Paradigmas

 

O Homem não é feliz sem algum delírio. Delírios são tão necessários quanto a realidade.

Christian Nestell Bovene

Como você aprendeu a ser quem é?

Aprendemos a ser quem somos de acordo com a cultura em que estamos inseridos. Copiamos um modelo de viver daquelas pessoas que são nossas referências, principalmente na nossa primeira infância. Nessa fase, não temos como separar o “joio do trigo” e assimilamos integralmente nossos pais, professores, valores religiosos, etc. Evidente que esse processo segue pela vida afora, mas a assimilação de novos paradigmas* tem um processo um pouco diferente, onde já existe uma consciência crítica, uma espécie de filtro.

Como qualquer animal (também somos), aprendemos tudo por um simples sistema de punição e recompensa. Assim quando fazíamos “certo” vinham os elogios, o acolhimento e nos sentíamos bem. Já quando fazíamos “errado” vinha a punição, o medo de perdermos os elogios e o afeto de nossos heróis. Evidentemente, pelo medo das perdas que os comportamentos “errados” traziam e, sequiosos pelos elogios, buscamos agradar e esconder qualquer atitude, pensamento ou comportamento que gerasse punição.

Nessa hora, é importante entender que não escolhemos em que acreditar, e todos os significados que atribuímos às situações vem de segunda mão. Isso se deposita em nós de tal forma que criamos nosso programa de pensar, ver e entender cada situação que a vida nos oferece. Assim, conforme o artigo sobre a culpa, agora complementado pelo presente texto, surge nosso “juiz” interior.

O medo de sermos rejeitados, de perdermos o carinho e acolhimento, de não sermos “bons”, nos faz buscar uma perfeição, criando recalques e escondendo parte de nós mesmos em um lado escuro, que se não bem entendido e trabalhado, nos perseguirá pela vida, surgindo nos momentos em que não consigo mantê-lo escondido e controlado. É o que acontece quando “perdemos a cabeça”, ali vem o egoísmo, a ira, a inveja e todos os pecados capitais que nada mais são do que esse nosso lado escuro, comum aos seres humanos e que os paradigmas religiosos, principalmente, transformam em pecado.

Pelo programa que recebemos de “certo e errado,” goela abaixo, vivemos sempre pela metade, fazendo muita força para sermos bonzinhos e adoráveis. E é justamente por isso que a maioria das religiões prega o não-julgamento, afinal fico julgando pessoas que estão expondo aquilo que consigo manter escondido. É evidente que se conseguirmos nos manter longe dos pecados será bom, já que tendo a não expor a mim e aos outros a alguns sofrimentos, o que não impede de serem revistos, se servem ou não.

Parece que todos nós precisamos dos paradigmas, e até aí nada de errado, ter uma linha a seguir não é ruim, mas o que penso ser importante é pensarmos sobre esses paradigmas, se eu concordo com eles, se não concordo, se posso me libertar de algum caso não esteja me fazendo bem ou impedindo meu crescimento pessoal. Essa avaliação é que me  faz dono de minha vida. Caso contrário, passarei pela vida como uma pálida cópia de gerações anteriores.

Nessa hora recorremos a nossa imaginação, criando situações utópicas para termos uma vivência mais completa dessa nossa dualidade, onde, muitas vezes, nos permitirmos ser inteiros. Nesses delírios tudo nos é permitido, até viver livremente essa parte reprimida. Mas isso é tão errado pelo programa, que muitas vezes nem compartilhamos com pessoas íntimas sobre eles, já que temos medo do que elas pensarão sobre nós. Em muitas ocasiões, esse conteúdo vem nos sonhos, quando o que vivenciamos é tão impossível ou errado que nem nos permitimos divagar de olhos abertos.

Como em nossa cultura a liberdade está diretamente relacionada ao poder financeiro, a busca da riqueza, muitas vezes está inconscientemente ligada a atingir um patamar de liberdade que me permita ser mais “eu” mesmo. Assim encontramos os ditadores que se tornam cruéis quando atingem o poder, empresários que se permitem tratar seus empregados com desrespeito e ofensas, pais violentos e as pessoas que, depois de atingirem certo grau de poder, se transformam completamente.

