Procura sem fim

Há duas tragédias na vida; uma a de não satisfazermos nossos desejos, a outra de os satisfazermos.

Oscar Wilde

correndo

 “Um homem procurava a noite algo no chão debaixo de um poste de luz. Alguns  amigos vinham passando e perguntaram: – O que estás procurando?

 O homem respondeu: – minha carteira de identidade.

Então os amigos se puseram a ajudá-lo. Passado algum tempo sem nada encontrar perguntaram: – Tem certeza de que perdeu sua carteira aqui?

O homem responde: – Perdi lá atrás.

Indignados os amigos disseram: – Então porque você está procurando aqui se a perdeu em outro lugar?

O homem respondeu: – Porque aqui tem mais luz.”

Há quem afirme que sem desejos não vivemos. Isso também é verdade, na medida em que são eles que nos fazem correr atrás de conquistá-los, nos mantendo em movimento que é a essência da vida. Mas afinal, o que é um desejo e até onde isso pode me fazer mais mal do que bem?

Precisamos partir do pressuposto que se desejo algo é porque não tenho. Isso vale para tudo, afinal ninguém deseja o que já tem. Também foram os desejos de viver melhor e com mais conforto e segurança que impulsionaram não só a tecnologia como também as guerras e todos os conflitos por posse do que quer que seja.

Outro ângulo a ser explorado é que se desejo alguma coisa material ou mesmo uma pessoa (relacionamento), filosofia, religião etc., esse sentimento traz em si a certeza de se o desejo for alcançado, me fará mais feliz e meu ego será preenchido de forma a me sentir com mais poder e valorizado. Isso se dá, justamente, por ter agregado a minha identidade pessoal esse objeto, pessoa ou o quer que seja. Por isso preste atenção nesse ponto, pois para lidar melhor com os desejos é preciso entendê-los.

Todo o desejo atinge seu clímax no momento da sua obtenção e, a partir desse instante já começa a experimentar um declínio que logo se tornará um vazio, de onde surgirá o próximo e assim sucessivamente.

Dessa forma, desejar alguma coisa está intimamente ligado a nossa eterna busca por felicidade e realização. Em nossos tempos, a mídia trabalha isso com maestria criando diariamente necessidade em uma série de objetos que, segundo a propaganda, trarão mais realização e admiração das demais pessoas. Então a estorinha (comercial) é repetida muitas vezes, martelando essa ideia em nosso subconsciente e, daqui a pouco, foi criado mais um desejo, que me fará acreditar, consciente ou inconscientemente, que dessa vez, quando tiver esse objeto, finalmente serei quem quero ser e até agora não consegui. Esse processo da mídia é ainda mais maldoso, afinal ela separa as pessoas em grupos; os que têm o objeto e, portanto são inteligentes, bem sucedidos e felizes e os que não têm, que estão fora desse “seleto” grupo de pessoas especiais. Assim, como ninguém que ficar de fora, a pessoa se mata de trabalhar, abrindo mão do seu lazer e da convivência com pessoas importantes atrás de uma marca que o incluirá no grupo dos “bons”.

Justamente por isso as mídias são normalmente estreladas por pessoas famosas, passando a ideia subliminar que ter aquele produto ou serviço me tornará igual a ela.

Assim, hipnotizados (essa é a palavra correta) diante da televisão, rádio, internet e até mesmo andando pela rua em uma poluição de outdoors dos modelos dos mais antigos aos mais modernos, com muito som, movimento e cor, vamos sendo sugados pela moda, pelos carros, eletrônicos e roupas atrás de realizar nossos mais recentes desejos que também chamamos de “sonho”.

Qual é o problema real dessa situação? Com o tempo, até mesmo porque quem nos educou também sofreu com isso, vamos transferindo para um objeto atrás do outro, relações de todos os tipos, filosofias e religiões a solução em busca de valorização e admiração dos demais. Obviamente isso nunca terá fim, porque o sistema, cada vez mais veloz e necessitando do dinheiro dos desavisados, faz com que tudo saia de moda e perca valor cada vez mais rápido. Andei até observando, que até mesmo as casas, que sempre eram feitas “para sempre” já são objetos da moda, com desenhos arquitetônicos que mudam de poucos em poucos anos.

