O pior tipo de adeus

O dicionário britânico Collins incluiu uma palavra em 2015 nos seus verbetes: ghosting. Essa palavra tem origem na palavra Ghost que significa “fantasma”, e é fácil de entender o motivo.

Ghosting é o nome que se dá quando alguém termina um relacionamento sem dar nenhuma explicação, simplesmente some. Se ainda não conseguimos sumir no mundo real, no virtual é muito fácil; basta bloquear o número da pessoa e não atender nem responder chamadas. Claro que isso acontece pelo mesmo motivo, afinal as relações depois do advento da internet começam de forma efêmera e quase inusitada pela via de aplicativos que contêm uma ou outra imagem, nem sempre condizente com a realidade, e muito, muito poucas palavras.

O que podemos esperar de um relacionamento que começa com meia dúzia de palavras abreviadas e alguns “kkk” ou “rsrsr”? Claro que tem os “smiles”, que são aquelas carinhas que tentam querer expressar o sentimento de quem está no outro smartphone. Depois de algumas mensagens as pessoas resolvem, finalmente, se encontrar e somente aí, conversar. Como sabemos, se tem uma coisa que tem pouca possibilidade de expressar algo complexo, são as palavras. Nada como o frente a frente para começarmos a difícil tarefa de conhecer alguém. Escrever é uma coisa, ouvir e ver os olhos de quem fala é muito diferente!

Então quando esse encontro acontece, aquelas poucas imagens e as ainda mais insignificantes poucas palavras criam um no outro uma ideia baseada em quase nada de quem é aquela pessoa que está na frente. É muito difícil uma expectativa ser atendida, afinal ela se forma tendo como base a própria pessoa, tendo, portanto, muito pouco a ver com o outro.

Daí, se tudo corre bem, em função dos tempos atuais, segue-se o primeiro “ficar” que, normalmente, inclui a relação sexual quase imediatamente.  O que, para os “antigos” levaria semanas e para os ainda mais antigos (alguns vivos até hoje), levaria meses ou somente após as juras no altar, acontece em 24 horas.

Não está em discussão se estava certo como era “nos antigamentes” ou agora. A questão é que tudo mudou de forma muito brusca em um tempo curto demais. Em poucos anos ou bytes, mudou o comportamento, mas as pessoas não mudaram tanto assim. Temos em nós nossos pais e avós, e os parâmetros deles estão no nosso subconsciente e essa realidade tão diferente ainda não se ajustou.

Então, em poucos dias conhecemos alguém e sem ainda nem saber seu sobrenome decor, já compartilhamos a intimidade, sem ainda, é claro, ter falado de assuntos realmente importantes sobre si. Tudo se esgota na fase inicial e dali a poucos dias, vem a dúvida de quem realmente é essa pessoa, se é a “certa” ou se a que respondeu a última chamada do aplicativo não seria melhor?

Assim, o mais fácil é simplesmente “desaparecer”, evitando que essa pessoa nos contate, e fique sem o mais importante: saber o motivo do rompimento desse relacionamento (se é que podemos chamar assim), tão frágil.

Para quem desiste e bloqueia o contato fica só alguma culpa de estar causando sofrimento à outra pessoa, mas isso se esquece logo, assim como os milhares de posts que vemos todos os dias, onde, quando muito e se for relevante, clicamos em um “curtir”.

Já quem foi deixado sem explicação, o que sobra é um vazio e uma diminuição brusca da autoestima, afinal a mente fica procurando as respostas e o que vem, normalmente, são defeitos que se passa a acreditar que se tem. Só isso explicaria o fato do outro ter simplesmente sumido. Só pode ser  por terem-se falhas  graves. São perguntas demais sem resposta.

Dessa forma, esse acúmulo de informações que recebemos diariamente vai nos distraindo de uma convivência mais humana e isso inclui estar junto, conversar e compartilhar silêncios. Quando isso acontece não é porque tem coisas que não se diz, mas se sente. O silêncio vem de cada um estar dando uma olhada em seu mundo virtual, se informando sobre o que seus amigos estão fazendo ou assistindo um vídeo que será esquecido minutos depois.

Nos grandes centros, alguns restaurantes estão incentivando, até dando descontos, para quem deixa seu celular na recepção e se dispõe a conversar enquanto  janta ou almoça junto. Claro, muitos abrem mão, afinal, como ficar durante uma hora desconectado?

Como nos ensinou Darwin, todas as espécies evoluem e se adaptam ao meio, mudando seus corpos de acordo com as necessidades, imagino que se nada mudar daqui a alguns milhares de anos os bebês nascerão sem boca, mas com seis dedos em cada mão.

2 Comentários

  1. Elcio   •  

    Dizem q o novo, o desconhecido tende a causar temor. C essa onda virtual isso parece cair por terra, já q pessoas há q se jogam de corpo e alma nesse “novo relacionamento” gostei de sua abordagem mano. Parabens!

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