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Ambição e Necessidade

“ Poucos veem o que somos, mas todos veem o que aparentamos”.

                                                    Maquiavel

 

“O homem precisa daquilo que em si há de pior se pretende alcançar o que nele existe de melhor.”

                                                     Nietzsche

“Responsabilidade: um fardo descartável e facilmente transferido para os ombros de Deus, do Destino, da Sina, da Sorte, ou do nosso vizinho.”

                                                     Ambrose Bierce in Dicionário do Diabo

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Maquiavel foi um dos muitos injustiçados da história. Ter seu nome vinculado a atos de maldade e interesses escusos é no mínimo uma constatação de que não foi lido. Seu grande mérito, em meu entender, foi transformar Reis e Príncipes que, em sua época, só prestavam contas a Deus, em políticos. Políticos são pessoas comuns, como eu e você, que querem o poder e, para tanto, fazem o que deve ser feito. E aqui cabe já uma curiosidade: Maquiavel nunca escreveu que “os fins justificam os meios”. Essa frase famosa nada mais é do que uma interpretação ou tradução malfeita. Poucos em tão poucas linhas (seu livro O Príncipe é pequeno) desnudou a natureza humana com tanta precisão e sem afetamentos. Maquiavel nunca falou de um homem idealizado mas do real, que quer atender seus desejos e busca a felicidade pelo caminho que sua capacidade de percepção permite.

Aliás, é nesse ponto que podemos começar: existe mesmo uma “natureza humana”?

Alguns, como Heidegger, dizem que não; que nossa natureza se faz na medida em que vivemos, que somos sempre uma possibilidade muito moldada pelo contexto onde estamos inseridos. Que o fato de vivermos em grandes conglomerados nos empurram para sermos muito parecidos uns com os outros e isso se dá pelos limites de expressão cada vez menores que temos como condição de podermos viver junto a uma grande quantidade de pessoas. Heidegger diz que o homem que vive mais junto a natureza e com menos pessoas a sua volta consegue uma originalidade maior em seu Ser, na medida em que está menos pressionado. Poderemos, para apoiar essa ideia, nos perguntarmos se existe um número menor de doenças emocionais em quem vive em lugares menores em comparação a centros urbanos mais povoados.

Seria lícito observarmos que, à medida que a sociedade se “desenvolve”, cada vez mais aumenta o número de pessoas com doenças ligadas a ansiedade, visto que o cerco está se fechando cada vez mais em termos de expressões individuais. Cada vez precisamos seguir mais um padrão de normalidade, o que negaria a biologia, já que para esse ramo da ciência não existem duas pessoas iguais.

A ansiedade, conhecida como o “mal do século”, é definida como um sentimento de apreensão em relação ao futuro, um medo constante de que algo que tememos venha a acontecer. Aqui poderemos, usando da liberdade, dar mais um passo e dizer que em um nível mais profundo, a ansiedade é o medo de nunca sermos únicos em relação aos demais, da originalidade que nunca se expressa.

Para quem entende que existe uma natureza comum a todos os humanos se apoia na ideia que temos semelhanças entre os homens, e isso só poderá acontecer se houver algo em comum.  Podemos, em tese, sermos tudo que outros seres humanos já foram, colocando até um toque pessoal. Mas mesmo que possamos ser qualquer coisa, não quer dizer, necessariamente, que realmente seremos isso ou aquilo. É como se a ideia de uma natureza comum se baseasse em um potencial que todos temos, mas sabemos que um potencial não quer dizer sua efetiva realização.

Esse é um assunto polêmico que não chegaríamos a uma conclusão, mas Maquiavel faz uma dura assertiva que nos coloca dentro de um padrão comum; que os seres humanos só agem por ambição ou necessidade. Se ele estiver certo, mais do que termos algo em comum, além da constituição física, somos todos prisioneiros.

Quando agimos por necessidade não temos escolha. A necessidade está ligada a sobrevivência e isso tem vários níveis, não só não morrer de fome. Necessidade também está ligada a um desejo que precisa ser atendido rapidamente, sob pena de nos trazer sofrimento. A necessidade não nos dá muitas escolhas e o que muda é a categoria: urgente ou emergência. Assim, não temos muita liberdade e nossas ações são mais reativas, já que estão sendo impulsionadas por uma pressão interna. Agir por necessidade não é um ato livre ou proativo já que é um desejo extremo a ser satisfeito que está na origem do ato.

Já ambição, ah…a ambição! Maquiavel diz que somos todos ambiciosos, e até querer não ter ambição alguma não deixa de ser uma espécie de ambição. Quando quero ser visto, por exemplo,  como alguém “superior”, que é desapegado da materialidade, quase um santo, a ambição de ser admirado e elogiado é o desejo a ser satisfeito.  Aqui também está presente uma necessidade que se ambiciona.  Afinal o homem é um ser desejante, age por desejo, busca realizá-los e é isso que o move na vida. Quando dizemos que não desejamos algo é somente por dois motivos: não entender que aquilo possa fazer-nos mais felizes ou não nos achamos em condições de obter tal desejo. Temos uma forte tendência de dissimular nossas ambições, até como uma condição para que elas possam se realizar um dia. Ambicionar viver longe de todos em uma praia deserta ou em um bosque lindo é simplesmente um desejo de fugir de constatações sobre nós mesmo que, por não serem muito agradáveis, projetamos sobre os outros.

 Ambição é tão institucional em nossa sociedade de consumo que não pega bem em uma entrevista para auxiliar de escritório de uma multinacional dizer que você não almeja ser o CEO no futuro.

Júlio Pompeu, em seu ótimo livro sobre Maquiavel diz com precisão:

“Nossos desejos são ilimitados. Eles não são uma demanda do corpo pelo que lhe falta, mas muito mais do que isso, são demandas por tudo que não possuímos. Se os desejos fossem apenas uma demanda do corpo físico, uma busca pelo que ele necessita para viver, como água, alimento, etc., então a saciedade do corpo seria o limite dos desejos. Mas nosso desejo não tem limites. Eles são a demanda do homem como um todo. De sua inteireza: corpo físico e psíquico. Desejamos não apenas o que falta ao corpo, mas também o que falta ao espírito, como riquezas, prestígio, honrarias, poder, etc.