Tem saída?

A saída é buscar uma consciência lúcida que permita fazer uma simples pergunta que muda tudo: Até que ponto realmente preciso disso? E isso vale caro leitor para tudo.

Sem essa percepção pró ativa essa máquina de moer que é nossa sociedade vai vitimá-lo sem esforço. De onde você acha que vem a crise de ansiedade que assola o mundo? Vem principalmente do medo de não conseguir realizar os desejos e, portanto, de não ser feliz. Pense bem e é bem possível que concordes comigo.

É óbvio que precisamos de coisas para sobreviver e isso é bem diferente de desejo em certo sentido. Maslow em sua famosa pirâmide de necessidades mostra que não almejamos autoestima se, por exemplo, estivermos com fome. Que só pensaremos em realização pessoal se nossas necessidades básicas estiverem supridas, bem como etapas anteriores como pertencer a grupos e nos sentirmos seguros.

Então, o grande problema é que estamos vivendo um tempo que devido a essa manipulação do desejo, vemos pessoas correndo atrás de coisas que não poderiam ter, já que itens anteriores e fundamentais não fazem parte ainda de suas vidas. Toda a grande farsa consiste em oferecer atalhos ilusórios em busca de felicidade pela adoção do paradigma do que se deve ter e de como nossa vida será maravilhosa se seguirmos a cartilha imposta pelo sistema. Isso leva inevitavelmente a angústia e o medo de não atingirmos o que se espera e nossa vida seria um fracasso. Assim se escraviza e manipula toda uma sociedade, pelo medo!

A sabedoria nos mostra que podemos ter tudo, mas que precisamos de uma relação de qualidade com a materialidade e que não adianta buscar fora o que só pode ser encontrado dentro de nós através de novos pensamentos e percepções. Se não fizermos paradas e refletirmos sinceramente sobre como estamos levando nossa vida seremos inevitavelmente engolidos pela doença do consumo e nos tornaremos verdadeiros zumbis, vagando pela vida, sem perceber sua passagem por estarmos sempre olhando lá na frente, na próxima aquisição, no próximo relacionamento, em busca do descanso (segurança) que, para a grande maioria das pessoas, já poderia estar sendo curtido nesse exato momento.

O mais engraçado disso tudo é que tudo que estou dizendo todos dizem já saber, mas porque então essa situação não muda? Pelo simples fato de não praticamos o que sabemos que devemos fazer por puro medo de ser diferente e sermos excluídos. Não queremos ser chamados de “loucos” por nossos amigos e familiares, perdermos o respeito e a admiração das pessoas. Assim, preferimos a doença em conjunto ao invés da loucura de estarmos enxergando, em uma terra de cegos que estão sendo guiados por interesses nada humanísticos.

 Não é errado pensar no futuro, fazer planos e tomar providências, mas viver o tempo todo com a consciência no que virá (?) é o grande erro. O nome disso é ansiedade que é o alicerce por onde se erguem as doenças psicossomáticas e autoimunes.

Mas talvez o grande problema do desejo em si é apenas um: nenhum tem o poder de solução, mas todos, eu disse TODOS, são apenas paliativos de efeito cada vez mais rápido e, logo em seguida, volta a dor e lá vamos nós atrás do próximo remédio…

 Sei que é muito difícil e é quase impossível suportar a pressão, afinal todos ao nosso lado acreditam nesse mantra. Fugir para as montanhas meditar não traz nenhuma vantagem só mesmo o descanso de uma fuga. A vida é aqui e agora e se estamos vivendo nessa grande fábrica de desejos é justamente nela que precisamos lidar com o problema e avançarmos sobre ele, a não ser que você ache que nasceu “por acaso”.

Tenha tudo que quiser, vença no mundo material e isso é mérito! Mas não torne nada fundamental em sua vida que esteja fora de seu alcance. É lícito pensar em sua velhice, afinal, pode acontecer de você viver até lá, mas não deixe para viver só quando o horizonte mais próximo pela sua idade seja a morte. Como diz um amigo: “vou viajar agora, enquanto posso carregar minha mala”.

Buscar esse ponto de equilíbrio entre o medo do futuro e viver os bons momentos que são possíveis agora é a espiritualidade. De nada adianta rezar e rezar e continuar buscando uma coisa atrás da outra em uma corrida sem fim e sem descanso.

