mancos existencialmente como se só houvesse o Ego. O resultado disso é a ignorância existencial e o medo. Esse Ego, que nasceu do vazio, um dia morrerá, justamente por ter nascido, mas o vazio é o eterno que sempre fomos e esquecemos quando aprendemos com outros esquecidos que só existe um Eu, material (corpo) que vive em um mundo de aparência material, sendo transitório e efêmero tanto quanto nossa beleza ou feiúra.

Para recuperarmos nossa outra perna e termos o equilíbrio precisaremos dessa reconexão com nossa natureza que é destituída de Ego. Ninguém nos ensina a tirarmos, pelo menos, algum tempo por dia para nos despirmos de nosso Ego e não sermos “ninguém” e não fazermos “nada”.

É fundamental dedicarmos um tempo para nos voltarmos para dentro, sair do “um” e voltarmos ao “zero” que o originou. Não ser ninguém, não ter nome, profissão, família, amigos, religião, time de futebol, partido político, etc. Simplesmente não ser e não saber nada! Tornar-se um santo ignorante, que por nada saber não sofre, não deseja e não tem medo ou angústia, características do que passa, não sendo portanto verdadeiro. Apenas “não ser” sem passado e sem futuro que são puras alucinações, coisas que a eternidade desconhece, justamente por viver sempre no presente.

É um exercício simples, feche seus olhos por dez ou quinze minutos por dia, respire natural e calmamente e abra as brechas que Yogananda nos sugere para que o “milagre” de realmente Ser aconteça.

Nesse final de semana, tive a oportunidade de participar de um seminário em Florianópolis, onde Roberto Crema fez um interessante raciocínio. Disse que a palavra “aposentar” significa voltar aos aposentos e que as pessoas tem dificuldade de se aposentar porque não podem voltar a algum lugar onde nunca estiveram. Na hora fiz essa analogia com nossa natureza vazia e a frase de Pascal também se tornou obrigatória para abrir esse artigo.

Nosso medo de morrer, que em muitas tradições é chamado de “volta para casa”, só causa tanto medo e tanto desespero quando pensamos que vamos morrer ou quando alguém querido morre, justamente por não conhecermos essa “casa”, de onde saímos para essa aventura existencial habitando um corpo transitório. Falta-nos, durante essa passagem, nos re-conectarmos com nossa “casa” e lembrarmo-nos de nossa eternidade. Sem isso, continuaremos presos e receosos de tudo, buscando certezas e seguranças que só existem no que não mais evolui, no que está morto!

Alguém que por seu mérito se “recorda”, perde o medo e torna-se livre! Livre para fazer da vida o que ela realmente é: uma aventura, com ganhos, perdas, risos e lágrimas em constante mudança e contradição.

Tire um tempo para você, feche seus olhos e por alguns poucos minutos se livre dos seus personagens, títulos, planos e mesmo do seu nome. Simplesmente não seja, não faça e se preencha do vazio! Procure o silêncio interior (com o tempo você conseguirá), deixando sua mente (ego) se debater por não ter sua atenção e ela irá se cansando e abrindo espaços entre seus pensamentos.

O poeta Fernando Pessoa disse que Deus era um intervalo, um vazio que está escondido atrás da mente que, evolutivamente, nos cabe afastar. Agora espero que você tenha entendido a metáfora da expulsão do paraíso e porque fomos punidos a ganhar nosso “pão” com o suor do nosso rosto, fazendo e fazendo. Estamos pagando o preço de termos esquecidos de nós mesmos.

Nosso mundo exige o ser e o fazer e não há nada de errado nisso, desde que também  possamos não ser e não fazer, encontrando a síntese entre as necessidades do corpo e de quem nele habita.

Depois de algum tempo, essa prática desse retorno às origens, um amigo poderá encontrá-lo e percebe-lo mais sereno, tranquilo e perguntar o que você tem feito para estar assim. Seja sincero e simplesmente responda: Nada!

Agora, se não houver no seu dia alguns minutos para isso, porque você tem muitas coisas para fazer, lamento informar que passarás pela vida apenas sobrevivendo, mesmo que rico materialmente ou não, e nisso não há nenhum mérito e nem precisa ser humano para essa façanha tão pequena.

