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Para que(m) serve a Verdade?

“Tive, portanto, que suprimir o saber para obter lugar para a fé”

     Kant – Prefácio da segunda edição da “Crítica da razão pura”

                   

“Convicções são prisões”.

                         Nietzsche

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No prólogo de “Além do bem e do mal” Nietzsche afirma, como sua primeira frase, que a verdade é como uma mulher. Como prever uma mulher, o que há de objetivo em uma essência subjetiva? Penso que o seu desejo foi dizer que “verdades” não existem.

Como poderiam existir verdades se não existem duas pessoas iguais?

Para Nietzsche, a verdade é algo que faz mal, já que ela estanca a vida, ou seja, toda verdade é uma espécie de morte. Uma verdade é o fim de qualquer processo. Fácil observar que ele tem razão, e para isso basta observarmos o próprio desenvolvimento da ciência. Nada deixa de ser verdade com tanta frequência como na ciência, afinal ela está sempre em movimento, como tudo que está vivo. Manteiga, café, banha de porco, a forma da terra, Deus Sol e tantas outras verdades que viraram mentiras.

Quem já não fez promessas e percebeu que o tempo não nos ajuda a mantê-las? Mesmo as que fizemos a nós mesmos, sem que ninguém saiba, já não as revogamos por nos tornarmos pessoas diferentes? O próprio conceito de “culpa” não é a mais derradeira confirmação de que verdades não existem? Quando nos sentimos culpados de qualquer coisa, significa apenas que a pessoa que nos tornamos faria diferente do que já fomos. Sempre fazemos o que é “verdade” a cada momento de nossa vida, pelo que somos. Mudamos inevitavelmente, mudam as verdades.

O que podemos refletir é que, seja qual for a verdade, ela tem só uma finalidade: nos oferecer estabilidade em um contexto instável. Ao nos depararmos com um mundo caótico, onde o absurdo é sua natureza, as verdades que escolhemos nos ajudam a explicá-lo e trazer algum conforto, parecido com o colo de mãe. Desde a primeira tempestade que presenciamos na infância e corremos para a cama dos pais, descobrimos que esse mundo tem muito mais força que nós e a única saída é uma explicação, normalmente acima da razão, para darmos a isso tudo algum sentido. O que muitas vezes esquecemos é que só em um mundo sem sentido poderemos ser individuais, exercermos nosso direito à diferença.

Atualmente as religiões, sejam as que têm um Deus, ou mesmo as que não têm, como o Budismo, recebem e perdem adeptos todos os dias, simplesmente porque fatos da vida (que por ser caótica não tem nada a ver com justiça), trazem decepções que as pessoas esperam não ter, por sentirem-se protegidas pela sua religião. Assim como trocamos de fornecedor quando ele nos decepciona, essa alta rotatividade religiosa é resultado de um mercado cada vez mais aquecido. Quem sabe a próxima verdade não me garanta uma vida sem atropelos?

Esse sentido não vem só das superstições que escolhemos, ou nos são impostas, mas também de um artifício de dominação muito sutil, a linguagem. Como diz com muita propriedade Viviane Mosé (em seu livro sobre a filosofia de Nietzsche) sobre o assunto: “Não há unidade nem identidade no sujeito, toda identidade resulta da palavra…a identidade do sujeito é a ficção que tem como função atribuir identidade as coisas. Mas a identidade somente existe na linguagem. E é a linguagem que permite a construção da ficção de um outro mundo, um mundo de identidades estáveis, de coisas e sujeitos de valores eternos”.

Se a vida é movimento e mudança, toda e qualquer verdade (que sempre vem pela linguagem) é uma tentativa de oferecer uma ideia de mundo que traga estabilidade e alguma segurança. O problema é que quando recebemos uma palavra com seu significado estamos sendo, por isso, obrigados a vermos tudo com o mesmo olhar. Isso é uma afronta a única diferença que temos diante dos animais; escolhermos, pela nossa liberdade intrínseca, a maneira como queremos ver o mundo. O uso da linguagem para atribuir significados a priori é a mais violenta forma de escravidão.

Nada na natureza se repete, nem uma folha sequer, e todas têm o mesmo nome! Independentes de serem triangulares, mais ou menos verdes, todas são folhas. E mesmo as folhas da mesma árvore nenhuma é igual a outra. A natureza não se repete, seja nas folhas, pedras, animais e o que dirá na sua forma mais exuberante, o ser humano. Mesmo que a biologia já saiba que nunca existiram duas pessoas iguais, quando, por exemplo, submetemos todos aos mesmo método de ensino, com as mesmas aulas, parte-se do pressuposto de uma igualdade.

 É um sistema que busca sufocar as diferenças, ou seja, tirar a humanidade de cada um. Pergunte a um engenheiro o que ele achava das aulas de história e filosofia. Da mesma forma que a um jornalista ou advogado sobre as aulas de química e física. Felizmente, a Europa já tem escolas onde o aluno escolhe o que vai querer aprender, respeitando a individualidade. Ao atribuir significado às palavras, universalizando currículos escolares, tornamos isso verdades e assim criamos pessoas que passam no Brasil doze anos entre o ensino fundamental e médio tendo aulas que nunca serão úteis em suas vidas e o que é pior, tornando o aprender um sofrimento.

