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A chance de sobreviver

            “É estupidez pedir aos deuses o que se pode conseguir sozinho.”

                                                         Epicuro – Filósofo Grego

                                                                                                                                                                reencarnacao (1)

E se a teoria da reencarnação que tanto nos consola não for bem como pensamos?

Vivemos no maior país católico do mundo e mais da metade dos que se dizem cristãos frequentam religiões (algumas abrigadas com o nome de filosofias) que dizem que nasceremos de novo. Essa incoerência só pode ser explicada pela nossa busca de saídas fáceis. De um lado o condicionamento cultural, de outro a esperança de uma nova oportunidade para ser feliz, finalmente!

E se existir uma terceira possibilidade entre as religiões orientais e ocidentais? As primeiras defendendo vidas seguidas e a segunda com apenas uma existência, onde depois da morte rumaremos para “outra” casa.

Penso que o ser humano não é algo definível, conforme já escrevi em artigos anteriores. De um lado nossa biologia Darwiniana, muito fácil de ser constada pelos nossos instintos e de outro nosso potencial para o divino, que também vemos diariamente em ações solidárias e fraternas por todos os lados. Vivemos essa constante oscilação entre um e outro, e nosso potencial está mesmo em desenvolvermos uma consciência, conforme escrevi no texto “O terceiro fator”. O despertar dessa consciência, isso sim nos definiria enquanto humanos, um ser entre o animal e o divino, com uma vida própria, no sentido do contexto e identidade evolutiva.

Se esse corpo biológico precisa de uma mente que o faça ter medo e preocupações para garantir que sobreviva o maior tempo possível, também necessita do “espírito”, ou seja, um impulso para o novo, desconhecido, onde realmente podemos evoluir, já que no conhecido não se aprende mais nada.

Essa fricção entre o medo o e impulso é o que leva o ser humano a avançar ou permanecer estagnado em suas crenças e condicionamentos limitantes, outro nome para a palavra “medo”. Como já disse, nossa parte espiritual não está muito preocupada com as coisas desse mundo e se só a ouvirmos os problemas serão tão grandes quanto as alegrias, fora o risco que esses lampejos de liberdade impensada podem nos trazer. Os dois são impulsos, não fazendo parte da individualidade, como equipamentos de um carro fabricado em série, ou seja, mente e espírito são itens de série, sem vida própria, ambos finalizando junto com o corpo no momento da morte.

O desenvolvimento da consciência, que media e une essa dualidade em uma trindade só pode ser dada por dois caminhos; o primeiro é saber que ela existe em potencial e que pode ser desenvolvida. E o segundo, é a determinação, somada aos esforços corretos para obtê-la. Esse “querer” nada mais é do que  outra definição para a palavra “vontade”, que em última análise é o que nos move a enfrentar o medo, matéria prima da mente.

Essa consciência, se for desenvolvida, adquirindo portanto uma identidade, poderá sim, reencarnar. Não é nossa parte espiritual que passaria a ocupar outros corpos no futuro, mas nossa consciência, essa sim uma identidade conquistada pelo mérito de pôr o saber em prática, como uma forma de viver e entender a existência. O espírito nada mais é que um impulso, necessário para fazer oposição à mente puramente animal. Mente e espírito são claramente antagônicos, conforme citei acima, não sendo, portanto, a verdade.

Dentro dessa abordagem, a reencarnação só seria possível se essa consciência for desenvolvida, caso contrário, no momento da morte nada se desprenderia, como uma semente, que por nunca ter germinado, não chegou a nascer no sentido evolutivo.

Como na natureza nada se perde, essa essência retornaria à sua origem, um potencial de vida, sem forma, sem nada! De onde veio esse potencial que não tenha frutificado, para lá voltaria, mas sem uma identidade, já que o potencial de consciência não se oportunizou e a identidade não foi atingida.

É muito cômodo e pouco lógico que todos, independentes ou não de esforço, evoluam em direção ao divino. Em um universo onde o movimento e a impermanência são a verdadeira Lei, como entender a estagnação? Essa recusa precisa de um preço ou reação.

