O Caminho para a Luz

“A mente é a grande assassina do Real.

 Que o discípulo mate o assassino.”

Helena Blavatsky

“Porque, a não ser que um homem se entregue perseverantemente ao culto do conhecimento de si próprio, nunca poderá de bom grado dar ouvidos aos conselhos da natureza.”

Fernando Pessoa

                                                                                                                                                   luz e escuridão

Disse certa vez a escritora Nélida Piñon que “sou filha dos livros que li”. Apropriando-me dessa fala, imagino que aconteça com todos aqueles que têm na leitura um hábito. Assim, posso dizer que um dos livros que mais teve influência sobre minha maneira de pensar e perceber o que penso ser a essência do ensinamento, é “A voz do Silêncio”. Esse pequeno livro, no seu tamanho (96 páginas), traz fragmentos do mais primitivo esoterismo oriental, chamado Livro dos Preceitos Áureos,  descritos por Helena Blavatsky, com um prefácio e tradução tão importante quanto de Fernando Pessoa.

A jornada iniciática é ali descrita em linguagem poética, onde o discípulo segue os passos em busca do fim da sua ignorância existencial, marcada pelo sofrimento de estar sempre fora da realidade, ou seja, nos domínios da mente. Para aqueles que acompanham o blog, notam que esse é um assunto que permeia vários textos, já que, em essência, o conhecimento do funcionamento da mente é o primeiro passo para o conhecimento da Verdade, sempre escondida sob os véus da ilusão que ela coloca diante de nós. Esses véus nada mais são que as preocupações e divagações intermináveis entre o passado e o futuro, além é claro, de nos manter aprisionados aos condicionamentos que recebemos e que nos dão essa visão tão sofrida da vida e do mundo.

Em determinada passagem é dito: “Antes que a alma possa ver, deve ser conseguida a harmonia interior, e os olhos tornados cegos a toda a ilusão”. Assim, esse estado de equilíbrio não pode ser atingido antes de nos organizarmos internamente e isso se faz com a diminuição dos “ruídos” internos. Como toda a organização provém da desordem, e ela se torna necessária, pois isso a atualiza cabendo-nos a busca dessa serenidade interior que pode ser conseguida com uma prática de meditação, relaxamento ou mesmo em alguma atividade criativa.

Não podemos nunca esquecer-nos que a tudo que está em ordem tende a desordem e vice versa. Essa é a maneira de nos renovarmos, evoluirmos. Sempre que atingimos um novo patamar, temos a tendência de nos acomodarmos e isso fere o mais óbvio preceitos da vida que é a evolução constante. Quando esse estado nada mais traz que nos empurre para  frente, sempre “acontece” alguma coisa que nos tira dessa zona de conforto, provocando a desordem. Ao buscar um novo patamar para sair desse momento confuso uma nova ordem é estabelecida em um novo estágio e assim por diante.

Nos momentos em que estamos nessa evolução, inseguros pela ação da mente que tende a ser contra evolutiva, vivenciamos o atrito que nos faz vencer o medo e galgamos novos patamares. Dessa forma, mantermos o “foco” no presente, fugindo das tentações em tentarmos prever o futuro ou mesmo de reviver o passado e mudá-lo, nos mantêm relaxados. O corpo sem tensão favorece toda uma nova interpretação de tudo que nos rodeia. Sem a contaminação do sofrimento que começa no pensamento e, em segundos, é sentida no corpo, poderemos ver tudo com novos olhos e muito mais tolerantes com aquilo que não podemos mudar.

Mais adiante é dito: “… Se, passando pela sala da sabedoria, queres chegar ao vale da felicidade, fecha, discípulo, os teus sentidos à grande e cruel heresia da separação, que te afasta dos outros.”

