Mentalidade doentia

“Mentes brilhantes provocam ações que causam sofrimento e dor. É preciso, também, educar os corações”.

                                               Dalai Lama, 1999

O ser humano ao longo da história tem sido educado (condicionado) pelo  paradigma da escassez. Quem de nós não ouviu o que nossos antepassados sempre disseram para seus filhos, que depois disseram para nós:

 hipocrisia

“Dinheiro não nasce em árvores!”

“Não acho dinheiro na rua”

“A vida não é fácil”

E tantas outras frases que impregnam nossa maneira de ver o mundo de forma limitante. Esse conceito de miséria traz sérias consequências, afinal, se manifesta na forma como vivemos, nos relacionamos, administramos o tempo e até mesmo como tratamos o planeta. Nossa exterioridade é reflexo do que pensamos.

Já que, dentro dessa mentalidade,  tudo é escasso, significa que vai faltar, então preciso cuidar primeiro de mim. Logo, pela mesma escassez, preciso competir, com isso, criam-se padrões de divisões sociais onde há vencedores e perdedores, ou seja, a exclusão. Também, se vai faltar, preciso acumular e isso leva ao consumo exacerbado, o que significa que vai sobrar para mim e faltar para o outro. Parece básico, mas na verdade o que está por trás da ambição é o medo da escassez.

Esse círculo vicioso da miséria tem como resultado o processo de violência instaurado hoje, não só entre países, mas também na porta de nossas casas. Com isso sempre desconfiamos das pessoas e precisamos de muita atenção para não sermos “passados para trás”, ou seja, alguém quer tirar vantagem e sairei perdendo. Será?

Pode ser conveniente lembrar a oração mais famosa do cristianismo que nos convida a pedir apenas o “pão que nos dai hoje”, sem a necessidade exagerada de ter tanto pão que nem conseguirei comer. Quero deixar claro que não sou contra qualquer tipo de poupança ou investimento, mas falo aqui de uma questão conceitual de como vive e pensa  a sociedade.

Precisamos mudar o paradigma da escassez que gera medo e sofrimento. Isso significa que preciso parar de pensar de forma pobre e medrosa. Se assim fosse, em muitas  áreas de atuação não poderiam formar novos profissionais, já que o mercado estaria esgotado. O que vemos é que quem é bom no que faz e tem talento sempre consegue um bom lugar ao sol e prospera. Portanto a escassez não existe!

Constam nos livros bíblicos, que Moisés levou quarenta anos para levar seu povo que era escravo no Egito para a terra prometida. Ocorre que se observamos em um mapa, temos um trecho de poucos quilômetros que poderiam ser percorridos em alguns dias apenas. Isso é a representação simbólica da mudança de mentalidade. Afinal, o povo que ele levava à terra prometida era composto de pessoas acostumadas à escravidão, ao sofrimento e escassez. Por isso esse tempo de quarenta anos (uma metáfora, já que o número quatro está ligado a uma mudança de ciclo), significou que nenhum dos que saiu do Egito chegou à terra prometida. Essa era a condição para ser entendido quando disse: “O Manah vem dos céus e não haverá escassez”. Precisava ser outra geração para sua mensagem poder ser não só absorvida, mas vivenciada. Já que os filhos dos escravos não tinham vivido a escravidão, não estava neles essa ideia de que sofrer e passar dificuldades fosse normal.

Em outro momento bíblico, quando Jesus fez a “multiplicação dos pães”, foi uma lição de divisão e solidariedade. Quando ele disse que haveria o suficiente para todos, que não se preocupassem, cada um pegou apenas o que necessitava, sem ganância nem egoísmo e a quantidade existente foi satisfatória.  Dessa forma, o verdadeiro milagre não foi “multiplicar” o alimento, foi a mudança de paradigma, da escassez para a abundância, ou se preferirem, de perder-se o medo de que faltaria alimento. Nunca me canso de repetir que a necessidade de acumulação sempre tem como motivação o medo, mas no fim o medo passa a ser outro: de perder o que se acumulou.

Uma mentalidade mais saudável pode nos levar  a uma sociedade pacífica, muito menos violenta e dividida, mas para isso será necessário mudar como pensamos o que seja, afinal, viver. Isso é possível? A resposta pode ser “sim” se for uma atitude individual, que pelo poder do exemplo pode multiplicar-se, mas será “não”, se esperarmos essa mudança de pensamento venha pelo status quo, afinal isso mudaria o sistema de competição que alimenta todo o mercado de produção e acumulação que experimentamos.

A cultura dominante, devido a essa mentalidade de escassez, se estrutura ao redor da vontade de dominação da natureza (riquezas), dos outros povos e do mercado. Essa é a lógica que criou a cultura do medo e da guerra, modelo antigo, que desenvolve cada mais tecnologia, separando o mundo em dois: os que podem usufruir e os excluídos e que precisam lutar, usando bons e maus métodos para continuar a sobreviver. Enquanto isso, temos armamentos de última geração que podem destruir o mundo centenas de vezes e cada vez mais pessoas vivendo em imensa miséria.

