Suicídio

“O suicídio faz com que os amigos e familiares se sintam seus assassinos.”

Vicent Van Gogh

Esse é um tema difícil, muito pouco abordado em minha opinião. O que pode levar alguém a atentar contra sua própria vida?

Evidente que cada pessoa é um universo, mas existem alguns estudos e estatísticas a respeito sobre as quais poderemos refletir. Um ponto inicial, sobre o qual se tem quase uma unanimidade (quase, porque eu não concordo totalmente), é que o suicídio é resultado de uma perturbação psíquica, ou seja, a pessoa não está de posse de sua razão. Será?

Partindo-se do ponto de vista que temos um instinto natural de preservação da vida, essa teoria é válida, mas e se pensarmos sob o ângulo de quem está desesperado, angustiado e não vê saída? Nesse caso, temos a maioria das pessoas que cometem esses atos. Nessa hora é importante entender que todos os estudos sobre o tema*, demonstram que essa é uma decisão trabalhada internamente por longo tempo. É raro o caso de decidir repentinamente tirar a própria vida, é sempre resultado de um processo. E a razão dessa demora é justamente esse conflito entre a percepção da pessoa de sua situação e o instinto de sobreviver, afinal habitamos um corpo que luta para manter-se vivo.

Durante esse conflito, que pode levar meses ou várias semanas, a pessoa normalmente dá muitas pistas aos amigos e familiares, chegando até a dizer explicitamente que pensa na possibilidade. Nessa hora, normalmente, as pessoas próximas não acreditam que isso acontecerá e não atentam aos sinais.

Nesse ponto é fundamental entender que, das pessoas que cometem suicídio (ou tentam), 80% estão atravessando uma crise depressiva. Portanto, para melhor entendimento, recomendo a leitura do artigo anterior chamado “depressão, o grande vazio”. Em minha opinião, o que faz a pessoa optar pelo suicídio na verdade é um fator temporário. A angústia e a tristeza profunda que se experimenta nessas horas trazem a quem está sofrendo a percepção de que isso nunca acabará. E sempre acaba, mais rapidamente ou não, de acordo com os recursos que se busca para o enfrentamento da depressão. Mesmo a medicação, que não promove a cura na sua base, apenas atenua os sintomas, pode trazer uma sensação de melhora em algumas semanas. O problema é que, quem está passado por isso imaginar seus próximos 20 ou 30 anos com esse sofrimento, nesse caso a morte termina sendo mesmo um alívio. Para alguns terapeutas, uma fuga ou mesmo uma transferência da culpa pelos seus problemas para a família, amigos ou sociedade, como um revide ou mensagem ao seu ambiente.

Poderemos ir um pouco mais a fundo e pensarmos, por exemplo, que nos campos de concentração da 2ª guerra, onde as condições eram sub-humanas tanto no aspecto de condições materiais oferecidas como psicológicas, os índices de suicídios eram baixos, assim como nos países mais ricos, onde o próprio estado oferece uma série de comodidades, os índices são altíssimos. Por quê?

A resposta confirma que a questão não é de “ambiente”, mas de conflito interno. Penso que na sua raiz mais profunda, o suicídio esteja intimamente ligado à tensão entre o que realmente somos e queremos viver e aquilo que vivemos no dia a dia. Na percepção da pessoa que jamais conseguirá por em prática seus desejos, suas aspirações que, na sua ideia, lhe faria feliz.

Nossa enfermidade essencial é a dualidade! Isso faz com sempre estejamos entre o “certo” e o “errado” que sempre são conceitos ou normas vinda de fora, impostas pela cultura vigente, que pensa o ser humano como massa de manobra, nunca respeitando a individualidade. A busca da “unidade”, conquista evolutiva final, é o fim desse pensamento antagônico que nos coloca, muitas vezes, diante da seguinte questão: Meu desejo não é “certo”, o que quero para mim, para os outros é “errado”, ou todos se colocariam contra mim, etc.