Sei que você, caro leitor(a), poderá perguntar como que as pessoas que moram em lugares miseráveis, tanto materialmente como socialmente e encaixariam nessa ideia? Minha resposta é que mesmo nesses lugares, e a história está repleta de exemplos,  há muitas pessoas que avançam consciencialmente. Sempre com muito esforço, remando contra uma maré muito mais forte que a dos outros lugares privilegiados. Na verdade é mais fácil de desenvolver ali, onde o sofrimento é epidérmico e a busca por compreende-lo, dar-lhe um sentido é quase uma necessidade.

Já, quem tem melhores condições, sofre justamente por uma fácil acomodação e uma crença em um deus “papai” que nunca vai deixar nada acontecer a seu filho, aquela eterna criança. Mas mesmo o conforto não impediu Sidarta de se tornar um Buda nem Francisco de Assis de atingir a santidade e poderia trazer outros exemplos.

Assim, de um jeito ou de outro, sempre sofremos com uma força contrária, que nos empurra para a estagnação (medo), nos desafiando a buscar o outro lado e, finalmente, encontrar o meio termo, esse sim a Verdade, por incluir os opostos.

Conta a história que quando Sidarta Gautama chegou à iluminação, disse ter se lembrado das suas últimas mil vidas, ou seja, depois de ter despertado essa consciência (terceiro fator), esse foi o tempo que precisou para encerrar sua jornada reencarnatória. Da mesma forma poderíamos falar de Cristo, por que não?

Como diz Osho em “Destino, Liberdade e Alma”, o que sabemos de Jesus foi sua última encarnação. Assim como Sidarta, ele deve ter vivido muitas vidas antes do seu clímax. Sei que para os cristãos, Jesus só nasceu essa vez e voltará. Mas se você gosta da ideia da reencarnação, na medida em que vidas seguidas nos levam à evolução, a ideia de Jesus ter vivido vidas anteriores deveria ser óbvia e fazer todo sentido.

O que constato é que mais de dois mil anos se passaram e esse retorno esperado não aconteceu. O planeta está morrendo pela exploração desenfreada e inconsciente de uma humanidade  ainda primária no aspecto evolutivo, como também comentei no texto “Verdadeiramente órfãos”, e Ele ainda não apareceu.

Não virá, por não estar mais ligado a essa etapa evolutiva. Ele se “salvou”, tentou salvar a todos como fizeram outros grandes Mestres da história, sem sucesso. Não há salvação fora da consciência, mesmo que ela esteja estampada na frente da pessoa, ela não poderá reconhecer. Como ela poderá ver algo que não tenha em si?

Vejo o processo como individual, precisamos desse “despertar” para que através do pensamento racional, de uma observação atenta à realidade e práticas pessoais se busque uma nova abordagem que não seja a dos dois impulsos que conhecemos. Estar em um extremos é estar com apenas meia percepção.

Quando se diz que Deus está dentro de cada um, vejo como esse potencial que precisamos  buscar de uma consciência mais desenvolvida que nos faz operar o maior dos milagres;  mudar a realidade  que cada um experiencia sua existência. O mundo nunca muda, só o que pode ser alterado é nossa relação com ele e isso só vem se morrermos para inconsciência e ressuscitarmos mais lúcidos, no “caminho do meio”.

Nossa reencarnação pode não ser garantida, para muito menos o paraíso. Podemos, porque não, abrir o leque de possibilidades para algo que nos motive a ir adiante. Do jeito que pensamos como cristãos ou reencarnacionistas de um jeito ou de outro tudo se resolverá um dia, seja vivendo infinitamente, seja indo morar no “céu”. Esse pensamento acomodado carece de lógica e é no fim das contas muito cômodo.

Como tudo são teorias e sempre serão, fique com mais essa. Nesse primeiro post de 2016 porque não começar o ano pensando diferente?

Sei que ela tem um problema, um desconforto que nos responsabiliza diante da evolução.

Mas vai que essa seja mesmo a certa?