E isso vale para tudo, inclusive conceitos como: certo, errado, Deus, moral, juventude, educação e toda e qualquer palavra. A quem interessa sermos todos iguais, a vermos o mundo de um mesmo jeito? A resposta é simples; a quem quer manter o poder e o controle sobre seres que, tendo como essência a liberdade, precisam ser aprisionados em seu pensamento.

No aforismo 17 de “Além do bem e do mal”, Nietzsche afirma: “Um pensamento vem quando ele quer e não quando eu quero; de modo que é um falseamento da realidade afetiva dizer: o sujeito ‘eu’ é condição do predicado ‘penso’”. Não há, portanto, alguém que pense, o pensamento é tudo, ou como diz Nietzsche “não é o homem quem pensa, mas a vida”. Com isso, Descartes precisaria rever-se, mas já era tarde.

Obviamente não pensamos o que queremos, o pensamento é o resultado do corpo na sua relação com a vida, seja aumentando sua vontade de viver pela alegria, seja diminuindo essa vontade pela tristeza. O pensamento então é resultado de um conflito intenso entre o corpo e o mundo. Quando, por exemplo, recebemos algumas “verdades” como: viver é sofrer, o sofrimento purifica, o reino dos céus será dos que sofrem, felicidade dura pouco, etc. imagine o que esse tipo de significado faz com nosso metabolismo. Não é à toa, que à medida que o ser humano evolui, ganhando mais consciência, “verdades” como essas só aumentam a ansiedade e suas consequências, como o uso de drogas legais e ilegais e o crescente aumento dos índices de suicídio, por exemplo. Essa cultura nega a vida em sua essência, com seus significados que tentam explicá-la e dizendo como devemos viver. Vou usar o exemplo de Nietzsche: “Por fim trata-se de saber com que finalidade se está mentindo. As finalidades são ruins: envenenamento, negação da vida, desprezo pelo corpo , o aviltamento e a autoviolação do homem pelo conceito de pecado”.

Como afirma Nietzsche em “O Anticristo”, os ideais de como devemos ser para atingirmos a santidade aqui na terra precisam negar a realidade, a saúde, a alegria, a beleza, a valentia e o espírito. Precisamos ser anêmicos, doentes e abrirmos mão de toda alegria.

Vida não se explica, vive-se!

Nietzsche afirma que o quanto se pode avaliar em um espírito é o quanto de verdade ele suporta. Sendo que a “verdade” a que ele se refere é o de ver e agir na vida com olhos e interpretações próprias. A vida como ela é, sem explicações metafísicas. Se estamos frágeis diante do mundo, é o medo que nos leva a busca de conhecer para podermos sobreviver. E isso é a vida, conhecer por si.

Diferente de Sócrates que pregava um não saber que somente levava à dúvida, poderemos ir além, em um não saber para podermos dar significados pessoais ao mundo. Toda regra, moral e lei, busca nivelar por baixo, solapando instintos da vida e aumentando a tristeza. Os resultados estão nas farmácias!

Somos o que somos e o que deveríamos ser, como dizia Kierkegaard. Quando o que deveríamos ser fica distante, essa lacuna é preenchida pela doença, seja emocional ou física.

Nada errado em acreditarmos em conceitos ou saídas que estejam além da razão, mas o que não se pode é perder o que existe pelo que é apenas uma expectativa que nem é nossa, mas vem de interesses que nem sempre são sadios. Um dos artifícios do domínio pela linguagem, por exemplo, é nos vender futuras vidas em troca da anulação desta. Vivemos essa barbárie sem sequer questionar, duvidar. Incrível!

Nietzsche é o filósofo que mais vende livros há décadas. Suas ideias são “perigosas” para todo o status quo vigente. Lê-lo pode ser inicialmente um ato de rebeldia ou de encontrar uma saída para esse sistema que já faliu. Mas cuidado, ninguém o lê impunemente. Ele é um fogo de vida e não se fica impune a esse encontro. Como uma previsão que um dia ele seria entendido, afirma: “Só o depois de amanhã me pertence. Alguns nascem póstumos”.

Para quem gosta de “verdades” ou lembra com saudade da cama dos pais depois das tempestades e pesadelos ou do colo da mamãe sugiro que fique longe dele!

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Para arriscar-se mais:

Nietzsche e a grande política da linguagem – Viviane Mosé. Ed. Civilização Brasileira.

Além do Bem e do mal – Nietzsche – L&PM editores

O Anticristo – Nietzsche. L&PM editores

A Vida

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A foto do menino correu o mundo. Virou símbolo da tristeza nacional e da dor que Chapecó transmitiu para todo planeta conectado. De Cristiano Ronaldo a Guns’n’Roses mensagens de apoio, com a oração do Papa e estádios e prédios pelo mundo em verde. Dessa vez, não simbolizava esperança.

