Cuidado com você mesmo!!

Há uma vitória e uma derrota – a maior e a melhor das vitórias, a mais baixa e pior das derrotas -, que cada homem conquista ou sofre não pelas mãos dos outros, mas pelas próprias mãos.

Platão, Protágoras

Há quem diga, e eu concordo, que nunca cuidamos suficientemente de nosso pior inimigo; nós mesmos. Freud dizia que sofremos de uma compulsão à repetição de comportamentos e que isso era como um instinto. Apesar de ser uma teoria que se sujeita a inúmeros questionamentos, minha experiência profissional mostra que ela é verdadeira. Temos consciência muitas vezes de que determinada ação, relacionamento, conduta, etc. não é mais, ou nunca foi boa para nós, mas não conseguimos nos libertar! Se isso não acontece com você (me permito dizer que de um jeito ou de outro, todos temos isso) certamente conhece alguém para quem já disse não entender o porquê dessa pessoa se manter em determinado sofrimento.

Isso acontece baseado em um pressuposto de que esse(s) comportamento(s) é motivado por fatores dinâmicos que escapam ao controle de nossa consciência, ou seja, não sabemos realmente porque o fazemos. Sempre encontramos desculpas e racionalizações para nos sentirmos no controle de nós mesmos, daí encontrarmos explicações mirabolantes para nossas condutas sofredoras que teimamos em manter.

Quando a pessoa toma consciência e realmente quer mudar, começa a entrar em um conflito, já que ela está tentando mudar o comportamento em si que a faz sofrer, mas não percebe que esse comportamento é causado por uma maneira de ver e vivenciar sua experiência, sendo, portanto, uma conseqüência (sintoma). Essa é a razão de muitas vezes ouvirmos a frase: “já tentei, mas não adianta”. Enquanto a causa profunda não for enfrentada, não será possível a mudança. É a mesma coisa que tomar um remédio para dor de cabeça, quando a causa está na coluna, por exemplo. A dor poderá passar, mas por pouco tempo, já que a real (gerador do sintoma) causa não foi tratada.

E como cada pessoa é realmente única, não existe uma fórmula pronta para essa mudança. Como diz Stanley Rosner* no livro que trata da auto sabotagem, o terapeuta e o cliente entram juntos em uma selva desconhecida. A vantagem que tem o terapeuta é já ter conhecido outras selvas, o que ajuda a antever os obstáculos e dificuldades da aventura.

Todo o problema consiste em que recebemos por educação na primeira infância (até os sete anos em média) uma maneira de entender e interpretar a vida que recebemos das pessoas ou da cultura vigente que tem vários nomes: programa de vida, identificação arcaica, script, etc.

Dessa forma, mesmo querendo superficialmente promover alguma mudança, fico preso a essa interpretação que recebi, me fazendo não ter muito espaço para a mudança, a inovação e nem mesmo imaginar outro jeito. E não há nada de errado, afinal a criança precisa aprender uma maneira de sobreviver e busca isso nos pais, que são seus líderes e heróis. Com o tempo, vamos crescendo e vendo que tem outras maneiras de viver, que até achamos melhor, mas a tendência é termos medo ou nos sentirmos culpados por mudar o que nossos pais achavam correto. Freud disse certa vez que temos uma dificuldade de superar nossos pais, sermos melhores, porque inconscientemente temos medo de perder o amor deles. Apesar de não poder dizer que isso é comum, já presenciei muitas pessoas se sabotando para poder manter seu ídolo acima dela.

Daí justamente começa o conflito. Quero mudar, preciso mudar esse modelo herdado que não me satisfaz, mas sinto uma tensão e um medo de afetar meu relacionamento com a família de origem, formas de viver que adotei baseado nos conceitos de certo e errado que recebi. Quantas vezes já vi o próprio pai ou mãe trazer a criança/adolescente para terapia, na esperança de “ajustá-la” ao que eles (pais) entendem que seja o certo para o adolescente, ou seja, que o jovem se conforme com o que é o “certo” dentro do conceito dos pais.

A questão crucial disso é que esse querer mudar, muitas vezes, é impedido pela própria pessoa, por motivos inconscientes. Veja e medite sobre a figura que está ilustrando esse artigo. Enquanto a luta pela mudança for somente contra o que parece ser (a parte visível do iceberg), nunca será vencida, já que não estamos tendo e verdadeira percepção do que somos de forma completa.

O místico indiano Rajneesh comenta sobre isso dizendo que a infância de todo mundo foi errada de certa forma. Sua analogia é interessante: se o mundo não é como deveria (poderia) ser, é porque as pessoas não são como deveriam (poderiam) ser. Nossos pais foram condicionados pelos seus pais e assim por diante. Assim, diz ele, pessoas mortas estão controlando as vivas. Pessoas que já morreram estão controlando através dos pais que elas condicionaram.

Ele tem toda a razão!!

Se você não perceber e não fizer a sua mudança, estará condenando também seus filhos aos mesmos paradigmas. Se olhar por esse ângulo, vale a pena pensar que sua libertação transcende a você mesmo.

Vá mais fundo na sua auto análise, não tenha medo de enfrentar os fantasmas, esse combate só trará o crescimento e a verdadeira idade adulta. Enquanto isso, ficamos paralisados; o anjinho (o que você realmente quer) e o demônio (o seu programa de vida, juiz interior) ficarão discutindo e o tempo vai passando…..

 

 

*Para aprofundar: O ciclo da auto-sabotagem. Stanley Rosner e Patrícia Hermes. Editora Best Seller

 

3 Comentários

  1. Daniela   •  

    Gostei muito do texto, e …. libertar-se de si mesmo é o passo decisivo para a mudança interior … somos dotados de “super poderes” dos quais nos ajudam ou nos prejudicam… Penso que discernimento e sutileza nos ajudam muito nesta “caminhada”do conhecer-se… Nossa alma conhece o verdadeiro sentido do viver… mas relutamos, questionamos o tempo todo e não nos entregamos ao belo que já é nosso, não confiamos e aí o conflito esta armado!

  2. Rubens Hochapfel   •  

    Como sempre o Eduardo consegue mostrar a realidade do que somos, enquanto procuramos inimigos em toda a parte e ignoramos a nós mesmos grandes malfeitores e ainda por cima influeciados e controlados por mortos. Não me lembro quem falou certa vez: “eu sou tudo aquilo que não posso mudar em mim”, talvez o Eduardo lembre. Então vamos à procura do malvado e da maladeza que cometeu e continua cometendo e guardando na sua caixinha secreta. Nós vamos achá-lo e então que me cuide!!!

  3. Silvia Ornelia   •  

    Parabens,Eduardo,mais uma vez você nos dá um belo exemplo da realidade que vivemos.E realmente,tenho a convicção de que queremos mudar,mas não queremos nos indispor com as pessoas que nos são queridas,assim continuamos a nos ferir ou nos acomodamos dizendo” deixa pra lá,é assim mesmo”.O pior é que nos acostumamos com esta letargia e acreditamos que estamos sendo bonzinhos para nós mesmos e para os outros.O minimo que acontece é empatarmos as nossas vidas,por termos medo de mudar,medo de perder,medo de perder a falsa segurança.
    O texo nos faz refletir e isso por si só já é um avanço para mim.

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