O corpo físico é saciável, o espírito não. ”

E arremata dizendo que “a ambição é apenas uma valoração cínica ou alienada do desejo.” E nunca podemos esquecer que junto com a ambição nasce a esperança de que ela se realize. Para Maquiavel, essa combinação leva o homem para o abismo, já que ele pode perder a capacidade de avaliar seus riscos.

Assim, ambição e necessidade são como tijolos unidos pelo desejo. Essa para Maquiavel é a nossa natureza comum e isso não deve ser visto como bom ou ruim, simplesmente é assim.

A ambição nos faz maus, já que não queremos ser assim e os desejos nos enfraquecem por não os conseguir, todos.

Ter essa consciência é o que pode mover o homem para evitar que seja arrastado como tantos outros já foram, e são diariamente, por atitudes que os desonram. Se Maquiavel fosse vivo em nossos dias ele seria muito previdente contra essa fúria que pede a execução em praça pública dos corruptos. Ele simplesmente diria que os que desejam a execução sumária nunca tiveram milhões à sua frente para poder recusar.

As ideias de Maquiavel sobre como somos não são o que nosso ego gostaria de ouvir. Mas a atualidade dos seus pensamentos, tantos séculos depois, mostra que poucos foram tão efetivos e objetivos em nos desnudar. Muitos outros, falaram de um tipo de homem idealizado, potencialmente bom, piedoso e com outras qualidades difíceis de encontrar na realidade. Kant com seu imperativo categórico de uma ação universalmente boa e totalmente desinteressada ou Rousseau, com uma certa ingenuidade, quando diz que o que nos torna maus é a sociedade e que é ela que devemos mudar para que nossa natureza piedosa aflore, falam de utopias. Nossa capacidade de fazer o bem é a mesma de fazermos o mal, e isso, para Maquiavel, serão ações sempre tomadas por desejo ou necessidade.

Somente nos aceitando como somos que poderemos ir além ou, apesar de ser como somos, sermos melhores.

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Para saber mais:

Somos todos maquiavélicos – Júlio Pompeu. Editora Objetiva, 2011.

O Príncipe – Maquiavel – obra de domínio público.

Fortuna, a verdadeira Deusa

         “Quando nos faltam os favores da Fortuna, com frequência pelos excessos

               da nossa conduta, culpamos de nossos desastres o sol, a lua, as estrelas;

               como se fossemos patifes por fatalidade, tolos por compulsão celeste, ve-

               lhacos, ladrões, traidores por predomínio esférico; bêbados, mentirosos,

               por forças da obediência a influências planetárias”.

                                                                Shakespeare, Rei Lear, Ato 1, Cena II

                “ Há momentos em que os homens são senhores de seu destino. O erro,

                   meu caro Brutus, não está nas estrelas, mas em nós mesmos”.

                                                                  Shakespeare. Júlio César, Ato 1 Cena II

                                                                                                                                                                    deusa-fortuna

Destino, sorte, azar, carma e “linhas tortas” são alguns dos nomes que usamos para entender a contingência, ou, em outras palavras, os acontecimentos aleatórios da vida a que todos estamos submetidos e para os quais uma explicação lógica nunca é encontrada.

Já disse em artigo anterior que chamamos de “providência divina” tudo aquilo que não encontra abrigo na lógica e na racionalidade. Se pensarmos bem, encontraremos aí uma pista da razão do nascimento e, porque não, da necessidade do homem  criar religiões. Toda superstição busca no final dar um sentido ao inexplicável e nos consolar diante da força do mundo pela nossa situação vulnerável. Pensadores como Freud e Jung, aceitos no ocidente, dizem que precisamos encontrar uma maneira de conviver com essa fragilidade diante de um mundo ou vida, onde estamos irremediavelmente sujeitos a doença, a morte e a perdas de toda ordem, sem que possamos nos proteger. Toda o sistema religioso busca isso: dar um sentido (explicação) e nos consolar diante do que não podemos controlar.

Foram os antigos romanos que melhor conseguiram encontrar uma metafísica para esse dilema quando dentre tantos deuses encontraram a deusa Fortuna. Ela é responsável por tudo que nos acontece, nossa sorte e azar, o que não esperamos seja de bom ou mal é tudo obra Dela. Fortuna é uma deusa mulher, com duas características, uma física e outra de caráter: a física é que é cega e a de caráter é sua inconstância. No seu famoso livro “Consolação da filosofia”, foi assim que ela se definiu a Boécio, para que ele pudesse entender a injustiça da sua condenação à morte, sem nada de errado ter cometido. Ela o fez ver que, junto com esse “azar”, toda sua vida abastada e a possibilidade de ter se tornado alguém muito culto em função da riqueza de sua família, foi também por presente seu.

Assim, essa mulher cega e temperamental distribui sorte a azar sem saber a quem. E é dessa forma que se encontrou uma maneira inteligente para colocar uma explicação para a vida ser assim, tão sem sentido, com absurdos ocorrendo por todos os lados. A sorte e o azar não respeitam o curriculum de ninguém e uma vida correta e ascética (como pedem algumas superstições para chegarmos as recompensas divinas) não garante nada a ninguém. A deusa Fortuna, desconfio eu, além de cega provavelmente também é surda. Só assim que chegaremos a uma consolação diante do caos e do motivo de sempre estarmos “por um fio” a cada minuto da vida, seja para continuar vivo, seja para sermos presentados ou privados sem nenhuma lógica ou motivo.

Sempre estaremos criando estórias de moral, onde bem sempre vence e os malvados são punidos pelas suas ações que só buscam a vantagem ilícita. Compramos os livros, vamos aos cinemas atrás de uma vida em que haja justiça. Mas isso só acontece e tem cada vez mais público porque a realidade não é assim. Nela, o mal se dá bem e vemos injustiças de todos os tipos, todos os dias. Páginas em branco e rolos de filmes virgens aceitam uma utopia que precisamos pensar possível, para nos manter na linha, sem que finalmente nos darmos conta de que pode não haver nenhuma recompensa por boas ações. Foi talvez pensando nisso que Kant nos trouxe seu “Imperativo categórico” onde diz que o bem deve ser feito por si mesmo, sem esperar nenhuma recompensa, seja de Deus, dos outros ou do próprio ego. Ele deve ter percebido que sempre estamos de alguma forma fazendo trocas ou negócios com quem achamos que controla a vida. Que as boas ações estão sempre esperando que a vida nunca nos puna por sermos bons. Mas a deusa Fortuna é temperamental e nada vê e ouve, portando, ela pode dar seus presentes a quem não merece e punir os bons. Essa mulher insana e desprovida de relações com a realidade é, no fim, ao que parece pelo que se observa, quem sempre esteve no comando. Ela não nos vê rezando nem ouve. E agora???