Morreram jogadores do país do futebol, jornalistas, dirigentes e torcedores que estavam realizando o sonho de viajar com o time para sua disputa mais importante. Era hora de se tornar “grande” e a expectativa era imensa. Todos sentiram a tragédia, mesmo quem tentasse não pensar nela, escondendo-se nos afazeres diários. Há quem diga que existe uma “mente coletiva”, soma dos nossos pensamentos e foi isso que não nos deixou parar de doer. Nos colocamos no lugar dos torcedores que perderam seu time e os ídolos que poderiam se eternizar na conquista. Quem é pai ou mãe, nem se fala. Nos colocamos no lugar dos filhos, e não é difícil lembrar que um dos primeiros medos que temos consciência é de que a morte leve nossos pais, símbolo na nossa estabilidade e segurança, de quem chega em um mundo tão estranho.

Perdemos jogadores e jornalistas que não nos conheciam, mas que nós conhecíamos. Faziam parte da nossa vida com suas jogadas, entrevistas e comentários. Gente que entra na nossa vida pela televisão, celular e tablet, que passa a conviver conosco e que também explicam quem somos, seja por torcer, seja concordar ou não com suas opiniões.  Os mais velhos, derramaram lágrimas mais uma vez e descobriram que a dor é sempre nova. Dá um desânimo quando percebemos que nem a experiência do sofrimento torna a dor menos intensa. Choramos por que continuamos esperando que a vida tenha algum nexo. Quanto mais pensamos, nos damos conta  que as explicações não fecham e que se todos virássemos “estrelas” precisaríamos de mais um ou dois céus.

Não basta se colocar no lugar do outro, como nos mandam os princípios iniciais da ética dos limites e do respeito, mas há quem diga que o que conta é sentirmos o que o outro sente.

Esse menino sentado na arquibancada vazia, está velando sua esperança.

Ainda faz parte de sua vida as histórias onde os super-heróis sempre vencem o mal no último minuto, o “mocinho” conquista a donzela e encontram a felicidade eterna ou quando a justiça pune o malvado para mostrar que nesse mundo o bem sempre vence e o mal não prospera.

Imagino que ele esteja procurando colocar o que aconteceu com seus heróis de chuteiras nesse mundo que lhe venderam desde que nasceu, onde todos têm um anjo da guarda, penúltimo recurso diante das adversidades que têm por função nos salvar. Quando ele ainda não dá conta, sempre tem Deus, Pai Maior, que cuida e vigia a todos nós em nossos pensamentos e ações que, com certeza, luta o tempo todo contra as maldades e injustiças que podem nos vitimar.

O que nos choca é tentarmos colocar isso dentro dessa “lógica” de dois mil anos e fica faltando o mais importante; o por que?

As “linhas tortas”, parece, não chegam a lugar algum mas podem ser, quem sabe, uma consolação que não se entende nem tem muita lógica. Mas o que tem?

Esse é então, nos asseguram os contadores de histórias, o mundo do bem. Aqui ser correto abre todos os caminhos e agradecer todo dia por tanta proteção é a última das obrigações antes de dormir, assim como abençoar a comida que compramos, mas que nem é mérito nosso, parece.

O que falta nos países miseráveis onde milhares morrem de fome diariamente é o agradecimento, a oração ou anjos. Só pode!

Mais tarde nos damos conta que Papai Noel não existe (é apenas uma licença poética) e o professor de biologia nos dará a triste notícia que os coelhos não botam ovos. Vamos crescendo e percebendo que o mundo de verdade é que cria o mundo perfeito dos cinemas e das histórias, para fazer um contraponto. Quando os adultos choram nos filmes românticos, só pode ser por descobrirem que o amor de gente de verdade é bem mais difícil e pode acabar sem um final feliz.

Precisamos de um mundo idealizado para suportar a crueza da realidade.

Amadurecer é tomar consciência de uma fragilidade inescapável. Podemos morrer, pessoas que gostamos também e se vê na televisão que uma chuva ou vento destrói casas como a nossa. Nada há que possamos fazer para evitar e a insegurança cria as diversões e paixões da vida, momentos em que esquecemos que tudo pode mudar em um minuto.

Esquecer é, muitas vezes, a condição da alegria. E a felicidade só dura pouco, como diz a sabedoria popular, porque nos lembramos.

Mas isso tudo vai acontecendo, uma descoberta de cada vez e vamos nos acostumando, perdendo as ilusões e a graça em conta gotas.

Esse menino, perdeu tudo de uma só vez.

A Receita de Epicuro (2a parte)

“Tu, que não és senhor do teu amanhã, não adies o momento de gozar o prazer possível! Consumimos nossa vida a esperar e morremos empenhados nessa espera do prazer”.

                                                                                                                 Epicuro

Epicuro

Epicuro é um daqueles filósofos que precisa de justiça. Não é difícil perceber que uma leitura apressada de suas ideias pudesse, inevitavelmente, trazer-lhe a fama de hedonista no pior sentido. Porém, seus ensinamentos aparentemente simples trazem uma grande subjetividade impressa na sua “farmácia” para alma nos seus quatro princípios do tetrapharmakon, que discutiremos a seguir.