A SOLIDÃO

 

 

“Se a demanda do autoconhecimento for desejada pelo destino e recusada, essa atitude negativa pode acabar em morte verdadeira. A demanda não teria chegado à pessoa se ela ainda fosse capaz de guiar para algum atalho promissor. Mas ela está presa a um beco sem saída, do qual somente o autoconhecimento pode arrancá-la.”

                                                            C.G. Jung

 

Há quem diga que a solidão é uma arte esquecida.

O temor de se estar só pode ser visto de algumas formas; uma delas poderia ser o medo de estar ou sentir-se abandonado, o que poderia significar que as pessoas não gostam da nossa companhia, que somos inadequados ou esquisitos. Outra opção pode ter a ver com a ideia de que não nascemos para vivermos em solidão, por sermos animais “sociais”. Quantas pessoas, em momentos de raiva, lançam maldições como essa: “seu destino é ser solitário, ninguém consegue conviver com você!”.

Uma terceira alternativa pode representar o fato de não sermos compreendidos pelos demais, o que nos afastaria do convívio pelo simples fato de falarmos um “outro idioma”, ininteligível pelos outros. Existem tantas outras, mas a chance de se chegar ao autoconhecimento sem passar pela boa convivência consigo mesmo é quase nula.

É interessante observar como em nossos dias tem aumentado o número de pessoas que procuram atividades como retiros, por exemplo, onde faz parte dessa prática muitas horas de solidão e silêncio. Mesmo nos momentos mais angustiados e difíceis de nossas vidas, clamamos para fugirmos ou nos transportarmos para algum lugar, longe de tudo ou de todos, onde possamos encontrar paz. Chega-se ao ponto de, nos momentos de grande tensão, dizermos que precisamos ficar sós, para podermos chegar a alguma espécie de acordo interno sobre a situação que nos aflige. Ficar só, portanto, é bom e saudável, mas sem exageros como manda a receita do “caminho do meio”.

Somos cobrados de alguma forma se queremos ficar sozinhos. Estar só pode significar que nossas companhias não estejam nos fazendo bem, nos trazendo sofrimento, ou até mesmo nos atrapalhando de alguma forma. Nos relacionamentos afetivos, por exemplo, na época da paixão, fundimos nosso “eu” na outra pessoa e só pensamos no “nós”. Passado algum tempo, nosso “eu” volta a clamar por atenção, o que é mais do que normal. Nessa hora, por ignorância, alguns chegam a pensar que não estão gostando mais tanto do seu companheiro(a). O que ocorre, é que estamos voltando ao normal, e a relação saudável passa a se estabelecer em cima de dois “eus” saudáveis e não mais em cima de um “nós” patológico que sufoca a expressão da individualidade.

Nada é mais pessoal e individual que a solidão. Pode até parecer redundante, mas se pensarmos bem, se chega à conclusão que muitas vezes já nos sentimos sozinhos mesmo com pessoas a nossa volta, muitas delas muito chegadas. A solidão que sentimos quando estamos com os outros é completamente diferente da experiência individual. Posso até afirmar que a solidão “acompanhada” é mais dolorosa, justamente por sentirmos isso próximo a pessoas onde esse sentimento não poderia estar acontecendo. Em um artigo intitulado “ego e arquétipo”, Edward Edinger mostra que o significado da palavra “solitário”, no grego original significa “solteiro” ou “unificado”. Como curiosidade ele cita trecho do Evangelho Gnóstico de Tomás: “..Eu (Jesus) digo isto: quando (uma pessoa) se encontra solitária, estará cheia de luz; mas enquanto se encontra dividida estará cheia de trevas.

 Evidente que essa unificação, que nada mais é do que o autoconhecimento, tem como preço o sofrimento, solidão e culpa. Essa culpa vem justamente do paradigma que diz que só estamos completos ou certos, em meio a outras pessoas. A base desse pensamento errôneo é que não estamos inteiros ou completos por nós mesmos, só com alguém ao nosso lado poderemos nos sentir bem e aceitos por todos. Não tem como esquecer o clamor de Sallie Nichols que, ao falar do arquétipo do Eremita (solitário) diz: “Teremos, acaso, aberrado tanto nosso âmago interior de ser, que só existimos em relação aos outros”?

Sem o tempo para si, nossas projeções em relação às outras pessoas e delas sobre nós, vão aos poucos nos afastando de nossa identidade essencial, nos levando a uma infinidade de concessões para estarmos no grupo, querido e respeitado pelos demais.

