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Tela vazia

Estava lendo Foucault e deu vontade de escrever.

Parado diante da tela, lembrei de um filme sobre Pelé que vi quando tinha 12 ou 13 anos.  Uma hora e meia de gols e jogadas geniais. Sai do cinema com muita vontade de jogar bola. Não lembro se joguei, mas mesmo que isso tenha acontecido, o resultado não foi tão bom que valesse a pena lembrar. Era jogador e plateia ao mesmo tempo e o esquecimento foi o veredito.

Mais tarde, já na fase adulta, vi um show de João Bosco. Ele levou apenas seu violão, parecia que aquele instrumento era uma extensão natural do corpo. Plateia hipnotizada pelo talento. Acontece sempre que vemos alguém viver sua vocação. Deu uma vontade louca de aprender a tocar. Depois de muitas aulas, sofrimento dos dedos que não foram feitos para acariciar cordas, ficou um violão para lá e para cá dentro de casa, sem cumprir sua função. Começou encostado na parede, esperando que a força de vontade vencesse a realidade. Tempos depois, foi parar em cima de um armário. Ficou anos dentro de uma capa como os gênios nas lamparinas nas histórias das mil e uma noites. Pelé e João Bosco mostraram que a natureza, como diziam os antigos gregos, não distribui dons com justiça.

Quando uma criança compra a chuteira do Neymar, sonha em jogar como ele e isso vale para o corte de cabelo da atriz ou da marca de roupa que a modelo mostra no outdoor. Aristóteles e seus seguidores diziam que a vida só vale a pena ser vivida se buscarmos melhorar os dons que trouxemos ao nascer. Mesmo com dons menos favorecidos deveríamos melhorá-los o máximo possível. Fazer o que viemos fazer, daria sentido a nossa vida e tornaria o mundo melhor, afinal, seríamos felizes e realizados dentro do possível. Enquanto não descobrimos o nosso, vamos vivendo vocações dos mais afortunados, buscando sem perceber no que somos realmente bons.

Enquanto o cursor pisca na minha frente não sei sobre o que escrever. Fico pensando se o próprio Foucault, Saramago, Érico Veríssimo e outros como eles também travavam diante da folha em branco. Se uns ganham mais facilidades que outros, com os sonhos isso não acontece. Sonhamos sem parar sobre tudo e um mundo diferente, que nos faria felizes por ser de outro jeito, é o mais comum a todos. Mas, se tem gente feliz sendo o mundo como é, o problema talvez não seja o mundo, mas não se sentir parte dele, fazendo alguma diferença.

O mundo no qual crescemos nos diz o que devemos fazer para ajudar a funcionar pelo bem de todos e é aí que nos perdemos dos gregos, para quem é a vida de cada um que conta. Do jeito que é não tem muito a ver com o fato de gostarmos disso ou não. Precisamos fazer dinheiro para financiar sonhos alternativos que substituem a alegria verdadeira. Deve ser por isso que altos salários e fortunas não são garantia de alegria por uma realização.

Por outro lado, nem todo talento que a natureza deu exageradamente para alguém é uma garantia de felicidade, Van Gogh que o diga. Quantos talentos se perdem em situações de famílias desestruturadas, de falta de condições mínimas? Temos “Neymares” que ficarão a vida no anonimato, por terem que ajudar em casa ao invés de terem a oportunidade de melhorar seus dons. Jogadores de fim de semana, que viverão sua alegria sem reconhecimento ou remuneração. Tudo para ser famoso no bairro e contar os feitos no bar, aos domingos à tarde.

Sonhamos o passado para tentar reescrever nossa história, buscando entender erros de forma que nos inocente um pouco e imaginamos o futuro para poder esperar que tudo dê certo no final. Sonhos que só existem por estarmos um tanto desconfortáveis com a falta de sentido, diria o velho Aristóteles.

Talvez se insistisse com o futebol e o violão?

O mundo valoriza os esforçados, maneira de tentar compensar a falta de dons exuberantes e de não nos deixar perder a esperança. Cafu e Dunga ergueram copas do mundo, assim como Pelé, Zidane e Maradona. Quem sabe ser coadjuvante não consegue atenuar a incapacidade para o protagonismo? Lembro sempre disso quando vejo um coral, a soma torna todos melhores do que individualmente, roupas iguais para ser um só; o todo é maior que a soma das partes, e assim a força de vontade vence a matemática.

Agora percebo porque falo disso, era o que Foucault estava dizendo; somos aprisionados de certa forma nesse jeito de pensar. Ao comparar escolas com presídios ele não deixa dúvidas e escancara sua ideia de forma inquestionável.

 Já não sei se a vontade era escrever sobre isso ou se foi como ele escreveu que me fez lembrar a emoção que Pelé e João Bosco produziram; que havia encontrado o que a natureza esperava de mim.

Como o cursor ainda pisca na tela branca, o melhor é continuar procurando.