Epicuro percebeu que nossos sofrimentos são, na maioria das vezes, uma expectativa ou pré-ocupação da mente que sempre nos mostra os piores quadros no horizonte. Parecido com Sêneca, sua ética buscava ensinar a evitar ou suportar a dor, o medo e o sofrimento que estão sempre à espreita. Dedicou seu pensamento procurando entender justamente desse temor que nos caracteriza, baseado em esperarmos sempre o pior, além, obviamente, do medo provocado pelo mistério da morte.

Ao definir felicidade (eudaimonia) como a ausência de sofrimento físico e perturbações da alma, Epicuro está longe de relacionar seu conceito de felicidade com alguma coisa que se aproxime do que conhecemos por êxtase ou euforia. Sua recomendação de que o autoconhecimento, no que se refere ao entendimento sobre nossa natureza, como funcionam os desejos e o que são realmente os prazeres, mostra que a filosofia enquanto reflexão sobre o ser humano nos explica porque acumulou durante séculos o trabalho que hoje está nos domínios da psicologia.

E, talvez pela psicologia ter virado uma ciência (formando padrões, querendo que só um jeito seja certo ou saudável), tenha criado a oportunidade da filosofia voltar a fazer parte das opções sobre a escolha de caminhos para mudanças ou entendimento sobre os sofrimentos, com sua nova roupagem de clínica.

Dessa forma, seja pelo exposto acima, seja pelo entendimento e vivência na vida prática dos seus quatro remédios, o homem veria seus problemas tornarem-se de fato o que eram, ou seja, nada além de pseudoproblemas, diante da ótica que Epicuro oferece.

Sua tetrapharmakon, ou seus quatro remédios são:

  • Não há nada a temer quanto aos deuses (ou, os deuses não devem ser temidos).

Aqui, passamos a entender o motivo de Epicursismo ter perdido força na idade média, com o fortalecimento do cristianismo, que prega o contrário. Passamos a ter um deus a quem devemos prestar contas e que pode nos punir durante se não seguimos seus mandamentos que enviou pelo seu representante na ocasião.

Você já pensou o que mudaria na sua vida, se soubesse que não tem um deus te vigiando?

A vida é aqui, vivida por humanos! Essa ideia de que exista algum deus, que nos cuida, pune e diz (?) o que devemos fazer para sermos bons e merecermos o paraíso, mais do que uma maneira de controle e dominação, mantém o homem em um estado de infantilidade, onde o pai humano, quando descoberto em sua limitação e fraqueza, precisa ser substituído por outro, onipotente e perfeito. Por trás, está a informação de não somos capazes de nada por nós, o bom que nos ocorre é sempre uma “graça”, que nos foi concedida pela benevolência divina. Se, quando estamos bem dizemos que isso é “graças a Deus”, imagino que quando estamos mal também tenha a mesma razão. Ou é ou não é!

Epicuro aqui, nos chama a responsabilidade de forma suave, para quem percebesse as entrelinhas, não foi tão direto quanto Nietzsche que, para não se deter em delongas, já matou deus de uma vez.  Epicuro admitia a existência dos deuses, mas dizia que eles viviam em um mundo distante, separado do mundo dos homens e que não deveríamos teme-los, já que isso dificultaria ou impediria a felicidade. Parecia prever os mandamentos que viriam logo depois.  Condutas que as várias religiões criaram que, se forem seguidas, tornar a vida sofrida, cheia de culpa, pela purificação como uma pré-condição de acesso a um paraíso futuro, quase como descrito por Marx; todos juntos, iguais, sem poder ser diferente em nada, sem meritocracia, eterno, etc. A vida pregada pelas religiões é de abstenção, contrição e penalizações constantes. Dizer que os deuses moram longe e que não se importam muito conosco, assim como nós que nos importamos pouco pelo mundo das formigas, foi politicamente correto e muito bem-humorado.

  • Não há necessidade de temer a morte (ou, a morte não deve causar apreensão).

A máxima atribuída a Epicuro “ Não devemos temer a morte, pois quando estou ela não está, e quando ela estiver eu não estarei mais”, mostra o motivo de sua filosofia estar atrelada aos sentidos. Afinal, ter medo da morte nada mais é do que outra falsa fonte de preocupações. Se tudo que existe é corpóreo e todas as dores são corpóreas, não temos que nos preocupar com a morte, que nos coloca em uma situação em que nosso corpo não reage, se deteriora, não nos possibilitando sentir prazer ou dor.

Racionalmente Epicuro está correto, mas falta-lhe aqui o que todas as pessoas buscam em uma religião: que tenha uma boa resposta para o mistério da morte, ou seja, o que vem depois e sua justificativa. Óbvio que o filósofo não tinha o interesse de criar uma religião, mas diante da insegurança, mesmo as pessoas mais inteligentes tendem a procurar uma “mão forte” ou algum consolo que lhe ofereça uma lógica mínima; que ofereça um “depois” para essa vida finita. O segundo remédio para ser aceito precisa dessa entrega diante do “não saber”. Precisaremos morrer para sabermos, mas os estados da mente sempre pedem segurança e alguma resposta. Introjetar o conceito, por outro lado, trará como consequência um aumento da responsabilidade de aceitar essa vida como única e buscar a eudaimonia para fazê-la valer à pena.