O reencontro

Crônica publicada no Folha SC em 05 de Janeiro de 2016.

O cinema estava lotado. Eram os antigos e os novos participantes da saga Star Wars, que depois de alguns anos voltou com alguns dos heróis dos primeiros episódios que datam do começo dos anos 80.

 Ouviram-se murmúrios quando Han Solo entrou em cena, eram os pais contando para seus filhos que Harrison Ford estava no episódio lá detrás e que o tempo passa para todos. Da mesma forma, a  princesa mostrou que lá nas galáxias distantes, apesar de muita tecnologia,  as mulheres envelhecem e não tem mesmo jeito.

No mais é a boa e velha luta do bem contra o mal, mas isso não importa. O legal era nos reencontrarmos como quando éramos há décadas e o filme soube explorar isso muito bem. Já no começo as letras que situam os mais novos sobre toda história, afinal os antigos nunca esqueceram, começam a correr pela tela como nos velhos tempos e isso trouxe a sensação que estávamos em casa.

As naves, como se esperava, eram grandiosas e as lutas no espaço eram com as mesmas pequenas e ágeis dos episódios antigos, com pilotos heroicos e imortais. Só morrem os desconhecidos e imagino que os que assistiram em 3D aproveitaram cada tiro e explosão.

Nossa heroína se mostra mais homem e corajosa do que os protagonistas que servem de escada para sua astúcia e inteligência. O primeiro episódio da nova série em tempos de igualdade e fim de preconceitos deixa em aberto seu romance com um sub-herói negro e penso que a reação do público (afinal isso é um negócio), deverá decidir se vai ser namoro ou amizade.

Tudo que deu certo nos episódios anteriores foi preservado e talvez o maior mérito do diretor tenha sido de não abusar da tecnologia.  Parece que tudo foi gravado nos anos 80 e só os personagens antigos envelheceram. Como não poderia deixar de ser, o famoso bar com figuras estranhas e uma banda muito engraçada fazendo o fundo musical não poderia faltar. Talvez ninguém tenha pensado nisso, mas as cenas desse bar, onde habitantes de todas as galáxias se encontram para um happy hour, tenha sido o primeiro manifesto a favor da diversidade no cinema.

As espadas luminosas são as mesmas e a novidade é que o mal agora usa uma luz vermelha e o novo Darth Vader oscila entre o bem o mal com pinta de galã, mas perde em convencimento se comparado ao original, mais elegantemente cruel.

As críticas oscilaram do “cansativo” ao “adorei”, mostrando a clara diferença entre os antigos que encontraram exatamente o que queriam e os outros, que só foram assistir  a um filme como qualquer outro e nesse caso não tem como chegar a um acordo.

Imagino que, quem não tenha uma ligação afetiva com a história não deve ter achado nada demais, afinal temos filmes de dez anos atrás com mais efeitos especiais, mas isso só faz sentido para quem estava no cinema nos anos 80.  Um casal sentado uma ou duas poltronas ao lado, ficou falando das lembranças de quando assistiram os episódios na época do começo do namoro. Para eles se a história é boa ou não, está longe de ser o mais importante.

Para os jovens que não entraram no clima, posso assegurar que um dia os vampiros da saga Crepúsculo aparecerão com seus netos lobinhos e com certeza, arrancarão os mesmo momentos de nostalgia.  Mas para isso, precisa ser cinquentão e ter um passado para lembrar.

O setor do entretenimento já percebeu esse filão faz tempo e quantos remakes já tivemos? Os “lá de trás” já tem sua vida feita e não vão se preocupar em pagar o que for para reviver emoções e pensamentos que a vida já os fez esquecer. Basta ver as grandes bandas que nunca conseguem se aposentar, pois seus fãs simplesmente não deixam, lotando seus shows e usando camisetas pretas desbotadas ou de um tamanho bem menor que a barriguinha que a prosperidade trouxe consegue esconder.

