Problemas: uma necessidade

“Se o problema tem solução, não se preocupe porque ele tem solução. Se o problema não tem solução, não se preocupe porque, afinal, ele não tem solução.”

                                                                   Provérbio chinês

                                                                                                                                                           problemas

Recentemente assisti um documentário que falava sobre alimentação*. Em determinado momento, foi citada uma pesquisa feita durante o período da grande depressão americana, onde as pessoas realmente passaram fome, e foi demonstrado que a expectativa de vida aumentou em seis anos.

Esse dado me fez lembrar uma passagem do ótimo livro “Depressão” de Rüdiger Dahlke (editora cultrix) onde é citada uma pesquisa recente na Alemanha que diz que mais da metade dos alunos de ensino médio já pensaram em suicídio, e, que os transtornos alimentares afetam 60% das adolescentes alemãs entre 12 e 18 anos. Cabe lembrar que estamos falando de um país de primeiro mundo, onde não se passam necessidades primárias, assim como nos países escandinavos, onde o estado tudo provê, temos altíssimos índices de alcoolismo, uso de drogas e suicídios. De outra parte, nos campos de concentração das 2ª guerra, onde o sofrimento imposto era enorme, praticamente não havia suicídios.

O que esses dados têm em comum?

Esse paralelo é mesmo interessante; as dificuldades aumentam a vida das pessoas e exames clínicos mostram que, quando nos alimentamos pouco, por exemplo, nosso cérebro estabelece novas conexões e se renova, ganhando mais capacidade. Evolutivamente é fácil de entender, afinal se estamos com fome, precisamos criar mecanismos, alternativas e criatividade para conseguir o alimento.

De outro lado, facilidades demais trazem um forte aumento de ansiedade porque estamos totalmente atendidos, não precisamos buscar nada e aumenta a angústia, afinal não estamos sendo exigidos, ou como gosto de dizer; em evolução. Por essa brecha entram os excessos alimentares, drogas e compulsões de todos os tipos. Quanto mais estamos lutando pela vida (objetivos, metas, sonhos), mais saudáveis estamos emocionalmente, afinal não temos tempo para pensar em assuntos sem uma base concreta, coisa que adoramos fazer, quando estamos com tempo de sobra e sem uma ocupação produtiva para a mente.

Em outra obra, Hans Blüher (Tratado de medicina), afirma que onde existe abundância material existe um forte aumento dos casos de depressão, como se essa doença fosse uma espécie de agente regulador. Diz textualmente: “Nenhum ser humano consegue viver sem crescimento, mas ele pode escolher em que plano deseja crescer. Quando o crescimento físico termina de maneira natural, o crescimento psicológico tem que entrar em cena, levando obrigatoriamente ao crescimento espiritual e social”.

Fomos todos educados a usar somente o hemisfério esquerdo do nosso cérebro, onde funciona a racionalidade, os cálculos e o raciocínio analítico. Dessa forma, ficamos sempre com apenas metade da percepção. Já o hemisfério direito, que está ligado a uma percepção de totalidade, ao simbolismo, atemporalidade e intuição é tratado com desdém pela cultura vigente. Isso somente quer dizer que, enquanto buscarmos apenas na materialidade nosso equilíbrio acontecerá exatamente isso; quando alcançamos o conforto material começamos a adoecer, justamente por que nesse campo nada mais há do que conseguir e é apenas metade da verdade. O crescimento espiritual fica relegado, tardiamente, a segunda fase da vida, mais como uma maneira de lidarmos melhor com a morte.

Por isso, penso que devemos acolher os problemas e dificuldades como uma ótima forma de nos manter em constante evolução. Sejam os problemas que surgem de repente, sejam de mudanças que temos que fazer e estarmos lidando com o medo do novo, tudo isso sempre nos impulsiona para frente. Nada pior do que a falta de sonhos, objetivos e muita tranquilidade. Pode parecer estranho, mas pense em você mesmo e veja como, mesmo quando tudo está bem, conseguimos transformar problemas insignificantes em catástrofes. É como se precisássemos disso!