Epicuro percebeu claramente que precisamos viver bem aqui, o resto são especulações e, como diz o ditado popular: “Não se troca o certo pelo duvidoso”.

  • A felicidade é possível (ou, o bem é facilmente obtido)

Para Epicuro, a eudaimonia engloba em conceito maior do que simplesmente felicidade, já que inclui o desenvolvimento pessoal e a possibilidade de crescimento e progresso da alma e das virtudes. O conceito epicurista é também ético, já que para os antigos gregos isso incluía o respeito ao cultivo e uso das virtudes para caminhar rumo ao bem comum. Mas a grande percepção que teve foi a ligação do conceito de felicidade aos desejos.

Ora, desejar tem em si duas importantes questões a serem analisadas: o primeiro ponto é que só podemos desejar aquilo que não temos, e o segundo é o projetivo, afinal se desejo algo é por imaginar que esse algo me fará feliz, ou me trará alegria, ou diminuirá minha eventual dor ou insatisfação.

A partir do momento que passo a ter o objeto de desejo, imediatamente paro de deseja-lo e isso me fará em pouco tempo, buscar um novo desejo e assim indefinidamente. A classificação que Epicuro fez dos desejos traz um importante ensinamento, já que o que considera “natural e necessário” nada mais é do que o mínimo para a sobrevivência, como nutrição, sono proteção e abrigo.

Já os desejos ditos “naturais” são coisas simples, pequenas variações dos prazeres, busca do agradável, como simplesmente comer um pouco a mais. Fica claro que para Epicuro, ser feliz é estar em paz, sem as perturbações do espírito (ataraxia) e a ausência de dor corporal (aponia).

Quando classifica riqueza, glória, status e reconhecimento como desejos “frívolos e artificiais”, antecipa quase como um vidente nossa sociedade contemporânea, onde a mídia ensina que para ser atingida a felicidade torna-se necessário que os desejos frívolos e artificiais sejam obtidos, o que impulsiona o ciclo dos desejos para o infinito.

Oferece uma constatação que, apesar de óbvia, motiva a busca espiritual das pessoas que se filiam religiões institucionais. A imortalidade é considerada um desejo “frívolo e irrealizável”, justamente por não ser possível. Particularmente, gosto da visão estoica, onde a imortalidade é a nova estruturação dos nossos átomos depois da morte. Poderemos “reencarnar” em uma planta ou relva que nascerá do adubamento da terra pelos nossos restos mortais. A verdadeira e possível eternidade é o que deixamos no mundo, nas nossas relações. O homem não aceita morrer e desaparecer. Essa angústia parece não ter fim e  o que existe depois da morte nunca nos será permitido saber. Cada um escolhe a teoria que mais o conforta.

  • Podemos escapar da dor (ou, o terrível facilmente chegará ao fim).

          No seu quarto remédio, Epicuro nos fala de um conceito, em meu entender, importantíssimo, que é a impermanência. É fundamental entender que existe uma alternância entre bem e mal, e que um só é possível pela existência do outro. Quando essa alternância não ocorre, aquele que persiste se torna padrão. Em outras palavras: bons e maus momentos são normais e se alternam. Quando se está sempre mal, o problema é da pessoa, não da vida em si, e isso também vale para o bem estar prolongado.

             Assim, Epicuro mostra que tudo se alterna em ciclos naturais e que dentro do bem está potencialmente a existência do mal e vice-versa, como também disse Lao Tsé. Um só é possível pelo outro e os dois explicam a vida. Aqui, temos o encontro com Heráclito (sobre quem falei mais no livro “61824 palavras sobre o final feliz que ninguém achou”), a quem Aristóteles chamava de “estranho”. Se, para o pai da lógica “A” é uma coisa e “B” é outra, Heráclito dizia que “A” e “B” são manifestações de uma coisa única. Epicuro teve essa mesma compreensão e sua recomendação é nunca esquecer que bem e mal são como ondas que vem e vão. A compreensão profunda desse conceito é ataraxia, ou seja, elimina as perturbações da alma.

Assim, a filosofia de Epicuro é de grande importância, já que seus remédios são claros, racionais e, se bem compreendidos, trarão uma visão clara do que nos perturba e, por perturbar, precisam de um novo olhar que ele oferece para a diminuição e compreensão do sofrimento.

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Para saber mais:

GHIRALDELLI JUNIOR, P. Helenismo e o início da filosofia cristã. In:____. A aventura da filosofia de Parmênides a Nietzsche. Barueri: Manole, 2010.

 

OSHO. A Harmonia oculta. Discursos sobre os fragmentos de Heráclito. Cultrix, 2004.

 

POLESI, R. Era Helênica: epicurismo e estoicismo. In:_______. Ética antiga e medieval. Curitiba: Intersaberes 2014.