Perguntas desnecessárias

…Ser moderado é a maior virtude. A sabedoria consiste em falar e agir na verdade,

    dando atenção a natureza das coisas. É sábio reconhecer que todas as coisas são

   uma só. A sabedoria é uma só – conhecer a inteligência pela qual todas as coisas

   são guiadas por todas as coisas.

   A sabedoria é uma e única; ela não está inclinada e, ainda assim, está inclinada a

  ser chamada pelo nome de Zeus”.

                                    Heráclito – Fragmentos

  “Nullas ex omnibus rebus, quae in protestade mea non sunt, pluris, quan cum Viris

   veritatem sincere amantibus foedus inire amicitiae”.*

                        Espinosa – citação de abertura da Éthica

perguntas

   Temos uma dificuldade em aceitar o mundo e a vida como um todo simplesmente como são. Nos sentimos inseguros diante da realidade e nos escondemos atrás de uma série de ideias pouco prováveis. É como se tivesse luz em demasia e só colocando uma lente escura pudéssemos viver confortavelmente. Ou, se preferir, já que a palavra “luz” pode ser interpretada de várias formas, fosse necessária uma lente com algum grau para distorcer minha visão para que pense que enxergo.

Qual, afinal, o problema de tudo ser simplesmente como é?

 Não conseguimos simplesmente viver a vida que temos; ansiosos, precisamos pensar na próxima, garantir-se nela com privilégios. Agimos baseados em condutas ditas corretas, não por uma iniciativa do bem pelo bem, mas como condição da obtenção de vantagens, seja para nossa vida aqui (proteção e saúde), como para estarmos de bem com quem cuida da nossa contabilidade divina. Mesmo religiões que não falam de nenhum deus, têm sempre seu julgador com quem acertamos as contas depois da morte e que nos encaminha para a próxima existência baseado em nosso saldo de boas ou más ações. Não valem as ações sinceras, só as pré determinadas como corretas, nunca esqueça!

Heráclito diz que a verdade está oculta pelas aparências. Não foi fácil para ele viver na mesma época que Aristóteles, que defendia que a verdade está aparente. O pai da lógica ocidental dizia que A e B são coisas diferentes, justamente por serem A e B. Já Heráclito dizia que A e B são apenas duas formas em que uma mesma coisa se manifesta. Osho afirma que se Heráclito tivesse nascido na Índia seria um dos Budas. E seria mesmo!

Nossas sofridas definições de “bem e mal”, “certo e errado” ou de “justo e injusto” entre outras, são oriundas de Aristóteles que não via, como Heráclito, que a impermanência, como regra básica da vida, deveria merecer nosso silêncio e simples observação. Quando fazemos julgamentos imediatos, significa que só conseguimos entender baseados nessa separação entre positivo e negativo, bom ou mal. Como já comentei em artigos anteriores, basta cada um observar sua própria vida para notar que acontecimentos foram sentidos de uma maneira no momento e de outra completamente diferente depois de algum tempo.

O problema é que Heráclito nos exige um esforço. Para não fazer o julgamento, que leva ao sofrimento, precisamos em primeiro lugar entender seu pensamento e depois estar muito consciente para que Aristóteles, que está impregnado em nosso subconsciente, não se manifeste de forma automática e mecânica.

Já Espinosa, afirma que a Alegria é o que aumenta nossa potência, ou força para viver. Só que, para ele, a Alegria é a condição para a liberdade, para podemos viver em potência. E o que é, afinal, essa Alegria?

 É o conhecimento das causas!

 Nas palavras do próprio Espinosa: “A potência de um efeito é definida pela potência de sua causa, na medida em que a essência dele é explicada ou definida pela essência de sua causa”. (Ética V – Axioma II). Podemos também optar pela Proposição III; “Uma afecção, que é paixão (aquilo que nos domina sem entendermos a causa – grifo meu), deixa de ser paixão no momento em que dela formamos uma ideia clara e distinta”. Ou seja, quando entendemos as causas, somos livres.

O problema é que buscamos essa liberdade, ou seja, conhecer as causas em crenças que trazem explicações quase que “sobrenaturais” para as questões que mais nos deixam inseguros.

A resposta mais óbvia e mais aceita pela nossa mente Aristotélica é que deve haver uma explicação para tudo ser do jeito que é. Pode ser que a explicação é que não tem explicação. Heráclito diria que estamos querendo revogar a lei da impermanência, congelando um acontecimento, evitando que ele se reverbere na pessoa que seremos logo ali à frente.  Para os amantes do futebol é como congelarmos a imagem antes do pênalti ser cobrado. Não sabemos se o gol será ou não feito e muito menos se o jogo não pode ser virado, logo ali à frente.

Já Espinosa nos diria que a causa primeira é que por não sabermos o motivo de Deus** para que aquilo ocorra, sofremos por ignorância.

No final, esses dois pensadores nos pediriam simplesmente para que vivamos a nossa vida por ela mesma. Como nunca saberemos as respostas sobre de onde e como viemos e para onde vamos (se vamos), sejamos mais livres e mais alegres, o que é quase a mesma coisa. Nos bons momentos não necessitamos de nenhuma ajuda externa ou divina, não temos pedidos a fazer e muito menos medo do que virá. A ideia de Deus que recebemos o torna indispensável no sofrimento, por não entendermos sua causa. Daí vem as explicações: devo merecer isso por algum motivo ou as famosas e fáceis “linhas tortas” e outras mais ou menos criativas quanto essas.