Crescer material e espiritualmente é isso que se espera do ser em evolução nesse mundo que vivemos. Mas para isso, entender e dominar os desejos, sempre transitórios, é o primeiro passo em busca do fim do sofrimento.

O personagem de nossa estória preferiu procurar no lugar mais fácil (onde tinha luz) do que no lugar onde realmente estava o seu objeto perdido. E o que eu mais gosto nessa metáfora, que a torna sutil e profunda, é que ele perdeu a sua identidade…

9 Comentários

  1. Tiago Melo   •  

    EDUARDO MUITO OBRIGADO!!!

  2. sandra gomes lima   •  

    As duas primeiras linhas me fizeram lembrar algo que falei ontem para uma pessoa no intervalo da aula:cuidado com o que você deseja……..

  3. Léia   •  

    Grata por suas palavras iluminadas!!!
    Me fez pensar….Precisamos amar na mesma intensidade o ideal pela busca interna quanto amamos agora o vício pelo desejo. E quando conseguirmos chegar exatamente a esse estado oposto, elevarmos novamente nossa consciência acima de ambos e sentir nossa real essência..

  4. Maria Inês   •  

    Realmente é bem significativo o objeto perdido pelo personagem na história. Quantos estão buscando exatamente o mesmo que nosso personagem procura?
    O artigo me levou a uma reflexão sobre a minha inquietação com o mundo, com essa onda de automatismo. As pessoas não tem mais tempo para dialogar. Parabéns Eduardo muito bom o artigo.

  5. Charlie Diaz   •  

    Tome-se, por exemplo, o seguinte caso:Imagine que alguém resida numa casa de 200 mil reais, tem outra alugada no valor de 100 mil, dispõe de um carro de 50 mil e mais 100 mil reais de aplicações. Pelo critério de necessidade, esta pessoa já tem mais do que precisa, mas pelo critério do desejo, não. Ainda falta muito para realizar o seu sonho de uma casa de 500 mil reais, de um carro de 120 mil, de outra casa de aluguel de 150 mil e de mais de 300 mil de aplicações. É que quando se pensa a partir dos desejos, não há limites. Busca-se o ilimitado e nada sobra para partilhar.Sempre falta. Estamos vivendo na civilização do desejo e no império dos sentidos. Obviamente que o ser humano sempre desejou muito e muitas coisas, mas em nenhum outro momento da história humana convivemos com tantos meios e facilidades para realizar nossos desejos.É precisamente o nosso desejo que dispara o gatilho da tentação em nossa vida. A tentação somente existe porque somos intensamente agitados pelo desejo. Não existisse o desejo, não existiria tentação capaz de nos seduzir.

  6. get smart   •  

    “Sonhos são projetos de vida , desejos são intenções superficiais. E estamos vivendo numa sociedade do consumo do desejo, desejo de ter grandes amigos um grande amor na vida de ser um brilhante profissional, desejos e mais desejos, porem os desejos não resistem aos problemas é preciso ter sonhos e metas de vida. ” ,esse é outro trecho da entrevista do Augusto Cury que eu achei interessante destacar, e isso é a nossa realidade o nosso dia a dia, convivo diariamente com pessoas sem sonhos apenas com desejos, convivo diariamente com pessoas infelizes, pessoas que seu conceito de felicidade é passar o final de semana na balada , bebendo ou “louco de bala” , enfim conheço pessoas que tem todos seus desejos realizados e ainda assim são infelizes.

  7. Rogério RR   •  

    Conheci seu blog há pouco tempo. É fantástico!
    Todos dizem saber o que deve ser feito, mas fazer…
    Além do medo de não nos enquadrarmos, tenho a impressão que existe uma certa hipocrisia inconsciente. Parece que nem sequer percebemos que nos comportamos de forma diferente, muitas vezes até oposta, a que dizemos saber que é a ideal. Vivemos numa realidade distorcida pelo ego. A mesma conduta por nós condenada, é por nós praticada.

    • Eduardo O. Carvalho   •     Author

      Rogério, fico grato por suas palavras e comentários. O blog tem essa função; de trazer os assuntos para pensarmos a respeito.
      abração!

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