Thorwald Dethlefsen e Rüdiger Dahlke em seu brilhante livro “A doença como caminho” define essa questão de forma contundente: “Parece-nos muito importante que o homem aprenda a aceitar sua culpa, sem se deixar oprimir pelo peso da mesma. A culpa humana tem natureza metafísica, e não é provocada diretamente pelas ações dos homens….A tentativa de fugir do pecado fazendo o bem nos leva a ser desonestos. …O caminho para atingir a unidade, ao contrário, exige mais do que simplesmente fugir ou olhar para o lado. Exige que nos tornemos mais conscientes da dualidade que existe em todas as coisas, sem ter medo de passar pelos conflitos inerentes a natureza humana. O desafio não é redimirmo-nos dos conflitos, mas permitindo-nos vivências. Portanto, é necessário estar sempre questionando nosso sistema de valores fossilizado, e reconhecer que o segredo do mal está, em última análise, no fato de que ele nem sequer existe.”(pg. 52)

Muito mais do que uma alteração na química cerebral, a depressão que leva a pensar que morrer é uma solução para esse conflito mostra que todo problema está sempre na natureza humana que busca a felicidade e chega à conclusão de que ela não é possível. Quando a pessoa perde a capacidade de acreditar, não há porque continuar. Nem todos, ou quase ninguém, tem as condições de buscar um auxílio que tenha uma visão evolutiva da existência. Nossa medicina é somática apenas, ou seja, trata o corpo como algo completo por si só, esquecendo os fatores evolutivos que afetam as emoções e assim por diante. Como disse certa vez Roberto Crema: “Cuidar somente do corpo não diferencia o médico do veterinário”.

A maioria das pessoas fica abandonada a essa visão estreita, a uma psicologia que não contempla a evolução, buscando somente a adaptação, a uma maneira de viver doente, estudando um ser que não se conhece, quando deveria encaminhá-lo a seu potencial evolutivo, ajudando-o a “tornar-se” o que É, como dizia Nietzsche.

Nas últimas décadas, o número de suicídios tem aumentado em mais de 40% e continua crescendo. A cultura que vivemos fomenta a ansiedade, tornando as pessoas cada vez mais angustiadas pelo medo de não conseguirem atingir o patamar de felicidade vendido pela mídia, representado pela aquisição de bens materiais, de relacionamentos afetivos ou corpos hollywoodianos. Os números mostram que a classe média é a mais atingida, ou seja, depois de já ter conquistado o que se exige a felicidade não está presente. E agora? Alcoolismo, drogas, compulsões e depressão, por consequência, é o caminho natural. Pensar seriamente em morrer chega a ser lógico, afinal, a ideia sobre a qual toda a vida foi estruturada foi descoberta como sendo uma grande mentira.

Sentimo-nos culpados por querer ser quem somos, e se isso não está dentro da “cartilha”, dos mandamentos ou da moda, vem a culpa de se sentir inadequado, não compreendido ou taxado como louco ou doente por não aceitar as normas do rebanho e de seus condutores, mais doentes ou simplesmente mais espertos que suas ovelhas. Essa culpa, que com o tempo vai afetando a química do corpo, já que nosso metabolismo acompanha nossa imaginação e pensamentos.

A depressão, que causa mais de 80% dos suicídios, deveria ser tratada simplesmente pelo conceito de que a pessoa não está no seu “rumo” e que a mudança precisa ser feita. Mas não é assim, ela é medicada, anestesiada no seu sintoma que deveria ser ouvido e compreendido como a necessidade de mudar. Mantê-la assim triste por estar distante de si mesma e sem saída, em minha opinião, é a causa da maior parte dos suicídios, ou você já soube de alguém realizado, contente ou que faz o que gosta que tenha se matado?

Os números mostram que a idade média das pessoas que buscam o suicídio está entre os 15 e 44 anos, ou seja, na busca de identidade da adolescência e a “meia” idade, onde já percebemos que tudo que nos foi vendido e pelo que lutamos a vida toda não trouxe o resultado esperado.

Estima-se que se suicidem, em média, 2000 pessoas por dia no mundo, sendo que todas as estatísticas não contemplam as tentativas frustradas nem os casos considerados “acidente” pelas autoridades. Na verdade, os números são bem maiores! Alguns estudos chegam a citar 1.000.000 (um milhão) de suicídios anuais.

Já se chegou à conclusão de que a mídia deve evitar divulgar casos de suicídios, já que eles podem incentivar quem ainda está em dúvida a buscar essa saída. Os números do mercado farmacêutico de remédios para depressão e ansiedade geram bilhões de dólares anuais, movimentando em muito a indústria da saúde, e isso pode explicar porque se fala tão pouco do assunto e as autoridades não fazem do suicídio um caso de saúde pública. O que se considera aceitável, pelos números da Organização Mundial da Saúde, são 4 suicídios anuais para cada cem mil habitantes.

