Espelho, espelho meu…

espelho

“A triste verdade é que a vida humana consiste num complexo de opostos inseparáveis – dia e noite, nascimento e morte, felicidade e miséria, bem e mal. Nem sequer estamos certos de que um prevalecerá sobre o outro, de que o bem superará o mal ou a alegria derrotará a dor. A vida é um campo de batalha. Ela sempre foi e sempre será um campo de batalha. E, se assim não fosse, a existência chegaria ao fim.”

C. G. Jung

Em alguns artigos anteriores passamos rapidamente sobre um importante assunto no que se refere ao autoconhecimento e vamos nos aprofundar um pouco mais nessa oportunidade. Esse assunto chama-se “Sombrae nos convida a reconhecer a abraçar nosso outro lado, afinal só assim poderemos nos perceber completos.

Tudo que recebe luz faz sombra. Se o Ego (face exterior) é a luz, a Sombra representa as trevas, e é isso que nos torna humanos, possíveis das maiores bondades e das mais cruéis perversidades. Se temos no ego essa imagem de perfeição que queremos transmitir para que nos sintamos adaptados e respeitados,  é na sombra que está o que não aceitamos em nós mesmos e que gostamos de ocultar – nossa agressividade, vergonha, inveja, raiva, etc. Como podemos concluir, nunca na verdade sabemos quem nos comanda, não é mesmo? Justamente por isso que a divisão (diabolos em grego) é nosso inferno, e evolutivamente buscamos a unidade (divinus) para atingirmos nossa completude.

Usamos muito sinônimos quando falamos dessa nossa parte tão desagradável: nossos demônios internos, luta contra o diabo, descida ao inferno, noite escura da alma e até de “crise da meia idade”, quando nos enfurecemos e ficamos “possuídos” fazendo e dizendo coisas nunca antes imaginadas nem mesmo pelas pessoas que nos conhecem desde sempre.

Portanto, a Sombra é nosso lado negativo, soma de todos os atributos que pretendemos esconder, já que se aparecerem oferecerão risco à imagem ideal que temos de nós mesmos e que desejamos que os outros também tenham. Lidar diretamente com a sombra é uma jornada que certamente leva a pessoa a patamares superiores e, realmente, nos transforma definitivamente.

A sombra começa a se formar na infância quando, principalmente a partir dos 2 anos, a criança começa a descobrir que, para conservar o amor de seus pais e outras figuras referenciais, precisa começar a esconder partes suas que eles não gostam. Quem já não ouviu essas frases entre tantas outras:

– Que feio! Você precisa aprender a dividir as coisas!

– Papai e mamãe ficam muito tristes quando você não fica quieto!

– Meninos não choram!

– Não é bonito agir assim!

Assim, vamos colocando todas essas partes nossas em um canto escuro de nossa psique, onde fica tudo que nos dizem que é “errado” e “feio”.  Aqui no ocidente, por exemplo, a cultura cristã jogou durante séculos a sexualidade na sombra de todos nós e o que vemos hoje é justamente uma exacerbada  sexualização em tudo (até em desenhos animados) porque nossa Sombra sempre está a nossa espreita para tomar conta de nós quando abrimos o flanco.

E como ela aparece, ou seja, como nos damos conta de nossa Sombra? Simples: sempre que estamos criticando alguém ou determinada situação! Em psicologia, Freud chamava isso de projeção, que acontece quando lançamos sobre as outras pessoas nossos conteúdos inconscientes. Nunca se esqueça: os outros são apenas espelhos nos quais nos vemos o tempo todo!

Imagino que você já deve ter comentado com algum amigo determinado “defeito” de alguém e esse seu amigo disse que isso não o incomodava. Mas afinal, porque incomoda a você e não a ele? Justamente porque esse “defeito” faz parte de você e não dele!

Quando, lá na infância, por exemplo, você foi reprimido(a) por não compartilhar seus brinquedos com o amiguinho e foi forçado a fazê-lo, seu egoísmo foi jogado na Sombra e é por isso que hoje um ato egoísta que você presencia causa tanta ira e, às vezes, uma reação desproporcional. Espero que esse exemplo ajude a entender a questão da projeção.

Para ajuda-lo a descobrir suas projeções e sua Sombra, faça o seguinte exercício:

Faça uma lista sincera de todas as qualidades que não aprecia nos outros (vaidade, ciúme, ambição, etc.). Quando sua lista estiver pronta (não se assuste se ficar muito longa, é assim mesmo), destaque as características que além de desagradar, mais repudia e despreza nos outros. Essa segunda lista será um relatório bem próximo da verdade sobre sua Sombra, quer você goste ou não, acredite ou não.

Evidente que nem tudo que criticamos nos outros são projeções nossas (a maioria é), mas sempre que nossa reação é demasiadamente forte é sinal de que algo foi mexido nas profundezas do nosso inconsciente. Fica fácil então perceber que quando estamos muito bravos com alguém, estamos dominados pela Sombra e não é a toa que precisamos pedir desculpas dizendo: ”perdi a cabeça e falei bobagens…” Na verdade, o que foi dito não foi pelo seu Eu de consumo externo, mas pela sua Sombra, e é o que realmente você pensa, só que se envergonha.

Outra oportunidade de nos conhecermos melhor em relação à Sombra é nos shows humorísticos e piadas. Quando todos riem e você não acha graça e ainda fica bravo, é sinal de que uma parte sua foi exposta pela piada. Já quando rimos muito, significa que a história fala da parte da nossa Sombra que gostaríamos de ser e não conseguimos, já que não combinaria com nosso Ego.

Mas como tudo tem dois lados, a Sombra também tem seu aspecto positivo. Quando admiramos determinadas qualidades em outras pessoas também estamos nos vendo no espelho. São potencialidades nossas que poderemos desenvolver se trabalharmos sobre elas. Isso acontece quando nos projetamos em ídolos, professores, artistas, etc. Assim também acontece nos relacionamentos afetivos, onde projetamos sobre o outro, e vice-versa, os atributos positivos inconscientes. É claro que, com o tempo, vamos nos “decepcionando”, que nada mais é do que descobrir que o outro (a) não é o que esperava, ou seja, igual a mim.

A Sombra é um assunto para um grande número de artigos, mas penso poder ter ajudado a ampliar sua percepção de si mesmo. Só as pessoas que trazem sua Sombra para luz é que conseguem seguir o preceito do “não julgarás”. Se minha Sombra estiver escondida, aparece o julgamento, se estiver consciente dela, ao invés da crítica, me solidarizo com alguém que sofre do mesmo mal que eu.

Tem um ditado popular que diz: quando apontamos um dedo para alguém, três apontam para nós.  Pura verdade, para o bem e para o mal!

1 Comentário

  1. Kari Ane   •  

    Olá, veja que interessante, postou ontem esta mensagem e recebi também que transcrevo aqui: 7 Mandamentos para um Trabalho eficaz com a sombra: – deixar de culpar os outros; – assumir a responsabilidade; – ir passo a passo; – aprofundar a consciência; – abrir o coração; – renunciar aos ideias de perfeição; – aprender a viver no mistério.

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