Os ovos de páscoa e a vida

Crônica publicada no jornal FolhaSC em 23 de fevereiro de 2016

Semana passada, andando pela rua percebeu que estava acontecendo alguma coisa errada. Na hora, ficou na dúvida entre ligar para o psiquiatra ou neurologista e ali percebeu que precisaria definir melhor as competências.

Diante de um obstáculo que só aumentava a angústia, procurou simplificar e ligou para o amigo que tinha o melhor bom senso que conhecia para ajudá-lo a entender sua situação.

O amigo atendeu o telefone solícito:

– E aí? Tudo bem? O que você conta?

– Estou com um problema.

– Mas o que houve?

– Penso que perdi parte da minha vida.

– Como assim?

– Estamos em fevereiro, ainda no horário de verão, certo?

– Sim.

– O natal foi praticamente ontem, tanto que tem uma camisa polo que ganhei do meu cunhado que ainda nem tirei do pacote.

– Não estou entendendo, o que tem a ver tudo isso que você está me contando?

– A vida…

– O que tem a vida?

– Tá passando muito rápido, muito rápido!

– Mas isso é normal, todo mundo fala. Você tem dormido direito? Teve algum estresse em casa ou no trabalho?

– Não, nada muito importante. Tenho dormido até bem.

– Então seu problema é a velocidade da vida, é isso?

– Não, pior. Não estou vendo a vida, devo ter perdido alguma coisa depois do ano novo.

– Como assim perdido?

– Os ovos de páscoa.

– O que é que tem os ovos de páscoa?

– Eu os vi. Estão por todos os lados.

– Você está vendo ovos de páscoa por todos os lados? É um delírio, você está tendo alucinações?

– É o que acho que esteja acontecendo comigo.

– Só um pouquinho, aguarda na linha.

O amigo coloca a mão no bocal do telefone e chama a secretária. Quando ela entra na sala ele pergunta:

– Dona Cleusa, a senhora que anda pela rua me diga uma coisa; já tem ovos de páscoa para vender?

Dona Cleusa sem hesitar respondeu:

– Já, vi no supermercado e o senhor não tem ideia dos preços. Se estivéssemos mesmo em uma crise não haveria esse abuso!

– Tudo bem dona Cleusa, obrigado.

Esperou a secretária sair da sala e voltou a falar;

– Onde você viu os ovos de páscoa?

Respondeu sussurrando:

– Eu estava no shopping na primeira vez. Depois vi no calçadão.

– Fala mais alto! A ligação está ruim.

– Não, sou eu quem está falando baixo.

– Por que?

– Se estiver louco não quero que ninguém saiba.

– Mas pelo que acabei de consultar, isso é verdade, os ovos de páscoa já estão por todos os lugares do comércio. Você não está ficando louco.

– Mas e o tempo?

– O que tem o tempo?

Começando a chorar disse:

– O que aconteceu entre o natal e os ovos de páscoa? Eu nem vi passar!

– Como assim não viu passar, você perdeu a memória?

– Acho que sim, foi como se fosse ontem, sempre demorou entre o natal e a páscoa.

– Mas você ficou em casa, de cama?

– Não, minha mulher disse que fui trabalhar todos os dias. Que chegava em casa todo dia normalmente e até sexo a gente fez por esses dias?

– E você não lembra?

– Não, mas aí pode ser por ser sempre do mesmo jeito. Não acha?

– Bom, isso é.

– Você acha que devo procurar um neurologista ou um psiquiatra?

– Acho que neurologista, afinal você não está “vendo coisas”. Liga para o doutor Carlos Alberto, falam que é muito bom.

– Ok amigo, obrigado por me ouvir.

Depois de colocar o telefone no gancho, voltou a chamar a secretária:

– Dona Cleusa, liga para o doutor Carlos Alberto, aquele que é neurologista e marca uma consulta para mim.

– Sim senhor, mas o senhor está com algum problema?

– Sabe dona Cleusa, acabei de falar com meu amigo e descobri que ele não está nada bem. E o pior é que percebi que também não estou.

– Mas por quê?

– São os ovos de páscoa, eles estão me mostrando que não estou vendo a vida.

Enquanto dona Cleusa ligava para o neurologista, ficou pensando; o que tinha mesmo acontecido entre o natal e os ovos de páscoa?

1 Comentário

  1. Ary   •  

    Bom dia Eduardo! Muito bom o texto, Parabéns…

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