 

 

Prosa e Verso

Prosa e Verso foi o melhor nome que o idealizador do bar pode conceber. Sua ideia foi criar uma ilha no centro da grande cidade, onde, ao adentrar a porta, o cliente mudaria de mundo. Lá fora, a agitação do trânsito, pessoas correndo atrás sabe-se lá de que? Na portaria, onde antigamente os cavalheiros deixariam seus chapéus e as damas seus casacos de pele, um pequeno armário com várias pequenas portas com chaves e um convite: “Deixe aqui seu celular e se conecte na conversa ou nos seus pensamentos”. A ideia foi bem aceita e, depois de algum tempo, levar o celular para as mesas parecia tão deselegante quanto fumar.

Mas não era só isso. A alma do lugar era a poesia e a boa música ambiente. O que se ouvia era o melhor dos clássicos, versões requintadas de sucessos e a voz das divas, grandes cantores e algumas versões arranhadas dos velhos LP’s. Mas a grande sacada era a poesia, verdadeira paixão do dono. As mesas para mais de uma pessoa eram de vidro e a cada semana era trocado o poema que ficava abaixo, como que adornando as conversas. O vidro redondo girava e todos tinham a oportunidade de ler o poema da semana. Nas mesas de dois lugares, poesias que falavam de amor e amizade. Nas de quatro e seis, os temas eram a convivência, a vida e a alegria. Mas o dono se preocupou com quem viria só, a espera de conectar consigo ou relaxar enquanto põe as ideias em ordem. As mesas de um lugar ficavam com a cadeira de costas para as outras mesas e para a circulação. Apenas um abajur, deixava o centro da mesa (essas eram de madeira), e o poema ficava na parede em frente à mesa. Uma pequena luz indireta iluminava o texto e mesmo que não quisesse, não teria como não ler. Caso a preocupação fosse grande, uma ou duas estrofes poderiam, quem sabe, trazer alguma inspiração. A ideia foi, sem dúvida, uma versão elegante dos papeizinhos com mensagens positivas que escolhemos enquanto esperamos nas salas de espera da vida.

 Um dos clientes bem-humorados disse que o bar, com suas mesas individuais, era a igreja do século XXI, onde o padre era substituído pela poesia e a bebida.

Os poemas das mesinhas de um só lugar falavam de solidão, de relacionamento findos e de momentos de mudança. Na semana passada, a mesa 6, tinha um poema de Clarice Lispector:

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada de novas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais”.

Carlos foi um dos primeiros a chegar naquela quarta-feira, logo depois das 18hs, quando o “Prosa” abre. Já tinha vindo outras vezes com colegas para fazer Happy Hour, mas hoje queria ficar sozinho.
Sentia-se angustiado, a pressão do trabalho estava insuportável. A crise, tinha virado motivo de a empresa exigir cada vez mais, com a ameaça velada do desemprego assombrando cada reunião de cobrança de resultados. Já tinha virado rotina, depois de chegar em casa, ficar pensando como seria se tivesse um outro trabalho, ou como seria se pudesse trabalhar no que realmente gosta.
Em um desses dias, enquanto pensava  em voz alta, a esposa, parecendo impaciente, sentenciou:
– Tudo bem, mas afinal; o que você realmente gosta?
Não soube responder, e de lá para cá, tem procurado em si mesmo a resposta. Enquanto pensava e olhava para o “nada” o poema foi saindo da visão desfocada e a estrofe que parecia tinha sido escrita para ele, ficou como um outdoor:

“ No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei. ”

Pensou que sua vida tinha sido, em certo sentido, uma grande mentira até agora. Se pudesse responder a pergunta que a esposa fizera, talvez já estivesse trabalhando no que gosta, usaria uma roupa diferente e, com um sorriso iluminando o pensamento seguinte, chegou a falar sozinho:
– Não sei se teria me casado com você!
Quem se casou? Quem escolheu esse trabalho? Quem pensou no nome do filho?
Como seria minha vida se eu soubesse quem era desde o começo?
Se Deus existisse mesmo, deveríamos saber o que nos faz feliz desde sempre, mas para isso precisaríamos não nos sentirmos culpados em desobedecer, em teimar contra pessoas, que, em nome de um tipo de “amor” possessivo nos indicaram o que era melhor para nós. É assim que a infelicidade passa de geração em geração, mas é aquela história: vai que no próximo mundo, na próxima vida…
Ainda era jovem de certa forma, mas ter uma família deixa a liberdade mais estreita, arriscar passa a ser conjugado no futuro do subjuntivo. A vida já não era mais dele, era o que lhe disseram quando se tornou pai.
Pediu uma caneta ao garçom, anotou a estrofe do poema, pagou a conta e saiu para ir para casa, perdido de quem nunca tinha sido até agora.

