O EGO

                 “Todos nós nascemos originais e morremos cópias.”

Carl G. Jung

Em algum momento o caro leitor (a) já se perguntou quem é que fala dentro da sua cabeça? Esse “alguém” é o Ego*, que significa “eu”, se formos procurar nos dicionários, mas, na verdade, ele (o ego) não é você! Afinal, se fosse, não conversaríamos com ele nem ele conosco, não é mesmo?

Dos autores modernos, Eckhart Tolle é quem mais se dedica ao tema em seus livros. Em alguns momentos ele diz que o ser humano é “possuído” por sua mente, no caso seu ego. Ele tem razão se levarmos em consideração o fato de que, na maioria do tempo, estamos inconscientes de nós mesmos, nas eternas viagens alucinatórias entre nosso passado e futuro, nos mares infindáveis da negatividade. Como estamos fora da realidade nesses momentos, ficamos realmente dominados por nossos pensamentos e é natural acharmos que nós somos esses pensamentos.

Esses pensamentos são formados pela nossa educação, cultura, sociedade, religiões, etc. Como tudo isso nos foi dado pelo que chamamos de “educação” desde que nascemos, esses paradigmas formam nosso ego e não temos muitas defesas em relação a isso em nossa infância.  Somos cobrados para  vivermos esses conceitos que recebemos e temos medo de não gostarem de nós se não seguimos a cartilha recebida. Com o tempo, de tanto pensar baseado nesses conceitos, nos viciamos neles e, eles passam a ser a maneira como interpretamos a vida, ou seja, nossos pensamentos. Como toda a história repetida incessantemente se torna uma verdade (nossa mente funciona assim) nos viciamos a pensar desse modo e depois quando quisermos romper com alguns desses pensamentos, vem a culpa e o medo. Sem os problemas causados pelo ego a psicoterapia ficaria quase sem função, já que, como veremos, o sofrimento mental e emocional provém do ego. E desse sofrimento nasce a ansiedade que, em minha opinião é responsável por quase todos os problemas emocionais e a maioria dos somáticos.

Com o passar do tempo, para nos adaptarmos a vida social, vamos desenvolvendo papéis, que encenamos conforme a necessidade e, não tem como não nos identificarmos com eles. Observe, só por curiosidade, como nossos personagens têm estilos, vocabulário e vestimentas diferentes. Sempre que um precisa ser substituído por outro, trocamos de roupa, postura, fala e tudo mais.

Como o ego significa “eu”, esse conceito para existir precisa de seu oposto dentro da dualidade que vivemos, ou seja, para ter um “eu” precisa também da existência do “outro”. E é um dos motivos por termos esse vício de estarmos sempre julgando os outros, pois é na hora em critico alguém que meu ego tem a oportunidade de sentir-se superior. Palavras como egoísmo, que tem a mesma raiz, explicam-se por si só. Agora é mais fácil de entender o gosto que a maioria das pessoas tem por notícias e falar sobre acontecimentos trágicos e escândalos. Vendo isso a todos os momentos, sempre nos acomodamos em nossas misérias pessoais, afinal poderia ser bem pior, e isso explica, em muito, a dificuldade das pessoas de realizarem mudanças importantes. Esse “consolo” pela desgraça alheia ajuda a aceitarmos a nossa como boa e nos acomodamos.

Assim, o ego também adora se queixar e se fazer de vítima. A auto piedade, de certa forma, nos fortalece pela atenção e carinho que recebemos. Repetimos a várias pessoas nossa história trágica, onde estamos sendo vitimados por um algoz – pessoa ou situação – e, com o tempo, nos tornamos essa história e nos acostumamos com suas vantagens, afinal todos demonstram tanta preocupação conosco, nos ligam, postam frases de auto ajuda, rezam por nós, etc. O ego adora isso tanto quanto quando está no lado oposto, o da crítica feroz, fofoca e julgamento, que, muitas vezes, faz surgir o grito e a violência como forma do ego se impor sobre o outro.

Observe quando alguém diz que determinado acontecimento ou pessoa “estragou” seu dia. Nessa hora o ego dessa pessoa está remoendo a raiva ou rancor, o que inevitavelmente faz com que tudo que  fizer, ver e ouvir durante esse dia, será com sua percepção completamente alterada por esse estado emocional negativo. É importante observarmos o grande perigo disso: baseados nesse estado alterado, tomaremos decisões e faremos escolhas que podem ter resultado de longa duração em nossa vida e, lá na frente, só nos lamentaremos do que estivermos colhendo, sem lembrar que estávamos “fora de nós” na hora em que essa semente foi plantada.

Baseado nisso é que me permito não acreditar em “destino”. Quando algum acontecimento inesperado (colheita) surge é porque não me lembro quando plantei. Isso vale até quando, por exemplo, torço o pé na rua. Onde eu estava (consciência) que não percebi o buraco no chão? Estava nas garras do ego, imaginando coisas, me preocupando com resultados que nunca acontecem, ou seja, em estado alucinado, possuído mesmo! Difícil discordar da tese de Tolle.

Outra faceta do nosso ego é levar tudo para o lado pessoal, como se fossemos o centro do mundo, de um lado, ou a pessoa mais miserável, por outro.  Paranoia pura! O ego adora sofrimento e nada melhor para isso do que os extremos. O caminho do meio, do equilíbrio, só mesmo para quem está consciente de si, em franca caminhada evolutiva.

Nos casos mais graves temos os egos doentios que causam estragos sem fim. O ex-ditador Pol Pot que governou(?) o Camboja mandou matar mais de um milhão de pessoas, inclusive, pasmem, todos que usassem óculos! Isso mesmo, você leu bem! Esse doente acreditava que as pessoas que usavam óculos eram cultas e questionariam as “verdades” da teoria marxista que, segundo ele, era perfeita… Outro maluco famoso, Hitler pensava que os Judeus, ciganos a outras raças ameaçavam a pureza ariana e precisavam ser eliminadas para o bem da humanidade. Outros egos doentes, segurando livros religiosos mataram milhões e ainda matam em nome do seu deus achando que estão fazendo o que é certo. E o pior, é que ainda se respeita esse tipo de doença, como “respeito” religioso. Esses egos deformados conseguiram seguidores porque seus discursos eram cheios de emoção e eram repetidos incansavelmente. Egos fracos precisam de egos fortes para se sentirem seguros e os seguem sem pensar.

Assim, toda insanidade e sofrimento humano estão baseados no ego, e transcendê-lo é a tarefa evolutiva primeira. Isso só é possível, em primeiro lugar, com o entendimento de sua formação e funcionamento, ou seja, autoconhecimento! Estudá-lo não basta, precisamos enfrentá-lo, nos opondo a ele com consciência e irmos nos descobrindo a cada nova percepção.

Ken Wilber, certa vez perguntado se as crianças, por não terem ainda um ego, eram iluminadas (baseadas na frase de Jesus onde dizia que só as crianças entrariam no reino dos céus), respondeu que não. Primeiro precisamos formar um ego e, depois, nos livrarmos dele para atingirmos esse último estágio evolutivo. Essa é toda ironia e beleza disso que chamamos de vida. Nascemos puros, copiamos outros, e precisamos nos libertar dessa cópia e encontrarmos nosso verdadeiro Eu.

Se não fizermos essa dura caminhada, Jung estará certo na frase que abre esse texto.

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*Para Jung o Ego é o centro da consciência (mas não a consciência) e um dos maiores Arquétipos da personalidade. Ele fornece um sentido de consistência e direção em nossas vidas conscientes para nos adaptarmos a realidade.

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