A saída é evolutiva, via a busca pelo autoconhecimento e a realização pessoal, de vivenciar o que se é, e se para isso precisar enfrentar as dificuldades e obstáculos que o ato de estar vivo traz, que se faça! Mas e a coragem de enfrentar inclusive paradigmas religiosos, que na sua maioria, não aceita que se seja “diferente” ou dessa cultura que trata o ser humano só como uma máquina que produz, onde está?

Não existe e nunca existiu algum caminho que seja ruim ou errado. Tudo é “uno” e a divisão é diabólica. Não pode existir um padrão para pessoas, todas diferentes entre si.

Em Shinjinmei, o mais antigo texto do Zen Budismo, diz o seu versículo 22: “Se restar em nós a mais leve ideia de certo e errado, então nosso espírito se perderá na confusão”.

A busca da paz interior (felicidade) está em averiguar o que, para cada um é certo e respeitar a ética mínima do limite do outro. Cada um no seu caminho, na sua estrada!

Por mais que as religiões façam do suicídio um pecado duramente punido, nem mais isso está impedindo cada vez mais os números de aumentarem. Precisamos mudar a abordagem, a maneira de entender o ser humano ou os números não pararão de crescer.

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*Estudos fartamente disponíveis na internet. Como todos, os estudos estatísticos referem-se à maioria ou a média dos casos. Lembrando que a exceção justifica a regra.

4 Comentários

  1. Andréa Menezes Rocha   •  

    Olá Eduardo
    A estatística, que sabemos ser parcial, nos entristece demais. Sendo também voluntária do CVV e estando sempre em busca do autoconhecimento para uma vida plena, quero parabenizá-lo por sua coragem em abordar este assunto.

  2. Cláudio Cesar de Lima   •  

    Seu artigo deveria ser lido por pessoas em situação de extremo sofrimento, que julgam que aquilo não terá fim e certamente descobrirão que na verdade o importante é viver o agora e que amanhã não existe. Suas palavras impedem uma faca cravada, um estampido em algum quarto sujo de hotel, um lançamento no abismo e mostra que há um outro caminho, uma vida que pode ser recomeçada e, por isso, além de permitir a vida, blinda-a com o óbvio.
    Viver é algo tão precioso, respirar é tão misterioso quanto simples, assim como a contemplação de tudo que nos rodeia na natureza. E ao nos contemplarmos, olhando-nos como possuidores de parte de todo esse mistério e beleza, dificilmente daremos fim ao que não sabemos o que será amanhã; não podemos imaginar nem mesmo o próximo passo e muito menos impedi-lo.
    As pessoas que por qualquer motivo estejam em estado depressivo deveriam, antes de mais nada, respeitarem-se, não ter medo, esquecer de ontem,não imaginar o amanhã. Poderiam, melhor ainda, levar o seu artigo no bolso e nas horas de desespero lê-lo como se fosse uma oração.

  3. sandra gomes lima   •  

    Então, esta é uma questão extremamente complexa…..por 45 anos convivi copm um familiar que ameaçava suicidio das mais diversars formas:se jogar em baixo de uma caminhão, tomar veneno de rato, tomar uma overdose de tranquilizantes, etc…e após 45 anos de ameaças, esta pessoa desencarnou de forma natural.Então como saber se estas ameaças realmente irão de concretizar ou não?Penso ser este um ponto que deva ser investigado a fundo por profissionais competentes, para aliviar o sofrimento não só do potencial suicida,digamos assim,mas da familia e amigos que acabam recebendo a carga de constantes ameaças.

  4. Cristiane N. Baruffi   •  

    Eduardo, parabéns pelo artigo.Ontem assisti um filme e gostaria de recomendar para quem ainda não assistiu. O nome do filme é Veronika decide morrer, é uma adaptação da obra de Paulo Coelho.O filme é perfeito e mostra exatamente o que uma pessoa sente e o que ela busca com o suicidio, aonde tbem mostra que essa pessoa tem uma nova chance, e vai de encontro com tudo o que você diz no seu artigo. Abraços.

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