Claro que tem muita coisa legal hoje em dia, mas para nós ninguém vai se comparar aos Rolling Stones, AC/DC, Pink Floyd, Led Zepellin e tantos outros. Os músicos já estão na casa dos setenta, que somado a “vida louca” os fazem quase verdadeiras aparições. Mas o que importa é que seja nos filmes ou na guitarra de quem teve uma cabeleira e hoje usa mega hair para não decepcionar os fãs, a grande viagem é podermos nos sentir jovens com a vida toda pela frente novamente.

Se você está na casa dos 20 a 30 anos, um dia vai me entender, é questão de tempo.

Mas a vida segue e os bons sempre voltam. Já soube que em janeiro volta o inigualável “Arquivo X”, e seja como for, não estou muito preocupado se a “verdade” virá à tona. O que quero é ver a cara de tédio do agente Mulder e o charme misterioso da Scully.

Já estou na expectativa!

Uma mudança necessária*

– Senhor, precisamos conversar!

– Fala Pedro, você me parece ansioso.

– Sempre fui Senhor, desde a minha vida lá na Terra, quando me senti pressionado para salvar meu pescoço e neguei três vezes que conhecia Jesus, nunca mais fui o mesmo.

– Entendo, mas agora que você está na vida eterna não precisa mais ficar assim. Como aqui ninguém morre mais, não há motivo para a ansiedade. Respira Pedro, respira.

Depois de Pedro fazer a respiração que aprendeu no Yoga, ficou com o semblante mais sereno e continuou:

– O natal Senhor, não está mais dando certo. Precisamos rever.

– Como assim? Começou ontem, como  pode não estar funcionando?

– Lembre que o Senhor existe desde sempre. Dois mil anos lá na terra até que é bastante tempo.

– Essa coisa de tempo sempre me confundiu. Mas afinal, qual é o problema?

– Nossas pesquisas mostram que quase  metade dos cristãos fica triste nessa época. Como se fosse uma espécie de depressão. Chamam por lá de Christmas Blues.

– Mas porque eles ficam tristes, não entenderam minha mensagem?

– Sabe o que é Senhor, é a época do ano que aumenta a ansiedade pela quase obrigação das pessoas de se sentirem felizes. Tem uma pressão para que todos se amem e se perdoem. Alguns dizem que tem que fingir que gostam de alguns parentes e outras coisas.

– Sei, estou entendo.

– E tem ainda a coisa da morte…

– Morte? Natal não tem a ver com morte, é justamente o contrário!

– Eu sei, mas como é um encontro de família, todos lembram os que já morreram e aí fica pior. Andei vendo uns vídeos no Youtube Celestial e realmente não está indo nada bem. Tem ainda as coisas que eles se comprometeram de fazer e não conseguiram, de mais um natal que um ou outro problema continuou sem solução.

– Poxa, não sabia que estava desse jeito! Você sabe Pedro que comando o universo inteiro e a Terra é um planeta pequeno, em uma galáxia sem muita graça. Acho que preciso aumentar o número de anjos. Faça um edital.

– Mas Senhor, eu tive uma ideia.

– Olha Pedro, pelo que andei lendo a sua última ideia fez chover na primavera inteira. Pense bem antes de sugerir alguma coisa!

Pedro ficou em silêncio olhando para o chão. Pensou em dizer que todos têm maus momentos e quase perguntou sobre os dinossauros, a inquisição e as pestes, mas resolveu se calar. Tem horas que Ele fica bravo como era no Antigo Testamento e aí a coisa pega.

Respirou mais uma vez e resolveu falar:

– Pensei em mandar alguns sonhos reveladores. Como o Senhor sabe, sempre que queremos fazer alguma mudança por lá enviamos ideias. Lá eles chamam de inspiração e nos desenhos animados fazem uma lâmpada acender. Na verdade, eles já perceberam que vivem em uma espécie de escuridão.

– Mas a escuridão é natural, Pedro. Quando eu criei a Luz, era isso que queria dizer.

– Mas eles ainda são crianças Senhor. Veja o nosso departamento de pedidos; continua sempre abarrotado,  continuam precisando de nós como no primeiro dia, não fazem muita coisa sozinhos.

