O Ciúme nos relacionamentos

Como homem ciumento eu sofro quatro vezes: por ser ciumento, por me culpar por ser assim, por temer que meu ciúme prejudique o outro, por me deixar levar por uma banalidade; eu sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum

Roland Barthes – Fragmentos de um discurso amoroso

Será que é mesmo verdade a ideia de que um pouco de ciúmes faz bem aos relacionamentos?

Como definição, recorri a literatura psiquiátrica que assim define o ciúme:

“O ciúme pode ser um conjunto de emoções desencadeadas por sentimentos que de alguma forma ameaça à estabilidade ou qualidade de um relacionamento íntimo valorizado, tendo em comum três elementos, a saber: ser uma reação frente a uma ameaça percebida, haver um(a) rival imaginário(a) e eliminar os riscos da perda do objeto amado”.*

Existe uma linha tênue que separa a certeza (fatos), do que se acredita e o pior; as fantasias. A pessoa ciumenta pode transformar uma dúvida, ou até mesmo uma imaginação em uma certeza. Quando o ciúme se instala, o trajeto para as verificações obrigatórias como: onde esteve e com quem esteve, abrir correspondências, verificar bolsos (bolsas), marcas e cheiro em roupas, telefone, etc., é muito curto e rápido. Isso é claro, além de visitas inesperadas, ligação de madrugada ou em horários impróprios, alegando “saudades” ou o já nem mais tão poético: “queria só ouvir sua voz…”.

 Quem está com ciúmes em um estágio mais avançado sempre está à procura de alguma evidência que confirme suas suspeitas e nada muda o quadro que só vai piorando com o tempo, já que nada fará terminar esse processo. O fato de não ter ainda encontrado a evidência não traz a dúvida, mas só que o outro (a) ainda está conseguindo esconder seu relacionamento ou flerte paralelo.

Evidente que com esse tipo de comportamento o companheiro (a) começa naturalmente a ocultar, por exemplo, os elogios que recebe, presentes, telefonemas, etc., com o objetivo de impedir os acessos raivosos e as afirmações de que algo está ocorrendo. Assim, começa a fazer parte do relacionamento um nível de tensão que inevitavelmente corrói a relação já que não há sentimento que possa suportar uma pressão diária. A pessoa com ciúmes sempre é uma vítima, já que sua tranquilidade e confiança em relação ao outro nunca depende dela. Já sabemos que a vítima tem poucas possibilidades de mudança, justamente por isso.

No nível patológico observa-se um desejo voraz de ter total controle sobre a vida do parceiro(a) o que inclui um dos grandes sinais da patologia, que pela sua total falta de lógica chega a ser engraçado;  que é sobre os relacionamentos anteriores do parceiro(a), com ruminações constantes e sem fim sobre uma época em que, muitas vezes, o casal nem se conhecia ainda. Nessas horas, uma série de emoções são experimentadas com ênfase na ansiedade, raiva, insegurança, culpa, aumento do desejo sexual (como objetivo de “segurar” o parceiro(a), mostrar que é melhor do que a (o) ex ), vingança, etc. Tudo isso com bruscas oscilações de humor, uma série de arrependimentos pelas atitudes impensadas e promessas quase nunca cumpridas de melhorar o quadro. É como se as atitudes irrefletidas fizessem parte de quadro alcoólico ou drogas e depois, quando vem a “ressaca”,  aparecem as desculpas e as justificativas que tudo é por amor…

Não tenho dúvida, pela experiência profissional, que existe uma estreita relação do ciúme com baixa autoestima. Esse sentimento, muitas vezes até criado pelo parceiro (a), que com críticas diárias, baseadas na segurança que o outro oferece, vai trazendo uma certeza de que a pessoa não tem condições de ter um relacionamento saudável, de que somente seu parceiro pode suportá-la (o) e, é claro que pensando assim, essa pessoa torna-se fundamental para minha felicidade. Perde-la? Nem pensar! Só que com um quadro de baixo amor próprio o que era um relacionamento vira uma dependência. Amor pressupõe independência, dependência é doença emocional.

Por isso nunca é demais lembrar que todo o controle está ligado ao medo e a insegurança!

Muitas vezes as pessoas buscam provocar ciúmes no parceiro (a) como forma de medir o interesse e até mesmo fazê-lo (a) sofrer um pouco do que a pessoa passa. E um jogo começa com o resultado já sabido: os dois são derrotados!

Outra ideia decorrente do ciúme é a quase certeza de que qualquer pessoa pode ser mais interessante e ”roubar” meu objeto de amor. Dessa forma surge as proibições, o afastamento dos amigos que possam oferecer algum risco, trazendo o casal a um enclausuramento social que também vai acelerando o desgaste da relação.

Dentro da prática da psicoterapia e da psiquiatria é sempre importante avaliar a racionalidade, o quanto o ciúme está interferindo na qualidade de vida. O quadro é considerado mais patológico quanto mais a pessoa sofre. O que não quer dizer que a preocupação com a fidelidade não possa existir, mas o como se lida com ela é que pode caracterizar um problema. Normalmente os quadros mais graves de ciúme tem estreita relação com o transtorno obsessivo-compulsivo (toc) e com a dependência química, onde ela pode chegar ao que se chama de ciúme delirante, que nada mais é do que a presença de pensamentos obsessivos (paranoicos) e comprovadamente infundados (reconhecidos nos momentos de lucidez), mas tratados pelo doente como se verdades fossem e tendo as respectivas reações físicas e emocionais.

Tudo, no final, passa pela ideia de que perco meu valor pessoal se meu objeto de amor (?) não estiver ao meu lado, fico sendo “menor” sozinho (a) e nunca mais poderei ter alguma expectativa de ser feliz sem essa pessoa compondo o meu Eu.

Todo o relacionamento minimamente saudável é composto por duas pessoas que se respeitam individualmente em primeiro lugar, e o outro depois. Quando coloco alguém, relacionamento, etc., acima de mim, torno-me dependente e isso está longe de ser saudável e toda a doença continuada sempre leva a morte do organismo.

Assim posso responder a pergunta que inicia esse artigo; não acredito que quando uma pessoa sofre por ciúmes isso possa fazer bem ao relacionamento. Não escolhemos alguém para sofrer por nós ou sofrermos por ela. Isso vem de mais um dos paradigmas doentios a que fomos submetidos: que o amor está ligado ao sofrer, e que sofrer é prova de amor. Enquanto esta regra estiver vigendo, a maneira como medimos o quanto somos amados e amamos estará baseada em dor, angústia e muita tensão.

Nesse artigo trato do ciúme não comprovado por fatos. Quando realmente aconteceu algo que fundamenta o ciúme a abordagem é outra, mas também bastante fundamentada na valorização pessoal e auto imagem, mas seria assunto para um artigo específico.

*http://www.psiqweb.med.br

3 Comentários

  1. Adelina   •  

    olá Eduardo…
    este artigo me transportou a algumas de nossas conversas…qualquer dia passo aí pra falar com vc..abços

  2. Danielle   •  

    Ola Eduardo , Muito obrigada por compartilhar estas palavras . Estou realmente muito insegura e com muito medo e lendo seu texto me enxerguei por completa em cada palavra, em cada paragrafo. Sei que meu companheiro me ama e que ultimamente anda tendo muita paciencia comigo . Eu não era assim, era uma pessoa muito segura, algo mudou e nao consigo me achar de novo. Me basta continuar tentando. Mais uma vez obrigada.

  3. Cláudio Cesar de Lima   •  

    Perfeito! Um artigo para ser lido todos os dias por pessoas passando por esses problemas criadas por elas mesmas; é um tesouro.

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