A negatividade natural de nossa mente pode ser vista como uma alavanca, que, através do medo de que tudo dará errado, nos mantém, pelo menos, com propósitos firmes, trabalhando para que tudo de certo. Até mesmo o medo constante que temos, nossas preocupações e todas as fantasias terríveis sobre o futuro que criamos, são, de certa forma, evolutivas, já que, pelo menos, nos mantêm em movimento, nem que seja para evitar que o que imaginamos de ruim possa acontecer.

Todos os estudos mostram que onde está tudo muito certo e seguro, o ser humano começa a experimentar um processo de frustração que nunca acaba bem, justamente por não ser natural. O que quero dizer é que no modo que vivemos cavamos nossos próprios problemas, já que buscamos chegar a um ponto de segurança que termina estancando nossa evolução.

Nossas dificuldades, sonhos e projetos são caminhos por onde crescemos e até as dificuldades atendem nossa evolução. Óbvio que não defendo que se passe fome para evoluir ou para o cérebro de desenvolver, mas manter-se com uma dieta de baixa caloria também pode significar um equilíbrio, afinal os alimentos são um meio por onde nos mantemos vivos e estarmos comendo demais, por exemplo, significa que estamos cobrindo uma lacuna com comida, mas que necessitaria de outro tipo de “alimento”.

Justamente por isso precisamos buscar essa completude com um crescimento integral. Tão importante, evolutivamente, quanto trabalhar é termos uma prática, uma busca espiritual que nos traga uma compreensão mais ampla do que seja a vida como um todo. Vamos nos desenvolvendo parcialmente, e ficamos “tortos” na hora em que mais precisamos de equilíbrio, na idade adulta, onde temos que assumir nossa vida e a responsabilidade pelo nosso destino.

Quando esse equilíbrio é encontrado, os problemas são apenas “pontes” que nos levam a patamares melhores, e nem todo o conforto do mundo vai iludir quem já sabe que isso é apenas uma parte somente e que sozinha ela só leva ao desespero e ao medo.

Pode ser uma religião, uma mistura de religiões, um estudo de filosofia antiga ou moderna, tanto faz. O que importa é que cada um encontre a “sua” explicação e o seu sentido do que seja a vida. Como já escrevi anteriormente, a vida é sem sentido justamente para que cada um de nós encontre o seu e viva bem com ele.

Portanto, não se queixe dos seus problemas e lembre que eles são sempre úteis, afinal se conseguir resolvê-los eles não voltarão e se ainda persistem, é porque suas soluções não servem e precisam ser mudadas. Quem lê o blog já sabe que ficar esperando um milagre, só cria teias de aranha em volta de si e fica estagnado evolutivamente.

Sempre teremos problemas, não necessariamente porque eles realmente existam, afinal criamos a maioria deles na nossa imaginação, mas porque precisamos deles para continuar a evoluir.

A questão que coloco para que pensemos é: Poderíamos continuar a crescer de forma mais fácil e menos sofrida?

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*Comer, jejuar e viver mais. Documentário apresentado no canal GNT dia 07/01/2014

2 Comentários

  1. sandra gomes lima   •  

    Conheço pessoas que não sabem viver sem ter problemas, quer eles tenham solução ou não…e baseiam sua vida nisto….só estão felizes se estão sofrendo, se são “vítimas” de mil e um problemas….como as pessoas gostam de ter problemas, de sofrerem absurdamente por eles, de aumentarem sua importância e o pior, de fazerem disto o objetivo de suas vidas……

  2. sandra gomes lima   •  

    Conheço pessoas que não sabem viver sem ter problemas, quer eles tenham solução ou não…e baseiam sua vida nisto….só estão felizes se estão sofrendo, se são “vítimas” de mil e um problemas….como as pessoas gostam de ter problemas, de sofrerem absurdamente por eles, de aumentarem sua importância e o pior, de fazerem disto o objetivo de suas vidas……

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