Existe “destino”?

encruzilhada1

“Vem por aqui”- dizem-me alguns com olhos doces

Estendendo-me os braços seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui”!

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há nos meus olhos ironia e cansaço)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

…Não, não vou por aí

Só vou por onde me levam meus próprios passos…

Se, ao que busco saber, nenhum de vós responde,

Por que repetis: “Vem por aqui”?

Prefiro escorregar por becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí…

Se vim ao mundo,

Foi só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada.

O que mais faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem,

Para eu derrubar meus obstáculos?

Corre, nas vossas veias, sangue velhos dos avós

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o longe e a miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tende canteiros,

Tendes pátrias, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos e sábios.

Eu tenho a minha loucura!

Levanto-a como um facho a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cântico nos lábios…

Deus e o diabo é que me guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre deus e o diabo.

Ah, que ninguém me de piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “Vem por aqui!”

A minha vida é um vendaval que se soltou

É uma onda que se levantou

É um átomo a mais que se animou…

Não sei para onde vou

Não sei para aonde vou

Só sei que não vou por aí!

 

José Regis –poeta português

A questão do “destino” sempre foi tema de reflexão, seja para os filósofos, místicos e pensadores de todas as vertentes. Seria nosso “destino” algo traçado ou escrevemos de próprio punho nossos passos pela vida?

A corrente conhecida como “fatalista” afirma que tudo que nos acontece foi programado com o objetivo de nos fazer evoluir e que nossa trajetória, do dia do nascimento até a morte está previamente definida. Esse tipo de pensamento tira de nós o que conhecemos por livre arbítrio, a não ser que, para aceitarmos essa corrente, concordemos que também nossas escolhas de como agir diante do que nos ocorre também está previamente estabelecida. Dessa forma, o processo evolutivo, em termos de avançarmos e termos uma consciência mais clara depende do ritmo que esse destino determinou. Não há nada que possa fazer para alavancar o processo, é assim e pronto!

Se você concorda com isso, não há nada a ser feito e tudo que lhe acontece de bom ou ruim tem por fim leva-lo à evolução, aceite de bom grado, não reclame e, ainda por cima, fique grato, já que a “existência”, Deus, ou seja, lá quem for, está cuidando de tudo que você precisa passar para atingir o aprendizado necessário para sentar-se ao lado do Criador na eternidade.

De outra parte, temos a corrente que defende a tese de que nossa evolução é responsabilidade exclusivamente  pessoal e intransferível. Dessa forma, se ficarmos na “esperança” de que tudo anda por si, não sairemos do jardim da infância evolutivo, repetindo infinitamente os mesmos erros e sofrimentos, seja em uma só vida, como prega o Cristianismo, ou em várias, pela corrente reencarnacionista. Por esse enfoque, precisamos estar atentos a nós mesmos e com uma insatisfação constante, não que nos impeça de sentirmo-nos bem em qualquer estágio da vida, mas que essa inquietude nos leve a sempre estarmos buscando patamares mais elevados. Assim, entra o conhecimento que se adquire em livros, cursos, etc. Isso tudo, evidentemente, somados a mudanças constantes em nosso dia a dia, colocando em prática esses ensinamentos.

Se você prefere essa segunda opção, aceitar a impermanência em todos os aspectos é fundamental, já que suas mudanças também estarão trazendo alterações constantes e todas as suas relações e a instabilidade será constante. Evolução é sinônimo de mudança e, incrivelmente, estamos eternamente buscando que nossas principais ações na vida (trabalho, afetivo e social), estejam em segurança (certeza), o que quer dizer que elas não evoluem, justamente por não mudarem. Como já escrevemos em vários artigos anteriores essa tendência à busca por estabilidade é inerente ao nosso sistema de sobrevivência e não em relação ao desenvolvimento, já que essa palavra, também por si só, esta ligada a transformação constante.

Essa corrente que nos traz a responsabilidade, é muito melhor, já que por nos tornar autores, nos afasta do fatalismo e da resignação sem enfrentamento. Não penso a vida como um teatro em que todos façam papel de coadjuvante!

Ação, reação. Ação consciente, resultado esperado!

Tudo volta então a desembocar na consciência, de estar e buscar um estado permanente de atenção que me permita encaminhar minhas ações de forma lúcida e isso inclui sair dos condicionamentos que recebi, para ter resultados diferentes, escolhidos pelas ações que tomei conscientemente.

Aliás, sabemos que todos fomos e somos condicionados constantemente e só saindo disso, através da plena atenção é que conseguiremos assumir a direção do filme que contará nossa história. Também é importante lembrar que se tiver “continuação” seguiremos de onde paramos, por isso, de qualquer forma, ser responsável é fundamental.

Sempre é bom falarmos em condicionamentos. Às vezes penso que as crianças deveriam perguntar para as pessoas que as educam se elas são e foram felizes. Se a resposta for um “não”, “mais ou menos”, “a vida nunca é fácil”, etc, caberá sempre perguntar se não deu certo para ela, é porque essa fórmula já demonstrou não ser muito boa…

Leia com muita atenção esse poema que ilustra nosso artigo!

Saia dos caminhos conhecidos e que não levaram nem quem os indicam à plenitude! Arrisque-se! Ter medo é normal, mas se ficar onde está certamente esse filme pode não ter um final feliz, e será só responsabilidade sua!

2 Comentários

  1. Maria Inês   •  

    Gostei bastante do poema e realmente ilustra o texto. Acredito que é necessário traçar novos rumos, teimar, insistir, enfrentar o medo do novo é fundamental para o crescimento. Assumir riscos e responsabilidade na condução do nosso “barco” nos da um que de poder. Senti uma energia de poder ao ler o artigo. Muito bom!

  2. sandra gomes lima   •  

    Acredito que muitas pessoas confundem “destino” com “destinação”;nossa destinação é nosso objetivo final,mas nosso destino é a forma como chegaremos lá, e para tanto usamos nosso livre-arbitrio…..do que valeria nossa vida se não pudessemos tomar decisões, fazer escolhas e mudar de rumo ?

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