Sempre digo a meus clientes que a condição básica de bom relacionamento com outras pessoas é um ótimo relacionamento intrapessoal, ou seja, conviver bem consigo e em solidão. É justamente nos momentos que estamos sós que conseguimos avaliar com mais clareza e calma nossos relacionamentos, o que realmente gostamos e queremos para nossa vida, juntando com entendimento nossos “cacos”.

Porém isso precisa ser equilibrado, já que o extremo de não se conseguir estar com os demais, tendo na solidão uma fuga ou solução para relacionamentos frustrados e mal-resolvidos, está longe de ser saudável. A base de tudo é o ponto central entre estar-se bem só e com os demais.

Quando esse ponto é atingido, não se precisa estar longe das pessoas e de todo o caos reinante, já que no silêncio encontramos nosso cosmos, nossa ordem. Ensina-nos a filosofia Zen que no momento que se atinge a auto-percepção, aceitamos a própria vida, por mais simples que seja, cumprindo nossas tarefas, fazendo o que gostamos e administrando muito bem o que fazemos sem gostar tanto assim.

Difícil? Nem tanto, basta querer, fazendo o necessário para chegar lá!

É evidente que quando uma pessoa consegue esse autoconhecimento ela será mesmo uma solitária, já que toda a multidão que a rodeia continua vagando às cegas pelo mundo, comandada por princípios e normas que não só não escolheu, mas que nem pensa sobre eles. Será um solitário blindado por uma identidade completa, em harmonia interior e exterior.

Tirar momentos para si para se “curtir”, fazendo o que gosta no seu ritmo de tempo, saindo da “massa”, se permitindo ser quem se É em total descompromisso. Essa é uma receita para se por em prática e o resultado será um equilíbrio maior, mais tranquilidade e paz interior; precisa mais do que isso?

Curiosamente, nas etapas da evolução, o Eremita, ou aquele que busca a solidão para encontrar a verdade interior, aparece depois do domínio das forças antagônicas interiores (O Carro) e da justiça em relação a si mesmo e aos demais (Justiça). Logo depois desse retiro voluntário vem a mudança inevitável representada pelo arcano da Roda da Fortuna, mostrando a mudança do caminho na existência de quem se arriscou a buscar-se.

Carl Jung dizia que se fugirmos ao chamado dessa introversão, essencial ao nosso desenvolvimento, poderemos encontrar o isolamento forçado de uma moléstia física ou mental. Precisamos partir e voltar, aprendendo a transitar bem entre esse dois mundos: o interno e o externo.

De alguma forma, penso que esse encontro com nossa verdadeira identidade pode representar, porque não, a “jornada do herói” de Campbell. Sairmos sozinhos, vencermos as dificuldades, o medo da solidão, enfrentando nossos “monstros interiores” para voltarmos mais fortes, como heróis de nós mesmos.

Alguns poucos dias por ano, algumas horas por semana, um tempinho todo dia para estar em harmonia, consciente e verdadeiramente lúcido… Lembre que isso não deve ser algo a ser conquistado, mas é o primeiro passo para qualquer verdadeira conquista!

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Como podem observar, nesse artigo não tem uma imagem ilustrativa, já que encontrei enorme dificuldade de achar uma onde alguém estivesse solitário e feliz. Isso mostra o paradigma citado acima. Fica então essa bela frase de Fernando Pessoa, que vale por mil imagens.

A Criatividade

 

“Criar é matar a morte.”

 Romain Rolland

Estive pensando que a criatividade, por ter sua raiz na palavra “criador” não pode ser algo desse mundo, de dualidade onde impera o ego, o criado. Assim, depois de algumas leituras de relatos sobre como algumas obras foram criadas, cheguei à conclusão de que, para termos uma percepção, insight ou ideia criativa, precisamos nos desconectar desse mundo.

Vou relatar alguns exemplos e depois continuamos nossa reflexão sobre esse assunto, mas procure perceber a semelhança nos relatos. Vou citar apenas cinco, poderiam ser muito mais, mas qualquer pesquisa mais a fundo e até mesmo suas experiências pessoais poderão fazer o caro leitor (a)  abraçar essa teoria.

Começamos por Paul McCartney, músico inglês, que em uma bela manhã do ano de 1964 acordou inspirado por um sonho e compôs a música “Yesterday”. Esse sucesso ficou na história e agora você já sabe que essa música tocou primeiro no sonho que ele teve naquela noite.