Todos os julgamentos são na verdade uma espécie de automatismo, onde usamos uma interpretação de segunda mão, vindo do meio onde estamos ou fomos criados. Ver sem julgar exige o conhecimento das causas ou assumir-se ignorante delas. “Não saber” também é um bom e leve jeito de entender que muitas vezes as causas estão além da minha capacidade, que existe uma aleatoriedade, ou seja, pode não ter a ver comigo, necessariamente. Lembrar que, minha percepção sobre o que for, mudará na medida em que mudo pela experiência de viver ajudará muito.

“Não saber” o que é a morte, se existe outra vida, se Deus é “alguém” ou alguma inteligência, se o Carma é mesmo uma lei ou outra grande Pergunta qualquer é entender, finalmente, que a única verdade realmente é aquela que vejo e que esteja acessível a minha razão. Nunca saberei essas respostas, já que elas estão no âmbito do “crer”.

Justamente por isso que o “buscador” é eterno. Ele nunca encontrará nada e sua diversão é a busca, simplesmente.

Para outros, viver é a única religião e a Alegria de Espinosa é a liberdade que pode ser alcançada. Mas tudo isso só funciona se estivermos alimentados, seguros e abrigados.

Porque nesse mundo de verdade, estar vivo e “viver” plenamente sempre vem em primeiro lugar e também é o que esquecemos primeiro quando as necessidades diminuem.

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O presente texto é um complemento não necessário (independente) do anterior “Para que(m) serve a verdade”

 *Nada estimo mais, entre todas as coisas que não estão em meu poder, do que contrair uma aliança de amizade com homens que amem, sinceramente, a verdade.

**Resumidamente, o Deus de Espinosa é imanente, ou seja, a Natureza como uma inteligência infinita.

Para saber mais:

Harmonia oculta  – Discursos sobre os fragmentos de Heráclito.  Osho, ed Cultrix.

Espinosa – Coleção “Os pensadores” ed Abril

Cinderela

“Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.

 Felizes os aflitos, porque serão consolados.

 Felizes os mansos, porque possuirão a terra.

 Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

 Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia.

 Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.

 Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.

 Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu.

 Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de Mim.

 Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.

                                                                                     Matheus 5, 3-12 Bíblia Pastoral

“ O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de fato só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência”.

                                                                                 Friedrich Nietzsche

“Os poderes estabelecidos tem necessidade de nossas tristezas para fazer de nós escravos”

                                                                                            Gilles Deleuze

cinderela

Essa é a história, resumidamente:

Era uma vez uma família feliz! Papai, mamãe e a filha viviam felizes em um lugar maravilhoso, onde, parece, apenas dias de sol aconteciam, nunca chovia ou fazia frio. A menina era adorada pelos serviçais e até, diziam, conversava com os animais. Obviamente, todos eram lindos, com olhos azuis e tudo mais.

Um dia a mãe de Cinderela adoece e, antes de morrer pede para filha que, aconteça o que acontecer, que ela nunca deve deixar de ser gentil. Claro que ela morre e o pai que era uma espécie de caixeiro viajante, em uma de suas andanças comerciais, conheceu uma viúva que tinha duas filhas. Como alguém deveria ser feio (fora os serviçais) as duas filhas eram feias e egoístas. A mãe até que tinha lá seus encantos, afinal até o mal precisa de alguma beleza, vez por outra.

O Pai então decide casar-se com a dita viúva e a leva, com as filhas, para morar junto dele e da filha, que agora está crescida e deslumbrantemente linda. Mas, como a nova esposa e suas filhas aumentam o custo, o pai sai em viagens mais frequentes e, em uma delas, contrai uma doença e morre. Ao saber da morte do seu segundo esposo, a agora madrasta de Cinderela põe as manguinhas de fora e assume de vez o comando. Coloca a menina sempre sorridente e gentil para dormir no sótão, um lugar sujo, escuro e com ratos (isso não é problema, afinal ela conversa com eles, não esqueça!), passando para suas filhas invejosas e cruéis o quarto que era de Cinderela.

O tempo passa e, como o dinheiro parou de entrar com a morte do pai, a terrível madrasta dispensa os empregados e adivinhem quem assumiu todas as tarefas da casa, trabalhando de manhã a noite, sem descanso?

Isso mesmo, a sorridente e gentil Cinderela!

Mesmo as agruras do trabalho doméstico não a desanimam e ela continua sempre gentil (ela prometeu) e cada vez mais bonita, mesmo dormindo pouco, alimentando-se com sobras e estar sempre com a roupa suja e, levemente escabelada.

