O encontro

Era tudo tão novo, o lugar, o jeito das pessoas e como se comportavam. Na verdade ainda estava meio tonto, sem saber direito sobre tudo que tinha acontecido com ele e resolveu  dar-se um tempo, encostado na parede imaculavelmente branca.

Enquanto tentava colocar suas ideias em ordem, alguém que trabalhava ali (pelo menos parecia) se aproximou e perguntou se havia recém chegado. Respondeu que sim, mas que estava ainda meio sem saber até porque estava naquele lugar. O funcionário deu um sorriso e disse que era assim mesmo, mas que ele poderia se sentar naquele banco ao lado daquelas pessoas que, em algum momento, ele seria chamado.

O funcionário o acompanhou até o lugar segurando no seu braço e isso ajudou já que a sensação de tontura não havia passado. Quando chegou naquele banco comprido viu que havia pelo menos cinco ou seis pessoas e se encaminhou para sentar na outra extremidade. De repente, um arrepio passou pelo seu corpo como se tivesse experimentado um choque elétrico. Como poderia aquela pessoa estar ali sentada? Olhou para o funcionário, incrédulo e disse:

– Não pode ser! Aquele não é o…

Mais uma vez o funcionário sorriu, fez uma leve pressão no seu braço não deixando que terminasse a frase dizendo:

-Calma, é ele sim.

– Mas não pode ser, ele já…

– Sim, sim, disse o funcionário com um novo sorriso, agora de consolo.

Nesse momento faltaram forças nas pernas e pensou que iria desmaiar. Agora sim, totalmente amparado pelo funcionário foi levado para o final do banco. Respirando com dificuldade, pediu um copo com água.

– Infelizmente não temos água aqui.

– Não tem água? A fisionomia do funcionário fez com que, agora sim, começasse a tomar consciência de tudo, apesar de esperar que  fosse um sonho, apenas.

– Mas…

– Calma! Daqui a pouco tudo estará melhor, você vai ver. Olhe para você, veja como está bem!

Quando olhou para si, percebeu que estava usando uma roupa igual a das outras pessoas sentadas no banco. Seu desespero foi aumentando.

– Preciso que me responda só uma pergunta: Aquele cara, já faz mais de três meses que ele morreu, eu fui ao enterro dele, como posso encontrá-lo aqui? Estou ficando louco, isso é um sanatório? Fui internado? Afinal o que aconteceu?

– Conforme te disse, fique tranquilo que daqui a pouco tudo ficará claro. Basta ter um pouco de paciência, mas o que posso te adiantar é que aqui o tempo passa diferente, de certa forma mais devagar. Aqui não é um sanatório, mas onde você estava antes de chegar, quem sabe?

– E essa sala onde vou entrar, o que tem lá?

– Nada demais, você apenas vai conversar e tenho certeza que vai gostar e sair de lá bem melhor do que está agora.

Ergueu levemente o corpo para tentar ler o que estava escrito na porta. Apenas duas letras em uma moldura azul: JF.

Percebendo-o mais calmo, o funcionário se afastou com  um sorriso gentil. Ficou entregue a seus pensamentos e tudo o que havia ocorrido nos últimos minutos, se é que possamos assim dizer, depois  da explicação que havia recebido sobre o tempo. Esqueceu até de perguntar o que significavam aquelas letras na porta.

Uma a uma as pessoas iam entrando na sala, mas observou que elas não saíam. Pensou que todos iam ficando lá dentro, ou poderiam sair por outra porta, sabe-se lá. Chegou à conclusão que deveria simplesmente parar com tantas perguntas, afinal não tinha resposta para nenhuma e isso o estava deixando cada vez mais assustado.

À medida que se aproximava sua vez de entrar, outros vinham sentar no banco, ocupando os lugares vazios, como nessas filas para tirar ficha para consulta médica, aonde se chega à noite do dia anterior.

Quando chegou sua hora, sentiu um frio na barriga. Pelo que se lembrava, nunca tinha vivido tanta expectativa antes, somente quando esperava o resultado do vestibular tinha sentido seu estômago tão embrulhado.