Passando para o mundo da ciência, temos o caso de Dmitri Mendeleev (1834-1907), químico Russo que realizava estudos sobre os elementos químicos e suas propriedades. Uma noite do ano de 1869 inspirou a organização da Tabela Periódica, o cientista sonhou com um diagrama em que todos os componentes se encaixavam, e criou assim a Tabela Periódica moderna. Graças a Mendeleev os elementos foram organizados em períodos e famílias para facilitar seus estudos.

No mundo das artes, podemos citar o pintor Salvador Dali (1904-1989), que teve todas as suas obras inspiradas em sonhos. Para Dali nos sonhos estamos livres de toda e qualquer amarra e essa liberdade o inspirava e o resultado são suas fantásticas obras que, para mim, não são mesmo desse mundo.

Já, em época remota Arquimedes (287 A.C a 212 A.C), a história conta sobre como ele inventou um método para determinar o volume de um objeto de forma irregular. De acordo com Vitrúvio, uma coroa votiva para um templo tinha sido feita para o Rei Hierão II, que tinha fornecido ouro puro para ser usado, e Arquimedes foi solicitado a determinar se alguma prata tinha sido usada na confecção da coroa pelo possivelmente desonesto ferreiro. Arquimedes tinha que resolver o problema sem danificar a coroa, de forma que ele não poderia derretê-la. Enquanto tomava um banho, ele percebeu que o nível da água na banheira subia enquanto ele entrava, e percebeu que esse efeito poderia ser usado para determinar o volume da coroa. Para efeitos práticos, a água é incompressível, assim a coroa submersa deslocaria uma quantidade de água igual ao seu próprio volume. Dividindo a massa da coroa pelo volume de água deslocada, a densidade da coroa podia ser obtida. Essa densidade seria menor do que a do ouro se metais mais baratos e menos densos tivessem sido adicionados. Arquimedes teria ficado tão animado com sua descoberta que teria esquecido de se vestir e saído nu gritando pelas ruas “Eureka!” (em grego: “εὕρηκα!,” significando “Encontrei!”). O teste foi realizado com sucesso, provando que prata realmente tinha sido misturada.

Outro caso curioso é de Madame Curie que recebeu dois prêmios Nobel e foi a primeira mulher a lecionar na Sorbonne. Conta-se que uma de suas descobertas deu-se de forma “estranha”. Ela deixou suas anotações sobre a mesa do quarto e foi dormir. Na manhã seguinte elas estavam preenchidas e com os problemas todos resolvidos. Depois de investigar se alguém havia entrado ou, como todo o cientista, avaliado racionalmente como aquilo poderia ter acontecido, observou que a letra que completava as análises e teoremas era a sua. Isso a levou a conclusão de que, dormindo, ela levantou da cama e resolveu os intrincados problemas que estavam pendentes de solução.

Mas qual a coincidência nos relatos acima? Em nenhum desses momentos privilegiados, nossos artistas e cientistas estavam de posse do seu ego. O momento era de relaxamento e entrega, seja nos sonhos ou no relaxante banho que Arquimedes tomava em sua banheira. Evidente que, só mesmo quem não está de posse do seu ego sairia gritando nu e molhado pela rua, assim como nos sonhos estamos entregues ao nosso inconsciente, que segundo Jung está ligado ao “todo”, ou seja, a Criação.

Nesses momentos em que “esquecemo-nos de nós mesmos” é que poderemos nos conectar com essa inteligência que cria e permeia todo o universo. Esse abandono nada mais é do que nos afastarmos do que é desse mundo, ou seja, a ansiedade, a expectativa, os desejos e tudo que se baseia em vivermos em um corpo que perece. Quando acessamos esse infinito, essa eternidade que é nossa essência, estamos  em uno com o Todo. Quando criamos, somos deuses, mas para isso precisamos nos desconectar do que é finito e buscarmos o infinito. Tantos outros gênios fazem os mesmos relatos de que, muitas vezes, não estavam “pensando” no assunto quando veio a solução.