Boécio, quando se deu conta dessa triste realidade, resumiu sua frustração nesse belo poema, possível apenas em quem já desistiu de procurar outra explicação onde a justiça pudesse encontrar abrigo:

                    Quando, orgulhosa, ela muda o curso das coisas

                    E como Euripo tempestuoso ela gira seu fuso,

                    Rebaixa impiedosamente os reis outrora temíveis.

                    Enganosa, mostra a face do vencido arrastada no pó;

                    Não ouve o lamento dos infelizes ou não lhes dá atenção,

                   Até se ri, cruel, dos gemidos que provoca.

                   Assim ela brinca, assim ela dá provas de seu poder

                   E oferece aos seus súditos um grande espetáculo:

                   O de um homem que em uma hora passa da desgraça à glória.

 

 De uma forma menos dramática, Epicuro e Montaigne já nos aconselhavam a vivermos nossa vida sem nos preocuparmos com os Deuses. Suas explicações (já comentadas em artigos anteriores), eram que, por serem perfeitos, com ações perfeitas, os deuses não se manifestavam na imperfeição do nosso mundo, afinal, isso não tinha a ver com a realidade deles.

Entretanto, foi Espinosa que conseguiu encaixar essa Deusa difícil de se entender em um pensamento racional. Para ele, Deus é a própria natureza que é causa única de sua própria ação. Nós, seres finitos, não temos condições de perceber essa realidade como um “todo”, por estarmos pela falta dessa compreensão, isolados desse “todo”, indefesos, arrastados em direções contrárias e por falta de entendimento não somos a “causa” de nossa própria ação. Assim, tudo pode ser “por acidente” causa ou efeito de qualquer coisa. Não entendemos, vemos só uma parte dessa realidade, por isso sofremos.

Todas as superstições que criamos têm o sentido de explicar de alguma forma pouco crível à razão o motivo de vivermos essa nossa angustiante finitude, cercado por forças que não dominamos. Imaginamos, ou temos esperança, que segundo Espinosa equivale ao medo, pelos ritos das superstições (como rezas, oferendas e promessas) conseguir controlar essa insegurança, sem entender que somos arrastados pela nossa própria falta de compreensão.

Porém, Espinosa não se contenta em constatar, ele vai além e define o real motivo das nossas incertezas, pela imprevisibilidade dos caprichos da deusa Fortuna; nossa temporalidade imprevisível, a qualidade dos bens que desejamos onde projetamos a saída dos nossos medos e, por fim, a qualidade dos próprios desejos como a cobiça imoderada de bens incertos ou desejarmos o que não é possível; que nada nos aconteça e que nos faça sofrer. Como ele próprio diz na Ética: “ A potência humana é bastante limitada e infinitamente superada pela potência das causas externas. Assim, não temos um poder absoluto de adaptar para nosso uso as coisas que estão fora de nós…Tudo que podemos desejar resume-se nesses três objetos principais: conhecer as coisas pelas suas causas primeiras, moderar as paixões (desejos) e viver em segurança e com boa saúde”.

Para alcançar os dois primeiros não é tão difícil, já que faz parte da natureza humana, no sentido de ampliarmos nossa compreensão e autodomínio. Já para viver em segurança e com boa saúde, segundo Espinosa, dependemos de causas externas a nosso controle e a isso chamamos de Fortuna, já que ignoramos seus princípios pela nossa finita capacidade, como já dito anteriormente.

Nossa liberdade é não mais “ser parte” da natureza, mas “fazer parte” dela. Compreender a natureza da Fortuna não é render-se a ela, afinal isso não muda nada, mas aceitarmos essa limitação pode fazer da insegurança essencial do humano racional, avesso as superstições, encontrar sua paz pela aceitação de sua situação e passar a usar sua vida de forma ativa e inteligente, buscando sua realização, cônscio de que ela não tem tempo determinado e circunstâncias favoráveis sempre. Mais do que algo que traga medo, os caprichos da Fortuna podem ser vistos como o tempero que traz vibração a vida. Saber escolher como interpretar, como já escrevi várias vezes, é no fim a única liberdade que ninguém pode nos tirar.

Se as mulheres são imprevisíveis na sua subjetividade, o que poderemos esperar de uma deusa caprichosa cega e, pelo visto, também surda a qualquer tipo de pedido? Fortuna continuará distribuindo seus presentes e a tirar o que pensamos nossos como sempre fez e, pelos motivos acima, de nada adianta tentar falar com ela.

Nossa racionalidade servirá para entendermos seus caprichos e nossa impotência de controlar seus desejos sempre inesperados. Por isso, descansemos.

Nossa parte é fazer nossas ações conscientes e esperar seus resultados. Mesmo que a Fortuna possa destruir nossos planos ou nos dar graças inesperadas, nossos objetivos precisam de ação para serem concretizados. Tem tanta gente nesse mundo, que vai que ela não note sua presença. Enquanto isso, toque seus planos e tenha as atitudes para fazê-los acontecer, essa é sua parte e sem essa atitude, você precisará que Ela te encontre e esteja de bom humor. Se fosse você, não contaria.

Tudo termina em um grande paradoxo: por um lado fazemos sim nosso destino com nossas ações ou pela falta delas, mas nada pode ser certo em um processo de vida, já que o que define qualquer vida é sua instabilidade e a deusa fortuna representa o inesperado, para o bom e para o ruim.

Seja o que for para acontecer, o negócio é fazermos nossa parte para encontrar o que queremos e criarmos nossa realidade, como expressão finita da infinitude que tudo cria. Só acontecerá se assim agirmos e isso nos dá, pelo menos, alguma perspectiva.

Fora disso, é contar com os caprichos de uma deusa que não te vê nem ouve.

Sei que é muito mas fácil acreditar que temos um destino já traçado e que tudo faz parte desse plano “divino”, que tudo acabará em paraíso ou inferno. Assumir a responsabilidade sobre o destino é mais difícil, mas é o que se espera do único animal da natureza que pensa e cria.

