Múltiplas Personalidades

Torna-te quem és!

Nietzsche

 

Essa notícia está nos sites* do Terra e do Inconsciente Coletivo:

Kim Noble

Aos 51 anos, uma mulher britânica precisa conciliar seu trabalho como pintora, o papel de mãe e suas múltiplas personalidades que podem se manifestar a qualquer momento. Kim Noble geralmente acorda como Patricia, sua personalidade dominante, mas pode se transformar em Ken, um jovem deprimido, em Salome, uma católica fervorosa, em Abi, uma solteira em busca de amor, ou em qualquer das vinte personalidades que ela manifesta. Kim foi diagnosticada com Transtorno Dissociativo de Identidade, de acordo com informações do jornal Daily Mail.

Há mais de seis anos, Patricia é a personalidade que mais aparece, mas pelo menos três outras se manifestam diariamente. Cada uma delas não sabe o que a outra faz, apesar de saberem da existência de todas graças às constantes sessões de terapia que Kim atende com um psiquiatra. As mudanças de personalidade são súbitas. Kim fecha os olhos, o rosto se contorce em algumas caretas, e ela “acorda” como outra pessoa. A transformação pode ocorrer no mercado, enquanto ela dirige, no meio de uma refeição, a qualquer momento. Sua filha, hoje com 14 anos, já está completamente acostumada com a condição da mãe.

Kim não se lembra da gravidez, nem de ter dado à luz. Por seu transtorno, a filha foi retirada de seus cuidados logo após o nascimento. O trauma da separação fez Kim criar uma personalidade só para armazenar e bloquear a recordação do momento. Após seis meses, entretanto, a criança foi devolvida à mãe já que nenhuma das personalidades de Kim era uma ameaça ao bebê.

Psiquiatras acreditam que a personalidade múltipla é justamente uma maneira de compartimentar más memórias no cérebro, para que a pessoa possa evitá-las. A britânica provavelmente sofreu graves traumas na infância, e desde os primeiros anos de vida apresentava comportamentos estranhos. Na puberdade, ela começou as consultas com psiquiatras e, aos 20 anos, foi diagnosticada por engano como esquizofrênica. Apenas com mais de 30 anos, ela descobriu ter o Transtorno Dissociativo de Identidade. Hoje, a personalidade Patricia tenta comandar a vida de todas as outras, chegando a deixar recados e enviar e-mails para as outras personalidades. Ela pinta quadros, escreveu um livro e tenta conciliar as diferentes pessoas que vivem dentro de si.”

 

Parece que o caso de Kim (foto acima), é o extremo de algo muito comum. Todos nós, em menor grau, somos vítimas de “transtorno dissociativo”. Se, você meu caro leitor(a), acha que isso só acontece quando alguém é acometido dessa patologia, veja se não se enquadra no que segue:

Todos nós vivemos uma série de “personagens” em nosso dia a dia. São maneiras de nos adaptarmos às situações e tirarmos o melhor proveito delas. Quando estamos trabalhando, temos um determinado tipo de comportamento, usamos um determinado tipo de vocabulário, de vestimenta, etc. Quando estamos com amigos, nos comportamos de forma muito diferente, somos mais alegres, perdemos uma certa rigidez, mas mesmo assim queremos que os outros (agora os amigos) nos vejam de um determinado jeito. Já quando estamos no banco ou supermercado estamos lá conversando de outro jeito, usando outras palavras e, até quando sentamos a postura é diferente, já reparou?

Porque seu café da manhã, (tempo de duração, o que come etc) é diferente no dia em que tem trabalho do que quando está de folga?

Esses “personagens” são tão fortes em nós que um não consegue nem usar a roupa do outro. Sempre que vamos “incorporar” outro, precisamos nos desfazer da roupa, sapatos etc. Certa vez uma cliente me disse que, ao observar mais detalhadamente esse assunto, reparou que o marido é muito mais atencioso com os filhos e flexível antes de colocar seu terno (roupa do personagem). Sempre que estava incorporado de gerente, ficava mais seco, rígido e cobrava dos filhos e dela como se fossem empregados com “metas” a cumprir.

Muitos homens educados e gentis se transformam quando vestem a camisa do seu time e estão nas arquibancadas do estádio. Falam palavrões e expressam uma agitação que não faz parte do seu comportamento habitual. Converse com alguém que está de terno e gravata, fora do ambiente de trabalho, quando ele está usando jeans e camiseta e observe a diferença.  E as mulheres? Tanto no cinema como na vida real, quando uma mulher solta seus cabelos e movimenta a cabeça fazendo-os cair sobre os ombros, surge uma outra pessoa, mais sensual etc. Às vezes nem precisa tanto, basta somente colocar um óculos escuro e já está diferente…

Imagino que depois desses exemplos, possivelmente você concorda que temos esses personagens e que isso faz parte de nós. Todavia o grande equívoco é pensarmos que temos controle sobre eles. Os personagens são autônomos, tem vida própria! Duvida? Tente sentar no escritório como senta em casa, ou tente ir trabalhar com seu traje de sair à noite e veja se consegue. Tenho certeza que você se sentirá inadequado, já que não estará sendo coerente com  o que o personagem precisa para exercer seu papel.

