Higiene emocional

 A educação para o sofrimento, evitaria senti-lo, em relação a casos que não o merecem.

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Penso ser importante refletirmos se cuidamos bem da nossa higiene emocional. Tenho certeza que a maioria das pessoas cuida da limpeza e conservação do seu corpo, afinal aprendemos isso desde criança como sendo algo importante em nossa vida. Porém vejo poucas pessoas que se preocupam com o que entra pelos seus olhos e ouvidos.

Podemos usar como “gancho” esse trágico acontecimento no último final de semana onde mais de 240 pessoas morreram em um incêndio em uma casa noturna. Da tragédia em si, que vitimou tantos jovens, não há muito mais a acrescentar, até porque a mídia com suas diversas faces expôs durante dias e horas o desespero dos familiares, dos amigos, os corpos, os depoimentos dos especialistas e tudo mais que pudesse manter as pessoas durante horas e dias focadas nesse acontecimento.

Mas, afinal, porque gostamos tanto de ficar assistindo os desdobramentos dessa e de outras tragédias, porque a desgraça e o sofrimento vendem tantos jornais, revistas e mantém as pessoas ligadas nisso?

Solidariedade? Somente até o ponto em que você se movimenta e toma uma atitude de ajuda, como, por exemplo, doar sangue para as vítimas, arrecadar alimentos,  contribuir financeiramente ou despender seu tempo em trabalhar como um voluntário no local do evento.

Se não for nenhum dos itens acima, e isso inclui 98% dos leitores e telespectadores, é puramente um consolo para suas próprias dificuldades e uma acomodação diante dos problemas que não consegue resolver em sua vida. É como se a tragédia do outro me consolasse e tornasse a minha suportável. Como se vendo outras pessoas em sofrimento profundo mostrassem que o meu nem é tão grave assim! Dessa forma, ficar horas, dias vendo  e comentando esses acontecimentos ajuda tirar o foco de mim mesmo, e o pior: me acomoda na minha tragédia pessoal.

Tenho certeza, até porque já ouvi jornalistas comentando, seja em programas sobre o funcionamento da mídia ou até mesmo por pura observação que, se tivéssemos um jornal impresso ou uma televisão apenas de boas notícias (elas acontecem tanto como as más), esta sairia do ar ou entraria em falência em poucos dias. As pessoas não se interessam por isso, justamente porque boas notícias, pessoas realizadas e felizes também mostram o quanto não estamos bem ou tristes com nossos rumos. Isso nos incomodaria, trazendo um desconforto que faria com que trocássemos de canal imediatamente ou não comprássemos mais esse “jornalzinho sem graça”. O que vemos são as boas novas encerrando o noticiário televisivo ou no rodapé de uma página no meio do jornal.

Alguns iludidos podem até dizer que ficam diante da tragédia por horas a fio em solidariedade com as vítimas e suas famílias! Pura bobagem! Infelizmente nossa cultura adora e valoriza toda a forma de sofrimento e sofrer junto vira solidariedade. Não defendo a alienação, mas, se não conhecemos os envolvidos e suas famílias, ficar em agonia e tristeza futricando em cima do assunto é uma atitude, emocionalmente falando, muito pouco inteligente, até porque não gera nada de útil, pelo contrário!

Nossa mente se identifica com tudo que vê e ouve, sendo assim, se, por exemplo, você está assistindo ao relato desesperado de um pai ou uma mãe que perdeu um filho de forma trágica, imediatamente você se colocará no lugar dessa pessoa, buscando, para entendê-la ou solidarizar-se com ela, sentir o que ela está sentindo. Como já sabemos por artigos anteriores, nosso metabolismo é movido unicamente por nossos pensamentos, não importando se são frutos da realidade ou imaginação. Nesse momento de “profunda solidariedade” hormônios de sofrimento (estresse), sensação de angústia e tristeza tomam conta do seu corpo com efeitos não só sobre sua saúde, mas também sobre seus comportamentos e atitudes nas horas e dias seguintes. Lembrando que, na realidade, não está acontecendo nada disso com você!

Ver a notícia, saber o que houve, se algo pode ser feito, fazer uma prece ou oração pelas vítimas e seus familiares é uma coisa, ficar sofrendo junto, aí já é falta de inteligência emocional. Solidariedade é ação, não imaginação!