– Verdade, fico esperando que cresçam, mas sei que demora.

O Senhor ficou vagando em pensamentos, olhando para o vazio. Pedro, ao vê-lo pensando, sentiu um aperto no coração, mas teve uma dúvida; se Ele pensa, pode errar, ou seria uma insegurança?

Repentinamente o Senhor voltou a assumir a postura confiante de sempre e perguntou:

– Afinal, qual sua ideia, não me venha com outro dilúvio!

– Não Senhor, um já foi bastante e preciso reconhecer que os resultados não foram os esperados. Minha ideia para salvar as pessoas dessa tristeza no natal são as crianças.

– Como assim as crianças?

– Tudo começou com o nascimento de Jesus, não foi?

– Sim…

– O que eles ainda não perceberam é que o natal só funciona com crianças. Crianças não tem ansiedade, não se preocupam e vivem intensamente o presente, por isso são sempre alegres.

– Foi por isso que mandei Jesus dizer que só sendo assim eles viriam para o reino dos céus.

– Eu sei Senhor, mas eles não entenderam. Então minha ideia é mandar sonhos inspiradores de que só se poderá comemorar o natal em lugares onde tiver crianças. Dessa forma, resolvemos dois problemas; O primeiro é fazê-los entender que para estar em paz e harmonia é fundamental estar despreocupado e sem medo para confraternizar de verdade. E o outro é que temos milhões de crianças abandonadas por lá. Família sem criança é tão sem graça como natal sem criança. Meu plano é que todas as famílias sempre tenham uma criança em casa. Depois que os filhos entrarem na adolescência precisa adotar uma criança. Isso garantirá que o melhor da vida sempre estará em cada família.

– Parabéns Pedro, que grande ideia! Como pretende começar?

– Senhor, vou  mandar isso em sonho para um colunista e inspirá-lo a publicar.

– Tomara Deus que dê certo Pedro!

– Mas o Senhor é Deus…

– É mesmo, deixa prá lá, modo de dizer….

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* Resolvi transcrever no blog a íntegra da coluna publicada no jornal Folha SC em 22/12/2015, tendo em vista não só a data, mas pelo assunto se relacionar com os textos aqui publicados, já que muitos assinantes do blog não  terem acesso à publicação da coluna no Facebook.

Cortina de fumaça

“É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída.”   

                                                                  Clarice Lispector  –  Outros escritos

“Se ao menos pudesse voltar a ser tão distraída, a sentir tanto amor sem saber.”

                                                         Markus Zusak – A menina que roubava livros

 inconsciente

É comum dentro do processo da psicoterapia a pessoa conseguir resolver rapidamente o problema que a levou a procurar ajuda. Claro que isso não acontece sempre, afinal nada é mais imprevisível do que uma terapia, onde duas pessoas estão sempre em transformação (cliente e terapeuta). Existem obviamente situações que demandam mais tempo, mas quero me referir aqui a esse aspecto em particular.

A própria pessoa reconhece que o problema não é tão grave ou difícil (lembrando que todo problema é importante), mas tem dificuldade em entender o motivo de não conseguir resolvê-lo, ou conclui que a questão pode ser mais complexa e esse seja o motivo da demora.

Minha percepção mostra que essa “dificuldade” nada mais é que o problema em questão está sendo mantido ativo por atender a uma necessidade que está inconsciente (na maioria das vezes). Mas, afinal, qual o motivo de mantermos problemas que reconhecemos como simples no catálogo dos insolúveis em nossa vida?

A resposta é simples: os mantemos assim para não precisarmos enfrentar o verdadeiro problema, esse sim, mais difícil de resolver por sua solução, normalmente, afetar vários campos que estão estáveis na vida da pessoa e ser antevisto como muito sofrido.