Mal a mesa tinha sido limpa, o copo de whisky recolhido que Maira chegou. Habitué dos lugares solitários, escolhia a mesa pelo poema, mas hoje o “Prosa” estava lotado e não tinha escolha. Se considerava mística e, para ela, tudo tinha uma mensagem que bastaria ter olhos para ver, segundo sua própria filosofia. Assim, o fato de só ter aquela mesa vaga, tinha como significado que o poema da parede era uma mensagem importante, uma coincidência divina.
Pediu a taça de espumante com um sorriso que esbanjava simpatia. Tirou os óculos da bolsa e suspirou buscando concentração para ler o poema. Quando viu que era de Clarice Lispector, lembrou que já tinha ouvido falar, mas nunca tinha lido nada escrito por ela. Apoiou a rosto na mão e começou a ler. Um calafrio percorreu todo seu corpo quando se deparou com a frase:

“ Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro. “

Era o que ela precisava ouvir!
Sua dúvida acabara de receber a “mensagem” que precisava! Iria amanhã mesmo vender o carro, pedir demissão e fazer aquela viagem de um ano para a Índia, com a qual havia sonhado meses atrás. Desde que acordou, na manhã seguinte, estava impressionada com o realismo do sonho. Passou os dias seguintes pesquisando sobre essa viagem que, tinha certeza, mudaria sua vida.
Sua amiga mais conservadora, tinha alertado que esse sonho tinha a ver com o filme que ela assistira e que ela não era a Julia Roberts,  que estaria fazendo uma loucura. Sugeriu que avaliasse com muito cuidado essa ideia de ir embora. Em um ano, tudo pode mudar. Quem garante que arrumaria emprego quando voltasse? Não daria para ter a vida a que se acostumou dando aulas de yoga, mesmo que tivesse aprendido na Índia.

A lembrança das palavras da amiga foi muito menor que a emoção. Bateu uma foto da estrofe do poema e mandou pelo Whattsapp para a amiga com a mensagem:
“Viu! Eu sabia! Olha a inspiração que recebi! ”

Pagou a conta sem sequer ter tomado um gole da bebida e saiu como se tivesse ganho na loteria. O garçom, acostumado com o que acontecia nas mesas individuais, não estranhou.
No dia seguinte, era o dia da semana de trocar todos os poemas e essa tarefa era do dono. Enquanto ele colocava os novos poemas nas mesas e na parede, o garçom mais antigo sempre pensava o que poderia mudar,  se os poemas fossem trocados nas terças ao invés das quintas.

A chance de sobreviver

            “É estupidez pedir aos deuses o que se pode conseguir sozinho.”

                                                         Epicuro – Filósofo Grego

                                                                                                                                                                reencarnacao (1)

E se a teoria da reencarnação que tanto nos consola não for bem como pensamos?

Vivemos no maior país católico do mundo e mais da metade dos que se dizem cristãos frequentam religiões (algumas abrigadas com o nome de filosofias) que dizem que nasceremos de novo. Essa incoerência só pode ser explicada pela nossa busca de saídas fáceis. De um lado o condicionamento cultural, de outro a esperança de uma nova oportunidade para ser feliz, finalmente!

E se existir uma terceira possibilidade entre as religiões orientais e ocidentais? As primeiras defendendo vidas seguidas e a segunda com apenas uma existência, onde depois da morte rumaremos para “outra” casa.

Penso que o ser humano não é algo definível, conforme já escrevi em artigos anteriores. De um lado nossa biologia Darwiniana, muito fácil de ser constada pelos nossos instintos e de outro nosso potencial para o divino, que também vemos diariamente em ações solidárias e fraternas por todos os lados. Vivemos essa constante oscilação entre um e outro, e nosso potencial está mesmo em desenvolvermos uma consciência, conforme escrevi no texto “O terceiro fator”. O despertar dessa consciência, isso sim nos definiria enquanto humanos, um ser entre o animal e o divino, com uma vida própria, no sentido do contexto e identidade evolutiva.

Se esse corpo biológico precisa de uma mente que o faça ter medo e preocupações para garantir que sobreviva o maior tempo possível, também necessita do “espírito”, ou seja, um impulso para o novo, desconhecido, onde realmente podemos evoluir, já que no conhecido não se aprende mais nada.

Essa fricção entre o medo o e impulso é o que leva o ser humano a avançar ou permanecer estagnado em suas crenças e condicionamentos limitantes, outro nome para a palavra “medo”. Como já disse, nossa parte espiritual não está muito preocupada com as coisas desse mundo e se só a ouvirmos os problemas serão tão grandes quanto as alegrias, fora o risco que esses lampejos de liberdade impensada podem nos trazer. Os dois são impulsos, não fazendo parte da individualidade, como equipamentos de um carro fabricado em série, ou seja, mente e espírito são itens de série, sem vida própria, ambos finalizando junto com o corpo no momento da morte.

O desenvolvimento da consciência, que media e une essa dualidade em uma trindade só pode ser dada por dois caminhos; o primeiro é saber que ela existe em potencial e que pode ser desenvolvida. E o segundo, é a determinação, somada aos esforços corretos para obtê-la. Esse “querer” nada mais é do que  outra definição para a palavra “vontade”, que em última análise é o que nos move a enfrentar o medo, matéria prima da mente.