Assim como uma pedra que cai em um lago cria ondas a seu redor, nossas decisões e ações na vida estão intimamente ligadas ao nosso estado imaginativo, logo, emocional. Imagine que, depois de ficar pensando e se colocando nos lugar das pessoas envolvidas, se seria tão improvável poder ficar sem a concentração suficiente para dirigir, ou  resolver se vai ou não a algum lugar ou ainda se aceita um convite seja para o que for? Todos sabemos que nosso humor é fator decisivo na maneira como interpretamos o que está acontecendo. Cabe nunca esquecer que a cada segundo estamos tomando decisões (a maioria sem sequer estar percebendo) que muda o rumo de nossa vida e decide nosso destino.

Evite tragédias, más notícias e sofrimento de todo o tipo! De um jeito ou outro você vai ficar sabendo, basta abrir a página de seu provedor de internet, ligar o rádio do carro ou passar pela banca de jornal. Saber já basta! A partir daí, se não houver nada prático e útil que você possa fazer, fique na realidade de sua vida, toque seus projetos e curta os momentos em que as tragédias e as notícias desagradáveis não estejam realmente acontecendo com você. Problemas todos temos, cada um os seus, e já são suficientes para sofrermos, imagine acrescentando os que não são nossos!

É incrível que a simples higienização (repito: não é alienação) faz diferença na vida de pessoas com depressão e com níveis altos de ansiedade. Não é uma ideia, mas um fato que comprovo com meus consulentes no consultório todos os dias, já que faço disso uma praxis terapêutica.

Essa semana, uma consulente que está pondo em prática várias mudanças, incluindo esse cuidado com o que vê e ouve, me perguntou se ela não estaria ficando muito “fria” em relação ao sofrimento dessas pessoas. É claro que não, ela está apenas sendo seletiva e cuidadosa com sua emoção, diminuindo inteligentemente sua carga de sofrimento. Na verdade, ela somente está se acostumando a sentir-se bem por mais tempo. Colocaram tantas bobagens na nossa cabeça, que nos sentimos até inadequados quando nos percebemos em bem-estar prolongado com “tantas tragédias a nossa volta”.

Acho até paradoxal quando vejo que eventos estão sendo cancelados em solidariedade as vítimas. É claro que elas merecem todo o apoio de seus amigos, familiares e de todos que possam realmente ajudar. A ironia toda é que 1400 crianças morrem por dia no mundo* de fome e nada acontece, nem se fala… Um avião cai, mata 300 pessoas e vira notícia no mundo todo, no mesmo dia, milhares e milhares morreram em acidentes de trânsito e, salvo que tenha sido alguém famoso ou muitos em um mesmo acidente, não é notícia.

A verdade é que o ser humano, na sua maioria, adora tragédias, desastres e o sofrimento alheio. Espero ter conseguido refletir sobre isso. Até podem ter outros motivos (fiquem a vontade nos comentários), mas penso que não são tão óbvios como os que discutimos nesse artigo.

Quando tomamos banho todo o dia buscamos retirar as impurezas do nosso corpo e trazer bem-estar. Faça isso com seu emocional também! Mas se sofrer pode fazer falta, ao invés de precisar de notícias para isso, torture-se com algum chicote ou deite-se em cama com pregos que o sofrimento é garantido!

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*http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/pelo-menos-cinco-criancas-morrem-de-fome-por-minuto-diz-ong

11 Comentários

  1. May   •  

    Concordo em todos os sentidos!
    Estava mesmo esperando suas considerações a respeito e sabia que seria exatamente desta maneira.
    O que mais me choca é a quantidade de pessoas procurando culpados, o que me leva a crer que as pessoas realmente acham que encontrando-os vão ter sua dor diminuída ou se sentiram vingados.
    O fato disso virar assunto numero 1 na mídia já nem me espanta mais, só consigo achar deprimente isso virar um sensasionalismo barato. Não me deixar afetar pelo sofrimento alheio apenas como um expectador ávido pelo show de horrores há muito tempo faz parte dos meus hábitos diários. Isso me faz ser “fria”? Não…ser frio é assistir de camarote a dor dos outros apenas para entender pelo caminho mais curto que a minha pode ser menor.
    Excelentes colocações! Parabéns.

  2. Dani   •  

    Tenho de dizer que faço de suas palavras a minha consideração a respeito de grande parte das catástrofes que acontecem ao redor do mundo!
    Se não for pra fazer algo de prático para ajudar as vítimas, se for apenas para escarniçar, fecho minha mente para isso.
    Quanto ao comentário acima, concordo; ficar procurando culpados nao vai diminuir a dor de quem perdeu alguém… Quer ficar revoltadinho com a sociedade por causa de algo que não foi proposital?
    Mas não moveu um dedo para ajudar ninguém, certo?
    Faça um favor a si mesmo e pare de pensar a respeito, pare de falar a respeito!