Leonardo Boff nos mostra com clareza essa situação quando diz: “A manutenção desse modelo nos levará em pouco tempo, a uma divisão cada vez mais abissal entre ricos e pobres, a quem tem acesso e não tem.  Surgirá então uma ruptura biológica na espécie humana, uns vivendo mais, com mais saúde física e inteligência e outra parcela, a maioria, vivendo menos, fisicamente debilitada e sem educação. O resultado será a tragédia moral da exclusão aceita, pelo sentimento de dessemelhança, que já conhecemos pelas discriminações raciais, só que agora, muito mais do que antes,  entre ricos e pobres. Os primeiros (ricos), livres para a violência do desprezo de usufruir riquezas e do avanço tecnológico sem solidariedade, e os outros, livres também, mas para se rebelarem sob todas as formas de violência, como já acontece hoje”.

Vemos um planeta que está se esgotando pela ganância e morreremos todos. É simplesmente inacreditável que o homem ainda se veja à parte do planeta, como um ente separado. A Terra (gaia) é um ser vivo e fazemos parte dela. Os rios e mares são o sangue, as florestas os pulmões e nós, seres “humanos” seu cérebro. Como nosso pensamento está doente estamos matando o corpo. As células de câncer querem crescer, mesmo que isso as leve a morte também, por isso são uma doença.

Dos mais de 3.000 anos de história da humanidade que podemos datar, praticamente em todos presenciamos povos em guerra. Se observarmos bem, veremos que todos os países em suas festas nacionais, a grande maioria de seus heróis e monumentos das praças são de heróis de guerra, ou seja, onde comemoramos conquistas territoriais, e, consequentemente, muitas mortes do “inimigo”.  Como bem diz Maurício Andrés Ribeiro: “Nessa cultura, o militar, o materialista o banqueiro e o especulador valem mais do que o poeta, o filósofo e o santo. É evidente que nesses processos de socialização formal e informal, a cultura da violência não cria condições para uma cultura de paz”. Estamos há milhares de anos em conflito interno, mas é bem mais fácil projetá-lo no “outro” que vive diferente ou que tem um deus que não combina com o meu.

Ainda vivemos uma educação  patriarcal (masculina) que criou instituições assentadas sobre mecanismos de opressão como o Estado, o exército, a guerra e meios de produção vinculados à destruição da natureza. Um dos filósofos mais famosos da história, Francis Bacon em momento de rara infelicidade (ou porque não foi devidamente entendido), disse que deveríamos submeter a natureza ao nosso domínio. Hoje, nos invernos e verões rigorosos, no ar sem qualidade, na escassez de água, para não estender demais, são o pagamentos que todos, enquanto carma coletivo, estamos assumindo pela ignorância de “técnicos e especialistas” que esquecem a mais elementar verdade: não somos mais do que a natureza a ponto de dominá-la, mas parte dela e deveríamos nos esforçar para entende-la.

Pense que essa maneira doentia de viver não se aplica a nenhum lugar longínquo ou a uma profecia, mas já faz parte do dia a dia de todos nós. E o pior, vamos nos acostumando e, como tudo que se repete, vira “normal”.

 Afinal, como já nos ensinou Sua Santidade o Dalai Lama, a educação voltada somente para a mente ao longo da história da humanidade é um sistema que teve como resultado ações que significaram milhões de mortes, misérias, sofrimento, dor e depredação ambiental. Precisamos entender que educar a mente é  importante, mas  educar nossos corações é a única solução.

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Fragmentos de discursos de: Leonardo Boff, Dalai Lama, Maurício Andrés Ribeiro que constam do livro “ A paz como Caminho” tendo Dulce Magalhães como organizadora editado pela Qualitymark, com o patrocínio da Unipaz.

5 Comentários

  1. May   •  

    Educação do coração a grande sacada dessa nova Era, que precisa realmente ser nova em todos os sentidos! Excelente!!

  2. Jomar   •  

    Olá Eduardo, muito com texto e com uma visão impar sobre o atual momento.

    Parabéns e Sucesso.

    Abraços.

  3. Léia   •  

    Você ilustrou muito bem a questão das células de câncer (nosso egoísmo/materialismo) porque a verdade é essa, num câncer a célula doente não entende que se atacar o corpo vai morrer e no final das contas quando o corpo sucumbe ela também sucumbe junto. Com certeza o despertar do coração representa a cura para esse desequilíbrio…Parabéns pelas profundas palavras!

  4. Simone Wolff   •  

    O pior disso tudo, è, que não nos acostumamos, porque se fosse normal, não viveriamos nesta eterna busca, por algo que nem nòs mesmos lembramos onde (quardamos).
    E antes que a normalidade tome conta de nossas vidas, devemos lembrar que, ( o sol nasce pra todos, mas a sombra è pra poucos) Então vamos encher nosso mundo de (arvores) pra q todos possam se refrescar nesta sombra.

  5. Nilsa   •  

    Mexer com o que mais tememos, mudanças interiores, é assim que li e interpretei. Quando o amor falar mais alto em todas as formas de expressão, sendo escolha para fazermos a integração com todo o planeta (ainda que leve tempo para acordamos ),desejo que realmente aconteça, nesta ou nas próximas gerações, aí sim teremos aprendido a lição; a que viemos !
    Grata pelo belíssimo texto.

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