Enquanto lembrava-se de suas ansiedades anteriores, chegou a esquecer de que já era sua vez, perdido em seus pensamentos. Outra pessoa, que parecia que trabalhava ali também, tocou levemente no seu ombro, e disse:

 – Sua vez. Pode entrar.

Quando entrou na sala deparou-se com uma mesa e uma cadeira que, imaginou, era para ele. Do outro lado da mesa não havia nenhuma cadeira, mas uma luz difusa, mais parecendo uma neblina ou bruma. Percebeu-se calmo e parecia que já estava se acostumando com a ideia de ver coisas inusitadas a cada novo momento.

De alguma forma, já estava aceitando a sua nova situação, mas tudo estava acontecendo muito diferente do que sempre imaginara nessas horas. Era tudo tão estranho, afinal, como poderia ter morrido se estava ali, vivo. Resolveu parar de pensar, isso estava demais!

Sentou-se e esperou.

Passado algum tempo, percebeu que talvez devesse fazer alguma coisa e tentou olhar dentro daquela espécie de luz que não era bem luz. Sentiu vontade de falar, talvez se quebrasse o gelo ouviria alguma coisa. Lembrou que tinha tido esse mesmo pensamento quando fizera psicanálise na época que havia se divorciado. Sua terapeuta ficava sentada olhando para ele sem expressão alguma no rosto. Quanta vez, no dia da sua consulta, ficava pensando no que falar com ela e até mesmo criando novos problemas que na verdade nem tinha, para que pudesse falar por 50 minutos.

Sua experiência com Freud poderia ajuda-lo nessa hora. Começou a falar de sua infância, da relação com a mãe, que, segundo a terapeuta, estava na raiz de todo seu problema, apesar de sempre ter tido uma ótima lembrança da sua infância e se dar muito bem com sua mãe, até hoje. Lembrava-se de ter dito que não concordava com isso. Sua terapeuta franziu o rosto e foi enfática, ao dizer: – Isso é inconsciente em você! Agora, ao lembrar que naquele dia, percebeu tinha ido falar da sua separação e havia saído com dois problemas. Achou, portanto, que seria inteligente começar por aí, já que poderia ter feito algo inconsciente e imaginava que isso poderia contar a favor dele no julgamento de seus erros.

Assim, contou sua vida, suas histórias e deu sua interpretação para tudo que lhe ocorrera desde que se lembrava de si mesmo. Notava que, vez por outra, a luz oscilava, ficando mais forte ou fraca. Mais atento, observou que sempre que comentava dos seus desejos não realizados, dos medos que tinha essa “neblina” ficava mais espessa.

Perdeu-se no tempo, e já não sabia mais se estava ali há uma ou duas horas, mas pelo visto isso lá não importava muito. Depois de ter encerrado sua história, quando nada mais tinha a contar, a bruma foi se dissipando e reparou que do outro lado da mesa, tinham duas portas. Dessa vez, porém, não havia nada escrito, e eram iguais. As maçanetas estavam quase encostadas uma na outra, separadas apenas por uma fina parede.

Sabia que precisava escolher uma delas, afinal eram assim que todos faziam, já que não havia visto ninguém sair da sala pela porta que haviam entrado.

Levantou-se, caminhou alguns passos e ficou diante das portas. Teve um pensamento nesse momento que o deixou agitado; porque não posso abrir as duas e escolher para onde vou? Ninguém me disse que precisava escolher. Por que não as duas?

Com aquela sensação de que estava fazendo algo errado e que poderia ser pego, hesitou. Argumentou consigo mesmo que nada o impedia, afinal já havia mesmo morrido e feito essa espécie confissão.

Abriu as duas portas e deu alguns passos para trás para ver o que estava por trás delas ao mesmo tempo.

Quando viu o que havia do outro lado, sorriu e descobriu que de alguma forma, sempre soubera disso.

Lá fora, o próximo foi convidado a entrar.