Um dia, cansada de tanta humilhação, mas deixando o almoço na mesa, ela pega um cavalo e sai pelo bosque, agora sim chorando, mas sorrindo ao mesmo tempo. Nesse exato instante o “destino” faz com que ela se encontre com um príncipe que, obviamente, fica encantado com tamanha beleza e pureza. Mas ela volta aos afazeres e nosso príncipe não consegue parar de pensar nela e, para encontrá-la, promove uma festa/baile, onde, por estar com o pai adoentado e a beira da morte, encontrará, dentre as presentes sua futura esposa e rainha.

Já naquela época não era fácil um casamento com um “partidão” rico, bondoso, bonito e justo acima de tudo. Todas as mulheres do reino começam os preparativos e ajustes para o grande dia, assim como a madrasta que manda fazer belos vestidos para suas filhas.

Cinderela (dependendo da versão não sabe que o rapaz é príncipe), sonha em ir ao baile. Costura um vestido antigo de sua falecida mãe e quando desce as escadas, deixa as suas “irmãs” no chinelo de tão deslumbrante que estava. A Madrasta não admitirá essa concorrência e rasga o vestido de Cinderela e a deixa em casa, proibindo-a de ir ao baile.

Tanto sofrimento e injustiça…..

Cinderela confidencia sua dor aos animais do jardim (um ganso, duas lagartixas, dentre outros), se perguntando o motivo de passar por isso. Daqui a pouco, surge uma fada que transforma uma abóbora em carruagem, o ganso em cocheiro e as lagartixas em lacaios, além, é claro, de dar para Cinderela um vestido maravilhoso e sapatos de cristal. Como as mulheres não mudaram, o que mais encanta Cinderela são os sapatos. Avisa que ela deve sair do baile à meia noite quando o feitiço se desfará.

Claro que você já sabe o resto: Ela chega no baile, é disparado a mais bonita, o príncipe fica extasiado rejeitando uma princesa de um reino vizinho que era a melhor indicação política para ele e dança só com ela a noite toda. Esqueci: Cinderela dança maravilhosamente bem, mesmo sendo esse seu primeiro baile na vida.

Daí, o sino começa as doze badalas, ela sai correndo e perde um sapato (dizem que foi de propósito para ter motivas para voltar). A Madrasta desconfia dela e a prende no sótão, onde para espantar a dor ela canta, com sua também bela voz.

Daí o príncipe sai de sapatinho na mão de casa em casa e a de Cinderela é a última do reino. Todas experimentaram e o sapato não coube em nenhuma. Nesse ponto a história tem um problema, pois tudo se desfez a meia noite, até o vestido, mas os sapatos não…

Deixando de lado esse pequeno detalhe, quando ia desistir, os animais do sótão se juntam para abrir a janela, coisa que Cinderela não pensou em fazer para pedir socorro, ela só cantava….

O príncipe ouviu aquela voz meiga, suave e encantadora, colocou o sapato no pé, viu que serviu e finalmente achou sua esposa. Antes de deixar a casa e ir para o palácio, Cinderela olha com doçura para sua madrasta e a perdoa, de coração.

Claro que viveram felizes para sempre, tiveram muitos filhos e nunca brigaram.

O Livro ou filme termina, você seca as lágrimas e diz: No fim, o bem sempre vence!

 

Claro que não é assim na vida real.

A verdadeira mensagem dessa história não é a vitória do bem sobre o mal. A mensagem é outra:

Aceite a exploração com um sorriso, trate bem quem te subjuga e aceite o sofrimento com gentileza. Um dia, tudo será recompensado!

Não sei…

 Histórias como essa existem para transmitir para nosso inconsciente essa ideia de que o que é bom fica para o final, ou quem sabe, depois do final em uma outra vida ou paraíso. Essa mensagem é obra que quem explora, afinal a riqueza acumulada vive sempre de muitos e muitos pobres.

Vamos passando essa mensagem subliminar de geração em geração e o sofrimento que nos é imposto, em uma vida sem graça e sem atrativos para a esmagadora maioria é aceita com alegria, afinal, o céu será a recompensa de tanto sofrimento e abstinências.

Estarão lá todos os sofredores e explorados, além dos camelos que vão ocupar o lugar dos ricos, passando pelo buraco da agulha, lembram?

Nossa cultura, faz do divertimento algo supérfluo.  A “boa” conduta é abrir mão de tudo que a vida tem de melhor em nome dessa purificação ou passaporte para o sonho de Marx, que só existe no “outro mundo”: uma sociedade onde somos todos iguais, desfrutamos os bens do paraíso em igualdade, não precisamos nos preocupar com comida, dinheiro ou moradia, não faz frio nem calor (temperaturas altas só no inferno), trabalho para todos(se houver) e não teremos mais dor ou velhice, já que espíritos não tem corpo. É ou não é a utopia comunista?

O grande problema é que essa outra vida ou paraíso “all inclusive” não tem garantia de que realmente exista e que será desse jeito. Terminamos abrindo mão de um outro conselho da cultura popular que diz: “Não troque o certo pelo duvidoso”.

