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Fim de ano

Amigos, ao desejar que todos tenham um ótimo final de ano; que descansem e se divirtam muito, quero informar que os textos do blog retornam em 10 de janeiro. Até lá, somente a crônica do dia 5 janeiro será acrescentada como de hábito.

Estarei  retornando ao consultório a partir de 13 de janeiro. No período entre 02 e 10 de janeiro estarei com conexão a internet limitada; somente a leitura de emails.

Para finalizar uma sugestão:

Agradeça mais, peça menos e aja muito!

2016, como todo ano, será sempre resultado das nossas ações!

O funcionamento da Máquina (1a parte)

       “Pode ser que nos guie uma ilusão; a consciência, porém, é que nos não guia.”

Fernando Pessoa

Visual of Man's Brain

Livros, programas e trabalhos que relatam pesquisas e estudos sobre o comportamento humano me interessam muito. Sempre me fascinam os “porquês” de nossas atitudes, afinal sempre desconfiei que em sua maioria não fossem conscientes. Com o tempo, estudos e, principalmente, a observação pessoal no consultório fui confirmando essa ideia. Alguns poderão dizer que Freud de certa forma já teria dito isso, mas tenho certeza que nem ele imaginava o quanto somos levados por mecanismos automáticos.

Em seu livro Subliminar, o autor Leonard Mlodinow (editora Zahar) cita uma série de estudos feitos por especialistas em psicologia social que mostram como o inconsciente nos direciona o tempo todo. Vou citar aqui algumas dessas experiências e comentá-las dentro desse enfoque que sempre tratamos aqui no blog; de que só uma consciência ampliada pelo entendimento e prática pode nos tirar desse “sono” no qual vivemos toda a nossa vida. O Livro é rico em estudos para quem se interessar pelo tema.

Em um estudo os participantes receberam três tipos diferentes de detergentes. Foi pedido que experimentassem todos por algumas semanas e depois dissessem de qual tinham gostado mais e por quê. Uma das caixas era predominantemente amarela, outra azul e a terceira azul salpicada de amarelo. Depois do período de testes os usuários demonstraram terem preferido o detergente da embalagem de duas cores. Interessante é que as razões que deram para sua escolha não incluía a da cor da caixa. Na verdade a única diferença entre os três era justamente essa, o detergente era idêntico nas três embalagens.

Esse e outros testes demonstram que escolhemos muito em função da “embalagem”. E isso vale para tudo que compramos e,  inclusive, pessoas. Afinal o que você acharia se chegasse a um consultório médico e fosse atendido pelo especialista com a camisa de um time de futebol? Por isso, algumas profissões fazem do terno e gravata uma necessidade. A embalagem muda a ideia sobre as pessoas, assim como em outro experimento especialistas avaliaram melhor o balanço de uma empresa quando estava impresso em papel brilhante, enquanto outros que receberam o mesmo balanço, mas em papel simples, teceram comentários menos elogiosos.

Dentro desse mesmo conceito, uma loja de vinhos deixava em determinadas horas do dia uma música de fundo. Quando as músicas eram alemãs se vendiam muito mais vinhos alemães em comparação aos demais (cerca de 75%). Quando a música era francesa, os vinhos franceses vendiam mais (cerca de 73%). Na saída da loja, apenas um entre sete compradores disse que a música poderia ter influenciado sua compra, os outros nem perceberam que havia alguma música e de que tipo era ou negaram a influência na sua escolha.

Esse tipo de estudo nos permite ampliar nossa reflexão. Quantas vezes formamos um julgamento de alguém movido por circunstâncias tão aleatórias quantas essas? O quanto algum som, um tipo de papel e tantos outros fatores ambientais que provavelmente nem são percebidos a nível consciente pode fazer com que simpatizemos mais ou menos com alguém ou façamos um julgamento ou cheguemos a conclusão sobre determinada situação baseado em uma circunstância momentânea?