  3. Marcele   •  

    Nossa! Incrível suas considerações.Adorei!

  4. tiago   •  

    um ponto que me chamou a atenção foi o quanto as pessoas querem um culpado não interessando se esse realmente exista. O quanto é fácil fazer julgamentos e apontar dedos colocando de lado todas as suas próprias falhas como se as mesmas nem se quer existissem e querendo punir alguém como se amenizase o sofrimento.A outra coisa que me chamou a atenção foi justamente essa “solidariedade” sem sentido nenhum como uma senhora que possou o dia chorando junto com os familiares das vitimas e participando do reconhecimento dos corpos mas o interessante é que ela era de outra cidade e não conhecia nenhum familiar nem mesmo as vitimas veio como disse ela dividir a tristeza daqueles pais ou seja alem de não ajudar em nada ainda estava atrapalhando como disse o eduardo é gostar de sofrer deve ter coleções de chicotes

  5. Antonio Carlos Braga   •  

    Querido Eduardo gostei de suas considerações, você como profissional que é, me ensinou uns detalhes de como evitar sofrimentos futuros nesta higienização emocional.
    Possivelmente eu tenha radicalizado e somente assisto na tv pouquíssimos programas elucidativos, e noto que existem efeitos direcionados que acontecem com as trocas constates de luzes nas mudanças de cenas ininterruptas que nos prendem e nos tomam as atenções.
    Me preocupo também com uso errado de marketing no uso de frases com fins subliminares até com sintetizadores de ondas cerebrais.
    É quando eu saio na mesma hora.
    E só não observa estas mensagens direcionadas com o único intuito de vender, comerciar, infantilizar levando o telespectador a uma hipnose coletiva o transformando num consumista compulsivo, que não quiser observar.
    Obrigado!
    Antonio Carlos Braga Cuiabá MT

  6. Irece Ribeiro   •  

    Concordo plenamente com você. Essa higiene emocional é básica para se viver com equilíbrio. sou Psicoterapeuta e muitas vezes sou questionada se não me abalo emocionalmente com os relatos dos meus pacientes, ora se eu não tiver controle consciente das minhas emoções e de saber que o problema do outro é do outro, eu jamais poderia ajudá-los.
    Parabéns pela reflexão!

  7. Elisangela   •  

    Concordo com suas palavras Eduardo, nessas tragédias a mídia contamina as pessoas de tristeza e com que intuito? Esse é o momento de fazer orações e ter sentimento de compaixão por todos os familiares que sofrem neste momento…..
    Observo e percebo cada vez mais as pessoas comovidas com essa situação e outros acontecimentos que surgem ao seu redor e se enchem de tristeza e medos, isso não adianta de nada… ao contrário acabam se prejudicando com tais emoções desnecessárias, pois acreditam que compartilhar o sofrimento do outro, amenizará o acontecimento ocorrido. A Higiene Emocional é imprescindível, me sinto muito melhor ao desligar a tv e não assistir jornais, dessa forma vivo a minha vida com as minhas emoções, sem absorver o que não me pertence e que não há necessidade de sentir.
    Obrigada pelas palavras

  8. Maria Inês   •  

    Concordo com o que foi dito acima a tragédia de Santa Maria mostrou vários tipos de sentimentos. Tenho uma tendência de fugir desse tipo de notícia. Ex. ouvi o que aconteceu mas não quis ficar ligada me sinto mal. Pode até ser covardia mas não aguento ficar focada. Fiz minha oração para as vítimas e familiares e procurei sair dos noticiários.

  9. maria helena   •  

    “a sofredora compulsiva” e a tia madrinha as quais ja sabes quem são adoraram teu artigo;ambas juraram que vão lembrar sempre de higeniziar a mente e não tentar carregar todas as tragedias do mundo ,para levar a vida com mais levezA e mais prazer sem culpas. bjs MH

  10. Juliana   •  

    Me identifiquei com a sua percepção quanto a ouvir, ver e falar sobre assuntos catastróficos, eu sempre procuro filtrar esses assuntos, já que sofro de ansiedade e sei que não posso fazer algo para ajudar, não adianta ficar com piedade e vivendo o problema do outro, sempre penso que temos que cultivar as boas notícias e claro que se pudermos de fato ajudar, seria ótimo.

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