Essa consciência, se for desenvolvida, adquirindo portanto uma identidade, poderá sim, reencarnar. Não é nossa parte espiritual que passaria a ocupar outros corpos no futuro, mas nossa consciência, essa sim uma identidade conquistada pelo mérito de pôr o saber em prática, como uma forma de viver e entender a existência. O espírito nada mais é que um impulso, necessário para fazer oposição à mente puramente animal. Mente e espírito são claramente antagônicos, conforme citei acima, não sendo, portanto, a verdade.

Dentro dessa abordagem, a reencarnação só seria possível se essa consciência for desenvolvida, caso contrário, no momento da morte nada se desprenderia, como uma semente, que por nunca ter germinado, não chegou a nascer no sentido evolutivo.

Como na natureza nada se perde, essa essência retornaria à sua origem, um potencial de vida, sem forma, sem nada! De onde veio esse potencial que não tenha frutificado, para lá voltaria, mas sem uma identidade, já que o potencial de consciência não se oportunizou e a identidade não foi atingida.

É muito cômodo e pouco lógico que todos, independentes ou não de esforço, evoluam em direção ao divino. Em um universo onde o movimento e a impermanência são a verdadeira Lei, como entender a estagnação? Essa recusa precisa de um preço ou reação.

Sei que você, caro leitor(a), poderá perguntar como que as pessoas que moram em lugares miseráveis, tanto materialmente como socialmente e encaixariam nessa ideia? Minha resposta é que mesmo nesses lugares, e a história está repleta de exemplos,  há muitas pessoas que avançam consciencialmente. Sempre com muito esforço, remando contra uma maré muito mais forte que a dos outros lugares privilegiados. Na verdade é mais fácil de desenvolver ali, onde o sofrimento é epidérmico e a busca por compreende-lo, dar-lhe um sentido é quase uma necessidade.

Já, quem tem melhores condições, sofre justamente por uma fácil acomodação e uma crença em um deus “papai” que nunca vai deixar nada acontecer a seu filho, aquela eterna criança. Mas mesmo o conforto não impediu Sidarta de se tornar um Buda nem Francisco de Assis de atingir a santidade e poderia trazer outros exemplos.

Assim, de um jeito ou de outro, sempre sofremos com uma força contrária, que nos empurra para a estagnação (medo), nos desafiando a buscar o outro lado e, finalmente, encontrar o meio termo, esse sim a Verdade, por incluir os opostos.

Conta a história que quando Sidarta Gautama chegou à iluminação, disse ter se lembrado das suas últimas mil vidas, ou seja, depois de ter despertado essa consciência (terceiro fator), esse foi o tempo que precisou para encerrar sua jornada reencarnatória. Da mesma forma poderíamos falar de Cristo, por que não?

Como diz Osho em “Destino, Liberdade e Alma”, o que sabemos de Jesus foi sua última encarnação. Assim como Sidarta, ele deve ter vivido muitas vidas antes do seu clímax. Sei que para os cristãos, Jesus só nasceu essa vez e voltará. Mas se você gosta da ideia da reencarnação, na medida em que vidas seguidas nos levam à evolução, a ideia de Jesus ter vivido vidas anteriores deveria ser óbvia e fazer todo sentido.

O que constato é que mais de dois mil anos se passaram e esse retorno esperado não aconteceu. O planeta está morrendo pela exploração desenfreada e inconsciente de uma humanidade  ainda primária no aspecto evolutivo, como também comentei no texto “Verdadeiramente órfãos”, e Ele ainda não apareceu.

Não virá, por não estar mais ligado a essa etapa evolutiva. Ele se “salvou”, tentou salvar a todos como fizeram outros grandes Mestres da história, sem sucesso. Não há salvação fora da consciência, mesmo que ela esteja estampada na frente da pessoa, ela não poderá reconhecer. Como ela poderá ver algo que não tenha em si?

Vejo o processo como individual, precisamos desse “despertar” para que através do pensamento racional, de uma observação atenta à realidade e práticas pessoais se busque uma nova abordagem que não seja a dos dois impulsos que conhecemos. Estar em um extremos é estar com apenas meia percepção.

Quando se diz que Deus está dentro de cada um, vejo como esse potencial que precisamos  buscar de uma consciência mais desenvolvida que nos faz operar o maior dos milagres;  mudar a realidade  que cada um experiencia sua existência. O mundo nunca muda, só o que pode ser alterado é nossa relação com ele e isso só vem se morrermos para inconsciência e ressuscitarmos mais lúcidos, no “caminho do meio”.

Nossa reencarnação pode não ser garantida, para muito menos o paraíso. Podemos, porque não, abrir o leque de possibilidades para algo que nos motive a ir adiante. Do jeito que pensamos como cristãos ou reencarnacionistas de um jeito ou de outro tudo se resolverá um dia, seja vivendo infinitamente, seja indo morar no “céu”. Esse pensamento acomodado carece de lógica e é no fim das contas muito cômodo.

Como tudo são teorias e sempre serão, fique com mais essa. Nesse primeiro post de 2016 porque não começar o ano pensando diferente?

Sei que ela tem um problema, um desconforto que nos responsabiliza diante da evolução.

Mas vai que essa seja mesmo a certa?