Montaigne e a morte

                   “Se eu fosse um fabricante de livros, faria um registro comentado das diversas mortes. Quem ensinasse os homens a morrer, ensiná-los-ia a viver. “

montaigne

Montaigne nasceu em 1533 e morreu em 1592, na França. É presença obrigatória em qualquer coletânea sobre filosofia e sua principal obra são os “Ensaios”, que manteve em constante revisão durante sua vida.

Dos considerados “Clássicos” seus escritos estão entre os mais acessíveis para o leitor. Sua linguagem é simples, direta e sem floreios gramaticais, comuns aqueles que querem fazer da filosofia um assunto somente para os “eleitos”. Montaigne fala sobre uma infinidade de assuntos, até alguns que poderão parecer estranhos para um filósofo famoso. Muitos temas se repetem aqui e ali durante seus textos, já que escreve de forma aberta, como se fosse uma conversa. Foi considerado o criador do gênero “ensaio”, que é uma escrita mais descomprometida com a rigidez, dando mais ênfase ao conteúdo do que a forma (a apresentação da obra). Não vou falar aqui sobre sua vida, mas sobre um dos muitos assuntos que fazem parte dos “Ensaios”: a morte. Se você se interessou em saber mais sobre esse cara simpático, que parece que bate um papo enquanto filosofa, no final tem um link para a primeira parte de um vídeo que fala sobre a sua trajetória. São três vídeos de menos de 10 minutos cada, onde sua vida e escolhas (algumas curiosas) poderão ser conhecidas.

Montaigne trata da morte em alguns textos que fazem parte dos “Ensaios”, principalmente: “Somente depois da morte podemos julgar se fomos felizes ou infelizes em vida”, “De como filosofar é aprender a morrer” e “De como julgar a morte”.

Quando cita Cícero afirma: “Filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Isso, talvez, porque o estudo e a contemplação tiram a alma para fora de nós, separam-na do corpo, o que, em suma, se assemelha à morte e constitui como um aprendizado a vista dela. Ou então é porque de toda sabedoria e inteligência resulta finalmente que aprendemos a não ter receio de morrer”.  O interessante é que ao falar da importância de não termos medo de morrer, Montaigne na verdade fala da importância de viver. Como se, quanto mais você se torna inteligente existencialmente, mais viverá bem. Quem vive uma vida boa, não tem medo de morrer. Difícil é se perceber saindo da vida sem tê-la curtido. É como se fosse convidado a uma grande festa, tivesse pegado no sono e acordasse na hora de ir embora.

A vida sem a morte não teria sentido e tudo que somos e podemos ser deve-se a morte e da nossa duração efêmera. Um tempo médio de 75 anos, por exemplo, nos empurra para ações, buscas e realizações que precisam de pressa para que possamos delas usufruir. Nossa percepção de mundo está ligada a morte como acontecimento inevitável e até esperado a partir da velhice. Não nos assusta a morte de um idoso, mas nos choca e enche de angústia a morte de um jovem ou criança, não pela aparente injustiça de algo assim ocorrer, mas, principalmente, por nos lembrar de que essa falta de regra ou ordem para morte pode nos alijar a qualquer momento dos nossos sonhos e do contato com quem apreciamos estar. Afinal, tudo se baseia na fragilidade da vida, e, ao referir-se a isso Montaigne afirma: “ a instabilidade das coisas humanas que um pormenor basta para mudar inteiramente”. Tudo está sempre por um fio, nada está garantido ou certo. Um pouco de pressa, de lembrar que pode ser hoje o último dia, não fará mal a nenhum de nós.

Assim como Epicuro, que aconselhava a não nos preocuparmos com a morte, Montaigne nos aconselha a desprezá-la, mas nunca esquecendo que ela pode chegar a qualquer momento. Quando afirma: “O remédio do homem vulgar consiste em não pensar na morte. Mas quanta estupidez precisa para tal cegueira”. Desprezá-la para que não tenhamos medo, mas não esquecer que existe.  O bom e sempre saudável “meio termo”. De outro lado, mostra que a morte também tem sua utilidade, já que pode pôr fim a nossos males e sofrimentos, sendo, portanto, positiva e um atributo de Deus.

Ao citar Sêneca, lembra que “nenhum homem é mais frágil que outro e nenhum tem assegurado o dia seguinte”, fica o aviso que nada que possamos fazer ou ter garante-nos mais um dia de vida. Temos aqui, uma visão fatalista, que defende a ideia que temos um dia pré-determinado para morrer, onde nada podemos fazer para impedir. Isso se encaixa bem com o pensamento de Montaigne, que pede que façamos a vida ter valido à pena ser vivida a cada momento.

Também percebe a importância das sensações corporais e do nosso humor na nossa relação com o pensamento, a vida e a morte. Quando diz: “Quando não me sinto bem, as alegrias da vida me parecem menos valiosas, tanto mais quanto não estou em condições de usufruí-las a morte se me afigura menos temível”.