Evidente que é normal querermos ser aceitos, mas é importante estarmos de comum acordo com nós mesmos. Posso escolher ser educado, ético e respeitoso com os limites de cada pessoa, mas isso dá muito mais certo quando parte de uma escolha interna, de uma decisão e não de imposição. Penso que devemos educar nossos filhos por valores que acreditamos corretos, mas também respeitarmos suas escolhas com o objetivo de valorizar a individualidade e não de suprimi-la. Fazê-los escolher é mais difícil do que, simplesmente, não darmos escolhas, que é o que ocorre normalmente. Usamos a nós mesmos como parâmetro para educarmos, como se eles fossem uma continuação. Não são! Talvez seja por isso que os domesticamos da mesma forma que fomos para garantir que serão parecidos conosco. Osho disse certa vez que educar é fazer transbordar a essência e que crianças não precisam de nossa ajuda, mas só de serem amadas. Sua idéia é que o que chamamos de educação (isso também inclui a escola) nada mais é do que impor os paradigmas, assim como fizeram conosco. Talvez ele seja entendido nesse ponto daqui a duzentos anos…

Tomara que estejamos felizes, de bem conosco e com a vida, se não estaremos impondo a eles um programa que não deu certo nem para nós.

Os significados que recebemos também nos dizem do que somos e não somos capazes (nada mais limitante), do que devemos almejar, como deve ser nossa vida, e o que é a felicidade. Mas como uma das características do paradigma é não discuti-lo, simplesmente executá-lo, ficamos dizendo que todos que não cumprem meu paradigma estão errados.

No fim, estamos sempre buscando a nós mesmos em meio a essa luta interna entre o que sou, e o que esperam de mim, como diria Fernando Pessoa. Por isso os delírios são, muitas vezes, necessários. Não se culpe por eles e também não se sinta mal, se esse mundo criado pela sua imaginação não estiver de acordo com o que você vive pelos paradigmas que recebeu. Afinal, já que  não escolhemos quase nada, porque não delirar?  Não lembro onde li ou quem disse que nossa imaginação é apenas uma realidade que se esqueceu de acontecer…

 

*Paradigma: Paradigma pode ser entendido por um exemplo, um modelo, uma referência, uma diretriz, um parâmetro, um rumo, uma estrutura, ou até mesmo ideal. Algo digno de ser seguido. Podemos dizer que um paradigma é a percepção geral e comum – não necessariamente a melhor – de se ver determinada coisa, seja um objeto, seja um fenômeno, seja um conjunto de idéias. Ao mesmo tempo, ao ser aceito, um paradigma serve como critério de verdade e de validação e reconhecimento nos meios onde é adotado. Foi o físico Thomas Khun que o utilizou como um termo científico em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, publicado em 1962.  (http://www.artigonal.com/ciencia-artigos/o-que-e-paradigma-705722.html)

Leitura Complementar: O quinto compromisso – Don Miguel Ruiz

4 Comentários

  1. fernando canton   •  

    Destaco uma frase, entre tantas tão profundas:

    “No fim, estamos sempre buscando a nós mesmos em meio a essa luta interna entre o que sou, e o que esperam de mim…”.

    Quanta crueldade e auto-punição…

  2. Andréa Menezes Rocha   •  

    Oi Eduardo
    E quando os delírios passam a ser a realidade? Seria, de acordo com os paradigmas, a loucura?
    Adorei o tema. Parabéns!!

    • Eduardo O. Carvalho   •     Author

      Andréa, sua pergunta é muito inteligente! Penso que tudo que temos como real foi antes imaginado. Dessa forma, loucura é apenas o que não corresponde ao paradigma de “certo/errado”. Como diz Belchior “meu delírio é com as coisas reais…”
      Grato pelo comentário!!

  3. Luciana   •  

    Nota 10!

    Falou tudo e mais um pouco…

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