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Para saber mais:

Consolação da Filosofia – Boécio

Desejo, paixão e ação na ética de Espinosa – Marilena Chaui

Montaigne e a morte

                   “Se eu fosse um fabricante de livros, faria um registro comentado das diversas mortes. Quem ensinasse os homens a morrer, ensiná-los-ia a viver. “

montaigne

Montaigne nasceu em 1533 e morreu em 1592, na França. É presença obrigatória em qualquer coletânea sobre filosofia e sua principal obra são os “Ensaios”, que manteve em constante revisão durante sua vida.

Dos considerados “Clássicos” seus escritos estão entre os mais acessíveis para o leitor. Sua linguagem é simples, direta e sem floreios gramaticais, comuns aqueles que querem fazer da filosofia um assunto somente para os “eleitos”. Montaigne fala sobre uma infinidade de assuntos, até alguns que poderão parecer estranhos para um filósofo famoso. Muitos temas se repetem aqui e ali durante seus textos, já que escreve de forma aberta, como se fosse uma conversa. Foi considerado o criador do gênero “ensaio”, que é uma escrita mais descomprometida com a rigidez, dando mais ênfase ao conteúdo do que a forma (a apresentação da obra). Não vou falar aqui sobre sua vida, mas sobre um dos muitos assuntos que fazem parte dos “Ensaios”: a morte. Se você se interessou em saber mais sobre esse cara simpático, que parece que bate um papo enquanto filosofa, no final tem um link para a primeira parte de um vídeo que fala sobre a sua trajetória. São três vídeos de menos de 10 minutos cada, onde sua vida e escolhas (algumas curiosas) poderão ser conhecidas.

Montaigne trata da morte em alguns textos que fazem parte dos “Ensaios”, principalmente: “Somente depois da morte podemos julgar se fomos felizes ou infelizes em vida”, “De como filosofar é aprender a morrer” e “De como julgar a morte”.

Quando cita Cícero afirma: “Filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Isso, talvez, porque o estudo e a contemplação tiram a alma para fora de nós, separam-na do corpo, o que, em suma, se assemelha à morte e constitui como um aprendizado a vista dela. Ou então é porque de toda sabedoria e inteligência resulta finalmente que aprendemos a não ter receio de morrer”.  O interessante é que ao falar da importância de não termos medo de morrer, Montaigne na verdade fala da importância de viver. Como se, quanto mais você se torna inteligente existencialmente, mais viverá bem. Quem vive uma vida boa, não tem medo de morrer. Difícil é se perceber saindo da vida sem tê-la curtido. É como se fosse convidado a uma grande festa, tivesse pegado no sono e acordasse na hora de ir embora.

A vida sem a morte não teria sentido e tudo que somos e podemos ser deve-se a morte e da nossa duração efêmera. Um tempo médio de 75 anos, por exemplo, nos empurra para ações, buscas e realizações que precisam de pressa para que possamos delas usufruir. Nossa percepção de mundo está ligada a morte como acontecimento inevitável e até esperado a partir da velhice. Não nos assusta a morte de um idoso, mas nos choca e enche de angústia a morte de um jovem ou criança, não pela aparente injustiça de algo assim ocorrer, mas, principalmente, por nos lembrar de que essa falta de regra ou ordem para morte pode nos alijar a qualquer momento dos nossos sonhos e do contato com quem apreciamos estar. Afinal, tudo se baseia na fragilidade da vida, e, ao referir-se a isso Montaigne afirma: “ a instabilidade das coisas humanas que um pormenor basta para mudar inteiramente”. Tudo está sempre por um fio, nada está garantido ou certo. Um pouco de pressa, de lembrar que pode ser hoje o último dia, não fará mal a nenhum de nós.

Assim como Epicuro, que aconselhava a não nos preocuparmos com a morte, Montaigne nos aconselha a desprezá-la, mas nunca esquecendo que ela pode chegar a qualquer momento. Quando afirma: “O remédio do homem vulgar consiste em não pensar na morte. Mas quanta estupidez precisa para tal cegueira”. Desprezá-la para que não tenhamos medo, mas não esquecer que existe.  O bom e sempre saudável “meio termo”. De outro lado, mostra que a morte também tem sua utilidade, já que pode pôr fim a nossos males e sofrimentos, sendo, portanto, positiva e um atributo de Deus.

Ao citar Sêneca, lembra que “nenhum homem é mais frágil que outro e nenhum tem assegurado o dia seguinte”, fica o aviso que nada que possamos fazer ou ter garante-nos mais um dia de vida. Temos aqui, uma visão fatalista, que defende a ideia que temos um dia pré-determinado para morrer, onde nada podemos fazer para impedir. Isso se encaixa bem com o pensamento de Montaigne, que pede que façamos a vida ter valido à pena ser vivida a cada momento.

Também percebe a importância das sensações corporais e do nosso humor na nossa relação com o pensamento, a vida e a morte. Quando diz: “Quando não me sinto bem, as alegrias da vida me parecem menos valiosas, tanto mais quanto não estou em condições de usufruí-las a morte se me afigura menos temível”.

Essa importante reflexão mostra o quanto somos vulneráveis a muitas situações que podem nos fazer até pensar na morte como uma solução, como já dito anteriormente. Na verdade, não gostamos de sofrer, seja física ou emocionalmente; queremos fugir, terminar com o que nos angustia. O pensamento da morte como solução que acompanha o estado depressivo, tão comum em nossa época, já tinha sido percebido pelo filósofo. Montaigne pode ter tido um insight que mais tarde foi trabalhado por Espinosa; que nosso corpo “pensa” tanto quanto o que chamamos consciência, sendo, no fim, tudo uma só coisa. Se o caro leitor tem alguma dúvida, lembre-se da sua última gripe, por exemplo, e veja se com o corpo dolorido, a dor de cabeça e a coriza, dava para ser otimista e ver a vida com alegria…

Montaigne fala da vida como algo “neutro”, ou seja, nem bom nem mal em si. Sua filosofia nos remete a liberdade, a escolha livre de como viver. A liberdade é inseparável da responsabilidade para todo aquele que pensa racionalmente. Sua afirmação é contundente: “A vida em si não é um bem ou um mal. Torna-se bem ou mal segundo o que dela fazeis”.

Pode parecer uma incoerência com a visão fatalista já citada, mas não é. Afinal, podemos depreender que, independente de termos um dia certo para morrer, até esse momento, é nossa liberdade fazer da vida algo bom, que tenha valido à pena!