Como diz o título desse artigo, é uma “cortina de fumaça” que esconde ou ajuda a nos entretermos com algo bem menos perigoso, enquanto esperamos duas coisas pouco prováveis de acontecer:

A primeira, é o dito problema se resolver sozinho, sem que seja necessário mover as montanhas que imaginamos que existem para sua solução, ou não precisemos sujar nossas mãos de sangue (é uma metáfora). Quando digo isso é por termos a ideia que nossa ação na mudança pretendida vai trazer sofrimento a outras pessoas e nos tirar alguns confortos. Além disso, sempre tem o medo da nova situação ser pior que a atual e que a mudança não teria sido um bom lance no jogo da vida. Como já frisei em outras oportunidades, dificilmente o que está ruim pode melhorar por si, enquanto a mudança traz a possibilidade de um quadro muito melhor no futuro.

Tudo que é vivo se caracteriza por ser instável, imprevisível e estar em risco, mas nossa mente detesta aventuras. Nunca esqueça que ela só gosta do “de sempre”, mesmo que esteja ruim ou esteja nos fazendo sofrer. O que se pensa nesse caso vem do ditado popular, que, como outros, estão no nosso subconsciente, como leis em nossa vida: “não se troca o certo pelo duvidoso”. Particularmente penso que se o que chamamos de “certo” é ruim, o “duvidoso”, pelo menos, abre algumas possibilidades.

Quando o caso é relacionamento tem o não menos famoso “ruim sem ele(a), pior sem”. Esse ditado afeta mais as mulheres, que na nossa cultura, infelizmente, só se explicam se estiverem acompanhadas. Parece que estar com alguém é um atestado de competência feminina, e esse “alguém” pode não ser tão bom assim. Se você é mulher e está me lendo, quero deixar claro que isso não a inclui, sei que isso não acontece com você e nem é assim que pensa, estou falando das outras…

Já no caso dos homens a palavra que comanda é a acomodação. Os homens, na sua maioria, lidam com o regular como sendo bom e mudar dá trabalho, despesas e um recomeço que, se o sofrimento não for insuportável, pode esperar uma outra oportunidade (que normalmente nunca chega).

A segunda maneira de não enfrentar diretamente o problema é uma pequena variação “mística” da primeira, só que mais absurda: entregar para “Deus” ou para o “Universo” a solução do imbróglio. Nesse modelo a situação fica risível, já que tudo fica resolvido de um jeito ou de outro.  Afinal, se a situação não muda (claro que não vai) é porque Deus não quer, e isso é um “sinal” de que se precisa continuar como está. Com certeza, tem a ver com “vidas passada” ou “carma” a ser resolvido e o sofrimento é uma purificação ou acerto de contas com a vida. Assim, meu sofrimento se torna algo útil que vai tornar minha próxima vida melhor, ou me encaminhar ao paraíso. Olha que inteligente: minha dor fica sendo uma maneira de me tornar uma pessoa melhor!

Você pode me perguntar: de que ditado vem essa abordagem confortável e de entregar para nosso deus a solução?

“Deus sabe o que faz”, ou, “Deus escreve certo por linhas tortas”. Mas, você pode preferir o inigualável: “Todo sofrimento é enviado por Deus para nos purificar e expiar nossas culpas”. Sofrer fica bom, traz vantagens e não preciso fazer nada para mudar!

Nossa inteligência não tem mesmo limites e a criatividade pode nos levar a lugares, realmente, inimagináveis!

Por isso, caso esteja acontecendo de você estar com um problema antigo, que você mesmo não consegue entender o motivo de persistir por tanto tempo, investigue se ele não está servindo para distrai-lo do que realmente seja o motivo da sua tristeza.

Isso é muito mais comum do que se possa imaginar e ninguém faz por mal ou covardia. Lembre que nossa mente não lida bem com nada que nos faça sofrer e isso sempre a deixa em estado de alerta. Nessa hora, mudar o foco e ficar olhando para “outro lado” é uma saída saudável do ponto de vista da mente.

Quando isso acontece no consultório, a pessoa sempre diz que não entende porque resolveu tão rápido essa questão que a incomodava a tanto tempo e tende a dar todo o mérito ao terapeuta. Por isso, sempre digo a meus alunos e futuros colegas que nem toda vitória da terapia é um mérito exclusivo do terapeuta, aliás,  nunca é.