Nossa mente, por segurança, precisa firmar opiniões sobre tudo, inclusive alguém que estejamos vendo pela primeira vez. Quando somos apresentados a uma pessoa, nossa mente vasculha todos os seus arquivos em busca desse rosto. Como não encontrará nada, afinal estamos vendo essa pessoa pela primeira vez, o que determinará nossa simpatia ou antipatia pode ser o jeito de olhar, algum traço da fisionomia, tom de voz, sorriso, etc. Se essa semelhança estiver ligada a algo positivo em meu passado, nossa identificação com essa pessoa será positiva, caso contrário diremos que não rolou “química” ou que não fomos com a “cara” dela. Provavelmente porque algum detalhe lembrou aquele professor que você detestou na infância, mas isso nunca será consciente, porque se for, a própria consciência disso nos empurrara a desconsiderar o próprio julgamento, mas quase nunca isso acontece.

Portanto, precisamos de um grande esforço, de estarmos realmente conscientes e sabermos como funciona nossa mente para que evitemos esse tipo de julgamento tão precipitado. Ainda vigora em nós, o mesmo mecanismo da época das cavernas onde essa simpatia ou antipatia queria significar um perigo a nossa vida ou sermos mortos por algum inimigo desconhecido. Nunca se esqueça que nossa mente está ligada ao corpo físico e que portanto sua principal função é nos deixar atentos a qualquer coisa que possa nos levar a morte.

Já no final do século XVIII, o filósofo Immanuel Kant defendia a ideia que nós construímos uma imagem do mundo, sendo esse processo muito mais complexo do que simplesmente no que existe realmente, mas que criamos isso que chamamos de realidade por acrescentar ao que vemos outros fatores inerentes a nossa mente. Essa soma é o que é para cada um a sua realidade. Quem sabe Kant não tenha se inspirado no princípio oriental de que tudo é maya (ilusão), ou seja, ninguém vê o real, só mesmo aquele que transcende a sua mente e se desfaz dos véus da ilusão, que nada mais é que nossa parte animal que funciona independente da consciência.

Assim, consciente e inconsciente estão se intercambiando a todo o momento e é assim que nosso cérebro funciona. Em outras palavras, misturamos realidade com ficção e disso fazemos o que vemos e pensamos. O que a ciência hoje pode comprovar através não só de testes de comportamento como esses, mas nos exames de imagem, quando nosso cérebro é visto funcionando, é que o inconsciente tem um fator muito mais preponderante. A razão disso é que ele vem se desenvolvendo há milhões de anos, respondendo pela nossa segurança e, portanto, sobrevivência. Isso é mais rápido e automático em cada um de nós, já que mantém as chances de continuarmos a viver. Basta olhar os animais, que funcionam basicamente por instinto. Poderiam eles sobrevier sem o inconsciente? Os perigos a que estão expostos já vem impressos em seus genes e é por isso que em poucos dias já tem uma autonomia que nós humanos levamos alguns anos para atingir. É por isso que sempre é bom, como diz a sabedoria popular, contarmos até dez. Se contarmos devagar, bem devagar, poderá dar tempo de nos percebermos e sairmos um pouco do domínio do inconsciente e termos alguma lucidez sobre nossas ações e reações.

Segundo Mlodinow, a verdadeira quantidade de informação com que podemos lidar foi estimada em algo em torno de dezesseis a cinquenta bits por segundo. Portanto, se nossa mente consciente tentasse processar toda essa informação enviada pelo sistema sensorial, nosso cérebro travaria, como um computador sobrecarregado.

E  isso prova o que dissemos acima e que Kant já defendia. Grande parte do que cada um chama de realidade, é composto de uma parte real (captada pelos sentidos) bem reduzida, e uma outra grande parte é completada pela nosso inconsciente, ou seja, vemos um pouco e criamos todo resto para que nosso cérebro possa funcionar bem.

Para a medicina e a psicologia tradicional existe uma “realidade” e quem estiver fora dela é considerado doente. Pelo que a ciência está descobrindo a cada dia, ser normal nada mais é que imaginarmos todos muito parecidos essa realidade.

Assim, uma atitude bastante sábia é começar duvidando de si mesmo!