Essa responsabilidade sempre será um problema para quem acha que sua vida é conduzida por “alguém”. Nesse quesito, Montaigne disparou uma de suas máximas: “O homem não é capaz de criar sequer um verme, mas já inventou milhares de deuses”. É essa facilidade de criar deuses e seus atributos que estão no cerne dessa mania que temos de achar que tudo está traçado. Uma boa ideia para quem pensa que se deixar levar é ter fé.

Pedimos, equivocadamente, mais tempo de vida quando lamentamos os poucos anos disponíveis. Montaigne nos convida a imaginar como seria uma vida sem fim, nos fazendo pensar que tudo perderia a graça e que até nossos sofrimentos jamais acabariam. A morte é, sem dúvida, o tempero da vida e ao que a ela traz brilho; a intensidade das convivências agradáveis, as situações inéditas, ao entendimento do fim de qualquer mal, pela própria brevidade da vida. Saber que algo bom terminará aumenta sua intensidade e se Nietzsche leu os “Ensaios”, poderá ter ali se inspirado para o conceito do “eterno retorno”.

Os filósofos modernos têm por hábito tratar um tipo de literatura denominada de “autoajuda” com certo desdém, enfatizando sua falta de conteúdo e reflexão. Pode ser verdade para algumas e até, posso concordar, para a maioria. Todavia, muitos livros assim chamados são ótimos em meu entender. Se Montaigne estivesse vivo, certamente seus escritos seriam catalogados como uma “auto ajuda” de qualidade. Isso tiraria seu valor filosófico ou reflexivo? A citação que encerra esse texto mostra bem que existem “ajudas” que se forem aceitas e tornarem-se ações de vida são muito úteis:

“Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração ou no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante”.

A importância de Montaigne para a filosofia é inequívoca. Suas reflexões, não só sobre a morte, sobre a riqueza, a maneira de tratar as pessoas, de aceitarmos como somos e tantos outros conceitos são aplicáveis a um grande número de demandas que chegam aos consultórios de psicoterapia. Muitos o consideram o filósofo da “autoestima”, pela sua capacidade de relativizar e mostrar que de reis a plebeus a diferença não é tão grande assim.

Valeu muito para todos nós os anos que ele dedicou a meditar e escrever na torre de seu castelo, olhando para o teto lendo suas frases prediletas e observando a vida, seja em reclusão ou no seu tempo como magistrado. Com sabedoria, nivelou os principais problemas humanos tornando-os o que são; pequenos, diante de todas as possibilidades da vida pode oferecer.

Não há dúvida que a vida de Montaigne valeu a pena ser vivida e seus “Ensaios”, mais de cinco séculos depois são atuais, tendo lugar de destaque em qualquer biblioteca.

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Quer saber mais:

MONTAIGNE, M. Ensaios. Tradução Sergio Milliet. São Paulo: Nova Cultural, 1987, vol 1 (Os Pensadores).

Primeira Parte do vídeo sobre Montaige. Os outros dois estão no mesmo canal no You Tube:

Imagem de Amostra do You Tube

Cinderela

“Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.

 Felizes os aflitos, porque serão consolados.

 Felizes os mansos, porque possuirão a terra.

 Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

 Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia.

 Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.

 Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.

 Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu.

 Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de Mim.

 Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.

                                                                                     Matheus 5, 3-12 Bíblia Pastoral

“ O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de fato só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência”.

                                                                                 Friedrich Nietzsche

“Os poderes estabelecidos tem necessidade de nossas tristezas para fazer de nós escravos”

                                                                                            Gilles Deleuze

cinderela

Essa é a história, resumidamente:

Era uma vez uma família feliz! Papai, mamãe e a filha viviam felizes em um lugar maravilhoso, onde, parece, apenas dias de sol aconteciam, nunca chovia ou fazia frio. A menina era adorada pelos serviçais e até, diziam, conversava com os animais. Obviamente, todos eram lindos, com olhos azuis e tudo mais.

Um dia a mãe de Cinderela adoece e, antes de morrer pede para filha que, aconteça o que acontecer, que ela nunca deve deixar de ser gentil. Claro que ela morre e o pai que era uma espécie de caixeiro viajante, em uma de suas andanças comerciais, conheceu uma viúva que tinha duas filhas. Como alguém deveria ser feio (fora os serviçais) as duas filhas eram feias e egoístas. A mãe até que tinha lá seus encantos, afinal até o mal precisa de alguma beleza, vez por outra.

O Pai então decide casar-se com a dita viúva e a leva, com as filhas, para morar junto dele e da filha, que agora está crescida e deslumbrantemente linda. Mas, como a nova esposa e suas filhas aumentam o custo, o pai sai em viagens mais frequentes e, em uma delas, contrai uma doença e morre. Ao saber da morte do seu segundo esposo, a agora madrasta de Cinderela põe as manguinhas de fora e assume de vez o comando. Coloca a menina sempre sorridente e gentil para dormir no sótão, um lugar sujo, escuro e com ratos (isso não é problema, afinal ela conversa com eles, não esqueça!), passando para suas filhas invejosas e cruéis o quarto que era de Cinderela.

O tempo passa e, como o dinheiro parou de entrar com a morte do pai, a terrível madrasta dispensa os empregados e adivinhem quem assumiu todas as tarefas da casa, trabalhando de manhã a noite, sem descanso?

Isso mesmo, a sorridente e gentil Cinderela!

Mesmo as agruras do trabalho doméstico não a desanimam e ela continua sempre gentil (ela prometeu) e cada vez mais bonita, mesmo dormindo pouco, alimentando-se com sobras e estar sempre com a roupa suja e, levemente escabelada.

Um dia, cansada de tanta humilhação, mas deixando o almoço na mesa, ela pega um cavalo e sai pelo bosque, agora sim chorando, mas sorrindo ao mesmo tempo. Nesse exato instante o “destino” faz com que ela se encontre com um príncipe que, obviamente, fica encantado com tamanha beleza e pureza. Mas ela volta aos afazeres e nosso príncipe não consegue parar de pensar nela e, para encontrá-la, promove uma festa/baile, onde, por estar com o pai adoentado e a beira da morte, encontrará, dentre as presentes sua futura esposa e rainha.

Já naquela época não era fácil um casamento com um “partidão” rico, bondoso, bonito e justo acima de tudo. Todas as mulheres do reino começam os preparativos e ajustes para o grande dia, assim como a madrasta que manda fazer belos vestidos para suas filhas.

