Como formar um “rebanho”

Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou  a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava.

Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo que pensei não fui eu.

 

Fernando Pessoa- Navegar é preciso

 

Manipulação 1

Deus, sempre ele, desde tempos imemoriais tem sido usado como o maior e melhor modo de controlar as pessoas e manipulá-las. Cabe lembrar que sua existência ainda é controversa, sendo  uma questão de crença, afinal, nunca ninguém o viu ou falou com ele. Até hoje em dia, caso isso aconteça com você, de vê-lo ou ouvi-lo, procure manter um absoluto sigilo, pois se ficarem sabendo seu futuro será um psiquiatra e uma extensa lista de medicamentos.

Assim, aqueles que manipulam as pessoas precisam, para que elas se sujeitem aos padrões de comportamentos desejados, que estejam vivendo duas emoções; o medo de uma eventual punição e a culpa, por terem descumprido alguma “regra”. Some-se a isso, que, para que as regras sejam seguidas tenham, em quem as determine, uma forte autoridade. Dessa forma, quanto mais absurda, maior autoridade precisa ser a do seu autor. Assim, nosso deus, de costas muito largas, coitado, tem visto seu nome ser usado em vão há séculos, para que as pessoas (no caso ovelhas), sigam determinadas normas de conduta, conceitos de certo e errado, que não se discuta ou questione.

E o que é uma norma absurda? É aquela que não seja possível de ser atingida, por estar fora do âmbito humano. Se pensarmos bem, veremos que tudo que é considerado pecado é alguma emoção ou comportamento extremamente natural, ficando, portanto, necessitando de um tamanho esforço pra ser cumprido que o torna irrealizável.  Alguns desses pecados ou mandamentos chegam ao ponto de que é proibido pensar, ou seja, não tem como ser conseguido, afinal não podemos fazer com que nosso cérebro simplesmente não pense. Assim, a pobre ovelha já está em sofrimento, afinal deus está muito irritado com ela por ter esse tipo de pensamento. Então, ela, para se redimir, precisa de uma penitência (punição). Esse tipo de bobagem, como tudo que é cultural e repetido desde a infância vira uma norma de vida e a própria pessoa se pune sozinha pelo seu grave erro (?).

Somente pessoas tristes e quase mortas são manipuláveis, portanto, essas normas visam tirar a alegria, o prazer e a felicidade. Sobra só o sofrimento que nos purifica e nos limpa de nossos pecados que já trazemos, pasmem, desde que nascemos. Isso porque há dois mil e poucos anos crucificaram Jesus que veio para nos libertar e eu, que não estive lá e não participei disso, preciso ter uma vida sem graça e muito chata para pagar esse erro que certamente não cometi, mas que me garantirá um lugar no paraíso dos justos. Inacreditável!

Então, os pastores vão conduzindo seus rebanhos dizendo que comidas gostosas (prazer) é pecado, que sexo é errado, que sentir ira (é instinto) é um pecado capital, que divertimento precisa vir bem depois do trabalho (precisa suar o rosto, lembram?) e que viver é mesmo sofrer, porque um dia, se você fizer tudo certinho ( tiver tido uma vida de sofrimento) será recompensado. Se isso for verdade imagine só a chatice que será viver no paraíso! Que vida eterna mais sem graça, afinal a música permitida provavelmente será a barroca ou sacra, dançar nem pensar, chocolate, riso, romance e divertimento então somente naquele “lugar” para onde vão os que erraram, pecaram e não foram tementes (ter medo) de deus. Imagine só que as pessoas que conseguiram essa façanha precisam ser moralistas, chatas e sem graça. Basta observarmos os exemplos dos futuros candidatos a um lugar no paraíso que ainda estão entre nós. Que tal passar a eternidade com eles?

É claro que todas essas regras não são religiosas no seu sentido último, que seria nos ligar a divindade, mas são normas de conduta e higiene pública. Só acho que os tempos mudaram e passado tanto tempo poderíamos melhorar isso, diminuindo o sofrimento dos incautos que ficam tentando atingir essas metas de comportamento que só serão conseguidas à custa de sua qualidade de vida. Parece que o pessoal do marketing dessas pseudo religiões não estão entendendo que o único público que ainda os aceita são aquelas pessoas que realmente precisam de um cabresto, pois não conseguem viver em liberdade. Os demais, já se afastaram há muito tempo, visto o crescimento de religiões bem mais antigas, vindas do oriente, que parecem respeitar bem mais a inteligência das pessoas.

Essas ideias que nos foram dadas lá trás na nossa infância continuam vigorando, mas já não somos mais crianças! Os pecados que punem os exageros de toda a espécie tem por finalidade nos por em uma certa linha pelo medo. Essa é a maneira de se domesticar as crianças, ameaçando com o “homem da capa preta”, o “lobo mau” e outras chantagens. As pessoas não percebem que cresceram e esses conceitos continuam vigendo em sua mente mesmo depois de adultos e estão norteando suas escolhas.

Assim, nossas religiões ocidentais nada fazem se não reprimir a humanidade das pessoas, as condenando a tristeza e a angústia, onde tudo que é prazeroso é proibido, errado e amoral. Se não podemos ser naturais, somos aleijados! Toda a escolha é correta se for realmente consciente, mas se é feita pelo senso moral é uma obrigação, o que é bem diferente.

Dessa forma, as pessoas mortas-vivas que andam por aí são facilmente condicionáveis e não é difícil lhes vender a ideia que se deve almejar a segurança em tudo como forma de se conseguir a felicidade. Isso é absolutamente impossível já que nada permanece, estando em constante movimento. Assim, é fácil entender as pessoas lutarem para buscar empregos e relacionamentos seguros e estáveis, ou seja, sempre tendo o medo por trás. Diga para uma pessoa realmente livre, se ela aceita em troca de dinheiro passar os próximos trinta anos dentro de um escritório, com uma vida previsível e sem novidades e veja se ela aceitaria.

É justamente por isso que a obsessão pelo dinheiro e o poder tem sido a tônica nesses últimos milhares de anos, porque se pensa que ele vai nos trazer essa liberdade, de se poder realmente viver com alegria e satisfação. Também não vai dar certo, já que se essa plenitude depender dele, faremos o que for possível para tê-lo e isso também é outro nome para a palavra prisão.

Nunca defendo a insanidade, a irresponsabilidade e a falta de ética, mas ser consciente de si e do que realmente se quer. Precisamos de alguma forma nos libertar desse “policial” que colocaram ao nosso lado desde que nascemos e que só nos diz “não” para nossos sonhos de, simplesmente, vivermos com alegria e sem medo.

Sinceramente, se for como parece, estou abrindo mão do paraíso e vou arriscar um local mais animado e quente, afinal a eternidade é longa…

3 Comentários

  1. Elisângela   •  

    Oi Eduardo, texto muito bom para reflexão.. escuto que a maioria das pessoas nos dias atuais sofrem de normose, que é ter esse padrão do que nos foi estipulado como correto para nossas vidas (privação de comida, festa, etc), assim teremos a eternidade e como você mesmo fez a menção que vida eterna, mais sem graça…rs. Mas como diz o prof. Hermogenes, Deus me livre de ser normal.
    Um abração e boa semana!

  2. Cláudio Cesar de Lima   •  

    Nada mais precisará ser escrito; está tudo aqui, preciso, claro, maravilhoso.
    Um hino!

  3. Fernando   •  

    bom texto Eduardo, compactuo com teu pensamento. Deus tem sido usado para manipular a massa , e quem ganha com isso são os donos de igrejas

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