Formigas que pensam

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Eles estavam lá. Lado a lado, eram mais de trinta.

Altos e imponentes, eucaliptos tem características próprias; os adultos, como esses que estavam à minha frente, tinham troncos altos e lisos. Só lá em cima, galhos e folhas. Pareciam um muro, uma cerca, de quarenta metros de altura demarcando limites, foi o pensamento que me ocorreu.

Foi quando começou a ventar. Vento e eucaliptos tem tudo a ver, apesar de não precisarem um do outro. Os galhos começam a se mover e fazer um som todo especial.

Fiquei observando.

Enquanto essa “dança” acontecia, percebi que não era uma ação de domingo, dia de descanso para contemplação. Dias da semana, horários, são coisas dessa gente pequena, como nós. Eles, os que vivem vendo no alto, devem ter conosco a mesma relação que temos com as formigas.

Eles estão acima disso, não precisam de nada, só da chuva vez por outra e do vento, para cantar e dançar. De vez em quando, o tronco se libera da roupa velha e eles ficam lisos e nus, para recomeçar. Ano a ano, décadas, sem pressa. Tudo vai acontecendo no instante, sem horário, sem nada que precise ser controlado, esperado ou necessário. Nós, humanos, somos seres que se pressupõem livres. Essa liberdade nos faz agir na natureza como se ela fosse nossa, que estivéssemos acima dela.

Dias, noites, calor, frio, vida e morte. Isso existe só para nós e só pode ser por não entendermos. Deve ser por isso que queremos controlar tudo; o medo que a ignorância traz.

O movimento era lento e os pássaros que também passam rapidamente pela vida, característica de corações acelerados, estavam mais preocupados em cantar seus solos e cada um vivia por si e dava certo no conjunto. Orquestra de estranhos, sem ensaio. Nada tinha a ver o vento com a árvore e os pássaros, tudo age por si, pois essa é a natureza de cada coisa.  Tudo ali estava certo e uma sensação de harmonia era possível, porque ela não era necessária. Quando precisamos de alguma coisa, a tensão e a falta de naturalidade são invitáveis.

Há quem diga que tudo ocorre por necessidade, mas se essa necessidade for natural o nome está errado. Para nós, aqui em baixo, a necessidade é uma espécie de urgência e toda urgência precisa ganhar espaço e prioridade. É quando somos mais importantes que tudo.

Pensei em contar aos eucaliptos sobre alguns pensamentos, coisas que poderiam ser diferentes do que são. Lá estava eu, de novo, querendo que tudo fosse do jeito que eu achava certo. Os eucaliptos talvez não rissem, já que devem saber como somos, mas ficariam impassíveis para que me desse conta que tudo isso é grande demais para ser entendido, ou que não há nada para ser entendido, tudo é como é e pronto. Tanto faz!

Tudo ficou pequeno naquele momento; minhas preocupações, a maldade, a bondade, as grandes e más ações, os crimes, a angústia de não saber isso ou aquilo, o futuro… Não estava acontecendo nada, só o vento de sempre, balançando os galhos, como sempre. Talvez o que não fosse o de sempre foi perceber que não há nada para ser mudado, descoberto ou decifrado.

Eu sei que os eucaliptos não pensam, não ambicionam ou desejam. Estão abaixo na hierarquia desse mundo. Talvez seja por isso que o resultado deles é melhor, assim como o dos pássaros, das formigas e de todo o resto. Somos muito melhores, mais capazes e criativos, mas isso não tem nos ajudado a vivermos melhor. Estamos destruindo a nós e ao mundo. Precisamos atender nossa necessidade, afinal.

Quando eu não estiver mais, seja do jeito que for, o vento vai passar por lá, naturalmente, movendo essas grandes árvores esguias fazendo esse barulho gostoso e poderá ter alguém como eu, esteja lá perdendo tempo pensando em vez de só ver, só ver.

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