Todo sistema de moral vigente, com suas proibições e definições de certo, errado e pecado tem uma só finalidade: tornar iguais pessoas diferentes. Essa diferença ou individualidade comprovada pela biologia não pode ser expressa em termos de vida na medida em que pessoas essencialmente diferentes precisam apresentar comportamentos iguais. Isso, é claro, facilita o controle, com o estabelecimento das diversas penalizações para quem sai ou desobedece em busca de viver essa singularidade: A lei, a punição divina ou a fofoca como meio de controle social.

O único mecanismo de escape socialmente aceito é a expressão artística ou comportamental. Mas como o sistema é sábio, mesmo os “transgressores” são engolidos. Isso acontece quando esse padrão comportamental rebelde vira moda e para isso se criam roupas, músicas e acessórios que, ao serem comercializados, trazem ganhos financeiros para seus idealizadores. Assim, tudo vira moda, que, por ser moda, seja usada por todos como outra maneira de tirar proveito até da crítica.

O termo felicidade é muito subjetivo, como tudo que se refere a pessoas diferentes. Assim, ao existir um padrão do que seja “ser feliz”, anulamos a possibilidade de cada um encontrar a sua, para buscar o que é reconhecido por todos. O modelo de perfeição que a religião institucionalizou nada mais é do que oferecer um padrão único do que será aceito no futuro mundo ou reino. Está aí, anulada, toda a possibilidade da diferença ser aceita como forma de expressão. Sobra só a busca pela saída do exagero, por símbolos de poder (diferenciação) ou pela química que relaxa o espírito e o corpo da pressão de sua anulação.

Essa espécie de ascetismo pregado como sendo a conduta do santo, só pode existir se nos sentimos culpados pelo jeito que somos e a privação da vida vivida plenamente vira a purificação devida. Somos um corpo com todas as suas possibilidades e negá-lo também é negar a própria vida. Em nome de quê?

Essa vida aqui é certa, comprovável e tem muitas coisas para nos alegrar. É feita de encontros, desencontros e a eterna novidade de sermos seres mutantes, outra particularidade que define tudo que é vivo. Aqui também se celebra, compartilha e dá para se divertir muito, até com bem pouco dessa coisa que nos ensinaram suja (nunca esqueça: lave suas mãos se mexeu com ele) que nos impede de acessar o paraíso: dinheiro!

Cinderela não é parâmetro, já que sua beleza não é comum e não temos muito príncipes solteiros muito menos muitas fadas disponíveis. A nossa heroína com sangue de barata, meio “boca mole” tirou em uma mega sena sem comprar bilhete. Se deixou oprimir, explorar e humilhar e foi salva pela única coisa realmente dela: sua beleza. Mesmo a própria história, não conseguiu anular algo de individual.

O que existe, infelizmente, são muitas e muitas vidas (maioria) que começam e terminam mal. Olhe em volta e veja o que o sofrimento, a penúria e a miséria trazem? Só mais do mesmo. Mas essa passividade só existe pela recompensa, pelo sofrimento trazer algo de bom. Será no paraíso que os anulados e oprimidos se vingarão, lá eles serão reconhecidos e os ricos e exploradores sofrerão para sempre. Será?

Não faça desse tipo de história algo que te console, mas que, de preferência, leve a uma saudável e inteligente revolta, à desobediência dessa vida de contrição, tristeza e sofrimento. Pode comer mais uma fatia de bolo, sentir raiva é humano, pensar em sexo é normal nesse corpo que habitamos, etc. Qual o problema?

Todas essas histórias e livros sagrados foram escritos por gente como eu e você, movidos por desejos de poder e expectativas. Olhe em volta e veja como todos têm problemas, sejam ricos ou pobres. Viver é assim, uma eterna novidade e surpresa.

A vida é como na sua rua, cidade e país. Maldades e coisas legais acontecem a todo momento e é isso que temos. Se teremos outra vida, algum paraíso ou inferno só saberemos(?) depois. O que é real é seu dia de hoje, família, trabalho, amigos, amores e, é claro, problemas.

Não se deixe mais enganar com promessas de reinos futuros e cuide em como vai contar essa história para alguma criança. Diga simplesmente para ela no final:

-Deu sorte essa Cinderela, mas se acontecer com você de ser explorado, não aceite, não permita que anulem sua individualidade! Não conte com nenhuma ajuda acima de suas forças.

As fadas pararam de fazer milagres faz tempo. Uma vida boa é responsabilidade só sua, de mais ninguém!

 

O combustível da vida

              “A felicidade é a compreensão lógica do mundo e da vida. ”

             “O homem livre não pensa em nada a não ser na morte; e a sua sabedoria é    uma meditação                      não sobre a morte, mas sobre a vida. ”

                                                                                     Spinoza

                                                                                                                        alegria

Baruch Spinoza foi, sem dúvida, um dos grandes filósofos da história e seu trabalho para quem procura entender melhor a si e ao mundo está mais atual que nunca. Mesmo tendo vivido pouco mais de quarenta anos, seu pensamento atingiu uma clareza impressionante. Incrivelmente, seu trabalho em relação a ética foi seu maior sucesso, mas sua visão do que é a vida, em meu entender, é superior. Seu “pecado” nesse aspecto é ter discordado da essência do pensamento de Platão, que ainda vigora como a visão “correta”, como se isso fosse possível em um mundo de pessoas diferentes. Talvez tenha começado aí, essa história de que existe um jeito “certo” de se viver, pensar e agir no mundo.