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                                                                         MUDANÇA

Em 26/6/2011 publiquei meu primeiro artigo no blog. De lá para cá continuei escrevendo (aos domingos) semanalmente no primeiro ano e, quinzenalmente a partir do primeiro aniversário, chegando hoje perto dos 100 textos. Sempre tenho escrito, até aqui, sobre temas relativos ao autoconhecimento, propondo reflexões sobre como “funcionamos”, nossas ações e rumos sempre com o objetivo de aumentar nosso nível de consciência. O ótimo retorno que estou tendo com a publicação de “Céu, inferno e outros lugares” demonstrou que esse modelo é bem sucedido.

Quero deixar os assinantes do blog e aqueles que acompanham pelo facebook tranquilos se imaginam que vou parar de escrever. A ideia é só acrescentar.

Assim, agora, além de continuar a escrever sobre o que sempre escrevi me proponho a flexibilizar mais esse espaço onde exponho minhas ideias sobre psicoterapia e temas afins, passando a incluir outros tipos de reflexões sobre todos os assuntos que sentir vontade de compartilhar. Sei que todos vocês já se acostumaram com os textos mais elaborados, não que sejam longos, mas que procuram ir um pouco mais fundo nos temas tratados, mas essa flexibilização poderá trazer textos eventualmente mais curtos, talvez apenas algumas frases, ou mesmo parecer um “mural” sobre os mais diversos temas. Vou pensar em voz alta, vez por outra.

Muitos poderiam perguntar porque não faço isso no facebook, na fanpage do blog e isso teria mesmo certa lógica. Porém minha ideia é fazer isso no próprio blog, que sei que posso manter, independente de qualquer mudança em redes sociais sem perder o conteúdo. Além disso, as eventuais discussões e trocas de ideias nos comentários, ficarão restritos a quem entra no blog. Isso, de antemão, já garante uma afinidade entre todos, pelo interesse nos temas tratados. Mas sempre que publicar qualquer coisa, a fanpage do face enviará o aviso de costume.

Nada obrigatório, rígido ou que “tenha” que ser. Coloquei esse aviso apenas para que quando algo diferente do habitual for postado, como hoje, não cause espanto. Mas é uma maneira que usarei para conversar com todos vocês sobre outros assuntos, sejam eles sérios, importantes com ou sem sentido. Afinal, esse sempre foi um espaço de se pensar fora dos padrões e a ótima resposta que tenho tido de todos que me incentiva a continuar a mantê-lo e mudar, como exige a vida.

6 Comentários

  1. Tatiana   •  

    Eduardo, parabéns, obrigada por compartilhar seu conhecimento! Muito bom!

  2. Cristiane Weber(obrigatório)   •  

    Eduardo!
    Você está sempre nos surpreendendo positivamente! Embora sua centena de textos tenha sido excelente e nos estimulado a refletir sobre uma série de questões, estamos certos de que a mudança proposta só virá a acrescentar. Obrigada por tudo!
    Abração
    Cris Weber

    • Eduardo O. Carvalho   •     Author

      Obrigado Cristiane!! Na verdade, continua tudo como sempre, só que, vez por outra, mudamos um pouco…
      abração e obrigado por visitar o blog!!!

  3. Fernando   •  

    bom texto, com final q deixa a gente a pensar. Já li mtos sobre as várias teorias do pós morte, q o homem de 100mil anos atrás já acreditava, através das imagens q via nos sonhos, q deveria haver vida no além. li mto sobre o desejo de imortalidade em várias culturas, ou seja, um desejo humano antigo, é de fato, mto pesaroso imaginar que tudo acaba com o último suspiro. abração.
    Fernando Bastos

  4. Simone Wolff   •  

    lindo o texto, acredito realmente que não morremos, apenas passamos de um estado para outro. E a maneira em que fizemos isto( fisica,emocionalmente espiritualmente), somos nos que escolhemos, ontem, hoje pra o amanha.Que no final sera vivido sempre no agora.

  5. Alexander Díaz   •  

    Muito bom o texto, com o já característico estilo seu. Parabéns, muito obrigado e fique sempre acordado !

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