Hoje alguns teóricos da física quântica, baseados nos estudos de Jung, afirmam que existe um “campo” onde toda a informação estaria disponível e em determinados momentos, sob algumas condições, esses saberes seriam acessados. O que explica o fato de muitas descobertas terem sido feitas quase que simultaneamente por mais de uma pessoa. Uma descobriu, a informação ficou liberada em nível humano e outros que estavam nessa mesma busca horas, ou poucos dias depois também fizeram a “descoberta”. Talvez o mais famoso exemplo desse tipo de “coincidência” seja da paternidade do cálculo entre Isaac Newton e Leibniz que, cada um a seu modo, chegaram quase que simultaneamente ao mesmo resultado praticamente juntos.  Imagino que devam estar em algum restaurante chique, lá na eternidade, tomando um vinho e ainda discutindo quem chegou primeiro.

Isso tudo para mim significa que só poderemos acessar nossa divindade, se é que posso usar esse nome, quando nos desligarmos desse “eu” vinculado à matéria onde estamos habitando nessa etapa de nossa eternidade.

Todos temos esse tipo de momento em nossa vida, quando nos desligamos e relaxamos e, de repente,  “descobrimos” ou chegamos a alguma definição importante para nossa vida. Isso sempre acontece em momentos de “abandono” desse eu que está sempre com medo, baseado em sua finitude. Até mesmo a sociologia já entende o ócio como criativo como nos mostra o trabalho de Domenico de Masi.

Quer ser Criador (criativo)? Esqueça-se de si mesmo! Divirta-se, relaxe e se preocupe menos. Não precisa ser como Arquimedes e sair pelado pela rua gritando, mas aprenda com ele e com os demais que seu ego nunca vai levá-lo a nenhum outro lugar em que as companhias não sejam as preocupações e as dúvidas. Criar algo assim, angustiado, é mesmo impossível.

É claro que precisamos trabalhar e buscar nossos objetivos, mas o que erroneamente fazemos é colocar nosso lazer em segundo plano como se fosse algo supérfluo. Sempre digo aos meus clientes viciados em trabalho que o descanso e o divertimento é uma forma de trabalhar melhor, de ser criativo em encontrar novas soluções e métodos. Nunca ninguém descobriu nada importante pensando nisso o tempo todo. Nem aquele nome que está na “ponta da língua” conseguimos lembrar se pensamos nisso demais. Precisamos esquecer do assunto, mudar o foco e o nome vem a mente suavemente. Isso vale para tudo.

Até porque é na diversão que a vida mostra seu lado agradável e quem acha que isso não é importante, que só os compromissos contam é sempre uma pessoa com quem não gostamos muito de estar, chata, em outras palavras…

É na alegria (recomendo a leitura de artigo anterior com esse título) que nos desconectamos, rimos e nos “soltamos” e essa palavra diz tudo o que quero transmitir sobre a principal fonte da criatividade.

Bernard Shaw disse certa vez que as pessoas morrem cedo, apesar de serem enterradas muito tempo depois, quase quarenta ou cinquenta anos se passam entre a morte e o funeral. A criatividade pode matar a morte ou fazê-lo ressuscitar.

E você que está lendo esse artigo, permita-me perguntar: está morto ou vivo?

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Os dados sobre as descobertas foram obtidas no site “Brasil Escola” e “Wikipedia”

O Louco e o Iluminado

“Quando você atinge a iluminação, não se torna uma nova pessoa. Na verdade, você não ganha nada, apenas perde algo: se desprende de suas correntes, de suas amarras, deixa para trás seu sofrimento e vai perdendo outras coisas. A iluminação é um processo de perda.”

OSHO

Quando nos dedicamos ao estudo dos arcanos do tarô, nos deparamos com um profundo ensinamento com a carta que começa e encerra a trajetória do homem, que vai da ignorância até a  busca da “iluminação,” que nada mais é do que um desligamento de todo o sofrimento e das alucinações sobre o passado e o futuro.  Além é claro, do total desapego, que é  não depender de nada externo a ele para se sentir bem.

Todo o mistério e ensinamento é que tanto o louco (ignorante) como o iluminado, são representados pela mesma figura. E o primeiro aprendizado é que a diferença entre esses estados opostos é ao mesmo tempo imensa e sutil.

Tanto um quanto outro estão fora da “curva” de normalidade, e isso é muito interessante, afinal os dois são considerados pela psicologia e psiquiatria como pessoas com alguma patologia. Existe o que se chama de “normal”, que nada mais é do que pessoas diferentes entre si – lembrando que ninguém é igual a ninguém – que tem comportamentos semelhantes, sonhos semelhantes e acham que o certo e o errado é o mesmo para todos. Evidentemente que isso é que é doentio, em minha opinião.