Spinoza era um pensador monista, isso quer significar que, para ele, só existe um mundo sensível e inteligível e que o homem é também um só, ou seja, o corpo que sente é o corpo que pensa. Platão diria que somos dois, um que sente e um “outro” que pensa. Assim, já podemos começar a entender, por exemplo, o motivo de termos pensamentos que não queremos ter. São pensamentos do corpo, como já citei em artigo anterior. Pensamos movidos pelos sentimentos e necessidades do nosso corpo, e ele dizia que “só podemos pensar o que somos a cada momento”. Mais tarde Nietzsche dirá uma de suas frases fortes: “Algo pensa em mim”.

 Dessa forma, Spinoza nos alerta que não temos muito controle sobre o que pensamos e poderemos, por que não, nos desculparmos por isso. Sabemos que viver em uma sociedade é abrir mão de desejos que não podemos ter e fazemos isso em troca de segurança. Mas nossos pensamentos buscam apenas nossa felicidade naquele instante. Assim, os pensamentos têm um problema em sua execução na busca de alegria; que isso seja permitido pelo mundo que vivemos.

Para ele, a vida é um conjunto de relações do corpo com os outros corpos e com o mundo, obviamente! Mas essa palavra “relação” precisa ser entendida em seu pensamento. Para nós relação tem mais a ver com trocas e negociações, mas ele dizia que relacionar-se é afetar e ser afetado, seja por alguém ou pelo mundo. Essa é uma visão mais complexa e que está vinculada a uma conclusão: Somos afetados pelo mundo e afetamos o mundo a todo momento e, essa troca, precisa trazer um resultado para que nos sintamos bem: alegria!

Spinoza diz que a alegria é como o combustível da vida. Quanto mais alegres somos, mais temos o que ele chama de “potência” e que, anos depois Freud chamou de “Libido”. No ramo da auto ajuda essa palavra chama-se “motivação” e por ser vista desse modo sempre tem um efeito curto. Estar motivado é estar alegre e é na relação com as pessoas e o mundo que essa alegria ou combustível vem, não o contrário. Por mais espetacular que seja uma palestra motivacional e fizer você rir e se imaginar capaz de tudo, será sempre uma dose de curta duração, pois a alegria que o manterá com potência ou força de viver vem dessa troca com o mundo e não de algo que alguém te dirá, sem uma compreensão profunda e uma mudança da visão da vida individual. Nada serve para todos, isso é partir do pressuposto que somos todos iguais e nos relacionamos de igual forma com o mundo e as pessoas.

Sua filosofia nos ensina, em outras palavras, que quanto mais alegria mais vivemos e a tristeza nos leva a morte. Dessa forma se nossas relações nos trazem alegria, vamos em frente com vigor, mas quando elas nos trazem mais tristezas e frustrações a vida se aproxima do fim.

Eu e você sabemos que essa é uma batalha perdida. Mesmo aqueles de nós que chegarem a uma idade avançada, pelas limitações do corpo e por tudo que teremos que parar de fazer, seja pela condição física, seja das restrições dos prazeres (que sempre fazem mal ou engordam), nossa alegria de viver vai diminuindo e a morte é sempre o fim. O próprio Spinoza, seguido depois por Freud, disseram a mesma frase:

 Morremos de tristeza.

Como se diz em postagens do facebook, “fato”!

Por isso a alegria é a maior resistência contra esse mundo agressor e opressor que vivemos, sempre nos dizendo “não” aos pensamentos que querem nos trazer alegria. Mas onde encontrar essa alegria?

Ela pode vir de relações, de objetivos, sonhos e de sabermos que estamos modificando o mundo para melhor. Essa modificação vem do nosso trabalho, do contato com outras pessoas e termos uma autoestima de sermos bons no que fazemos e somos, representando algo útil nesse mundo, ou como diria Aristóteles: Fazendo o que o universo espera que façamos.

Mas aí tem um problema que é cultural ou institucional, como queira. O mundo que vivemos nos aprisiona, nos rotulando e nos cobrando uma previsibilidade que, para Spinoza, não é possível. O motivo é simples; nunca nos repetimos, estamos sempre mudando e o mundo também, é claro! Tudo é inédito e não tem como querer, mesmo que você prometa ou faça mil juramentos que o que te dá alegria hoje, dará no futuro. Como saber, por exemplo, se tanto você como outra pessoa e a própria vida se modificam sem parar, que qualquer tipo de relacionamento pode ser para sempre motivo de alegria?

Dessa forma, mesmo que um dia a batalha seja vencida pela tristeza, por não termos mais forças para a luta, nosso compromisso é sempre entendermos essa mudança constante e buscarmos alegria no que fazemos. Cuidar dos relacionamentos, para que a rotina não tire aquela alegria do começo, que sempre ilusoriamente achamos que durará para sempre, e comece a trazer mais tristeza que o levará à morte. Mudar junto, aceitar que o mundo não se molda a nós e nem se importa conosco pode tirar o romantismo da vida, mas para isso sempre temos um bom filme para assistir.