Assim, uma solução rápida muito mais do que um resultado surpreendente pode ser apenas um aviso que o realmente importante e decisivo esteja por vir. O problema anterior foi removido e agora ficar-se-á cara a cara com o verdadeiro inimigo.

Como frisei, não é sempre assim e não são todos os casos, mas os consultórios, comumente, sempre tem um habitual cheiro de fumaça.

Aceitação

“Em meio ao sofrimento consciente existe já a transmutação. O fogo do sofrimento transforma-se na luz da aceitação. A verdade é que, antes de sermos capazes de transcender o sofrimento, precisamos aceita-lo.”

Eckhart Tolle – O despertar de uma nova consciência

 

“ O sofrimento é a não compreensão da dor.”

Dulce Magalhães

aceitação

Qual o limite do sofrimento?

Essa resposta é difícil e por isso penso que seja interessante refletirmos sobre ela. Muitas vezes, o sofrimento termina por irmos até o seu final, esgotá-lo. Para isso o corpo tem seus mecanismos. Noto na prática da psicoterapia que a pessoa experimenta uma melhora súbita depois de um sofrimento intenso, normalmente passado alguns dias. Isso ocorre justamente por irmos tão fundo nele que não há como prosseguir, já que nosso próprio sistema tem uma limitação, afinal, precisamos continuar vivos.

Essa também é uma espécie de técnica terapêutica defendida por alguns que tem o objetivo de viver o sentimento intensamente por um tempo curto com esse fim; de esgotá-lo o mais rapidamente possível. Do jeito como somos, preferimos sofrer longamente, pois isso nos dá, inconscientemente, essa sensação de justificá-lo.

O âmbito do sofrimento normalmente está abaixo da nossa racionalidade, justamente porque, na maioria das vezes, seu simples entendimento poderia dirimi-lo. Mas como na nossa cultura sofrer é algo que entendemos que nos purifica ou nos faz evoluir a via longa parece ser a escolhida.

Vamos analisar algo extremo: a perda (morte) de uma pessoa muito querida.

É inevitável e muito normal sentir uma dor profunda. Mesmo os adeptos do reencarnacionismo não estão isentos a ela, afinal, essa pessoa sairá de nossa convivência e não a veremos mais, nem teremos a possibilidade de estar com ela pelo restante de nossa vida.

Aqui, entra o ditado popular: “ A dor é obrigatória, mas o sofrimento é opcional”.

Mas como colocar isso em prática? É muito difícil e precisamos entender o porquê.

Em primeiro lugar, o que acontece é que aprendemos que uma forma de demonstrar amor é pelo sofrimento. Esse conceito é levado muito a sério nos relacionamentos afetivos, por exemplo, onde tendemos a avaliar o quanto gostamos de alguém pelo sofrimento que essa pessoa é capaz de nos trazer. É como fossemos cobrados em sofrer para demonstrar o quanto gostamos da pessoa que partiu.

Sejamos racionais: A morte é definitiva para o corpo e, seja por uma doença, acidente ou qualquer outro motivo, não tem como voltar atrás. O sofrimento muitas vezes vem de procurarmos respostas para perguntas como:

Por que aconteceu com ele(a)?

Não merecia, pois era uma ótima pessoa.

Por que agora e dessa forma?

Por que alguém merece passar por isso?

Essas perguntas nunca serão respondidas, já que para isso a vida precisaria ter uma lógica, um sentido que não tem. Em artigos anteriores já discutimos esse assunto. Dessa forma, ficamos procurando um sentido onde não há e isso mantém o sofrimento por longo tempo, até que a pessoa chegue à conclusão que não terá essas respostas e vai recolocando sua vida nos trilhos. Essa forma, digamos, natural, demora muito. No caso de uma morte, por exemplo, é aceito que a pessoa enlutada tenha prejuízo na sua vida por até um ano depois da perda. Somente após desse período é que se considera a necessidade de procurar alguma espécie de tratamento.