Dessa forma, podemos encontrar dois tipos de loucos, a saber: o primeiro tipo são aqueles que estão abaixo da linha da normalidade, são pessoas realmente doentes devido a distúrbios, enfermidades psicológicas de vários tipos. Esse tipo de loucura é involuntária, já que ninguém escolheu isso para si. Precisa de cuidado e tratamento!

Do outro lado, temos os loucos acima da linha da normalidade, que são pessoas que não temem o desconhecido, não tem medo do ridículo (o que os outros vão pensar), sabem que o “conhecido” as mantêm estagnadas e vão em busca de seus sonhos sem medo. Essa loucura é voluntária e representa a minoria, aqueles que estão realmente vivos e em evolução. São eles que, na verdade, podem até perder tudo, menos a razão!

E é, justamente por isso, que os dois tipos de loucos representam ao mesmo tempo a ignorância e a sabedoria. O louco sábio tem consciência de sua ignorância, por isso busca seus sonhos sem julgar o dos outros, não busca convencer ninguém de suas ideias e, principalmente, está ligado ao que acontece a cada momento, sem se preocupar muito com o futuro, que ele sabe ser mais uma das alucinações dos preocupados “normais”.

Tanto o iluminado como o completo ignorante andam pela vida de forma inocente, quase infantil, parecendo irresponsáveis sobre seus atos, afinal eles não premeditam nada e não esperam nada dos demais. Certa vez li um trabalho que mostrava que os psicóticos (pessoas desligadas da realidade para a psiquiatria) tem uma expectativa de vida maior do que as pessoas ditas normais, afinal eles não se preocupam com nada, se expressam livremente sem repressão, não guardando mágoas nem rancor, muito menos se estressando com a vida. Deve ser por isso que são fortemente medicados e mantidos sob confinamento. Nesse mundo normal, realmente, não há lugar para gente assim!

A consciência é estar inteiro a cada momento e essa é a única felicidade! Tudo que acontece fora de mim, como os problemas do cotidiano, as perdas e tristezas agem sobre cada pessoa diferentemente. Aquele que está inconsciente fica reativo às situações e é governado por elas e seu sofrimento é longo e penoso. Já quando alguma coisa abate uma pessoa consciente, ela tem uma autonomia de, livremente, dar outro sentido ou significado ao que aconteceu e nunca é dominada pela situação.

Por mais simples que possa parecer, lembre que se estamos conscientes nada nos acontece fora do nosso controle. Quando alguém, por exemplo, está comendo demais, usando álcool, drogas  ou qualquer outra forma de atitude contra si mesmo (auto sabotagem), isso só ocorre pela inconsciência de não entender a raiz do seu sofrimento passando a buscar compensações externas.

Agora fica mais fácil de entender que quando estamos lúcidos e congruentes (comprometido com o que sou hoje), estamos experimentando uma espécie de unidade, já quando perco minha percepção da realidade por estar vivendo as alucinações do passado e do futuro estou na dualidade, que, como sabemos, é a raiz do sofrimento humano. Fico dividido em dois: meu corpo e vida aqui, meu pensamento o tempo todo fora do tempo presente, negativando situações e criando um estresse baseado em nada que seja real, apenas em expectativas delirantes.

Osho disse certa vez em uma de suas palestras, que, quando nos aproximamos de Deus temos uma sensação de estarmos ficando loucos, e isso me parece simples de entender. Se vivemos no mundo da dualidade desde quando nascemos, tudo que conhecemos, portanto normal, é dual e sofrido. A evolução tende a nos levar a unidade e ao fim do sofrimento e isso parece mesmo loucura, não acha?

Justamente por isso o caminho evolutivo é sempre uma trajetória solitária, que poucos se dispõem a empreender, afinal,  normalidade cobra um preço caro para quem sai do bando, se arvorando na loucura de ser diferente!

Então, se pensarmos bem, veremos como é profundo o significado dessa mesma carta representar dois extremos, ao mesmo tempo, tão parecidos. Quando alguém lhe disser que essa ou aquela pessoa é louca, procure prestar atenção, fique atento, e cuidado com os julgamentos rápidos, você pode estar diante de um Mestre!

O Louco - Tarô de Marselha