No fim, nossa inteligência pode nos ajudar a encontrar outras maneiras de ver e lidar com as coisas. Com opções, fica mais fácil buscar uma visão mais alegre. Isso nos manterá, segundo Spinoza, com combustível suficiente para enfrentarmos aquelas situações inevitáveis que nos deixam tristes ou frustrados e que diminuem nossa potência de viver.

Se Spinoza influenciou Nietzsche, Freud e tantos outros podem também ser útil para você, afinal a filosofia só tem serventia se for aplicável a vida no seu dia a dia. A conta é simples: que a coluna da alegria nunca seja menor que a da tristeza e isso, depende de escolhas e um pouco de coragem.

Como já disse, um dia pereceremos nessa batalha, mas podemos tombar orgulhosos de termos vivido uma vida boa. Estamos aqui para isso (alegria). Sofrer e achar que isso é bom, só para os ignorantes, manipulados e explorados a séculos.

 

Meditação

“Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio – e eis que a verdade se me revela.”

                                                 Albert Einstein

“Existem atitudes do homem que o leva ao amadurecimento, uma delas é a meditação.”

                                           Tailini Girardi

                                                                                                                                                                                                                 MEDITAÇÃO

Tem sido cada vez mais comum nos últimos anos a procura pela meditação como uma solução para problemas como a ansiedade, depressão ou com o objetivo de buscar mais equilíbrio diante dos, cada vez maiores, desafios da vida moderna. O problema é uma grande expectativa (e toda a expectativa de hoje é a frustração certa de amanhã) de que, em poucos dias, uma grande mudança acontecerá. Como meditar é mudar e isso leva tempo, faz com que não haja a persistência necessária para que os resultados apareçam.

Falar em meditação é saber que existem muitas definições, técnicas variadas e toda ordem de misticismos envolvidos o que sempre pode atrapalhar.  Meditar é algo simples, mas alguns pontos precisam ser entendidos.

Para os leitores de “Céu e Inferno”, lembro que  meditar é buscar sair do inferno da mente e buscar o céu da consciência eterna e isenta de sofrimento. Lembre que o conceito de eternidade  é da ausência de tempo, ou seja, não há passado nem futuro, origem de todas as angústias e preocupações.

Então, para começar, o processo da meditação pede que durante a prática, renunciemos a tudo que for exterior, com o objetivo de criar a condição de interiorização, para isso, fechar os olhos é necessário. Vivemos e fomos criados pensando que somos aquilo que temos e queremos ter. Não é fácil se perceber sem “nada”, mas nunca esqueça que sofremos sempre pelo que dizemos que “temos” ou chamamos de “meu”, incluindo tudo que imaginamos que, quando tivermos, seremos mais felizes. A meditação, com o tempo, mostrará que você é um saudável “ninguém”, que na verdade não é dono de nada nem de outras pessoas. Com isso o fardo fica leve e a alegria ganha espaço!

Mostra a natureza nas suas leis simples e verdadeiras que não há progresso sem empenho e esse estado de se perceber livre, nem que seja pelos poucos minutos de prática, leva algum tempo e saber esperar é sabedoria. Queremos tudo para já, e para isso temos dinheiro, cheque, cartão de crédito, débito e imprimimos boletos. Mas estados evoluídos são conquistados e não comprados.

Como bem dizem os budistas, o objetivo da meditação é simplesmente o silêncio sublime, a tranquilidade e a clareza mental, mas como conseguir isso com a mente trazendo lembranças e preocupações sobre o futuro a todo o momento? A resposta é a renúncia a tudo que somos e temos, conforme descrevi acima.

Sidarta Gautama disse certa vez que: “Um meditador, cuja mente se incline para a renúncia, com facilidade alcança o Samadhi* (objetivo final da meditação)”. Mas isso não é você doar suas coisas, terminar seus relacionamentos e amizades e viver na pobreza. É apenas, durante os minutos de meditação se desvencilhar disso tudo, para voltar a sua origem de “ser”. Manter o domínio da mente evitando os pensamentos sobre família, trabalho, compromissos, responsabilidades e, principalmente, as previsões escabrosas sobre o futuro. Para aqueles que gostam de lembrar das situações ruins que já passaram, também evitar afundar na lembrança e sofrer de novo. Imagine, apenas imagine, que você é alguém desprovido de história como ensina Ajaan Brahmavamso.

Para isso, existem alguns recursos, cabe experimentar para descobrir com o que mais se adapta:

– Utilizar uma frase ou palavra (a isso chamamos “mantra”) e ficar conscientemente repetindo essa frase/palavra com o objetivo de manter a mente presa, sem que ela possa “fugir” para os assuntos que citei acima.

– Manter-se conscientemente focado na sua respiração, observando atentamente a entrada e saída do ar.