Essa importante reflexão mostra o quanto somos vulneráveis a muitas situações que podem nos fazer até pensar na morte como uma solução, como já dito anteriormente. Na verdade, não gostamos de sofrer, seja física ou emocionalmente; queremos fugir, terminar com o que nos angustia. O pensamento da morte como solução que acompanha o estado depressivo, tão comum em nossa época, já tinha sido percebido pelo filósofo. Montaigne pode ter tido um insight que mais tarde foi trabalhado por Espinosa; que nosso corpo “pensa” tanto quanto o que chamamos consciência, sendo, no fim, tudo uma só coisa. Se o caro leitor tem alguma dúvida, lembre-se da sua última gripe, por exemplo, e veja se com o corpo dolorido, a dor de cabeça e a coriza, dava para ser otimista e ver a vida com alegria…

Montaigne fala da vida como algo “neutro”, ou seja, nem bom nem mal em si. Sua filosofia nos remete a liberdade, a escolha livre de como viver. A liberdade é inseparável da responsabilidade para todo aquele que pensa racionalmente. Sua afirmação é contundente: “A vida em si não é um bem ou um mal. Torna-se bem ou mal segundo o que dela fazeis”.

Pode parecer uma incoerência com a visão fatalista já citada, mas não é. Afinal, podemos depreender que, independente de termos um dia certo para morrer, até esse momento, é nossa liberdade fazer da vida algo bom, que tenha valido à pena!

Essa responsabilidade sempre será um problema para quem acha que sua vida é conduzida por “alguém”. Nesse quesito, Montaigne disparou uma de suas máximas: “O homem não é capaz de criar sequer um verme, mas já inventou milhares de deuses”. É essa facilidade de criar deuses e seus atributos que estão no cerne dessa mania que temos de achar que tudo está traçado. Uma boa ideia para quem pensa que se deixar levar é ter fé.

Pedimos, equivocadamente, mais tempo de vida quando lamentamos os poucos anos disponíveis. Montaigne nos convida a imaginar como seria uma vida sem fim, nos fazendo pensar que tudo perderia a graça e que até nossos sofrimentos jamais acabariam. A morte é, sem dúvida, o tempero da vida e ao que a ela traz brilho; a intensidade das convivências agradáveis, as situações inéditas, ao entendimento do fim de qualquer mal, pela própria brevidade da vida. Saber que algo bom terminará aumenta sua intensidade e se Nietzsche leu os “Ensaios”, poderá ter ali se inspirado para o conceito do “eterno retorno”.

Os filósofos modernos têm por hábito tratar um tipo de literatura denominada de “autoajuda” com certo desdém, enfatizando sua falta de conteúdo e reflexão. Pode ser verdade para algumas e até, posso concordar, para a maioria. Todavia, muitos livros assim chamados são ótimos em meu entender. Se Montaigne estivesse vivo, certamente seus escritos seriam catalogados como uma “auto ajuda” de qualidade. Isso tiraria seu valor filosófico ou reflexivo? A citação que encerra esse texto mostra bem que existem “ajudas” que se forem aceitas e tornarem-se ações de vida são muito úteis:

“Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração ou no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante”.

A importância de Montaigne para a filosofia é inequívoca. Suas reflexões, não só sobre a morte, sobre a riqueza, a maneira de tratar as pessoas, de aceitarmos como somos e tantos outros conceitos são aplicáveis a um grande número de demandas que chegam aos consultórios de psicoterapia. Muitos o consideram o filósofo da “autoestima”, pela sua capacidade de relativizar e mostrar que de reis a plebeus a diferença não é tão grande assim.

Valeu muito para todos nós os anos que ele dedicou a meditar e escrever na torre de seu castelo, olhando para o teto lendo suas frases prediletas e observando a vida, seja em reclusão ou no seu tempo como magistrado. Com sabedoria, nivelou os principais problemas humanos tornando-os o que são; pequenos, diante de todas as possibilidades da vida pode oferecer.

Não há dúvida que a vida de Montaigne valeu a pena ser vivida e seus “Ensaios”, mais de cinco séculos depois são atuais, tendo lugar de destaque em qualquer biblioteca.

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Quer saber mais:

MONTAIGNE, M. Ensaios. Tradução Sergio Milliet. São Paulo: Nova Cultural, 1987, vol 1 (Os Pensadores).

Primeira Parte do vídeo sobre Montaige. Os outros dois estão no mesmo canal no You Tube:

Imagem de Amostra do You Tube

1 Comentário

  1. Tatiane Rodrigues   •  

    Bom dia Eduardo, tudo bem?
    Seus textos são incríveis, te acompanho a um tempo e confesso que seu blog vem me ajudando muito. Fico sempre esperando ansiosamente pelos próximos temas…rs. E se me permite dar uma dica, gostaria muito que você abordasse o tema “relacionamento abusivo”, gostaria muito de ler qual sua visão sobre isso, acredito que você estaria ajudando muitos casais falando sobre esse assunto. :) Abraços.

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