Cinderela (dependendo da versão não sabe que o rapaz é príncipe), sonha em ir ao baile. Costura um vestido antigo de sua falecida mãe e quando desce as escadas, deixa as suas “irmãs” no chinelo de tão deslumbrante que estava. A Madrasta não admitirá essa concorrência e rasga o vestido de Cinderela e a deixa em casa, proibindo-a de ir ao baile.

Tanto sofrimento e injustiça…..

Cinderela confidencia sua dor aos animais do jardim (um ganso, duas lagartixas, dentre outros), se perguntando o motivo de passar por isso. Daqui a pouco, surge uma fada que transforma uma abóbora em carruagem, o ganso em cocheiro e as lagartixas em lacaios, além, é claro, de dar para Cinderela um vestido maravilhoso e sapatos de cristal. Como as mulheres não mudaram, o que mais encanta Cinderela são os sapatos. Avisa que ela deve sair do baile à meia noite quando o feitiço se desfará.

Claro que você já sabe o resto: Ela chega no baile, é disparado a mais bonita, o príncipe fica extasiado rejeitando uma princesa de um reino vizinho que era a melhor indicação política para ele e dança só com ela a noite toda. Esqueci: Cinderela dança maravilhosamente bem, mesmo sendo esse seu primeiro baile na vida.

Daí, o sino começa as doze badalas, ela sai correndo e perde um sapato (dizem que foi de propósito para ter motivas para voltar). A Madrasta desconfia dela e a prende no sótão, onde para espantar a dor ela canta, com sua também bela voz.

Daí o príncipe sai de sapatinho na mão de casa em casa e a de Cinderela é a última do reino. Todas experimentaram e o sapato não coube em nenhuma. Nesse ponto a história tem um problema, pois tudo se desfez a meia noite, até o vestido, mas os sapatos não…

Deixando de lado esse pequeno detalhe, quando ia desistir, os animais do sótão se juntam para abrir a janela, coisa que Cinderela não pensou em fazer para pedir socorro, ela só cantava….

O príncipe ouviu aquela voz meiga, suave e encantadora, colocou o sapato no pé, viu que serviu e finalmente achou sua esposa. Antes de deixar a casa e ir para o palácio, Cinderela olha com doçura para sua madrasta e a perdoa, de coração.

Claro que viveram felizes para sempre, tiveram muitos filhos e nunca brigaram.

O Livro ou filme termina, você seca as lágrimas e diz: No fim, o bem sempre vence!

 

Claro que não é assim na vida real.

A verdadeira mensagem dessa história não é a vitória do bem sobre o mal. A mensagem é outra:

Aceite a exploração com um sorriso, trate bem quem te subjuga e aceite o sofrimento com gentileza. Um dia, tudo será recompensado!

Não sei…

 Histórias como essa existem para transmitir para nosso inconsciente essa ideia de que o que é bom fica para o final, ou quem sabe, depois do final em uma outra vida ou paraíso. Essa mensagem é obra que quem explora, afinal a riqueza acumulada vive sempre de muitos e muitos pobres.

Vamos passando essa mensagem subliminar de geração em geração e o sofrimento que nos é imposto, em uma vida sem graça e sem atrativos para a esmagadora maioria é aceita com alegria, afinal, o céu será a recompensa de tanto sofrimento e abstinências.

Estarão lá todos os sofredores e explorados, além dos camelos que vão ocupar o lugar dos ricos, passando pelo buraco da agulha, lembram?

Nossa cultura, faz do divertimento algo supérfluo.  A “boa” conduta é abrir mão de tudo que a vida tem de melhor em nome dessa purificação ou passaporte para o sonho de Marx, que só existe no “outro mundo”: uma sociedade onde somos todos iguais, desfrutamos os bens do paraíso em igualdade, não precisamos nos preocupar com comida, dinheiro ou moradia, não faz frio nem calor (temperaturas altas só no inferno), trabalho para todos(se houver) e não teremos mais dor ou velhice, já que espíritos não tem corpo. É ou não é a utopia comunista?

O grande problema é que essa outra vida ou paraíso “all inclusive” não tem garantia de que realmente exista e que será desse jeito. Terminamos abrindo mão de um outro conselho da cultura popular que diz: “Não troque o certo pelo duvidoso”.

Todo sistema de moral vigente, com suas proibições e definições de certo, errado e pecado tem uma só finalidade: tornar iguais pessoas diferentes. Essa diferença ou individualidade comprovada pela biologia não pode ser expressa em termos de vida na medida em que pessoas essencialmente diferentes precisam apresentar comportamentos iguais. Isso, é claro, facilita o controle, com o estabelecimento das diversas penalizações para quem sai ou desobedece em busca de viver essa singularidade: A lei, a punição divina ou a fofoca como meio de controle social.

O único mecanismo de escape socialmente aceito é a expressão artística ou comportamental. Mas como o sistema é sábio, mesmo os “transgressores” são engolidos. Isso acontece quando esse padrão comportamental rebelde vira moda e para isso se criam roupas, músicas e acessórios que, ao serem comercializados, trazem ganhos financeiros para seus idealizadores. Assim, tudo vira moda, que, por ser moda, seja usada por todos como outra maneira de tirar proveito até da crítica.

O termo felicidade é muito subjetivo, como tudo que se refere a pessoas diferentes. Assim, ao existir um padrão do que seja “ser feliz”, anulamos a possibilidade de cada um encontrar a sua, para buscar o que é reconhecido por todos. O modelo de perfeição que a religião institucionalizou nada mais é do que oferecer um padrão único do que será aceito no futuro mundo ou reino. Está aí, anulada, toda a possibilidade da diferença ser aceita como forma de expressão. Sobra só a busca pela saída do exagero, por símbolos de poder (diferenciação) ou pela química que relaxa o espírito e o corpo da pressão de sua anulação.

Essa espécie de ascetismo pregado como sendo a conduta do santo, só pode existir se nos sentimos culpados pelo jeito que somos e a privação da vida vivida plenamente vira a purificação devida. Somos um corpo com todas as suas possibilidades e negá-lo também é negar a própria vida. Em nome de quê?

Essa vida aqui é certa, comprovável e tem muitas coisas para nos alegrar. É feita de encontros, desencontros e a eterna novidade de sermos seres mutantes, outra particularidade que define tudo que é vivo. Aqui também se celebra, compartilha e dá para se divertir muito, até com bem pouco dessa coisa que nos ensinaram suja (nunca esqueça: lave suas mãos se mexeu com ele) que nos impede de acessar o paraíso: dinheiro!