– Visualizar alguma situação ou imaginar-se em local agradável e evitar “sair” desse lugar.

– Visualizar alguma imagem fixa, que pode ser um símbolo de seu agrado ou qualquer outro (a isso chamamos de Yantra), mantendo a atenção fixa nessa imagem.

Existem infinidades de outras técnicas, e nada impede que você crie a sua, lembrando que o importante é manter a mente “presa” em algo. Obviamente que isso não será conseguido com facilidade, mas a persistência traz o resultado. Cada vez que se perceber divagando entre passado e futuro, simplesmente retorne sem brigar consigo mesmo e retome o processo. Milhares de vezes isso acontecerá. Como você já foi avisado, não dê importância, é assim mesmo.

Procure manter sempre a coluna ereta e para isso pode usar uma cadeira onde apoiar as costas. Ficar sentado em posição de lótus é uma imagem clássica de meditação mas está longe de ser obrigatória. Caso Sidarta e outros que atingiram o máximo onde um ser humano pode chegar morassem em um lugar frio, garanto que sentado no chão não daria certo. Muitos procuram copiar a posição e outras coisas achando que isso os levará ao mesmo lugar. Bobagem!

Quem chegou “lá”, foi com anos de prática e de colocar sua vida dentro de uma perspectiva menos sofrida e isso só aprendendo a estar fora da mente para conseguir.

Manter a coluna ereta ajuda com alguma tensão a ficar atento. Perceber que a cabeça inclinou para baixo ou que as costas curvaram é um sinal de que precisa retomar a atenção na meditação.

O fato de um determinado dia a meditação ser gratificante, de experienciar uma calma profunda e paz interior, não quer dizer absolutamente que isso é algo conquistado e que sempre será assim. No dia seguinte pode ser tudo difícil e frustrante, e isso faz parte. Não existem garantias, é a prática pela prática, sem expectativas. Faça porque é bom, reconhecidamente traz resultados, mas não espere nada.

Esse é o ponto, não é um negócio ou uma troca. Não existe ninguém nesse ou de outro mundo para recompensá-lo. Portanto, não é alguma negociação, como muitos fazem com as religiões esperando que nada vá acontecer com eles nem com os seus entes queridos por fazer parte dessa ou daquela crença e, quando acontece algo ruim, trocam de papa, ministro ou pastor.

Esse desapego dos resultados é decisivo, mas a mente é essencialmente dúvida e  medo, logo ela nunca vai ajudá-lo. Aliás, vencê-la é a meta. A mente nunca vai parar, o que acontecerá é descobrir que esses pensamentos não são seus, enquanto consciência, mas das necessidades do corpo e do medo do sofrimento e da morte.

Com o tempo, poderá acontecer de perceber-se cada vez mais fora dos processos da mente, se tornando um “observador” dos conteúdos que ela traz. Obviamente, quem observa só pode fazê-lo por estar do lado de fora e estar assim é não sofrer.

A meditação também pode ser ativa, ou seja, fazendo algo. Pode ser correndo, nadando ou até mesmo fazendo alguma atividade criativa. Como saber que esteve meditando? A resposta é: se perdeu a noção do tempo e não ter pensado em mais nada além da atividade em si. Esse é o tipo de meditação que as pessoas mais fazem, sem saber que estavam em meditação e é tão válida quando a outra, com uma diferença importante: a atividade evitou as distrações da mente enquanto a passiva ou sentada é uma busca de dominá-la e entende-la.

Depois da sua prática, volte a fazer suas coisas e pensar no futuro é uma delas, mas vá procurando evitar viver nele. Uma das possibilidades é que irá acontecer o que imaginamos, mas pode ser tudo diferente e quase sempre é. Perguntado sobre isso certa vez Sidarta respondeu: “O que quer que vocês pensem que assim vai ser, sempre será algo distinto. O sábio compreende que o futuro é incerto, desconhecido e portanto imprevisível”.  Deixe sempre aberta a possibilidade de que o melhor aconteça, porque para a mente serão apenas tragédias e sofrimentos.

Inicie com dez a quinze minutos, no máximo, por dia por uns seis meses. Aumente o tempo quando se sentir confortável, e não fique anunciando ou divulgando o quanto você medita. Já vi até “selfie” de pessoas meditando. Isso é puro ego e infantilidade. Pessoas assim podem dizer que ficam horas em meditação, mas provavelmente ainda não saíram do lugar. A auto compreensão vai pela via contrária da exposição.

Quanto mais você for se aprofundando, imagino que as fotos, palavras, angústia e medos irão diminuindo em troca de clareza e mais silêncio interior.

Por isso, meditar é perder o desnecessário e ganhar o imprescindível.

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*Samadhi – é a unidade com o Espírito, é o estado mais elevado que se alcança pela meditação prolongada e profunda. Consiste em dissolver a bolha do ego no oceano do espírito. É o estado onde não existe distinção entre o “eu” e o “objeto”, experimenta-se a unicidade com o Todo.

Para saber mais: O método básico de meditação. Ajaan Brahmavamso – ed. Orbi