 Essa separação pode ser entendida como essa constante oscilação proveniente estarmos fora da realidade quase o tempo todo. Nossos processos mentais nos fazem sofrer na grande maioria das vezes por coisas que achamos ou prevemos que irão acontecer e isso é uma das maiores bobagens que fizemos. De outro lado, quando experimentamos ótimos momentos logo chega o medo e o condicionamento nos lembra que “felicidade dura pouco” e já iniciamos a preparação para a tristeza que virá. Assim, ficamos o tempo todo em uma constante tensão, em 99% das vezes totalmente ilusória. E o maior problema é esse; independente de estarmos sofrendo por algum motivo, seja real ou imaginário, nos sentimos como se esse estado de tristeza jamais fosse acabar, daí, para vermos, pensarmos e tomarmos decisões erradas é muito fácil.

Desta forma, o discípulo é orientado: “Luta com teus pensamentos desonestos (irreais) antes que eles te dominem. Trata-os como eles querem te tratar, porque se os poupas, criarão raízes e crescerão, e repara, esses pensamentos dominar-te-ão até que te matem.”

Para a filosofia oriental, existe uma clara separação entre a mente (matéria) e a consciência (espírito), que poderemos dizer, em outras palavras, que é por onde sempre estamos em constante conflito. Nunca esqueça que a mente, ligada a matéria (corpo) sempre buscará a sobrevivência, enquanto a consciência é atemporal e por buscar a evolução constante precisa rumar para o novo, que, sendo, portanto, desconhecido pela mente, provocará em nós o medo. Justamente por isso a orientação é clara: “A pessoa  da matéria e a Pessoa do Espírito nunca podem se encontrar. Uma delas tem de desaparecer; não há lugar para ambas.” As letras maiúsculas não são por acaso.

No final, a mudança é o nosso destino, já que nada que esteja parado tem a vida em si, ou seja, consciência! Em um mundo onde a quase totalidade das pessoas vive presa aos pensamentos sem fundamento e sofre por eles, o caminho daquele que busca libertar-se é solitário. Sempre com a agenda cheia de compromissos para que o futuro que imaginamos não ocorra, não temos mais tempo para o contato interno, na busca de si mesmo.

Para que o discípulo esteja preparado para essa jornada, o Mestre avisa: “Quanto mais avançares, mais e mais serão os perigos que cercarão teus passos. O caminho que segue para adiante é iluminado por uma chama – a luz da audácia ardendo no coração. Quanto mais ousares mais conseguirás. Quanto mais temeres, mais a luz esmorecerá e só ela pode te guiar..”.

É mais que normal que o primeiro medo seja o da perda do que imaginamos que temos. De novo, a mente que só busca um porto seguro onde a morte não possa encontrá-la, nos empurrará para o porão onde habita a dúvida sobre o que nos acontecerá, se tudo der errado.

E sempre é nesse lugar onde morremos primeiro.

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A Voz do Silêncio – Helena Blavastky, tradução de Fernando Pessoa. ed. Ground

2 Comentários

  1. Cláudio Cesar de Lima   •  

    Isso é definitivo! Imperdível para quem procura a Luz!

  2. Cláudio Cesar de Lima   •  

    Reafirmo que esse artigo é definitivo. De uma clareza tão profunda, mostra a trilha errada a qual escolhemos e o buraco (porão) onde estamos encolhidos e o que será, fatalmente, o túmulo que construímos. E como sabemos disso? Ao observarmos nossas mãos sangrando de tanto cavar as paredes desse porão feito da mais dura rocha. Lugar escuro, irrespirável e com o cheiro característico e repugnante da morte e pelo qual ( esse cheiro que se transforma num perfume) nos acostumamos.
    Assim, esse excelente ( mais um!) artigo bate à porta de ferro desse mesmo porão, esmurra, tenta arrombar, porém tornamo-nos surdos inebriados pela música fúnebre ao fundo, apesar de ser uma música no tom bem baixo. Na verdade, não queremos escutar e a porta está com vários ferrolhos, como um castelo inexpugnável.
    Quantos afortunados terão a oportunidade de ler esse artigo?

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