O combustível da vida

              “A felicidade é a compreensão lógica do mundo e da vida. ”

             “O homem livre não pensa em nada a não ser na morte; e a sua sabedoria é    uma meditação                      não sobre a morte, mas sobre a vida. ”

                                                                                     Spinoza

                                                                                                                        alegria

Baruch Spinoza foi, sem dúvida, um dos grandes filósofos da história e seu trabalho para quem procura entender melhor a si e ao mundo está mais atual que nunca. Mesmo tendo vivido pouco mais de quarenta anos, seu pensamento atingiu uma clareza impressionante. Incrivelmente, seu trabalho em relação a ética foi seu maior sucesso, mas sua visão do que é a vida, em meu entender, é superior. Seu “pecado” nesse aspecto é ter discordado da essência do pensamento de Platão, que ainda vigora como a visão “correta”, como se isso fosse possível em um mundo de pessoas diferentes. Talvez tenha começado aí, essa história de que existe um jeito “certo” de se viver, pensar e agir no mundo.

Spinoza era um pensador monista, isso quer significar que, para ele, só existe um mundo sensível e inteligível e que o homem é também um só, ou seja, o corpo que sente é o corpo que pensa. Platão diria que somos dois, um que sente e um “outro” que pensa. Assim, já podemos começar a entender, por exemplo, o motivo de termos pensamentos que não queremos ter. São pensamentos do corpo, como já citei em artigo anterior. Pensamos movidos pelos sentimentos e necessidades do nosso corpo, e ele dizia que “só podemos pensar o que somos a cada momento”. Mais tarde Nietzsche dirá uma de suas frases fortes: “Algo pensa em mim”.

 Dessa forma, Spinoza nos alerta que não temos muito controle sobre o que pensamos e poderemos, por que não, nos desculparmos por isso. Sabemos que viver em uma sociedade é abrir mão de desejos que não podemos ter e fazemos isso em troca de segurança. Mas nossos pensamentos buscam apenas nossa felicidade naquele instante. Assim, os pensamentos têm um problema em sua execução na busca de alegria; que isso seja permitido pelo mundo que vivemos.

Para ele, a vida é um conjunto de relações do corpo com os outros corpos e com o mundo, obviamente! Mas essa palavra “relação” precisa ser entendida em seu pensamento. Para nós relação tem mais a ver com trocas e negociações, mas ele dizia que relacionar-se é afetar e ser afetado, seja por alguém ou pelo mundo. Essa é uma visão mais complexa e que está vinculada a uma conclusão: Somos afetados pelo mundo e afetamos o mundo a todo momento e, essa troca, precisa trazer um resultado para que nos sintamos bem: alegria!

Spinoza diz que a alegria é como o combustível da vida. Quanto mais alegres somos, mais temos o que ele chama de “potência” e que, anos depois Freud chamou de “Libido”. No ramo da auto ajuda essa palavra chama-se “motivação” e por ser vista desse modo sempre tem um efeito curto. Estar motivado é estar alegre e é na relação com as pessoas e o mundo que essa alegria ou combustível vem, não o contrário. Por mais espetacular que seja uma palestra motivacional e fizer você rir e se imaginar capaz de tudo, será sempre uma dose de curta duração, pois a alegria que o manterá com potência ou força de viver vem dessa troca com o mundo e não de algo que alguém te dirá, sem uma compreensão profunda e uma mudança da visão da vida individual. Nada serve para todos, isso é partir do pressuposto que somos todos iguais e nos relacionamos de igual forma com o mundo e as pessoas.

Sua filosofia nos ensina, em outras palavras, que quanto mais alegria mais vivemos e a tristeza nos leva a morte. Dessa forma se nossas relações nos trazem alegria, vamos em frente com vigor, mas quando elas nos trazem mais tristezas e frustrações a vida se aproxima do fim.

Eu e você sabemos que essa é uma batalha perdida. Mesmo aqueles de nós que chegarem a uma idade avançada, pelas limitações do corpo e por tudo que teremos que parar de fazer, seja pela condição física, seja das restrições dos prazeres (que sempre fazem mal ou engordam), nossa alegria de viver vai diminuindo e a morte é sempre o fim. O próprio Spinoza, seguido depois por Freud, disseram a mesma frase:

 Morremos de tristeza.

Como se diz em postagens do facebook, “fato”!

Por isso a alegria é a maior resistência contra esse mundo agressor e opressor que vivemos, sempre nos dizendo “não” aos pensamentos que querem nos trazer alegria. Mas onde encontrar essa alegria?

Ela pode vir de relações, de objetivos, sonhos e de sabermos que estamos modificando o mundo para melhor. Essa modificação vem do nosso trabalho, do contato com outras pessoas e termos uma autoestima de sermos bons no que fazemos e somos, representando algo útil nesse mundo, ou como diria Aristóteles: Fazendo o que o universo espera que façamos.

Mas aí tem um problema que é cultural ou institucional, como queira. O mundo que vivemos nos aprisiona, nos rotulando e nos cobrando uma previsibilidade que, para Spinoza, não é possível. O motivo é simples; nunca nos repetimos, estamos sempre mudando e o mundo também, é claro! Tudo é inédito e não tem como querer, mesmo que você prometa ou faça mil juramentos que o que te dá alegria hoje, dará no futuro. Como saber, por exemplo, se tanto você como outra pessoa e a própria vida se modificam sem parar, que qualquer tipo de relacionamento pode ser para sempre motivo de alegria?

Dessa forma, mesmo que um dia a batalha seja vencida pela tristeza, por não termos mais forças para a luta, nosso compromisso é sempre entendermos essa mudança constante e buscarmos alegria no que fazemos. Cuidar dos relacionamentos, para que a rotina não tire aquela alegria do começo, que sempre ilusoriamente achamos que durará para sempre, e comece a trazer mais tristeza que o levará à morte. Mudar junto, aceitar que o mundo não se molda a nós e nem se importa conosco pode tirar o romantismo da vida, mas para isso sempre temos um bom filme para assistir.

No fim, nossa inteligência pode nos ajudar a encontrar outras maneiras de ver e lidar com as coisas. Com opções, fica mais fácil buscar uma visão mais alegre. Isso nos manterá, segundo Spinoza, com combustível suficiente para enfrentarmos aquelas situações inevitáveis que nos deixam tristes ou frustrados e que diminuem nossa potência de viver.

Se Spinoza influenciou Nietzsche, Freud e tantos outros podem também ser útil para você, afinal a filosofia só tem serventia se for aplicável a vida no seu dia a dia. A conta é simples: que a coluna da alegria nunca seja menor que a da tristeza e isso, depende de escolhas e um pouco de coragem.

Como já disse, um dia pereceremos nessa batalha, mas podemos tombar orgulhosos de termos vivido uma vida boa. Estamos aqui para isso (alegria). Sofrer e achar que isso é bom, só para os ignorantes, manipulados e explorados a séculos.

 

2 Comentários

  1. Levi de Paula   •  

    Excelente texto, meus parabéns!

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