Portanto, faça (de brincadeira, claro) como a personagem de Kim que deixa recados e emails para as outras personalidades: deixe um lembrete para  o seu “eu” que trabalha demais para fazer cumprir as promessas que o “eu” do final do ano passado fez de ir mais devagar e se divertir mais… Bom, pode acontecer do “eu” trabalhador enviar um email resposta dizendo que não foi ele que prometeu, sendo essa a razão de que mais um ano está terminando e nada mudou…

O caso de Kim é extremo, mas não somos todos um pouco assim? Perceba seus personagens e, aos poucos, vá tentando assumir um pouco de controle sobre eles. Sem isso a mudança fica difícil, afinal você precisará reunir todos para chegar a um acordo…

 

 

4 Comentários

  1. Cristiane   •  

    Fantástico, somos vários ao longo da nossa existência, melhor ainda e mais interessante quando temos consciência disso!!!chega a ser engraçado…

  2. Karina   •  

    Já cansei de ouvir pessoas dizendo que “não acreditam” nessa ideia de que “são muitos em um só corpo”! O fato de normalmente termos memória dos outros eus, de independente de qual “eu” estiver no “comando” nós atendermos pelo mesmo nome, realmente dá uma ilusão muito forte de unidade, de identidade única.

    Para quem tem dúvidas com relação a existência de sua própria “legião interior” de eus, basta observar as pessoas depois que bebem um pouquinho mais do que deviam… rsrs…

    É interessantíssimo observar o comportamento (não só dos outros, mas de si mesmo) em festas. As pessoas ficam completamente mudadas. Se você conhece alguém pela primeira vez numa festa e a vê depois num momento do dia-a-dia, é notável (e às vezes absurda) a diferença de personalidade. Tanto que dizem que “quando o álcool entra, a verdade sai”! O mais interessante que muitas vezes, apesar do álcool realmente colaborar para que outros eus “tomem conta daquele mesmo corpo”, nem sempre a pessoa bebeu tanto assim (muitas vezes ainda nem chega a beber) para apresentar um determinado comportamento “exótico” (pelo menos comparado ao de outras situações). Nessas horas observamos que não são apenas vários eus numa só pessoa, mas eus inclusive contraditórios entre si…e que não veem a hora de terem seu momento ao sol. O que é mais divertido ainda de se observar!!! É o caso, por exemplo, daquele cara (ou mulher) super tímido, que bebe um pouco e de repente está dominando a festa: é o que fala mais alto, sobe em cima da mesa, faz strip tease…rsrs Quem é aquela pessoa afinal??? O álcool só pode trazer à tona algo que já está dentro do indivíduo…

    Enfim… As pessoas revelam outras facetas de si mesmas em ambientes diferentes. Também penso que estar alerta para essas personagens que competem por atenção e que tomam o controle em determinados momentos, é realmente um dos passos mais elementares para a compreensão de si mesmo e por tabela, de uma mudança pessoal genuína…

  3. Rubens Hochapfel   •  

    Muito interessante o assunto. Os muitos em um só. Lembro até do linguajar matuto: “Nóis vai…” É realmente curioso e surpreendente quando se observa e anota comportamentos e trejeitos que utilizamos quando estamos com alguém… ou nos vestimos…
    Podemos escrever um diário para cada um de nós.
    Uma abordagem e tanto, Eduardo!

  4. Kallyne Correa Pereira   •  

    Achei interessante o caso da Kim. Imagino que para ter ocorrido essa fragmentação de personalidade o grau de sofrimento psíquico era bastante elevado. Acredito que essa é uma autodefesa orgânica para que o indivíduo possa entrar em uma realidade alternativa e que proporcione uma fuga da suposta realidade insuportável.

    Achei muito interessante a colocação em relação as inúmeras personalidades que cada um de nós possui. Realmente, “incorporamos” diariamente personagens para executar as diferentes tarefas em nosso dia a dia. Compartilhamos entre nossos personagens íntimos as mesmas lembranças, mas de maneira um pouco peculiar no que diz respeito a forma de interpretá-las. Pois, cada personagem tem uma expertise maior sobre determinado assunto. Consegue se adaptar mais facilmente a determinadas situações.

    Acho que ainda há muito para se pesquisar sobre os vários transtornos de personalidade existentes. Tenho a certeza que será uma pesquisa interminável. Tendo em vista que a subjetividade que envolve a mente humana é imensurável e por que não dizer impenetrável de maneira absoluta?

    Acho que o grande desafio é procurarmos nos atentar aos detalhes. Nos questionarmos sempre que possível sobre nossas alterações de comportamento. Será que nos achamos menos interessantes e possivelmente menos aceitos se agirmos sempre da mesma maneira? Será que a única forma possível para reagirmos e abrandarmos um sofrimento é a fuga da realidade em que ele se encontra?

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