O Roubo

Depois que abriu a porta levou tempo para entender o que tinha acontecido.

Quando se mora só, as coisas não mudam de lugar nem desaparecem, ainda mais ele, que era metódico. Uma sensação física passava a informação que alguma coisa ruim tinha acontecido. Sentiu uma rajada de vento. A Janela estava escancarada e os pedaços de vidro no chão completaram o quadro.

Olhou à direita e viu que sua televisão de 42 polegadas não estava mais lá. Um arrepio percorreu seu corpo. Largou a pasta no chão e correu para o quarto, direto para as caixas de sapato que ficavam embaixo do guarda roupa. Freneticamente empurrou todas para o lado e foi direto a última delas, onde um chinelo velho era o último obstáculo que encobria suas economias de anos.

Nada…

O dinheiro fora retirado e o chinelo e os papeis que ficavam embaixo foram recolocados no lugar.  Desabou no chão, mas não conseguia nem chorar.

Depois de alguns minutos foi até o canto da sala e a garrafa do seu melhor whisky também tinha sido levada. Somente a marca do pó em forma circular lembrava que nessa semana a diarista não tinha passado por ali.

Com o tempo, avaliou os prejuízos e só pode pensar que muitos anos de trabalho que tinham se transformado em pequenos confortos desapareceram e agora estavam sendo desfrutados ou trocados por ninharias, por pessoas que nunca saberiam o quanto tudo tinha sido sofrido.

A sensação de ser roubado é de raiva e impotência. Raiva por ter conquistas subtraídas como se nada valessem e a impotência de nada poder fazer para que isso seja reparado. Resta apenas a lamentação e a frustração. Agora entendia as pessoas que reagiam a assaltos. É uma invasão, uma profanação à individualidade.

Foi até a delegacia e fez a queixa. O funcionário de plantão, provavelmente cansado de descrever injustiças e crimes em formulários, não demostrou simpatia pela sua angústia. Fez perguntas sonolentas e digitava movido a suspiros, provavelmente resultado de uma longa jornada de trabalho.

Quando terminou, coçou o queixo e mostrou um aviso grudado no vidro que os separavam, onde constava que esse tipo de queixa poderia ser feita pela internet e o boletim de ocorrência impresso em casa.

Nem respondeu, mas sua vontade era gritar se ele não tinha percebido que seu computador também tinha sido roubado!

Pensou que era difícil imaginar que alguém além dele se preocuparia com sua perda. Queria compartilhar sua indignação nem que fosse com o plantonista. Ninguém pensa que sua queixa  registrada em alguma “nuvem”,  seria investigada em algum momento.

Por isso, quase perguntou se o roubo mereceria alguma atenção, mas desistiu. Sabia que a resposta seria a de sempre; outros crimes graves não conseguiam ser apurados por falta de pessoal e equipamento. Além disso, esse tipo de ladrão nem na cadeia ficava por falta de espaço.

 Sua raiva silenciosa chegou ao limite, misturada ao cansaço.

Os pensamentos giravam com grande velocidade e só o que lhe vinha à mente era fazer mais uma varredura em casa para descobrir se mais coisas tinham sido roubadas.

Quando retornou, viu os vizinhos com suas luzes acessas e televisões ligadas. Para eles, era apenas mais um dia, dos tantos que ele mesmo teve, sem nunca imaginar que algo assim um dia poderia acontecer.

A vida dá reviravoltas inesperadas e essa falta de segurança é o que mais incomoda. As boas notícias nunca conseguem chegar nem perto das más, no que se refere a importância que damos a elas.

O saldo desse dia era muitas prestações a pagar de coisas que não tinha mais. Como sempre acontece nessas horas, perguntou onde estava Deus? Porque tantas pessoas corretas eram atingidas como ele?

Isso era alguma “mensagem” divina? Com certeza não.

Vai que não existe nada e estamos sempre sós, a mercê da sorte. Não existe ninguém que cuida de ninguém. Decidiu trocar o dízimo por um sistema de vigilância, esse sim poderia, pelo menos, ser cobrado por ineficiência! Ao pensar em abandonar sua religião por ter sido roubado percebeu que sua fé também era uma espécie de troca.

Chegou a rir quando foi jantar ao notar que a única cerveja que tinha na geladeira também fora levada. Miséria pouca é bobagem, diz o sábio ditado. Pegou o celular para ligar a um amigo e contar mas desistiu. Já imaginava que ouviria aquelas consolações que só servem aos outros como “vão-se os anéis e ficam os dedos”, “poderia ter sido pior, imagina se você está em casa? ” Ou a inigualável: “Deus sabe o que faz, confie! ”

Nunca mais esqueceria desse dia, principalmente dessa indignação e desamparo. A violência havia entrado no seu reduto mais sagrado. Foi doloroso perceber-se igual a todo mundo.

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