Cinderela não é parâmetro, já que sua beleza não é comum e não temos muito príncipes solteiros muito menos muitas fadas disponíveis. A nossa heroína com sangue de barata, meio “boca mole” tirou em uma mega sena sem comprar bilhete. Se deixou oprimir, explorar e humilhar e foi salva pela única coisa realmente dela: sua beleza. Mesmo a própria história, não conseguiu anular algo de individual.

O que existe, infelizmente, são muitas e muitas vidas (maioria) que começam e terminam mal. Olhe em volta e veja o que o sofrimento, a penúria e a miséria trazem? Só mais do mesmo. Mas essa passividade só existe pela recompensa, pelo sofrimento trazer algo de bom. Será no paraíso que os anulados e oprimidos se vingarão, lá eles serão reconhecidos e os ricos e exploradores sofrerão para sempre. Será?

Não faça desse tipo de história algo que te console, mas que, de preferência, leve a uma saudável e inteligente revolta, à desobediência dessa vida de contrição, tristeza e sofrimento. Pode comer mais uma fatia de bolo, sentir raiva é humano, pensar em sexo é normal nesse corpo que habitamos, etc. Qual o problema?

Todas essas histórias e livros sagrados foram escritos por gente como eu e você, movidos por desejos de poder e expectativas. Olhe em volta e veja como todos têm problemas, sejam ricos ou pobres. Viver é assim, uma eterna novidade e surpresa.

A vida é como na sua rua, cidade e país. Maldades e coisas legais acontecem a todo momento e é isso que temos. Se teremos outra vida, algum paraíso ou inferno só saberemos(?) depois. O que é real é seu dia de hoje, família, trabalho, amigos, amores e, é claro, problemas.

Não se deixe mais enganar com promessas de reinos futuros e cuide em como vai contar essa história para alguma criança. Diga simplesmente para ela no final:

-Deu sorte essa Cinderela, mas se acontecer com você de ser explorado, não aceite, não permita que anulem sua individualidade! Não conte com nenhuma ajuda acima de suas forças.

As fadas pararam de fazer milagres faz tempo. Uma vida boa é responsabilidade só sua, de mais ninguém!

 

A Receita de Epicuro (2a parte)

“Tu, que não és senhor do teu amanhã, não adies o momento de gozar o prazer possível! Consumimos nossa vida a esperar e morremos empenhados nessa espera do prazer”.

                                                                                                                 Epicuro

Epicuro

Epicuro é um daqueles filósofos que precisa de justiça. Não é difícil perceber que uma leitura apressada de suas ideias pudesse, inevitavelmente, trazer-lhe a fama de hedonista no pior sentido. Porém, seus ensinamentos aparentemente simples trazem uma grande subjetividade impressa na sua “farmácia” para alma nos seus quatro princípios do tetrapharmakon, que discutiremos a seguir.

Epicuro percebeu que nossos sofrimentos são, na maioria das vezes, uma expectativa ou pré-ocupação da mente que sempre nos mostra os piores quadros no horizonte. Parecido com Sêneca, sua ética buscava ensinar a evitar ou suportar a dor, o medo e o sofrimento que estão sempre à espreita. Dedicou seu pensamento procurando entender justamente desse temor que nos caracteriza, baseado em esperarmos sempre o pior, além, obviamente, do medo provocado pelo mistério da morte.

Ao definir felicidade (eudaimonia) como a ausência de sofrimento físico e perturbações da alma, Epicuro está longe de relacionar seu conceito de felicidade com alguma coisa que se aproxime do que conhecemos por êxtase ou euforia. Sua recomendação de que o autoconhecimento, no que se refere ao entendimento sobre nossa natureza, como funcionam os desejos e o que são realmente os prazeres, mostra que a filosofia enquanto reflexão sobre o ser humano nos explica porque acumulou durante séculos o trabalho que hoje está nos domínios da psicologia.

E, talvez pela psicologia ter virado uma ciência (formando padrões, querendo que só um jeito seja certo ou saudável), tenha criado a oportunidade da filosofia voltar a fazer parte das opções sobre a escolha de caminhos para mudanças ou entendimento sobre os sofrimentos, com sua nova roupagem de clínica.

Dessa forma, seja pelo exposto acima, seja pelo entendimento e vivência na vida prática dos seus quatro remédios, o homem veria seus problemas tornarem-se de fato o que eram, ou seja, nada além de pseudoproblemas, diante da ótica que Epicuro oferece.

Sua tetrapharmakon, ou seus quatro remédios são:

  • Não há nada a temer quanto aos deuses (ou, os deuses não devem ser temidos).

Aqui, passamos a entender o motivo de Epicursismo ter perdido força na idade média, com o fortalecimento do cristianismo, que prega o contrário. Passamos a ter um deus a quem devemos prestar contas e que pode nos punir durante se não seguimos seus mandamentos que enviou pelo seu representante na ocasião.

Você já pensou o que mudaria na sua vida, se soubesse que não tem um deus te vigiando?

A vida é aqui, vivida por humanos! Essa ideia de que exista algum deus, que nos cuida, pune e diz (?) o que devemos fazer para sermos bons e merecermos o paraíso, mais do que uma maneira de controle e dominação, mantém o homem em um estado de infantilidade, onde o pai humano, quando descoberto em sua limitação e fraqueza, precisa ser substituído por outro, onipotente e perfeito. Por trás, está a informação de não somos capazes de nada por nós, o bom que nos ocorre é sempre uma “graça”, que nos foi concedida pela benevolência divina. Se, quando estamos bem dizemos que isso é “graças a Deus”, imagino que quando estamos mal também tenha a mesma razão. Ou é ou não é!

Epicuro aqui, nos chama a responsabilidade de forma suave, para quem percebesse as entrelinhas, não foi tão direto quanto Nietzsche que, para não se deter em delongas, já matou deus de uma vez.  Epicuro admitia a existência dos deuses, mas dizia que eles viviam em um mundo distante, separado do mundo dos homens e que não deveríamos teme-los, já que isso dificultaria ou impediria a felicidade. Parecia prever os mandamentos que viriam logo depois.  Condutas que as várias religiões criaram que, se forem seguidas, tornar a vida sofrida, cheia de culpa, pela purificação como uma pré-condição de acesso a um paraíso futuro, quase como descrito por Marx; todos juntos, iguais, sem poder ser diferente em nada, sem meritocracia, eterno, etc. A vida pregada pelas religiões é de abstenção, contrição e penalizações constantes. Dizer que os deuses moram longe e que não se importam muito conosco, assim como nós que nos importamos pouco pelo mundo das formigas, foi politicamente correto e muito bem-humorado.

