Reflexões sobre a religião – 2a Parte

Quanto mais nos educamos, mais nossas convicções chegam de segunda mão.  Quando paramos de acreditar na verdade dos outros é que começamos a enxergar a luz no fim do túnel”

Sam Harris – A Morte da Fé

 

Uma crença pode ser definida como algo que nos move na vida. A partir delas que definimos nossa visão de mundo, nossas interpretações sobre tudo que nos acontece e, principalmente, nossas reações emocionais diante de todos os tipos de situações. Essas crenças nos são impostas desde a infância e não costumamos discuti-las, se certas ou erradas durante nossa vida, salvo se nos percebamos sofrendo por elas e tenhamos a coragem de mudar.

Isso também acontece com a religião, me mantenho nela como praticante desde que isso não me traga prejuízos sensíveis, me sinta protegido, crer que ela pode operar milagres a meu favor ou minhas expectativas não serem frustradas. Ouço seguidamente pessoas se dizerem pertencentes a alguma religião acrescentando no final da frase um “não praticante”. Isso é realmente engraçado, porque a própria essência da religião está ligada a prática religiosa. Na verdade dizer-se “não praticante” é não pertencer a referida religião. Esse fato normalmente ocorre, porque essa religião não foi escolhida pela pessoa, mas imposta, normalmente na infância. Por isso tem sido tão comum as pessoas trocarem de religião ou “filosofia” quando atingem uma certa maturidade e não mais sentem culpa por trocarem o que a família lhes deu.

No Brasil isso é muito claro. Pesquisas demonstram o crescimento do espiritismo, por exemplo, sem que haja uma transferência no número dos que se dizem católicos. É fácil perceber que, conforme o artigo anterior, o “católico” faz parte da identidade da pessoa enquanto que a freqüência aos chamados centros espíritas parece ser uma escolha, muito baseada na idéia de que, segundo essa filosofia, vive-se muitas vidas, enquanto o catolicismo defende que a existência é única, seguida pela vida eterna, seja no paraíso, seja no inferno. Isso é claro dependendo das condutas e atitudes certas ou erradas. Convém lembrar que isso depende, já que vi documentários da segunda guerra mundial onde padres benziam canhões, além é claro do período da inquisição, onde a Igreja matou centenas de milhares de pessoas “demoníacas”, revogando, ou queimando (fica melhor nesse caso) o mandamento de “não matarás”. Isso mostra que depende da conveniência.

Sidharta Gautama (Buda) cansou de dizer que não queria imagens suas depois de sua morte, mas que seu ensinamento é que fosse mantido. Hoje as imagens de Buda estão por todos os lugares. É fácil entender que as pessoas prefiram essa imagem, já que através dela é mais fácil lembrar dos ensinamentos, mas não foi isso que Ele pediu.

Já Cristo, pelo que se sabe, levou uma vida de humildade e seu veículo de locomoção era um asno, o animal mais simplório da época. Hoje, o seu representante vive em palácios, coberto de ouro e é dono de bancos. Por isso cabe lembrar que as religiões não foram criadas pelos Mestres, mas pelos discípulos, seus seguidores, normalmente em estágio evolutivo muito inferior. Isso explica as hierarquias, lutas de poder, divisões e todo o tipo de equívocos nas estruturas religiosas do mundo todo mostrados fartamente pela História.

Justamente por isso, tenha calma com sua conduta religiosa. Trabalhe sua religiosidade, que nada tem a ver com religião. Se Deus existe, tenho certeza que você não precisa de nenhum intermediário ou ir a um lugar específico para ser ouvido. Lembre que esses Mestres não deixaram nenhuma linha escrita de próprio punho. Tudo é de 2ª mão, ou seja, escrito por outras pessoas e com a intenção clara de manipular a conduta das massas com claros objetivos de poder. Nunca se esqueça que os chamados livros sagrados têm realmente belos ensinamentos, algumas curiosidades e também absurdos, justamente porque foram escritos de forma que se possa interpretá-los de muitas maneiras. Caso não fossem escritos assim não poderiam transpassar as épocas e séculos.

O homem precisa acreditar em algo maior do que ele, que possa dar algum sentido a vida, a morte e as tragédias que vemos todos os dias. Einstein disse certa vez que Deus não jogava dados com o Universo, que tudo tinha uma lógica e um porquê. Mas se para você essa inteligência não é um velhinho e não tem barba branca, não precisa se sentir à parte de tudo. Desvincule-se dos modelos criados pelos outros e não há mal nenhum em ter a sua própria religião. Sinta-se a vontade para livrar-se dos “pacotes fechados” e poder simplesmente pegar o que quiser das várias religiões existentes para criar a sua própria. Quem disse que elas detêm a verdade? Só pelo fato de termos tantas religiões diferentes que pregam coisas tão distintas é óbvio que nenhuma deve ter a verdade, com sorte, uma parte…

O que realmente importa é você encontrar um sentido, um nexo que tranqüilize, traga paz interior. O que realmente me preocupa é com sistemas fechados que impõe limites e dogmas (verdades que não se discutem). Isso limita a busca do entendimento e coloca uma espécie de coleira. Não é a toa que dizem que somos rebanho…

Sei que as religiões mais tradicionais e dogmáticas tem sua utilidade social, na medida em que impõe a seus seguidores condutas que os afastam de problemas sérios como drogas, álcool e violência. Dão esperança ao desespero nos milagres que podem acontecer, etc.

Buda não falava de nenhum deus e pregava o fim do sofrimento de maneira prática e direta, mostrando que a vida pode ser boa (paraíso) aqui e agora e que o sofrimento (inferno) são nossas condutas apegadas. Cristo um dia perdeu as estribeiras quando viu o templo cheio de gente vendendo bugigangas, comercializando a fé. Diz a história que ele quebrou tudo, bateu nas pessoas e ficou mesmo bravo. Já imaginou se volta hoje?

Está escrito na bíblia que Jesus foi batizado aos trinta anos. Sem dúvida ele tinha razão, é uma ótima idade para, com liberdade e sem imposição, escolhermos uma religião…

 

3 Comentários

  1. Rubens Hochapfel   •  

    Eduardo, sua colocação na questão da religião é uma verdade que todos podem compreender, mas que por receio de perda do que foi aprendido no passado, muitos não querem arriscar uma mudança, pois sentem andar sobre ovos que não podem ser quebrados. Você foi muito feliz na abertura da liberdade de escolha com coragem de mudança para viver o momento, o céu aqui ou o inferno aqui e quando essa ficha cai, a ligação com o todo é completada.
    Parabens!

  2. Bruno   •  

    Oi Eduardo.
    Gostei muito do blog!
    Parabéns!!!

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