Deus Sol

Crônica publicada no jornal Folha SC em 01 de Março de 2016

As notícias no final de semana davam conta que o calor iria diminuir a partir de hoje. A essa altura, mais do que uma previsão, estamos diante de um clamor, uma súplica! Ainda atualmente, em tempo de grande tecnologia, nos prostramos diante da natureza, pedindo clemência e que nos poupe de sua ira.

Dos primórdios da civilização, quando a chegada da noite ou de alguma tempestade era vista como uma ira de Deus pelos nossos erros, seja em momentos extremos de calor, frio, ventos ou tremores de terra, a natureza no coloca no lugar de onde nunca deveríamos ter saído.

Em tempos de Oscar, lembro de dois filmes que mostram como um simples dia quente, desses que tivemos, mostra como somos frágeis e influenciáveis nas nossas decisões e como isso pode alterar a nossa vida ou de outras pessoas.

O primeiro e mais antigo chama-se “12 homens e uma sentença” de 1957, dirigido por Sidney Lumet.  Esse roteiro teve um remake posterior, mas sem o mesmo brilho. Na história, doze jurados ficam fechados em uma sala para definir se um réu era inocente ou culpado. Ocorre que o ventilador (era o que tinha na época) estava estragado e a temperatura elevada da sala, somado ao fato que o terno era praxe na ocasião, empurrava os jurados a resolver o assunto com rapidez.

Porém, um deles, não estava totalmente convencido da culpa e impedia a sentença por unanimidade. As horas vão passando, o calor sufocante vai criando situações de tensão e os embates psicológicos entre os jurados vão se acentuando. No final, começa a chover, e a brisa refrescante que adentra pela janela, traz não só um alívio, mas clareza de pensamento e o final mostra como fatores a que não damos relevância mudam momentos, dos menos aos mais importantes. O filme não vale só por isso, mas por ótimos atores, um roteiro consistente e uma direção que sabia exatamente onde queria chegar. Nenhum efeito especial, todo filme se passa praticamente dentro de uma sala. Arte é simples. Efeitos demais, ideias de menos.

Em 1989, o diretor americano Spike Lee em “Faça a coisa certa” nos coloca em um bairro negro em uma das áreas mais pobres de Nova York em um dia muito quente, onde a questão do racismo vai crescendo junto com a temperatura, eclodindo ao final do dia. As questões complexas da convivência e do preconceito negado, mas existente, é trabalhado com maestria, mostrando a realidade, que está por trás do que a sociedade gosta de mostrar. O estresse provocado pelo calor, vai deixando as pessoas impacientes e nervosas e os bons modos vão suor abaixo.

O que importa é talvez procurarmos perceber como fatores contextuais, que até pode ser um barulho intermitente e irritante, pode elevar nosso tom de voz, tirar nossa tolerância ou mesmo, por fuga, encurtarmos situações ou diálogos que, como tudo que fazemos, repercutirão nas horas e dias que seguirão.

Somos seres frágeis e indefesos, não só diante da natureza, mas das situações que criamos e que, até mesmo buscamos, com o objetivo de nos sentirmos mais alegres ou relaxados. Para isso, o álcool é socialmente aceito e suas consequências são mais do que conhecidas, seja no trânsito ou nos boletins de ocorrência aos finais de semana, principalmente.

Para os antigos, o Sol foi o primeiro Deus. Mal sabiam que estavam mais certos dos que viram depois, trazendo outros deuses. Sem ele, nada nesse planeta se manteria vivo por muito tempo e, no final das contas, se Deus é quem detém o poder sobre a vida e a morte, o sol é mesmo “o cara” que manda por aqui.

Estamos sempre reféns de circunstâncias, sem perceber ou querer assumir nossa pequena autonomia em um mundo, onde somos mais coadjuvantes do que qualquer outra coisa.

 O artista principal é e sempre será a natureza, mas é difícil pedir milagres para árvores, algum planeta ou o vento.

1 Comentário

  1. Nilsa   •  

    Eduardo, seus textos são elaborados com maestria! Grata sempre.

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