Reflexão sobre a TOLERÂNCIA

tolerante – que releva e aceita as falhas alheias; indulgente. Que aceita e respeita idéias ou comportamentos distintos dos seus.

Dicionário Caldas Aulete

 

Passados alguns dias, penso ser oportuno refletirmos sobre os limites da tolerância, tendo como “pano de fundo” o atentado na Noruega.

Consta que a boa educação recomenda que devemos ser tolerantes com aqueles que pensam diferente, afinal cada pessoa tem o direito de escolha sobre sexo, política, religião e no Brasil, futebol…

A questão que se coloca é se devemos respeitar e aceitar diplomaticamente pessoas  que lidam com os conceitos diferentes dos seus de modo tão extremista. Até que ponto é democrático termos, por exemplo, partidos políticos que pregam ideologias nazistas e similares com amplo direito a exporem suas idéias livremente, podendo eleger representantes para os parlamentos e congressos de seus países?

Os defensores da liberdade plena dirão que a “livre expressão” é um direito básico de todo o cidadão, por mais extremas que sejam suas idéias. Penso que essa liberdade só pode ser exercida se estivermos falando de um Ser Humano no pleno gozo de sua humanidade. Será que ao aceitarmos conviver com idéias racistas e baseadas apenas em crenças (sem comprovação, portanto) não estamos sendo coniventes com atos como esse ocorrido na Noruega ou atos violentos baseados em princípios religiosos ou raciais?

É realmente humano quem pensa que sua raça é superior as demais ou que acredita que sua religião ou sua ideologia é a única correta e quem não concordar merece ser desdenhado, eliminado ou punido?

O princípio da humanidade deve principiar pelo bem mais valioso: a vida!

Sempre que alguém, para chamar atenção para suas “verdades”, precisa destruir ou matar, pensando estar fazendo algum bem a humanidade ou para valorizar suas ideologias, em minha opinião, está longe de poder ser chamado de humano.

Nossas escolas ensinam conteúdos para formar uma boa mão de obra para nossa cultura de produção e consumo, quando deveriam, na opinião de Daisaku Ikeda, formar “seres humanos” em primeiro lugar, para só depois ensinar os demais fundamentos.

Está mais do que na hora dos politicamente corretos, tolerantes, democráticos e demais omissos saírem do conforto de seus conceitos de liberdade e defenderem, nem que seja o direito das pessoas fazerem suas escolhas e algumas que nem fizeram (como sua nacionalidade), tenham o direito de continuarem vivas. Devemos, em nome da liberdade, proibir toda e qualquer idéia que defenda qualquer espécie de supremacia seja de que conceito for em nome da vida, por mais incoerente que possa parecer com o conceito de liberdade.

Quando leio que atos como esse, já são defendidos (justificados) por alguns líderes de extrema direita, antevejo que esse tipo de ignorância está longe de terminar. Sabemos que a verdade nunca está nos extremos, mas o meio termo precisa de ação, e já!

Pode até ser coincidência, mas “tolerante” está no dicionário perto demais da palavra “tolo”. Se não for mero acaso, deve ser por ter a mesma raiz…

4 Comentários

  1. Karina   •  

    É Eduardo… é a ironia da livre expressão. Livre expressão de que, não é? Infelizmente nem todos possuem ideias genuinamente úteis, edificantes, que beneficiam ou colaboram com o bem-estar coletivo. Mas mesmos esses – aí a ironia – possuem os mesmos “direitos” de se expressarem, não importa o que seja. E é tão complicado falar desses direitos, porque ao proibí-los, por exemplo, estaríamos tornando a expressão algo controlado, portanto não livre. E ao querermos julgar o que deve ser expresso ou não, incorremos no relativismo: quem deve decidir o que é melhor; melhor para quem? Como você disse, alguns já defendem o ponto de vista do terrorismo fanático perpetrado por aquele cidadão; o que demonstra que ele infelizmente não é o único a nutrir esse tipo de ideal distorcido.

    Eu penso que boa parte do problema reside exatamente no que ensinamos às novas gerações como moral e ético. Para muita gente, a moralidade é algo que se pratica somente dentro da sua comunidade, do seu grupo. “Amo ao próximo desde que ele seja da minha congregação/raça/país/religião/partido”, sabe? Com o restante não há problema em não respeitar valores, ser antiético ou amoral. Isso acontece, ao meu ver, porque a moral é algo “dado”, “ensinado”. É um conceito pronto, que não precisa sequer condizer com a realidade ou que conduza a uma vida melhor. Não é uma percepção natural, não é algo que “floresceu” no íntimo da pessoa. Não diz respeito ao fruto de um amadurecimento, a uma consequência, um resultado de uma evolução consciente. Pra muita gente moral se localiza entre as pernas, na cor de pele, na conta bancária, na igreja que frequenta ou não. Aí quando alguém não “preenche os requisitos” dessa tal “moralidade”, as coisas ficam complicadas para essa pessoa. E os outros, que a tem como “amoral”, não sentem lá muita necessidade de respeitar ou tolerar as diferenças. Só que claro, a maioria não tem coragem (ou melhor: loucura fanática) de pegar um fuzil ou soltar uma bomba num prédio para provar suas ideologias…(sejamos gratos por isso…)

    Em resumo, penso que isso é um problema que reside antes de qualquer coisa no que entendemos por “Educação”. Costuma-se valorizar mais intelecto do que sensibilidade, mais a agressividade, competitividade do que a serenidade e cooperação. A maior preocupação é dinheiro e reputação, é poder e aparência. Os outros acabam sendo instrumentos, ou degraus, para se conquistar essas coisas. E a maioria das pessoas só vai achar isso ruim, quando for a vez delas de serem prejudicadas por esses “valores”. É lamentável, mas a grande preocupação da maioria são seus próprios direitos, não seus deveres e obrigações. O que esse terrorista fez, nada mais foi do que isso: observar somente seus próprios direitos, como o de livre expressão de sua loucura fanática; sem se preocupar com a obrigação de no mínimo tolerar os direitos dos outros – como o de continuarem vivendo em paz. Ahhhh…esse é o tipo de assunto que dá pano para a manga… :-)

    Vou parar antes que isso se torne um “evangelho”… rsrs

  2. Luciana Pinheiro   •  

    Pertinente Reflexão sobre Alteridade. E para provocar ainda mais, uma pergunta (minha síntese a partir do texto do Eduardo): por que será que nos preocupamos em tolerar estilos de vida quando na verdade deveríamos respeitar sincera e profundamente o direito do Outro?

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