  • Não há necessidade de temer a morte (ou, a morte não deve causar apreensão).

A máxima atribuída a Epicuro “ Não devemos temer a morte, pois quando estou ela não está, e quando ela estiver eu não estarei mais”, mostra o motivo de sua filosofia estar atrelada aos sentidos. Afinal, ter medo da morte nada mais é do que outra falsa fonte de preocupações. Se tudo que existe é corpóreo e todas as dores são corpóreas, não temos que nos preocupar com a morte, que nos coloca em uma situação em que nosso corpo não reage, se deteriora, não nos possibilitando sentir prazer ou dor.

Racionalmente Epicuro está correto, mas falta-lhe aqui o que todas as pessoas buscam em uma religião: que tenha uma boa resposta para o mistério da morte, ou seja, o que vem depois e sua justificativa. Óbvio que o filósofo não tinha o interesse de criar uma religião, mas diante da insegurança, mesmo as pessoas mais inteligentes tendem a procurar uma “mão forte” ou algum consolo que lhe ofereça uma lógica mínima; que ofereça um “depois” para essa vida finita. O segundo remédio para ser aceito precisa dessa entrega diante do “não saber”. Precisaremos morrer para sabermos, mas os estados da mente sempre pedem segurança e alguma resposta. Introjetar o conceito, por outro lado, trará como consequência um aumento da responsabilidade de aceitar essa vida como única e buscar a eudaimonia para fazê-la valer à pena.

Epicuro percebeu claramente que precisamos viver bem aqui, o resto são especulações e, como diz o ditado popular: “Não se troca o certo pelo duvidoso”.

  • A felicidade é possível (ou, o bem é facilmente obtido)

Para Epicuro, a eudaimonia engloba em conceito maior do que simplesmente felicidade, já que inclui o desenvolvimento pessoal e a possibilidade de crescimento e progresso da alma e das virtudes. O conceito epicurista é também ético, já que para os antigos gregos isso incluía o respeito ao cultivo e uso das virtudes para caminhar rumo ao bem comum. Mas a grande percepção que teve foi a ligação do conceito de felicidade aos desejos.

Ora, desejar tem em si duas importantes questões a serem analisadas: o primeiro ponto é que só podemos desejar aquilo que não temos, e o segundo é o projetivo, afinal se desejo algo é por imaginar que esse algo me fará feliz, ou me trará alegria, ou diminuirá minha eventual dor ou insatisfação.

A partir do momento que passo a ter o objeto de desejo, imediatamente paro de deseja-lo e isso me fará em pouco tempo, buscar um novo desejo e assim indefinidamente. A classificação que Epicuro fez dos desejos traz um importante ensinamento, já que o que considera “natural e necessário” nada mais é do que o mínimo para a sobrevivência, como nutrição, sono proteção e abrigo.

Já os desejos ditos “naturais” são coisas simples, pequenas variações dos prazeres, busca do agradável, como simplesmente comer um pouco a mais. Fica claro que para Epicuro, ser feliz é estar em paz, sem as perturbações do espírito (ataraxia) e a ausência de dor corporal (aponia).

Quando classifica riqueza, glória, status e reconhecimento como desejos “frívolos e artificiais”, antecipa quase como um vidente nossa sociedade contemporânea, onde a mídia ensina que para ser atingida a felicidade torna-se necessário que os desejos frívolos e artificiais sejam obtidos, o que impulsiona o ciclo dos desejos para o infinito.

Oferece uma constatação que, apesar de óbvia, motiva a busca espiritual das pessoas que se filiam religiões institucionais. A imortalidade é considerada um desejo “frívolo e irrealizável”, justamente por não ser possível. Particularmente, gosto da visão estoica, onde a imortalidade é a nova estruturação dos nossos átomos depois da morte. Poderemos “reencarnar” em uma planta ou relva que nascerá do adubamento da terra pelos nossos restos mortais. A verdadeira e possível eternidade é o que deixamos no mundo, nas nossas relações. O homem não aceita morrer e desaparecer. Essa angústia parece não ter fim e  o que existe depois da morte nunca nos será permitido saber. Cada um escolhe a teoria que mais o conforta.

  • Podemos escapar da dor (ou, o terrível facilmente chegará ao fim).

          No seu quarto remédio, Epicuro nos fala de um conceito, em meu entender, importantíssimo, que é a impermanência. É fundamental entender que existe uma alternância entre bem e mal, e que um só é possível pela existência do outro. Quando essa alternância não ocorre, aquele que persiste se torna padrão. Em outras palavras: bons e maus momentos são normais e se alternam. Quando se está sempre mal, o problema é da pessoa, não da vida em si, e isso também vale para o bem estar prolongado.

             Assim, Epicuro mostra que tudo se alterna em ciclos naturais e que dentro do bem está potencialmente a existência do mal e vice-versa, como também disse Lao Tsé. Um só é possível pelo outro e os dois explicam a vida. Aqui, temos o encontro com Heráclito (sobre quem falei mais no livro “61824 palavras sobre o final feliz que ninguém achou”), a quem Aristóteles chamava de “estranho”. Se, para o pai da lógica “A” é uma coisa e “B” é outra, Heráclito dizia que “A” e “B” são manifestações de uma coisa única. Epicuro teve essa mesma compreensão e sua recomendação é nunca esquecer que bem e mal são como ondas que vem e vão. A compreensão profunda desse conceito é ataraxia, ou seja, elimina as perturbações da alma.

Assim, a filosofia de Epicuro é de grande importância, já que seus remédios são claros, racionais e, se bem compreendidos, trarão uma visão clara do que nos perturba e, por perturbar, precisam de um novo olhar que ele oferece para a diminuição e compreensão do sofrimento.

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Para saber mais:

GHIRALDELLI JUNIOR, P. Helenismo e o início da filosofia cristã. In:____. A aventura da filosofia de Parmênides a Nietzsche. Barueri: Manole, 2010.

 

OSHO. A Harmonia oculta. Discursos sobre os fragmentos de Heráclito. Cultrix, 2004.

 

POLESI, R. Era Helênica: epicurismo e estoicismo. In:_______. Ética antiga e medieval. Curitiba: Intersaberes 2014.