O que podemos questionar é se precisa esperar tanto tempo, se esse sofrimento não poderia ser dirimido pela simples aceitação da infalibilidade da morte. Muitos procuram em si alguma responsabilidade, se poderiam ou deixaram de fazer alguma coisa que evitaria o ocorrido.

Nesse caso, já entramos em mais um aspecto, onde o sofrimento se encontra com a culpa. Sentir-se culpado ou ficar remoendo pensamentos de que algo poderia ter sido feito, nada mais é do que encontrar finalmente uma resposta para entender essa perda: Eu fui culpado, pois poderia ter percebido ou feito isso ou aquilo.

Se, por um lado a pessoa simplifica a situação ao se culpar, por outro essa solução traz o outro problema. Já que a culpa existe, é porque algo errado foi feito e isso exige uma punição. Para isso, não precisa de nenhum juiz ou tribunal; nós mesmos nos impomos algum tipo de pena. Mais tempo passa onde essa punição é cumprida para expiarmos nosso “erro”.

Quando não é uma morte, necessariamente, mas uma perda material onde precisaremos retroceder socialmente ou abrindo mão de algum conforto, sempre vem junto um abatimento do ego que, tem sua autoimagem afetada. Quantos já foram ao limite do suicídio por terem ficado repentinamente pobres e não suportaram lidar com essa nova realidade?

Em outros casos, algum segredo vem à tona e essa descoberta afeta a imagem que a pessoa luta por defender. Daí, acontece de pensar que a morte a eximirá de passar pela responsabilização do seu ato e da mudança que provocará em seu círculo de amizades com a perda do reconhecimento que viria.

Seja qual for o caso, e poderia citar outros tantos, a simples racionalização pura e simples já teria, em tese, a força de tornar o sofrimento sem sentido ou diminuí-lo. Seja para prestar contas à sociedade do nosso amor, seja para defender uma posição ou conceito que temos de nós mesmos, as perdas em geral nos remetem a um longo período de abatimento que pode nos levar a abandonarmos caminhos ou fazermos escolhas que mudarão nosso futuro.

É claro que a dor, seja pela perda que for, até mesmo de um emprego que gostamos e que jamais imaginaríamos que fossemos nos afastar, causa um baque inicial que devemos aceitar. Mas compreender e usar a racionalização poderá ajudar a diminuir o tempo do sofrimento.

Quem sofre pouco, pode parecer aos olhos comuns como alguém insensível, que não se importa ou que não gostava tanto assim da pessoa falecida, que não dava importância ao relacionamento, etc.

Será?

Pode ser simplesmente que essa pessoa tenha optado por não sofrer, desistiu de ficar procurando respostas lógicas para perguntas que nasceram para não serem respondidas.

Seja a perda que for, não tem como não doer, e isso é normal, faz parte e como diz  Eckhart Tolle pode ajudar a transcender, ou seja,  ir além do sofrimento.  Só que isso só será possível se simplesmente aceitarmos que, por exemplo, nada nunca está sólido, seguro ou garantido em qualquer aspecto da vida.

Isso, por um lado pode gerar angústia, por outro é justamente o oposto; se é assim, que seja;  já que sofrer não vai tornar nada mais seguro ou evitar que o inesperado aconteça.

O animal que somos necessita se sentir seguro, por isso lidamos mal com as mudanças, principalmente as inesperadas ou incompreensíveis, como sabemos. Mas entender o sofrimento e ir além nunca foi coisa de bicho.

Temos um cérebro emocional e é dele que vem tudo isso. Mas nunca é demais lembrar que desenvolvemos uma nova parte, chamada Néo Cortex, que nos permite entender, racionalizar e colocar uma compreensão mais profunda.

Só que esse novo cérebro precisa de consciência para ser utilizado e precisaremos ir além do nosso emocional, muito automático, reativo e programado desde o dia do nosso nascimento.

No final, aceitação é muito mais do que dobrar os joelhos diante do desconhecido, pode ser simplesmente aceitarmos que tem coisas que, simplesmente, não devemos saber.