Eterna Evolução

“O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.”

                                                                                                         Mario Quintana

“O mal do mundo é que Deus envelheceu e o Diabo evoluiu”.

                                                                                                        Millôr Fernandes

                                                                                                                                                  evolução

Em uma de suas palestras transcritas no livro “Sufis: o povo do caminho”, Osho afirma que tudo no universo está em constante evolução e isso também incluiria Deus. Pensei sobre isso e concordo com ele, há lógica nisso, se não vejamos:

 Apesar de todas as definições sobre Ele sejam em forma de negação, como “impermanente”, “incriado”, “não nascido” entre outras, é lícito pensarmos que até mesmo Deus precisa evoluir.

Se tomarmos por base a própria natureza, aceita por todos como uma de suas faces, podemos observar que sua essência é movimento, com ciclos de nascimento e morte. Essa eterna capacidade de adaptação que também pode ser chamada de mudança ou evolução, mostra que “criar” também é mudar. Essa teoria se baseia na própria lei da física que diz que nada se perde, tudo se transforma.

Essa seria a única maneira de encontrarmos um ponto de encontro entre o eterno conflito da ciência com a religião, simbolizado por Darwin e Deus. Deus criaria com a imperfeição, que daria sentido à busca por desenvolvimento e Darwin diria que as espécies nesse processo se perpetuam pela adaptação (evolução) ou desaparecem. No caso do Homem, teríamos uma pitada de livre arbítrio, que daria o sabor para demonstrar que evolução ou desenvolvimento é resultado de ação e que nada caminha por si só em direção à plenitude. Se isso fosse verdade, nenhuma espécie desapareceria.

Todos têm maus momentos e porque não poderia acontecer isso com o Criador? Vendo só pelo lado criacionista, poderíamos pensar que as espécies que desapareceram, mesmo antes do registro da existência do homem, ou poderíamos dizer, no tempo em que já estávamos aqui, mas em um estado tão involuído que não tínhamos como registrar as memórias e saberes, foram erros corrigidos por não terem dado muito certo.

Em algum momento dessa evolução, seja por interferência divina ou, segundo Darwin, como algo necessário a manutenção da espécie, recebemos um sopro divino, hoje conhecido como neo córtex (novo cérebro) que nos dá capacidade de abstração, imaginação, criatividade e consciência elevada. Isso nos torna “quase” deus ou “semelhante” como diz o Gênesis. Mas, como sabemos, nem mesmo esse toque divino nos exime das barbaridades que ainda cometemos contra nós e os demais habitantes do planeta.

Não perdemos com o novo cérebro nosso passado de “quase bichos” simbolizados pelos nossos instintos de sobrevivência muito mal utilizados devido a essa mentalidade competitiva e de escassez que vivemos. Essa fina ironia de oscilarmos entre quase deuses e pouco melhores (às vezes nem tanto) que os animais, faz nossa fricção em busca de nos aproximarmos de novos patamares.

Se Deus está em todos os lugares, também está nas mentes doentias, na barbárie contra o próprio planeta e os animais que empreendemos, enquanto passeamos pelo espaço e já se fala na possibilidade de habitarmos outros planetas no futuro depois de destruirmos o nosso.

Madre Tereza, Hitler, Chico Xavier e Stalin são Deus, assim como nós em nossos bons e maus momentos. A diferença é que talvez eles não ficaram no “morno” advertido por Jesus e foram “quentes” ou “frios”, movidos pela coragem de serem o que foram e certamente estão em franca evolução.

Toda essa reflexão serve para não nos preocuparmos muito com nossos erros e os entendermos como parte desse aprendizado. Quando ganhamos mais percepção,  começamos a notar que sempre o que acontece foi previsto por nós mesmos no passado por não estarmos prestando muita atenção ao que fazíamos. Ou até por acharmos na época, que era isso mesmo que verdadeiramente merecíamos sendo nosso futuro um justo pagamento.

Saber realmente o que estamos fazendo agora é resultado de termos entendido como as coisas funcionam e com o tempo paramos de nos lamentar justamente por sermos mais responsáveis por nosso presente e futuro.

Dizem alguns cientistas que existem provas que o continente africano há milhões de anos atrás era grudado na América do Sul e que mudanças geológicas  afastaram os continentes. Mas bem pode ter sido Deus que, lá de cima, viu que a arrumação não ficou boa e separou os continentes para deixar tudo mais harmonioso entre tanta água que temos por aqui. Arrependeu-se do arranjo inicial e mudou.  Com isso temos duas culturas diferentes e o que vivemos hoje aqui e lá é resultado desse arrependimento geográfico.

Os ateus, penso, fundamentam sua crença em que Deus não existe, justamente por que os que acreditam Nele dizerem-no perfeito e infalível. Não tem como alguém com essas qualidades ter produzido “filhos” tão desastrados que criaram coisas como a bomba atômica e o chester, por exemplo. Se os crentes na existência de Deus assumirem que Ele está evoluindo e melhorando como nós, acabará o ateísmo. Chegaremos a um bom acordo!

Mas isso será mesmo difícil de acontecer. Precisamos, por sermos ainda evolutivamente primários, acreditarmos que tem alguém melhor que nós que nos cuide. Essa ideia de que Deus pode errar nos deixaria apavorados, à deriva.

Por isso, devemos nos tratar com mais tolerância e condescendência, afinal, como crianças, não sabemos direito o que fazemos. Mas como quem quer ir para frente, precisamos aprender com nossos erros anteriores e tratarmos de somente cometermos erros inéditos, demonstração clara de evolução.

Quem sabe um dia, junto com Deus, chegaremos à perfeição. Precisaríamos, a partir desse momento, pensarmos em um tipo diferente de vida, mudarmos tudo radicalmente.

Afinal, um mundo de gente perfeita deve ser mesmo muito chato!

Por isso tudo, me atrevo a mudar o ditado popular e dizer que: Errar é divino e perdoar também!

1 Comentário

  1. Cláudio Cesar de Lima   •  

    Desde o começo os erros parecem infantis e a criação uma bobagem sem sentido. Não vejo como um Deus possa construir algo e, “lá de cima”, ver que não foi bem construído; não é admissível (sabendo-se de antemão) criar seres que seriam incompletos, imperfeitos, razão do arrependimento desse criador desastrado. Complementando Millôr ou mesmo ousando ir contra diria que Deus sequer cresceu.
    Quando digo isso refiro-me ao deus bíblico e não a um outro ser que realmente pode existir e que não pune, não erra, não mata, não se arrepende. No entanto, até isso me parece inverossímil e sem propósito definido, já que não exclui a incompetência ao se permitir o nascimento de seres incompletos apenas e tão somente para depois reconhecer que tudo foi um erro. Estamos, assim, sós; somos nossos próprios deuses, do bem e do mal, malucos, egocêntricos, malévolos assim como os deuses.
    A história é mais antiga do que podemos imaginar e pelo que sabemos podemos observar que sempre houve doenças, matanças, pestes incontroláveis;, guerras absurdas. E o que foi feito para impedir? O que está sendo feito?
    Céu, inferno e outros lugares o que existe mesmo são os outros lugares, lugares que, apesar de criados por nós, não ousamos lá nos meter, exceto se formos guiados por quem sabe o caminho. E são poucos os que sabem o caminho.

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