Quatro linhas

Crônica publicada no Jornal Folha SC em 19 de Janeiro de 2016

O bilhete ainda estava sobre a mesa no mesmo lugar que quando chegou em casa.

Já tinha lido dezenas de vezes na esperança de estar tendo um sonho. Agora sentia uma exaustão, como se tivesse participado de uma maratona sem nunca ter corrido antes. Esse cansaço, pensou, só pode ser o esforço desses últimos anos para que a relação desse certo. Sentia um misto de tristeza, mágoa e um alívio que parecia não combinar com os outros sentimentos.

O esforço terminou, mas de nada adiantou.

Quando começou o namoro ele havia prometido a si mesmo que dessa vez daria certo. Tinha aprendido nos relacionamentos anteriores a dar mais atenção e ser menos egoísta. Suas “ex” tinham as mesmas queixas e se deu conta que o problema era mesmo ele.

Mas e agora? Onde errou?

De uns tempos para cá, sentia que ela estava mais distante e desmotivada. Nada que fazia era suficiente, qualquer mínima coisa servia para uma insatisfação rancorosa. Procurou leva-la mais para sair, propôs viagens e percebia que quanto mais tentava, mais fria ela ficava. Quando ela começou com evasivas para não fazer planos para o futuro, uma sensação de perda começou a ficar cada dia mais forte.

Um amigo mais experiente com quem conversou, disse que ele estava exagerando com tantos cuidados e agrados,  e que isso fazia mais mal que bem. Lembra-se de ter argumentado que carinho e zelo demais não poderiam ser um problema e que essas atitudes eram provas de amor e ela saberia valorizar.

Parece que o amigo estava certo.

Só conseguia pensar agora que ele foi de um extremo a outro; se importava pouco e agora demais. O resultado foi o mesmo. Como é difícil?

Respirou fundo e ganhou forças para levantar da cadeira e foi na direção do quarto. As roupas, perfumes e bijuterias não estavam mais. Só um frasco de perfume, ainda na caixa, estava no centro da penteadeira. Foi o que ele havia dado de presente na semana passada, o preferido dela. Chegou à conclusão que nesse dia ela já tinha decidido ir embora.

– Mas por que não falou comigo? Gritou sozinho no quarto diante do guarda roupa vazio.

Lembrou-se do bilhete. A  resposta poderia estar lá, não diretamente, mas nas entrelinhas.

Voltou para a sala, pegou o papel e jogou-se no sofá. Leu novamente:

“Vou embora. Era para ter falado com você nos últimos dias e não deu, então vai por aqui mesmo. Já não sou mais feliz e não tenho esperança que isso mude. Espero que entenda e não me queira mal. Você é boa pessoa, mas preciso respirar. Tenho certeza que serás feliz no futuro.”

Nem assinatura havia. Como se o bilhete fosse apenas uma formalidade. Parece que ela precisava sair correndo. Na verdade ela não tinha motivos e esse foi o motivo; ele fez pelos dois e ela não precisou lutar por nada. Gostar só pode estar ligado a algum tipo de sofrimento, de luta e conquista.

Olhou em volta e reparou que todo apartamento havia sido decorado por ela. Não havia nada do gosto dele ali. Pensou nela o tempo todo e deixou que isso acontecesse para que ela nunca tivesse queixas, como um mundo perfeito. Perfeição é o que se persegue e só é conseguida com alguma espécie de erro. Mundos perfeitos fazem parte da fantasia.

Ligou para o amigo e contou-lhe o que aconteceu. Do outro lado da linha, um silêncio respeitoso esperou até que ele conseguiu controlar a emoção. O amigo apenas disse:

– Venha até aqui e vamos tomar um vinho. Saia de casa, ficar aí não ajuda em nada.

Desligou e foi tomar um banho e percebeu o silêncio que agora seria seu companheiro junto a toda essa decoração que teria que trocar. Sentiu raiva pela primeira vez.

Antes de sair pegou novamente o bilhete e só conseguiu pensar que todos esses anos terminaram em quatro linhas. Parece que sonhou sozinho todo tempo.

Apagou a luz e saiu.

Quando entrou no carro, lembrou que havia deixado o bilhete na mesa e se questionou do motivo de não tê-lo rasgado.

Aquela frase não saia da cabeça: “vai por aqui mesmo…”.

Ficou com raiva pela segunda e última vez.

1 Comentário

  1. João Batista Armani   •  

    “… ele estava exagerando com tantos cuidados e agrados, e que isso fazia mais mal que bem…”
    “…Só conseguia pensar agora que ele foi de um extremo a outro; se importava pouco e agora demais. O resultado foi o mesmo.”

    Para mim, a frase do bilhete que me deixou uma profunda mensagem foi “…preciso respirar…”.
    Há relacionamentos onde sufocamos a pessoa amada, impedindo-a de ser ela mesma.
    Parece que o caminho do meio é o mais adequado…

    Sucesso!
    Abração.

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